Mostrando postagens com marcador Druidismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Druidismo. Mostrar todas as postagens

11 de julho de 2016

MACHA, deusa da Soberania e protetora das mulheres


Macha é a Deusa celta da soberania, do poder feminino, da força da Terra... Está relacionada à fertilidade, ao ciclo da vida-morte-vida e seu animal sagrado é o Cavalo.

Uma de suas histórias conta que havia um chefe tribal da região de Ulster (norte da Irlanda), Crunniuc, que era viúvo e há muito tempo estava triste e sem vontade de viver... Um belo dia chegou à sua casa uma mulher forasteira, muito bonita, bem vestida e com aura de nobreza. Sem dizer quase nada ela entrou em sua casa (e em sua vida), colocou ordem nos aposentos, nos serviçais e trouxe harmonia para o seu lar... Essa estranha e fascinante mulher conquistou o coração de Crunniuc e ele voltou a sentir alegria em viver. Ela correspondia o seu amor e não lhe pedia nada em troca, apenas que a honrasse e que guardasse segredo sobre sua verdadeira natureza (que ela era uma mulher dos Sídhe, do Outro Mundo). E ele concordou feliz.

Tempos se passaram e eles viviam contentes e em paz, mas algumas pessoas da vila sentiam um estranhamento ou medo diante daquela estranha mulher... Embora ela sempre tratasse todos bem e fosse gentil, ninguém sabia de onde ela vinha, como havia chegado ali, ou mesmo o seu verdadeiro nome... Boatos dos mais estranhos circulavam... Bruxa, feiticeira, fada, rainha...? Ninguém sabia quem ela era, mas ainda assim mantinham certo respeito à mulher.

Com o tempo, um fruto do amor foi gerado, a mulher estava grávida e logo daria à luz. Era também época de um grande festival, quando várias tribos e clãs do Ulster se reuniam para celebrar, fazer acordos, feiras, competições, entre as quais a mais esperada era a corrida de cavalos! Crunniuc não podia deixar de ir, como um chefe ele tinha que estar presente. Antes de partir, a mulher aconselhou que não exagerasse na bebida, pois temia que ele dissesse coisas que não deveria... Com um beijo e uma benção eles se despediram.
Tão logo ele partiu e a mulher começou a sentir as primeiras dores do trabalho de parto, e se recolheu em sua casa para ter a criança...

Crunniuc se divertia no festival, conversava, bebia, e bebia bastante... esquecendo-se do conselho de sua mulher. No auge do festival se deu a corrida de cavalos. Todos se aglomeraram eufóricos para ver os melhores cavalos e os melhores cavaleiros disputarem. O cavalo do Rei e seu cavaleiro eram os mais fortes e muitos apostavam que eles iriam vencer, mas Crunniuc que não se conteve lançou uma arriscada aposta... Falou para todos ouvirem... “Eu aposto que minha mulher corre mais do que qualquer cavalo de toda a terra de Ériu! Mais até do que o cavalo do próprio rei!”.
Todos silenciaram diante daquela aposta que era quase uma afronta ao rei... Este então disse... “Prove então! Traga sua mulher para correr com os cavalos e veremos! Cumpra o que diz, se não pagará com a vida pela afronta a mim dirigida.”

Prontamente, servos do rei partiram em disparada para a casa de Crunniuc buscar sua mulher. Quando a encontraram e lhe explicaram o que havia acontecido, ela suplicou aos homens: “Por favor, tenham piedade... Estou com muitas dores e minha criança logo irá nascer”. Mas eles insistiram dizendo que se ela não fosse seu marido iria morrer. Contrariada ela foi... Ao chegar lá a mulher foi colocada diante do rei e novamente suplicou: “Por favor, tenha piedade... Como vê estou prestes a ter minha criança... sinto muitas dores, não tenho condição de correr agora. Mas lhe dou minha palavra que depois que me recuperar do parto cumpro o que lhe foi prometido”. O rei recusou e a obrigou a correr, se quisesse salvar seu marido. Recorreu uma última vez aos homens, mulheres e crianças que assistiam o evento: “Por favor, eu peço piedade... Lembrem-se que todos vocês vieram de uma mãe que passaram pelo que estou passando agora... Deixem-me ter minha criança em paz, eu suplico!”, ela falou enquanto chorava e sentia cada vez mais forte as dores do parto. Mas ninguém atendeu seu pedido...
Sem saída, a mulher foi obrigada a correr com os cavalos. O rei deu a largada e todos saíram em disparada! A mulher, mesmo em desvantagem e cansada, correu, correu e correu o mais rápido que podia! E para o espanto de todos ela venceu!

No alto de uma colina e rodeada pelos cavalos, a mulher quase sem forças deu o grito que trouxe seus filhos gêmeos ao mundo! O grito pôde ser escutado por toda a ilha... As pessoas que ali estavam ficaram assustadas e fascinadas pela força daquela mulher. Enquanto a observavam em espanto, a mulher levantou-se com os bebês no colo e disse à todos: “Pela desonra que me fizeram sofrer, deste dia em diante durante cinco dias e cinco noites por nove gerações, eu condeno todos os homens do Ulster no momento em que mais precisarem de suas forças a sentirem as dores do meu parto!”

Em meio a multidão assustada um homem perguntou: “Quem é você mulher?”. E ela respondeu: “Eu Sou Macha! E para sempre esse lugar terá o meu nome!”
E assim aquela colina foi chamada desde então “Emain Macha” (Os gêmeos de Macha).

