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26 de novembro de 2012

Uma canção para a Mãe Terra

Uma tradução e adaptação da música "Earth Mother", de Lisa Thiel e Ani Williams.

"Mãe Terra,
Estamos em seu corpo.
Mãe Terra,
Cantamos sua canção.

Mãe Terra,
Curamos seu corpo,
Mãe Terra,
Somos seu coração.

Oweoweoweouhá."


Para ser cantada no ritmo da música original, como pode ser ouvida abaixo.


25 de novembro de 2012

Meditação de ida ao Fundo

Relacionada a roda de conversa que participei durante o III EBDRC, intitulada "Os sídhe e os encantados: traçando semelhanças e diferenças entre Druidismo e Encantaria amazônica". 


(foto de Mauricio de Paiva)

Esteja em um lugar calmo, onde não será perturbado por outras pessoas e barulhos. Se preferir, coloque uma música calma de fundo, som de águas, rio ou mar são ideais. Ou então, prefira somente o som da sua respiração. Se quiser acenda um incenso, mas não o coloque muito perto de você, para não irritar a garganta ou nariz. Coloque diante de você ou no seu altar/centro devocional (caso faça essa meditação próximo a ele) um recipiente com água limpa, e se preferir derrame umas gotas de essência perfumada na água (sugiro essência de breu branco, rosas brancas, jasmin ou outra suave). Feche seus olhos, respire profundamente, inspirando pelo nariz e expirando pela boca. À medida que respira, visualize o mar e sincronize sua respiração com o ir e vir das ondas. Quando sentir-se bastante relaxado e a respiração profunda for “automática”, veja-se diante de um igarapé, rio ou grande lago. Sinta a areia sob seus pés, sinta a brisa tocar sua pele, veja as águas limpas e profundas do igarapé a sua frente. Atrás de você e mais ao longe está uma densa floresta. Perceba se está de dia ou de noite. Você escuta pássaros cantando, e avista outros voando no céu acima de sua cabeça. Como são esses pássaros? Preste atenção nas águas a sua frente... A cor... A correnteza... O som do rio ou igarapé... De repente, você escuta um longo e fino assobio, vindo das águas... E então, você ouve uma doce música, uma doce voz que parece vir do fundo das águas e ao mesmo tempo parece estar próximo ao seu ouvido... Escute essa música por um tempo... Você sente que deve entrar no rio, ele lhe chama e você não tem nada a temer. Caminhe em direção ao rio. Sinta a água fria tocar seus pés, canelas, joelhos, coxas, barriga, peito e ombros. Respire fundo e mergulhe! Nade um pouco, sinta as águas acariciarem seu corpo, você é como um peixe, uma sereia, um golfinho... Você consegue até mesmo respirar debaixo d’água! Mergulhe mais e você percebe que o rio é mais fundo do que pensava... De repente, você enxerga vindo em sua direção um animal. O que é? Um boto? Peixe? Cobra? Ele não parece ameaçador, e não te assusta nem um pouco. Ele te olha nos olhos e você entende que ele quer que você suba nele, para que ele te leve mais ao Fundo. E você sobe gentilmente nele. Ele mergulha com você mais e mais fundo nas águas, à medida que vai tudo ficando escuro até você não enxergar mais nada, apenas sente a água e o animal que te guia... De repente, você vê uma claridade a sua frente, ainda longe. Uma luz que vai aos poucos aumentando conforme vocês se aproximam dela. Aproximando, aproximando... Nadando, nadando em frente... E então, você percebe que estão chegando perto de uma cidade. Uma grande cidade que reluz toda a ouro, como se o próprio sol estivesse ali no centro. O animal que lhe guiava se aproxima do fundo e então você desce e toca o chão, e sente que pode caminhar normalmente. Você caminha em direção ao portão de entrada da cidade, onde você vê que alguém lhe espera. Como é esse alguém? Ele(a) lhe sorri e pede para que o acompanhe. Você entra na cidade e vê pessoas, seres, animais caminharem nas ruas. Alguns te observam, outros te sorriem, outros te ignoram simplesmente. Como são os moradores dessa cidade? Perceba como é essa cidade... Você vai caminhando, acompanhando o seu guia, até que chegam à entrada de um palácio, no meio da cidade. Observe como é o palácio... As portas se abrem lentamente, e no grande salão do palácio uma grande e alegre festa está acontecendo. Não coma e nem guarde para si nada que há ali. Caso lhe ofereçam alguma comida ou bebida, agradeça a gentileza e recuse honrosamente. Aproxime-se do salão, observe as pessoas e seres que estão ali, dance se sentir vontade, brinque, sorria...! Todos ali são gentis e amigáveis. Uma pessoa se aproxima e diz que o rei e a rainha desejam lhe falar. Você segue adiante no salão e avista os tronos onde estão sentados o rei e a rainha. Observe como eles são e como estão vestidos. Aproxime-se e apresente-se. Ouça o que eles têm a dizer... Eles lhe entregam um presente, que você recebe e agradece. O que é esse presente? Em retribuição você tira do bolso ou bolsa que carrega um presente também, uma oferenda ao rei e rainha do Fundo. O que é que você entrega? ... Eles agradecem e abraçam você. Você também agradece e se despede, pois sente que já é momento de voltar. O animal que lhe guiou até o Fundo surge ao seu lado e lhe convida novamente para subir nele. Você olha a sua volta, agradece e se despede de todos, por enquanto. O animal lhe conduz para cima do palácio, em cujo teto há uma saída que dá acesso à correnteza das águas. Vocês seguem juntos pela correnteza, no ritmo das águas, fluindo no rio... Você olha para trás e vê a cidade se afastando. A escuridão novamente toma as águas, mas você se sente seguro, pois está na companhia de seu animal-irmão. A escuridão passa e você percebe que está se aproximando da superfície. Você consegue avistar acima de você o céu, a lua ou o sol... Então, finalmente você emerge das águas. Primeiro, sua cabeça, depois ombros, peito, barriga, pernas... Caminha até a margem, no exato lugar onde iniciou sua jornada. Seu corpo está molhado, mas você não sente frio. Seus pés tocam a areia... Você se vira e olha para seu amigo, o animal que lhe guiou durante toda a viagem. Você agradece, ele se despede e você sente que sempre que quiser ir ao Fundo basta chama-lo que ele virá para te guiar. Ele mergulha de volta nas águas profundas. Você se senta na areia, respirando fundo, e voltando lentamente ao aqui e agora do mundo cotidiano. Abra seus olhos.