Após dizer aquelas palavras a Mulher desapareceu e nunca mais foi vista... Crunniuc caiu em profundo arrependimento e desgraça, e todas as pessoas ali jamais se esqueceram daquela mulher.


Sinto que Macha está muito próxima de nós... Em tempos em que a mulher ainda sofre violência de todo o tipo e onde o Feminino vem sendo desvalorizado, Ela vêm à nós (homens e mulheres) para nos lembrar de onde todos nós viemos: de um Ventre. E que devemos honrar esse sagrado ventre, respeitar o milagre da vida e a força da Terra. Às todas as mulheres, em especial aquelas que um dia foram humilhadas ou agredidas, Macha vêm para nos lembrar de nossa verdadeira natureza: que somos divinas, que somos Deusas!

Macha chama por todas nós! Nos acolhe em seu abraço de Mãe, cura nossas feridas, nos nutre e fortalece. Macha chama por todos os homens para que despertem de sua ignorância, que relembrem sua memória antiga e honrem novamente o Ventre de onde vieram!

Sláinte Macha!!!

/|\




(Mito de Macha recontado por Mayra Darona Ní Brighid).

16 de dezembro de 2015

Espiritualidade feminina, ecologia e coletor menstrual.

(texto publicado primeiramente no site aterrasagrada.blogspot.com)




Tem quase um ano que comecei a usar o “Copo da Lua”, como gosto de chamar o meu coletor menstrual, e desde então só tenho tido experiências maravilhosas com ele! Resolvi escrever um texto falando um pouco sobre isso, ainda mais porque li recentemente algumas dúvidas de meninas no Facebook. Então bora lá...

Primeira coisa, ao ler esse texto desprenda-se de qualquer preconceito e abandone pensamentos como “ah que nojo...”, “ah credo...”, “ah isso”, “ah aquilo...”, ok? Estamos falando de nossos corpos e tudo o que ele abrange, e dentro da Espiritualidade Feminina o nosso corpo é sagrado! O corpo feminino, sobretudo, já passou tempo demais sendo objetificado e desvalorizado em todos os aspectos. Tá na hora de reconhecermos o poder que ele tem e a força de nossos ciclos sagrados, ok mulherada?! (e macharada também, bora mudar esse comportamento/paradigma aê!).

Bom, antes de eu começar a usar o Copo da Lua eu já o tinha em casa, quero dizer, já tinha comprado ele fazia uns anos, mas nunca tinha conseguido usar, então ficava lá, guardado na minha gaveta... mas nunca esquecido. Até que nos últimos anos, meus estudos sobre a Espiritualidade Feminina e o Ecofeminismo começaram a se intensificar. Aí pensei, “hum... acho que tá na hora d’eu tomar vergonha na cara e aprender a usar esse coletor”. Então, comecei a participar de grupos no Facebook que tratavam sobre o assunto (coletores menstruais) e a conversar com amigas minhas que já usavam. Foi quando pude esclarecer um monte de dúvidas que ainda tinha sobre como usar o Copo da Lua.

Que ele é muito mais ecológico que os absorventes descartáveis, eu já sabia (pois o coletor é reutilizável e o absorvente não né? Sem falar que este último possui um monte de substâncias químicas, e ao ser descartado no lixo, ou seja, na natureza, vai provocar um dano terrível ao planeta... ainda mais em grandes quantidades; imaginem quantos absorventes vão parar no lixo todo dia, no mundo todo?!!). E que ele é muito mais higiênico que os ditos absorventes, eu também sabia (pára pra pensar, o absorvente fica ali, horas abafando a sua Yoni*, o sangue coagulando e proporcionando inclusive a proliferação de fungos, porque a Yoni fica abafada, e fungo adora uma umidade e um calor...).

Enfim, a minha dificuldade era colocar o coletor lá dentro...
E isso tinha a ver (hoje eu entendo) muito mais com a minha relação com meu próprio corpo do que se o coletor prestava mesmo ou não.
Bem, nesse quase um ano de uso do Copo da Lua eu vou mencionar alguns aspectos positivos (os negativos são muito poucos, e para mim, são praticamente nulos) das experiências que venho tendo com ele ok? Sempre relacionando com a Espiritualidade Feminina, afinal, é do que mais se trata esse site! ;)

Sobre as experiências boas (diga-se, maravilhosas!) de se usar o coletor...

1. Eu colocaria como primeira, a mudança na relação que a gente tem com nosso próprio corpo. Ou seja, você começa a se olhar diferente, a se conhecer. Como falei antes, o corpo feminino ao longo dos últimos séculos foi sobrecarregado de tabus e proibições que só prejudicaram as mulheres. Nós não conhecemos nossos corpos, algumas (muitas) mulheres ainda têm nojo de seu próprio corpo, de sua yoni, de seu sangue, etc. É muito difícil ainda para a grande maioria das mulheres ter uma relação saudável com sua própria menstruação ou conseguir sentir prazer numa relação sexual... Porque por muito tempo, a mulher foi subjugada e condenada ao status de pecadora, e à ela só cabe sentir dor, não prazer. E isso é um absurdo! A mulher tem um órgão em seu corpo cuja função é unicamente proporcionar prazer a ela (estudos científicos recentes estão comprovando isso), e esse órgão é o clitóris. Mas muitas de nós sequer sabe o que é o clitóris... Fomos ensinadas a ser recatadas, a ver o sexo ou o desejo como pecado, e isso demora a ser desconstruído na psique de uma mulher... Demora mesmo, é um processo.

Pois enfim, voltando ao foco, quando usamos o Copo da Lua inevitavelmente entramos em contato com nossos corpos, com nossa yoni. Temos que tocá-la, saber onde ficam os grandes e pequenos lábios, a entrada da yoni etc. Ao contrário de usar absorvente que você apenas coloca na calcinha e depois tira e joga fora, sem mal olhar para o sangue que flui do seu ventre e muito menos para o seu órgão.

2. Segunda coisa legal de usar o coletor, você vê o seu sangue! E ele não fede (como acontece quando usamos absorventes, porque eles abafam ali a região, lembra?). Quando se tem uma compreensão diferente ou, melhor dizendo, sagrada com nosso sangue menstrual você o olha com outros olhos... Na Espiritualidade Feminina o sangue menstrual representa tudo aquilo que seu útero está limpando de seu corpo e da sua vida. Toda energia acumulada, estagnada ou em desarmonia que esteja em seu Ser durante o último ciclo, é eliminada de seu corpo. Vemos o sangue então, não como algo sujo ou impuro, mas como um fluxo sagrado de transformação. Ele está te limpando para que um novo ciclo possa começar. Todos os meses as mulheres vivem um ciclo de vida-morte-vida... Saber reconhecer a força desse momento é o primeiro passo para honrar-se como mulher sagrada que você é.  E a cor vermelha?! Ah... Aquele vermelho vivo, intenso... É a cor da Vida!

3. Terceira coisa legal, você pode ficar até 12 horas com o coletor dentro de você! E então, é só lavar com sabão neutro, lavar sua Yoni e colocar de novo. Você pode tirar o coletor para limpar a cada 8 horas ou quando achar necessário, mas não recomendo que passe de 12 horas direto, porque aí sim o sangue (e o coletor) pode ficar com um cheiro ruim. Além disso, não vaza! Quem usou absorvente sabe como é uma chatice quando vaza sangue na calcinha né? Pois é, o coletor não deixa vazar nada! Só vaza se foi mal colocado (e para saber isso só você vai dizer, vai sentir... geralmente incomoda quando não está certinho no lugar). Ou seja, pode dormir de boas com o Copo da Lua!

4. Dê adeus aos gastos com absorventes descartáveis ou “ob’s”! Adoro passar pelas prateleiras de absorventes no supermercado e pensar: “Não preciso mais disso... ;)” . Mesmo que o coletor pareça caro no primeiro momento (em torno de 80 reais), compensa muito, pois a vida útil dele é de 10 anos. Sem falar que serão centenas de absorventes que você não irá jogar no lixo depois, né? Um pequeno alívio para a Mãe Terra...

5. Quando comecei a usar meu Copo da lua também comecei a fazer anotações sobre meu ciclo menstrual. Peguei um caderno simples, que chamo de “Caderno Lunar”, decorei com uma capa legal e me pus a anotar meus sonhos mais significativos, minhas sensações, intuições, emoções, pensamentos, algumas poesias, sempre registrando a fase da lua e a data em que vinha e ia embora minha “Lua Vermelha” (menstruação). Como se fosse um diário mesmo... Embora eu não escreva nele todo dia. Com o tempo você vai compreendendo melhor em qual fase da lua está mais disposta e em qual não está tanto assim... Em que momento você tem sonhos mais vívidos e o que eles significaram depois para você... O que suas emoções estavam lhe dizendo... E por aí vai. É um método muito interessante de autoconhecimento. Recomendo que façam isso, mesmo quem prefere não usar o coletor.

6. E a última coisa legal que menciono aqui (pois não dá para eu citar todas as coisas, estou relatando brevemente as que acho mais relevantes de escrever agora) é em relação ao modo de colocar o Copo da Lua. Como falei no início do texto, minha maior dificuldade era colocar o coletor, porque eu achava que o coletor era muito grande para mim, mas na verdade ele é do tamanho adequado e o problema estava em como eu estava tentando coloca-lo, ou seja, a posição. Quase todas as meninas que li comentando sobre essa questão e conversando com minhas amigas depois, diziam que a melhor posição para colocar o coletor era de cócoras. Quando fui tentar, na primeira vez não deu muito certo, pois estava tensa (e é muito importante que estejas relaxada), mas no dia seguinte na segunda tentativa deu tudo certo! Meu Copo da Lua entrou com facilidade e senti uma onda de alegria imensa! Com o tempo fui percebendo que a posição de cócoras carrega muito mais significado e simbolismo do que eu imaginava... As mulheres antigas quando se reuniam com outras mulheres na “tenda vermelha” (quando estavam todas menstruadas) costumavam ficar de cócoras em alguns momentos para deixar fluir na terra o sangue e ao mesmo tempo ofertar à Mãe-Terra esse sangue sagrado.
De cócoras é a posição que muitas mulheres dão à luz quando estão parindo uma criança.
De cócoras é a posição em que a figura/deidade mais emblemática e misteriosa, a meu ver, da mitologia celta se apresenta: Sheela-na-Gig. Ela está com as pernas bem abertas, com as mãos abrindo ou tocando a vulva, que mais parece um portal por onde algo ou alguém vai sair ou mesmo entrar. Sheela-na-Gig para mim está profundamente relacionada aos mistérios femininos, aos ciclos de vida-morte-vida e ao poder da Lua Vermelha que cada mulher carrega.