Ao finalizar a meditação, celebre ouvindo essa lindíssima música =)


24 de novembro de 2012

Relato sobre o III EBDRC

Tentarei colocar em algumas palavras como foi o III Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta (EBDRC), mas tenho certeza que não conseguirei fazer isso perfeitamente, pois há certas coisas, sentimentos, sensações e impressões que só quem mesmo participou poderá saber...
Durante três dias (15, 16 e 17) no mês de novembro de 2012 foi realizado o referido encontro na cidade de Nova Hamburgo/RS, no sítio São Luís, um lugar maravilhoso, rodeado pela natureza, excelente organização e bons amigos.

Uma das montanhas ao redor do sítio e o lago de águas naturais.

O encontro foi de fato um grande reencontro para aqueles que já se conheciam e um primeiro contato (o "olho no olho" de fato, pois que a grande maioria já se conhecia no meio virtual) para os que ainda não se conheciam pessoalmente. No primeiro dia estávamos todos impregnados com a sensação de que já nos conhecíamos realmente, apesar de nunca ter nos encontrado cara a cara antes, ou a sensação de que "ontem mesmo" nos encontramos, sendo que na verdade não nos víamos há meses (no caso, foi a incrível sensação que tive com os queridos amigos do Caer Tabebuya, Andréa, Marcos e Simão). Tal sentimento de amizade e união permaneceu em todo o encontro e para além dele... Pois ainda estamos embebidos nele.

Durante a vivência com Danças Circulares Sagradas, conduzida por mim (foto de José Paulo)

As palestras foram sem dúvida interessantíssimas e de grande relevância para os estudos e práticas do Druidismo e RC no Brasil, e ficávamos sempre com "gosto de quero conhecer mais" ao final de cada atividade. As vivências com danças despertaram boas risadas, alegria e  inspiração em todos que participaram ou mesmo em quem ficava apenas olhando ou registrando.
As noites eram regadas a boa bebida, boa música (com exceção da gaita de fole "tocada" por Marcos Reis rsrsrs, que não foi bem música, mas arrancou muitos risos de todos! rs), som de tambores, boa companhia e uma calorosa lareira.

A lareira, no segundo dia do Encontro (foto de Patrícia Paiva).

As manhãs eram abençoadas com um ótimo clima, sol e um lago de águas geladas e naturais disponível para quem quisesse se banhar. No segundo dia do encontro, o responsável do sítio conduziu a turma para uma trilha ecológica pela mata ao redor do sítio até chegarmos numa linda e pequena cachoeira. O lugar é realmente lindo, cercado pelo verde, vida e a água fresca e pura da cachoeira. 

JP na cachoeira.

No Encontro não havia somente druidas, druidistas e RC's, tivemos também a participação de uma reconstrucionista egípcia, um asatru e dois afro-religiosos, que estavam ali como convidados ou interessados em apenas trocar ideias e conhecer a "celtaiada" (termo carinhosamente usado pela querida Samanta Tanakht). E isso só nos confirma que entre pessoas de caminhos espirituais diferentes pode haver perfeitamente amizade e respeito.
A última atividade do Encontro foi uma mesa-redonda, ou melhor, uma roda de conversa (pois não tinha mesa nenhuma rs) sobre o Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta, criado recentemente com a assinatura do Estatuto do Conselho numa reunião entre membros em São Paulo. Sem dúvida, um passo importante foi dado para o Druidismo no Brasil e uma longa estrada começa a se traçar diante de nós. A estrada provavelmente será árdua, mas a união, amizade e honra que existem entre nós com certeza tornará esse caminho mais leve e proveitoso. O Encontro foi encerrado com uma fogueira sagrada, diante da qual preces e juramentos foram feitos. Ritos de cura também foram realizados diante do fogo. E por fim fizemos a despedida, abraçamos e agrademos a cada um que estava ali, enquanto lágrimas e risos se misturavam. 

A fogueira sagrada no último dia do encontro (foto de Patricia Paiva).

Sob o Céu estrelado e com os pés sobre a Terra sagrada, agradecemos, pedimos, choramos, honramos e rimos... Estávamos entre irmãos. Laços mais fortes que o sangue nos unia e continua a nos unir, para além do tempo e do espaço físico. Naquele momento pudemos compreender e sentir o que quer dizer Anam Cara (Amigo de Alma)... Não tenho mais a dizer, apenas que fico muito feliz em fazer parte dessa família druídica e "céltica" brasileira!  E que sinto por cada um de vocês que estavam no Encontro (presencialmente ou em pensamento) um grande carinho e amizade!
O próximo Encontro será no mesmo período do ano que vem, em São Paulo, então, nos vemos por lá! 

Slán go foill! (Adeus por enquanto!) 

(Parte da) Família Druídica e "Céltica" brasileira, no III EBDRC (foto de Náthaly Adamo).

13 de outubro de 2012

Conexão com o mundo natural


Por Ladytoad
(Tradução de Bellovesos, disponível no site: www.bellovesos.multiply.com)

"Um exercício sobre PERCEPÇÃO.

Deite-se na grama.

Feche seus olhos e tente sentir os ritmos da terra.

Sem a visão, você deve confiar em seus outros sentidos.

Esvazie sua mente de pensamentos mundanos e concentre-se apenas em sentir e ouvir.

Aproxime sua orelha do chão.

Você pode escutar o movimento dos insetos ocupados em seu trabalho?

Se você escutar atentamente, as pulsações da terra viva se tornarão claríssimas.

Permita que elas entrem no seu corpo.

Relaxe.

Deixe que elas se fundam às batidas do seu coração até seu corpo não se sentir mais destacado e separado da terra. Permaneça nesse exercício por, ao menos, 15 minutos.

Esse exercício poderá parecer difícil em suas primeiras tentativas. Ficamos acostumados a andar sobre substâncias feitas pelo homem, com nossos pés cobertos por solas e protegidos contra a terra. Esquecemos da conexão que nossos ancestrais conheciam bem. Mesmo em sua primeira tentativa, você sentirá alguma coisa.

A memória ancestral será forte dentro de você se você se permitir lembrar. A unidade com a terra é parte de nossa consciência evolucionária genética. Precisa apenas ser despertada. Quando você estiver pronto para reingressar no mundo quotidiano, pegue um diário. Anote o que você sentiu e ouviu. Tente lembrar-se de todas as palavras que você conhece que possam trazer à vida sua experiência.