Todo mês, quando a Lua vem me visitar e eu me posiciono de cócoras para colocar meu Copo da Lua, eu penso em Sheela-na-Gig, me conecto com essa força ancestral, bem como com todas as minhas ancestrais... Me permito ser limpa, transformada e curada pelo meu sangue sagrado. E com isso abençoo meu útero, meu ventre e todas as minhas relações, seja com as mulheres que vieram antes de mim, seja com aquelas que virão depois.


Bem, era mais ou menos isso que tinha para compartilhar. Convido agora vocês, mulheres, irmãs, para refletirem e se quiserem experimentar e vivenciar não só o Copo da Lua, mas, sobretudo, o seu corpo e o seu sangue, que são sem dúvida Sagrados.




* Yoni: nome menos pejorativo e mais sagrado de chamar a vagina; proveniente da tradição hindu, especialmente do Tantra. 


(Texto por Mayra Darona Ní Brighid. Escrito em 15/12/2015, Lua Nova).

5 de dezembro de 2015

Eu sou...



Sou o Cisne que lança voo em direção ao poente...
Sou o Carvalho que cresce firme sobre a terra...
Sou o Gavião que descansa no alto da mãe Samaúma...
Sou a Corça que caminha docemente pelos bosques...
Sou o vento que sopra na alvorada...
Sou a terra molhada depois da chuva...
Sou o sol nascendo no santo Dia de Brighid...
Sou a terra abaixo de meus pés...
Sou o céu acima da minha cabeça...
E sou as águas que fluem dentro e ao redor de mim.

(por Mayra Darona Ní Brighid, em 05/12/2015,
Lua Negra, pós Lua Vermelha)

5 de fevereiro de 2014

Na minha terra...

Na minha terra não tem Carvalho, mas tem Samaúma.
Na minha terra não tem Aveleira, mas tem Açaí.
Na minha terra não tem corvo, mas tem urubu e tem anu.
Na minha terra não tem cisne, mas tem garça.

Onde eu nasci não tem tinta azul.
Mas pra se pintar, usamos jenipapo e urucum.
Onde eu nasci não tem zimbro, mas tem breu e priprioca.
Onde eu nasci não faz frio,
Mas quando chove a gente deita na rede e se embala com a canção do vento e da chuva. E se der, ainda come uma tapioca.

Se isso me afasta do Druidismo ou dos Celtas antigos, eu vos digo: pelo contrário. Isso me aproxima deles e me religa ao que tem de mais sagrado: a Natureza.


Mayra (Darona) Ní Brighid.

(Raízes de uma samaúma, foto de Araquem Alcântara).



28 de dezembro de 2013

O caminho do Vate (Fáith)



Algumas considerações:

Esse é um dos caminhos do sacerdócio no Druidismo, ao lado do Bardo (Fíli) e do Druida (Druí)[1]. Sabe-se que essas funções se subdividiam em outras nos antigos povos celtas[2], mas muito se perdeu e pouco se sabe sobre como eram essas funções e o treinamento delas. De todo modo, a grande maioria dos grupos druidistas ou druídicos trabalham basicamente com essas três funções sacerdotais, mais as funções não-sacerdotais (que veremos em textos futuros).
Todas as funções no Druidismo hoje podem ser seguidas tanto por homens quanto por mulheres, não importa se é o caminho do Bardo ou do Ferreiro. Tudo é uma questão de dom e vocação (dán).

Os caminhos do sacerdócio são distintos entre si, embora estejam profundamente entrelaçados. É inegável que no Druidismo hoje, o bardo também agregue conhecimentos do caminho do vate e do druida, assim como o vate também apresenta conhecimentos do druida e do bardo, e o druida, por sua vez, acumule o saber do bardo e do vate. Mas cada caminho tem suas particularidades e características importantes de serem lembradas. Pode ser comum encontrar pessoas que transitem por dois caminhos, ou melhor, que dois caminhos (exemplo: bardo e vate) se mesclem em sua vivência religiosa e se expressem harmoniosamente em sua prática. E não há problema algum nisso, pelo contrário, provavelmente essa pessoa é muito inspirada e apresenta muitos dons, que merecem ser aproveitados na comunidade druidista em que participa.

Vate: o caminhante entre os mundos.

O vate (para o foco gaulês) ou fáith (para o gaélico) é uma espécie de xamã. Conhece as plantas e seus poderes, viaja para outros mundos, outras realidades, em busca de conhecimento e respostas, e é comum ter experiências místicas com seres feéricos. É um caminho difícil e nem todos o escolhem, pois é preciso ter muita força espiritual e mental para lidar com as intensas energias dos diversos mundos espirituais e físicos que nos cercam.



Por mergulhar ou viajar constantemente aos outros mundos, o vate pode ser chamado de “habitante do mundo da lua” pelos leigos, devido ao fato dele estar mais presente no mundo de lá do que no de cá e também ser praticamente uma “antena” (frequentemente aberto às mensagens e insights do outro mundo). É por essa razão que se a pessoa não tiver força de espírito o suficiente e bem “ancorada” na Terra, a influência e a força dos outros mundos podem até mesmo fazê-la enlouquecer. O auxílio de um guia ou mestre (físico ou não) nesse caminho, portanto, é de muita importância.


O vate lida com a Cura no nível físico-espiritual-mental-emocional (pois não podemos tratar o físico e ignorar o emocional e o espiritual. Como diz o ditado, “mente sã, corpo são”). A tríade druídica moderna que diz “Curar a si mesmo, curar a comunidade e curar a Terra” cabe perfeitamente no caminho do vate. A busca pelo conhecimento das medicinas tradicionais e terapias “alternativas” faz parte desse caminho e ela nunca cessa de fato.