Você pode encontrar-se descrevendo sensações por meio de cores, aromas, sabores. Seu corpo sabe como seus sentidos se conectam. Permita ao seu inconsciente descrevê-lo para você. Deixe que as palavras fluam. Confie no que que está dentro de você - não somente naquilo que seu cérebro lógico, treinado na escola, lhe diz. Na próxima vez que você fizer esse exercício e o registro no diário, observe sua reação, releia. Veja o quanto sua nova tentativa foi diferente da sua primeira vez. Esse exercício não é algo que você vai fazer só uma vez. Deve ser repetido de novo e de novo até você realmente sentir a conexão outra vez. Você se beneficiará com um nível mais baixo de "stress", com uma meditação em nível mais profundo, com uma compreensão maior de si mesmo e do seu lugar no esquema das coisas."

Texto original em: <http://www.adf.org/rituals/meditations/connecting-with-the-natural-world.html>.

10 de outubro de 2012

Celebrando a Lua Vermelha


(Shakti, o divino feminino, esposa divina de Shiva na mitologia hindu)


Cada vez mais mulheres estão ressignificando seu sangue menstrual, buscando em tradições e Deusas antigas a inspiração que precisam para (re)sacralizarem seu sangue e seu ventre. Mas ainda assim, existem muitas mulheres que crescem ouvindo que seu sangue (e corpo) é sujo, impuro, profano.
O movimento cultural e espiritual de fortalecimento e reconhecimento (não gosto muito de usar o termo “resgate”) do Sagrado Feminino está se espalhando pelo mundo, felizmente, como um sussurro, um sopro da Mãe Terra nos corações de homens e, sobretudo, das mulheres. A meu ver, o movimento do Sagrado Feminino vai além de religião, ou melhor, transcende as religiões e instituições; está presente – em maior ou menor grau - em todas elas e ao mesmo tempo não se prende em nenhuma. Seja na Wicca, nas religiões da Grande Mãe, no(s) Xamanismo(s), no Druidismo, nas correntes da Nova Era e mesmo no Cristianismo (com a Teologia feminista), o Sagrado Feminino ganha cada vez mais força, e pode ser encontrado em movimentos não necessariamente religiosos, mas também sociais, como em ONGs de apoio ao parto humanizado, associações de mulheres, grupos ambientalistas etc.
O fortalecimento do Sagrado Feminino está relacionado profundamente ao movimento da Ecoespiritualidade feminina, e muitas vezes são considerados sinônimos.
Sabemos que o ciclo menstrual está intimamente ligado ao ciclo da lua, e conectar-se com esse e outros ciclos, ou melhor dizendo, com a Ciclicidade da Natureza é se conectar melhor com nossos próprios ciclos (internos e externos) e compreender mais profundamente nós mesmas, nossos sonhos, medos, anseios, desejos, intuições... Com isso nos sentiremos mais fortes, mais seguras, sábias e saudáveis.
Há muitas formas de se conectar e honrar a sua menstruação; neste texto irei propor algumas sugestões e ideias para que cada mulher celebre a sua Lua Vermelha. A intenção é que você possa desfrutar de momentos de meditação, reflexão e magia; refletir sobre o momento em que está vivendo, perceber que o seu sangue e seu corpo são sagrados, sentir-se parte da natureza, sentir que você está no coração da Mãe Terra, e que Ela está no seu coração...


* Primeiramente, procure reduzir ao máximo o uso de absorventes descartáveis, além de ser um gasto muito grande em longo prazo, são muito poluentes para a natureza. Se puder evite usa-los, opte por um coletor menstrual. No Brasil, existe um tipo de coletor chamado MissCup. 

* Alguns dias antes de menstruar ou também durante a menstruação, os sonhos geralmente ficam mais intensos e significativos, por isso procure prestar atenção a eles e as mensagens que podem te trazer.

* Durante o banho, perceba seu corpo, seu ventre, seus seios, se estão inchados ou não, se algo lhe incomoda, e o porquê lhe incomoda. Perceba seu sangue, toque-o, sinta o cheiro, a textura, tenha consciência dele. Pense que todas as mulheres no mundo menstruam, é um dom que todas compartilham, todas nós estamos interligadas pelo sangue menstrual, ligadas umas com as outras, e todas com a Mãe Terra.

* Sempre que puder escute músicas que você aprecie, principalmente se falam do Feminino. Particularmente, gosto muito das músicas de Lisa Thiel, Dani Lasalvia, e algumas do Omnia (como Moon, Luna, Morrigan), mas sinta-se livre para escutar o que sua alma pedir. Músicas de dança do ventre são uma ótima ideia também, e se sentir vontade, dance e cante!

* No primeiro dia da menstruação, ou enquanto o fluxo ainda estiver forte, diante de seu cantinho especial (o altar, oratório, quintal, quarto... Enfim, um lugar em que você tenha privacidade e se sinta bem) dedique alguns minutos para meditar e celebrar seu sangue. Acenda uma chama (vela ou fogueira) e coloque água (de rio, chuva ou mineral) em um recipiente; acenda incensos também se preferir. Medite, cante, toque instrumentos (tambor xamânico, bódhran, flauta ou maracá...), ore e honre as deusas que você tem afinidade e que estão ligadas a fertilidade e ao poder femininos. Pode ser Epona, Eriu, Danu, Morrigan, Rhiannon, Aetegina, ou mesmo Afrodite, Oxum, Iacy, Pachamama, ou simplesmente o Sagrado Feminino. Acredito que em uma celebração da lua vermelha todas as Deusas se solidarizam, se interligam, assim como as mulheres menstruadas... Peça às Deusas ou a Mãe Terra que desperte e fortaleça o Sagrado Feminino em todas as mulheres. Peça pela Paz entre os povos e todos os seres, pela Cura da Terra, e também por sua própria cura. Existe uma forma de meditação/oração que consiste primeiramente em deixar a mente livre, serena, e em seguida deixar que as palavras surjam espontaneamente em seu pensamento e então proferi-las, como um mantra, uma oração. Por exemplo:

Sangue sagrado
Sangue que cura
Sangue que transforma
Sangue que inspira
Sangue da Lua
Sangue sagrado

Corpo sagrado
Corpo que nutre
Corpo que gera
Corpo da Terra
Corpo que abraça
Corpo que ama
Corpo sagrado

Ventre sagrado
Ventre que gera
Ventre que cria
Ventre que purifica
Ventre que acolhe
Ventre fértil
Ventre sagrado

...

       * Ofereça seu sangue menstrual para a Mãe Terra. Esse foi e ainda é um costume ancestral. Mulheres indígenas de tribos nativas dos EUA se reuniam na tenda da lua ou tenda vermelha durante o período menstrual e ofertavam seu sangue a Terra. No Brasil, em algumas tribos indígenas as mulheres se recolhem em cabanas específicas, sentam-se em círculo de cócoras e deixam seu sangue escorrer para a Terra, como uma forma de oferenda e ao mesmo tempo purificação. Caso você use absorventes, derrame um pouco de água nele e o esprema sobre a terra (ou em vasos de plantas), oferecendo à Mãe Terra e pedindo pela cura do planeta e da humanidade. Sinta-se grata pela Deusa Terra compartilhar com você Seu poder de fertilidade.

       * Consulte oráculos pedindo conselhos para algum momento difícil em que esteja passando.

      * Se possível, reúna-se com outras mulheres, forme um Círculo de Mulheres, troquem informações, experiências, saberes, fortaleçam-se nessa união, celebrem juntas o sangue sagrado e a alegria de ser mulher.


(Um Círculo de Mulheres)


Essas ideias aqui sugeridas foram e são frutos de minha vivência pessoal. Saiba que não é necessário você realizar todas elas, pode optar por algumas e adapta-las ao seu contexto. Fique a vontade e ouça sua intuição. Espero com isso incentivar cada vez mais mulheres a celebrarem sua menstruação e fortalecerem em si o Sagrado Feminino, independentemente se seguem ou não uma religião ou espiritualidade, pois torna-se urgente o surgimento de uma nova consciência, de uma humanidade com mulheres, e também homens, conectados com a Natureza e em sintonia com os ciclos sagrados. 

24 de abril de 2012

"Eu agradeço pela minha parte"

“Na presença do meu povo,
desde o começo da vida,
Na visão dos deuses e não-deuses,
Em homenagem à imensa generosidade do universo,
Eu agradeço pela minha parte”.
(Altú Págánach, uma benção pagã).