Em um ritual druídico geralmente é o vate quem consulta o oráculo após a oferenda ser feita para saber se os ancestrais a receberam e se atenderão aos pedidos. Obviamente que em um grupo com número pequeno de membros ou na carência de um vate, aquela pessoa que estiver seguindo o caminho do druida pode realizar a consulta ao oráculo. Mas o estudo de oráculos não é restrito apenas ao caminho do vate. Todos os outros caminhos (bardo, devoto, artesão, guerreiro...) podem estudar e se dedicar a um oráculo, basta ter disposição e vontade.

Consultar e interpretar oráculos são as habilidades do vate, juntamente com a realização de cura pelas plantas e pelas medicinas tradicionais (ou seja, ligadas às tradições da Terra). O vate aprende que o verdadeiro oráculo não está fora dele, mas está dentro. Com desenvolvimento e sabedoria ele se torna o oráculo. Tarot, Ogham, Runas, Scrying com o fogo, a água ou outros elementos, ou interpretações/visões por meio do voo dos pássaros, das nuvens ou do som do vento, são tipos de oráculos que ajudam o vate a desenvolver seus dons, embora este irá se especializar ou sentir afinidade com um ou dois tipos de oráculos.

Há mais ou menos um mês atrás conversei com dois amigos do “Vozes do Bosque Sagrado”, de Brasília, o bardo Malhado e a vate Cecília, que me disseram algo muito interessante sobre as cores-símbolos desses caminhos em sua Ordem, e que para mim fez muito sentido.
O bardo é representado pela cor vermelha, pois é a cor do sangue que flui em nossas veias e refere-se à ancestralidade, à história de nossa família (de sangue e espírito). Também é a cor do fogo da inspiração, que arde na mente e ilumina a tudo e a todos que ouvem o bardo, ou do fogo que queima e fere àqueles que são indignos e alvos de uma sátira. Curiosamente, antes de eu saber que a cor vermelha era associada ao bardo, segundo essa concepção, eu costumava guardar minha pequena harpa enrolada em um pano vermelho e dourado...

O vate é representado pela cor verde, referindo-se às plantas, às árvores, à cura e à natureza. Mas vejo também que a cor azul pode ser relacionada a esse caminho, pois o azul é a cor do mar e das águas, que limpam, curam, purificam e são portais para o Outro Mundo. Verde, azul ou então uma cor que seja um misto entre essas cores; um verde-azulado ou azul-esverdeado.


O druida é representado pela cor branca, que reúne em si todas as cores, pois o druida é o mais antigo na tradição ou no clã e acumulou grande conhecimento, e também porque ele apresenta várias funções em uma só, é “juiz”, teólogo, sábio, místico, profeta, poeta, mestre/professor.

Cada caminho tem uma ou mais divindades patronas[3]. No caminho do vate são Ogma, Dian Cecht, Airmid, Cerridwen. Há outras, provavelmente, que também podem ser consideradas patronas desse caminho e aí, além do que nos diz a mitologia, depende também da vivência e afinidade de cada pessoa com as divindades.

Abaixo segue um belo e inspirado texto, que apesar de não ter origem na cultura celta, para mim, fala muito sobre o caminho do vate.

“Caminho do Leste; avô, sol dourado
Na luz amarela que afasta meu medo
Me lança num voo que cura a ferida
Espírito livre, morada da águia

Me esqueço da dor no caminho do Sul
Espelho quebrado reflete a criança
De corpo tão leve, vestido em vermelho
Destrói essa máscara no olho do lobo

Caverna profunda, meu negro mergulho
Janela suspensa virada pro Oeste
Avó; densa água, clareia bem dentro
A ursa é que guia meu tempo amanhã

Silêncio do Norte, minha reza anciã
É a prata-azulada da chama do fogo
Derrama o saber nesse cântaro fundo
Que um búfalo guarda até eu partir...

São quatro caminhos, a roda não para
O fogo do canto, na terra o tambor
Madeiras de água, no ar um chocalho
Na música eu falo com meu Criador...”

(Quatro Cântaros, por Fernanda de Paula)







[1] Poeta inspirado e druida, respectivamente, no foco gaélico.
[2] Leia mais em: http://aballom.blogspot.com.br/2013/06/tabelas-druidas-vates-e-bardos.html .
[3] No caminho do bardo as divindades patronas ou ancestrais são Brigid, Lugh, Taliesin e Amergin.


6 de dezembro de 2013

O sábio...


O sábio não possui a sabedoria. A sabedoria é uma fonte, da qual o sábio bebe.
Ele é um recipiente da sabedoria, e ao mesmo tempo é pequena fonte, de onde derrama algumas gotas àqueles que o rodeiam.
Sábio é aquele que sabe e sente como o universo funciona e por isso caminha e vive de acordo com os ritmos sagrados.
Ele caminha em sincronia com a natureza, ele é a natureza.

13 de julho de 2013

Ser Guardiã(o) da Chama

Existe um lugar, em outro mundo, que transcende e ao mesmo tempo está por dentro e por detrás deste mundo, onde uma chama sagrada é mantida eternamente acesa. No coração de uma floresta... Em uma clareira, no interior de uma caverna... Mulheres guardam, cuidam, oram, cantam, diante do sagrado fogo, dedicando seu tempo e cuidado para jamais deixar que se apague a luz... Embora elas saibam que aquela Luz seja sagrada, divina, e que não irá se apagar nunca. Ela é a fonte de toda a chama no mundo, a luz que brilha tanto de dia quanto de noite, que nos aquece nas noites frias e acalenta nas noites quentes.

Mesmo que a chama física se apague, a chama espiritual continua queimando e iluminando... 

Uma guardiã da chama traz a luz de Brighid em seu coração. Ela deve alimentar sempre essa luz, deve buscar sempre a força da chama eterna para que seu corpo e seu espírito mantenham a paz. Seu olhar é sereno e doce. Sua presença é forte e iluminada. Suas palavras são poucas e sábias. A guardiã da chama acende o fogo com o calor de suas palavras e a luz que traz no coração. Como o sol, a chama sagrada de Brighid ilumina, abençoa, cura, alimenta, protege, afasta toda a escuridão. 

Aquele que carrega a luz de Brighid, seja homem ou mulher, deve manter a chama sagrada em seu lar com frequência. Deve orar para o fogo sempre. Sua luz iluminará o mundo. Seus passos abrirão caminho. Sua paz harmonizará o povo. Suas mãos curarão as feridas.

A luz de Brighid me ilumina.
A luz de Brighid me fortalece.
A luz de Brighid me protege.
A luz de Brighid me cura.
Que eu veja com os olhos do fogo.
Que eu fale as palavras da lareira.
Que eu tenha a força do espírito do carvalho.
Que eu tenha a liberdade das águas.
Que eu tenha a paz das rochas.
Que Brighid caminhe comigo, que eu caminhe com Brighid.
De dia e de noite, no inverno e no verão.



(Mayra Ní Brighid)

31 de janeiro de 2013

Sugestões para celebrar o Imbolc


Não me deterei em explicar sobre a história e significado desse festival céltico, pois iria apenas repetir o que já está escrito em muitos bons artigos:

Então, nesse breve texto darei algumas sugestões (simples) para celebrar o Imbolc.
Como esse é um dos festivais celtas mais domésticos, por causa do extremo frio que faz essa época nas terras da Europa[1], as famílias se reuniam em suas casas, em especial diante da lareira para honrar a deusa Brighid que em breve traria o Sol e o calor. Preces, canções, atos mágico-religiosos e oferendas eram feitas para a proteção da casa, da família e dos animais.

No dia 1 de fevereiro (ou numa data próxima) comece suas práticas religiosas para honrar e saudar esse festival[2]. Limpe sua casa, seu quarto. Faça uma faxina. Livre-se de coisas velhas, que não usa mais ou que lhe lembram de coisas ruins que aconteceram. Mude, transforme hábitos, pensamentos e atitudes negativas e viciosas.
Enquanto que em Samhain e Solstício de inverno damos mais atenção aos anciãos e antepassados, no Imbolc e na Primavera focamos nas crianças e nos pequenos.

Acenda uma vela em honra a Brighid na cozinha e se for possível coloque-a sobre ou próximo ao fogão (a nossa “lareira” hoje). Enquanto a chama queima, ouça músicas que gosta (e que Brighid talvez possa gostar também), cante cantigas para Ela (de sua autoria ou não), entoe poemas, ore a Ela e aos ancestrais, pedindo por proteção, cura, prosperidade, alegria, amor ou o auxílio para um problema em questão. Cozinhe. Faça algo inusitado ou tradicional, de família ou seu em particular. Ao ficar pronto compartilhe do alimento com amigos e parentes queridos, e ofereça um pedaço a Brighid (enterre, queime, deite sobre um rio ou deixe no altar por um tempo). Você pode oferecer também leite, mel, água, um arranjo de flores ou uma arte feita por você.

Ao sol se pôr ou quando achar que é propício acenda uma chama (uma vela ou fogueira) e recite orações e/ou poemas para Ela. Podem ter sido criados por você ou por outra pessoa, não importa muito, contanto que sejam palavras verdadeiras, intensas e que lhe toquem a alma. Se quiser, dance para (e com) Ela. Coloque para tocar uma música animada que goste, dessas com violinos, flautas e tambores... Ou então toque você mesmo um!
Deixe sua inspiração fluir. Deixe que Brighid fale aos seus ouvidos e coração. Deixe ela entrar em sua casa e encher você e aos seus de bençãos![3]

Obs: Na região norte do Brasil não temos um inverno como na Europa ou sul e sudeste brasileiro. Nosso inverno é carregado de chuvas, e ainda assim o calor é presente. Mas a água é quem reina nessa época, e à ela devemos dedicar honra e respeito nos festivais dessa metade do ano. Brighid é também senhora que cura, deusa das águas sagradas, dos poços e fontes. Que as águas que caem dos céus e as águas que enchem os rios nos purifiquem e levem embora para o mar o que não nos serve. Que as águas de Brighid nos cure, purifique, proteja e nos encha de bençãos de fertilidade!

Poemas ou canções para Brighid

Quem é ela que tem os cabelos de fogo e olhos penetrantes?
Quem é ela da voz suave e doce canto?
Quem é ela da face mais bela e mãos que afastam o pranto?

Quem é essa que guarda os segredos da cura?
Quem é essa que doma o fogo e a água?
Quem é essa da aura pura e radiante como a lua?

É Brighid, dos cabelos de fogo!
É Brighid, da fala mais doce!
É Brighid, da alma serena!
É Brighid, dos raios de sol!

Mãe da canção,
Mãe dos poetas,
Mãe da purificação.

Luz que me guia,
Luz que me protege,
Luz que me inspira e me dá sabedoria.