Essa prece é muito conhecida e utilizada por druidistas e reconstrucionistas celtas. Trata-se de uma prece de agradecimento pela refeição e honra à natureza e aos deuses pela generosidade da Terra. O ato de proferir uma prece, como essa ou semelhante, antes de uma refeição demonstra, além de tudo, humildade perante os Deuses e a Mãe-Terra, que abundantemente nos oferecem frutos e alimentos. 
Nossa sociedade se acostumou com os supermercados e esquecemos muitas vezes que as verduras, frutas e mesmo a carne, não vem de fábricas ou dos próprios mercados, mas vem da Natureza, da terra ou do mar. É a ela que devemos agradecer primeiramente antes de nos alimentarmos. E em seguida, acho que todos (pagãos ou não) deveríamos agradecer em nossas preces ao animal que morreu para nos alimentar. Isso mesmo, agradecer ao espírito do boi, vaca, porco, peixe, frango ou outro animal que seja (isso para quem come carne, aqueles que optaram por uma alimentação vegetariana, não precisam, obviamente, fazer isso). Um dia seremos nós que morreremos e serviremos de alimento a outros seres, isso é inevitável e faz parte do ciclo da vida. 

Para alguns pode soar estranho o fato de agradecer ao espírito do animal, mas não para quem reconhece que o boi, a galinha e o peixe são seres vivos, e sendo vivos possuem alma, assim como o ser humano, assim como tudo que tem vida. E Tudo tem vida (os físicos modernos ou quânticos já entenderam isso). Não é uma questão de ser pagão ou não, é uma questão de respeitar a Vida. 
Reconhecer o sacrifício do outro animal, orar para que sua alma não sinta mais dor ou sofrimento, que sua próxima vida seja longa e feliz, e agradecer a Terra por sua bondade e generosidade é um ato louvável de humildade e sabedoria.
Nós, humanos, simplesmente não controlamos os ciclos da natureza, e não podemos ter certeza de que sempre teremos o pão de cada dia em nossas mesas. Ser grato a Terra e oferecer um pouco de "nossa parte" aos Deuses e Ancestrais é uma maneira de retribuir as dádivas que recebemos e esperar, de certa forma, que elas nunca nos faltem.

18 de janeiro de 2012

O Sonho

Nas asas da noite me entreguei, 
E ao abrir meus olhos para o mundo de dentro, 
Eu então sonhei. 
Estava em um bosque com árvores imensas, 
Cujas copas eu não enxergava, de tão altas que elas eram. 
Ou seria eu com uma altura tão pequena? 
O bosque reluzia uma luz tão dourada, mágica, 
E não parecia ser do sol, e nem sequer o sol era visto. 
A luz vinha de outro lugar, 
Desconhecido, místico. 
Só, eu não me encontrava. 
Dois seres feéricos me acompanhavam. 
Um belo rapaz e uma dama encantada, 
E vestidos de verde eles estavam. 
Eles disseram-me coisas que não lembro mais, 
Ficaram guardadas na memória da alma, 
E o que reinava ali era essencialmente a paz. 
Folhas caídas no chão formavam um lindo tapete. 
A luz dourada era o doce alento dos nossos corações. 
As árvores altas e sagradas eram as paredes, 
De um templo que ressoam ainda hoje em antigas canções. 
Como uma brisa, eu lentamente despertei, 
E antes de abrir os olhos uma voz sussurrou em meu ouvido: 
Daronae, Daronae, Daronae. 
E desde então Darona eu me chamei. 

/|\

16 de janeiro de 2012

Minha jornada no Druidismo


Senti vontade de escrever sobre parte da minha jornada no caminho druídico. Acho que alguns irão se identificar com algumas coisas que vivi... afinal, estamos todos juntos na mesma barca... rs. Espero que minhas palavras sirvam de alento aos que estão começando e que encontram dificuldade nessa desafiadora e mágica jornada. Lembremos, o ferro para ser forte precisa ser muitas vezes golpeado na forja.

Nasci em 1988, numa família católica, durante os meses chuvosos de janeiro, sendo a do meio de três irmãs. Desde criança tenho um interesse por religião (de um ponto de vista mais universal, essencial) e espiritualidade. Sempre tive uma sede de conhecimento pelo mistério da vida e do universo. Lembro de estar frequentemente olhando pro céu noturno, observando as estrelas, a lua, como se ali residissem o mistério e as respostas de tudo. Também gostava de olhar e tocar as plantas, aprender seus nomes e se tinham alguma propriedade medicinal. Infelizmente, não tinha ninguém para me ensinar sobre as plantas e geralmente levava a dúvida pra casa... Desde criança tinha em mente que as plantas e também os animais possuíam alma, que sentiam dor, tinham sentimentos, e eram racionais sim. Rejeitava aquela ideia de que o homem era o único animal racional. Que ideia mentirosa. Quantas e quantas vezes testemunhamos atitudes de seres humanos absurdamente irracionais e cruéis. Enquanto vemos situações em que animais, cães, gatos, entre outros, agem com muito mais ‘humanidade’ do que o próprio ser humano.
O mundo para mim sempre foi mais do que me aparentava ser. Nunca acreditei que o mundo material era a única realidade existente. Haviam outros mundos paralelos a esse. O mundo dos sonhos, o mundo dos animais, o mundo das plantas, o mundo das fadas, o mundo dos que já morreram nesse mundo... todos se comunicando e interagindo, sem se sobrepor um ao outro.
Quando tinha entre 15 e 16 anos descobri a Wicca, através de um livreto em uma banca de revista. Identifiquei-me com aquelas ideias, e foi quando então adentrei num universo muito diferente do que me ensinavam na escola, igreja e em casa, mas ao mesmo tempo muito familiar. Foi quando entrei em contato com a mitologia celta, e entre um caldeirão de elementos, crenças e mitos de culturas diversas que a wicca é, tudo que se relacionava aos Celtas me chamava mais a atenção, e a alma.