Divina mulher, estejas em minha casa.
Sábia senhora, estejas em minha fala.
Grande curadora, esteja em minhas mãos.
E pelo poder dos Três,
Que eu esteja em ti
E Tu estejas em mim.

Em uma só Canção,
Dentro de um só Coração,
Em plena União.

(Darona ní Brighid, escrito em 04/01/2013)

***

Quem é ela que vem com o Sol?
Quem é?
Quem é ela que traz o calor e a alegria?
Que é ela que traz a cura e a sabedoria?
Quem é?
É Brighid!
Rainha do fogo.
Senhora do poço.
Mãe dos poetas.
Guardiã da lareira.
Matrona da família!

(Saudação a Brighid e ao Imbolc. Darona, em 29.01.13).

***

Gabhaim molta Bríde
Ionmhain í le hÉirinn
Ionmhain le gach tír í
Molaimis go léir í

Lóchrann geal na Laighneach
A’ soilsiú feadh na tíre
Cean ar óghaibh Éireann
Ceann na mban ar míne

Tig an geimhreadh dian dubh
A’ gearradh lena ghéire
Ach ar Lá ‘le Bríde
Gar dúinn earrach Éireann

Tradução:

Eu louvo Brighid
Amada da Irlanda
Amada de todas as terras
Deixe-nos todos louvá-la

A tocha brilhante de Leinster
Brilhando em todas as partes da terra
O orgulho de todas as mulheres irlandesas
O orgulho das mulheres de bondade

Vem o Inverno escuro e difícil
Cortante com a sua severidade
Mas no dia da Santa Brighid
A Primavera irlandesa está perto de nós

(Tradicional canção/oração a Brighid)


***

Brighid do manto, rodeai-nos
Senhora dos cordeiros, protegei-nos
Defensora da lareira, iluminai-nos
Sob o vosso manto reuni-nos e restitui-nos a memória
Mãe das nossas Mães, antepassadas corajosas
Guiai nossas mãos nas vossas
Para acender a lareira, mantê-la viva, preservar a chama
Vossas mãos sobre as nossas, nossas mãos nas vossas
Para acender a luz tanto de dia como de noite
O manto de Brighid em torno de nós
A lembrança de Brighid dentro de nós
A proteção de Brighid livrando a nós
do mal, da crueldade e da ignorância
Neste dia e noite, do amanhecer ao anoitecer, do anoitecer ao amanhecer.
Assim seja.

(Tradicional prece a Brighid).




[1] No inverno, os dias que precedem a primavera são justamente os mais frios. À noite, o momento que precede a aurora costuma ser o mais escuro.
[2] Antes disso (uns dias antes), sugiro que estude e pesquise sobre a história, costumes e significados desse festival.
[3] Você pode fazer tudo o que foi sugerido aqui ou mais, ou ainda apenas o que for possível. Mas faça, e com espontaneidade, alegria e verdade, e tenha certeza que Brighid lhe abençoará.





23 de janeiro de 2013

Bose Yacu Pacahuara



Hoje faleceu a indígena Bose Yacu, do povo Pacahuara, na amazônia boliviana (proximidade com o estado do Acre). Para alguns é só mais uma indígena que morreu, para outros é uma fonte enorme de sabedoria que se perdeu... Era a última que ainda falava a língua materna do povo Pacahuara, que conhecia canções tradicionais e guardava um enorme conhecimento de seu povo, hoje ameaçado de extinção, pois só existem cinco pacahuaras vivendo em um vilarejo no nordeste da Bolívia, e estão sendo assimilados pelo povo Chacobo.
Não acredito que a cultura Pacahuara morreu, pois nenhuma cultura morre completamente. Uma semente de sua sabedoria foi deixada com aqueles que conviveram com ela ou conheceram-na brevemente. Mas, infelizmente, muito se perdeu com a morte de Bose... E estou triste com isso... Deveríamos todos estar tristes com isso... 
Façamos uma corrente nas redes sociais (e em nossas vidas pessoais também, com orações, pensamentos, enfim) para honrar a memória de Bose e toda a sabedoria que ela representou (e ainda representa). E para lembrar a nós mesmos e aos governos da situação semelhante e injusta que ainda vivem muitas tribos indígenas no Brasil. 

Que Bose esteja em paz e alegria na terra sagrada de seus ancestrais. E que os povos indígenas tenham o devido valor e reconhecimento em nossa sociedade...! 

26 de novembro de 2012

Uma canção para a Mãe Terra

Uma tradução e adaptação da música "Earth Mother", de Lisa Thiel e Ani Williams.

"Mãe Terra,
Estamos em seu corpo.
Mãe Terra,
Cantamos sua canção.

Mãe Terra,
Curamos seu corpo,
Mãe Terra,
Somos seu coração.

Oweoweoweouhá."


Para ser cantada no ritmo da música original, como pode ser ouvida abaixo.


25 de novembro de 2012

Meditação de ida ao Fundo

Relacionada a roda de conversa que participei durante o III EBDRC, intitulada "Os sídhe e os encantados: traçando semelhanças e diferenças entre Druidismo e Encantaria amazônica". 