Um certo dia, em dada hora da noite, tive uma experiência que me marcou profundamente, não lembro a idade que tinha, mas era ainda nessa faixa da adolescência, entre meus 16 e 17 anos. Estava no quarto, mudando de canal na televisão a fim de encontrar algum programa interessante, até que parei num canal cuja imagem não funcionava, a tela estava toda cinza e chuviscada, mas o som saia normalmente. Um grupo tocava uma música ao vivo. E aquela música... ah aquela música... eu conhecia... mas ao mesmo tempo nunca tinha ouvido. Uma melodia linda tocada por flautas, violinos e outros instrumentos que não sabia identificar na hora. Uma música que falou ao meu coração e despertou uma luz, uma lembrança em minha alma. Lembro-me de ficar pulando na cama, com os olhos lacrimejando e dizendo com súbita alegria e certeza “é celta, é celta! Essa música é celta!”. Nunca tinha ouvido música celta até então, mas de alguma forma eu sabia que era uma música desse estilo. Fui tomada por um misto de saudade, alegria e êxtase... Me acalmei e continuei ouvindo (ainda sem ver nenhuma imagem na tv) o grupo tocar mais uma outra música para então a apresentadora, antes de encerrar o programa, falar o nome do grupo e das últimas músicas que foram tocadas. O grupo era o Keltoi, um grupo brasileiro por sinal. Assim que terminou o programa, desliguei a tv e fui ao computador procurar na internet (essa maravilhosa invenção) alguma coisa sobre o grupo musical. E encontrei, alguns sites e músicas para baixar, dentre elas estava aquela que tocara meu coração, a Yew Tree. Foi por essa época que “descobri” o Druidismo e a cultura celta com um pouco mais de profundidade.

Por volta dos meus 18 anos percebi que a Wicca não era meu caminho, e sim o Druidismo. De certa forma, acredito que eu já estava no Druidismo antes de entrar ‘oficialmente’ nele, acho que antes mesmo de vir a esta vida já pertencia a esse caminho...
Quanto mais estudava em livros e em sites específicos (principalmente em sites, pois livros em português ainda são poucos) na internet sobre Druidismo e cultura celta, mais eu tinha consciência que estava no caminho certo, no meu caminho, mais eu tinha a sensação de estar “voltando pra casa”, mesmo que minha família não entendesse meu caminho... Pois é, sofri bastante com o preconceito e intolerância por parte de alguns parentes que não compreendiam minha escolha, que não aceitavam meu jeito de ser. Geralmente tinha que esconder os livros, os objetos que usava em meditações e rituais, e quando vinham à tona, quando eram descobertos, resultava em discussão e briga. 
Foi uma fase difícil da minha vida essa, viver entre pessoas que não me entendiam, que me julgavam, e que no mínimo me achavam estranha. Um peixe fora d’água, era o que me sentia. Um erro nascer nesse lugar, nessa família, era o que eu pensava. Por que não na Irlanda, na Escócia ou em qualquer outro lugar e com pessoas que compartilhavam de minhas crenças? , era o que eu me perguntava. Mas os Deuses são sábios e vivemos certas coisas para nos tornarmos fortes e aprender a virtude da paciência. Pois foi com paciência que superei a incompreensão de minha mãe, que no fundo sentia preocupação se sua filha estava lendo coisas boas e se estava tendo amizades com pessoas de bem... Ao perceberem que esse era meu jeito de ser e que as coisas que eu lia e acreditava me faziam bem, as discussões e o preconceito tiveram um fim. “Não há nada de errado afinal em acreditar em fadas, em meditar, em acender incensos, ouvir músicas de flauta e violino e tirar tarot ou essas pedrinhas que ela joga. Deixa ela, ela é assim mesmo”. Acho que era isso pensavam de mim rs.

Com o tempo fui sentindo uma solidão na minha jornada. Tinha vontade de fazer parte de um grupo druídico, mas não havia nenhum em Belém, nem encontrava ninguém que se interessasse pela cultura celta de fato. No começo isso me entristecia, mas depois me conformei e acreditei que se um dia encontrasse pessoas interessadas em formar um grupo de druidismo, eu encontraria no momento certo. E no fundo, eu não me sentia completamente sozinha, os Deuses estavam comigo, me guiando, protegendo e inspirando ao longo de toda essa jornada.
E eu fazia parte de um grupo sim, a família druídica brasileira. A internet me possibilitou conhecer pessoas que também seguiam o druidismo em diversos lugares do Brasil, e mesmo que eu nunca as tivesse visto pessoalmente, eu sentia que as conhecia. Ainda hoje converso com a maioria dessas pessoas que conheci no início de minha jornada, e que me ajudaram bastante, apontando caminhos, tirando dúvidas... Considero essas pessoas como minhas amigas, e tenho por cada uma delas um carinho imenso. Acho que essa é aliás uma característica especial do Druidismo no Brasil. Não somos muitos, como na Inglaterra, Irlanda e EUA, mas talvez por sermos poucos é que somos mais unidos, sentimo-nos como uma família de amigos e irmãos. Claro, de vez em quando tem discussões e desentendimentos entre druidas e druidistas, mas é normal. Basta juntar dois ou mais seres humanos pra qualquer hora dessas rolar uma discussão, muitas vezes saudável. De qualquer forma, o respeito prevalece, ou deve prevalecer, em toda e qualquer relação.

Em 2011 muitas coisas aconteceram que marcaram definitivamente minha jornada no Druidismo. Finalmente encontrei pessoas de Belém que se interessavam e estudavam a cultura e espiritualidade celta, e tivemos a iniciativa de criar um grupo, o Nemeton Samaúma. O grupo é uma semente e ainda está fortalecendo suas raízes, temos muito a aprender e muito a crescer.
No ano de 2011 foi quando participei do II Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta. Em três dias vivi momentos que jamais vou esquecer. Conheci pessoalmente meus amigos de caminho, que há tanto tempo conversava por meio da internet, mas nunca sequer tinha ouvido suas vozes ou visto o brilho de seus olhos. Ao vê-los, reconheci como irmãos e irmãs que há muito não via. Eu realizei um sonho. Conheci pessoas que compartilhavam de minhas crenças, que gostavam do mesmo estilo de música que eu, que viam o mundo com olhos semelhantes aos meus. Sentei ao redor de uma calorosa fogueira, bebi hidromel, ouvi lindas melodias de harpa, flautas e bódhrans, dancei em círculo com irmãos de alma, cantei aos Deuses do Céu, da Terra e do Mar com druidas e druidesas. Eu vivi um sonho. Que aliás, espero viver de novo esse ano no III EBDRC.
Hoje, aos quase 24 anos, sigo estudando e vivenciando o Druidismo, a cada dia aprendendo novas e antigas coisas, navegando entre águas ancestrais, brumas místicas e vozes amigas, sendo guiada pelos Deuses e Deusas, e em especial por minha senhora, Brighid.
Há certas coisas, muitas coisas, que eu não sei. Não sei se continuarei morando em Belém, não sei como será o futuro do Nemeton Samaúma, não sei por que as fadas e espíritos da natureza não são visíveis aos olhos humanos (já pensou? seria tão bom se fossem!). O que eu sei, do fundo da minha alma, com a força dos meus ossos, é que o Druidismo é o meu caminho e que os Deuses, meus Ancestrais e minha Tribo são minha fortaleza, e pretendo honrá-los em cada passo dessa e de outras jornadas. E se esse for o meu destino, que assim seja e assim se faça.

Bendito seja o caminho que nos leva ao encontro dos Deuses.
Bendita seja a Natureza, a guia e mestra de todos os que buscam a sabedoria.
Benditos sejam todos aqueles que trilharam e trilham o Druidismo,
que possamos aprender com os Antigos e deixar boas sementes aos nossos filhos.