(foto de Mauricio de Paiva)

Esteja em um lugar calmo, onde não será perturbado por outras pessoas e barulhos. Se preferir, coloque uma música calma de fundo, som de águas, rio ou mar são ideais. Ou então, prefira somente o som da sua respiração. Se quiser acenda um incenso, mas não o coloque muito perto de você, para não irritar a garganta ou nariz. Coloque diante de você ou no seu altar/centro devocional (caso faça essa meditação próximo a ele) um recipiente com água limpa, e se preferir derrame umas gotas de essência perfumada na água (sugiro essência de breu branco, rosas brancas, jasmin ou outra suave). Feche seus olhos, respire profundamente, inspirando pelo nariz e expirando pela boca. À medida que respira, visualize o mar e sincronize sua respiração com o ir e vir das ondas. Quando sentir-se bastante relaxado e a respiração profunda for “automática”, veja-se diante de um igarapé, rio ou grande lago. Sinta a areia sob seus pés, sinta a brisa tocar sua pele, veja as águas limpas e profundas do igarapé a sua frente. Atrás de você e mais ao longe está uma densa floresta. Perceba se está de dia ou de noite. Você escuta pássaros cantando, e avista outros voando no céu acima de sua cabeça. Como são esses pássaros? Preste atenção nas águas a sua frente... A cor... A correnteza... O som do rio ou igarapé... De repente, você escuta um longo e fino assobio, vindo das águas... E então, você ouve uma doce música, uma doce voz que parece vir do fundo das águas e ao mesmo tempo parece estar próximo ao seu ouvido... Escute essa música por um tempo... Você sente que deve entrar no rio, ele lhe chama e você não tem nada a temer. Caminhe em direção ao rio. Sinta a água fria tocar seus pés, canelas, joelhos, coxas, barriga, peito e ombros. Respire fundo e mergulhe! Nade um pouco, sinta as águas acariciarem seu corpo, você é como um peixe, uma sereia, um golfinho... Você consegue até mesmo respirar debaixo d’água! Mergulhe mais e você percebe que o rio é mais fundo do que pensava... De repente, você enxerga vindo em sua direção um animal. O que é? Um boto? Peixe? Cobra? Ele não parece ameaçador, e não te assusta nem um pouco. Ele te olha nos olhos e você entende que ele quer que você suba nele, para que ele te leve mais ao Fundo. E você sobe gentilmente nele. Ele mergulha com você mais e mais fundo nas águas, à medida que vai tudo ficando escuro até você não enxergar mais nada, apenas sente a água e o animal que te guia... De repente, você vê uma claridade a sua frente, ainda longe. Uma luz que vai aos poucos aumentando conforme vocês se aproximam dela. Aproximando, aproximando... Nadando, nadando em frente... E então, você percebe que estão chegando perto de uma cidade. Uma grande cidade que reluz toda a ouro, como se o próprio sol estivesse ali no centro. O animal que lhe guiava se aproxima do fundo e então você desce e toca o chão, e sente que pode caminhar normalmente. Você caminha em direção ao portão de entrada da cidade, onde você vê que alguém lhe espera. Como é esse alguém? Ele(a) lhe sorri e pede para que o acompanhe. Você entra na cidade e vê pessoas, seres, animais caminharem nas ruas. Alguns te observam, outros te sorriem, outros te ignoram simplesmente. Como são os moradores dessa cidade? Perceba como é essa cidade... Você vai caminhando, acompanhando o seu guia, até que chegam à entrada de um palácio, no meio da cidade. Observe como é o palácio... As portas se abrem lentamente, e no grande salão do palácio uma grande e alegre festa está acontecendo. Não coma e nem guarde para si nada que há ali. Caso lhe ofereçam alguma comida ou bebida, agradeça a gentileza e recuse honrosamente. Aproxime-se do salão, observe as pessoas e seres que estão ali, dance se sentir vontade, brinque, sorria...! Todos ali são gentis e amigáveis. Uma pessoa se aproxima e diz que o rei e a rainha desejam lhe falar. Você segue adiante no salão e avista os tronos onde estão sentados o rei e a rainha. Observe como eles são e como estão vestidos. Aproxime-se e apresente-se. Ouça o que eles têm a dizer... Eles lhe entregam um presente, que você recebe e agradece. O que é esse presente? Em retribuição você tira do bolso ou bolsa que carrega um presente também, uma oferenda ao rei e rainha do Fundo. O que é que você entrega? ... Eles agradecem e abraçam você. Você também agradece e se despede, pois sente que já é momento de voltar. O animal que lhe guiou até o Fundo surge ao seu lado e lhe convida novamente para subir nele. Você olha a sua volta, agradece e se despede de todos, por enquanto. O animal lhe conduz para cima do palácio, em cujo teto há uma saída que dá acesso à correnteza das águas. Vocês seguem juntos pela correnteza, no ritmo das águas, fluindo no rio... Você olha para trás e vê a cidade se afastando. A escuridão novamente toma as águas, mas você se sente seguro, pois está na companhia de seu animal-irmão. A escuridão passa e você percebe que está se aproximando da superfície. Você consegue avistar acima de você o céu, a lua ou o sol... Então, finalmente você emerge das águas. Primeiro, sua cabeça, depois ombros, peito, barriga, pernas... Caminha até a margem, no exato lugar onde iniciou sua jornada. Seu corpo está molhado, mas você não sente frio. Seus pés tocam a areia... Você se vira e olha para seu amigo, o animal que lhe guiou durante toda a viagem. Você agradece, ele se despede e você sente que sempre que quiser ir ao Fundo basta chama-lo que ele virá para te guiar. Ele mergulha de volta nas águas profundas. Você se senta na areia, respirando fundo, e voltando lentamente ao aqui e agora do mundo cotidiano. Abra seus olhos.


Ao finalizar a meditação, celebre ouvindo essa lindíssima música =)