16 de dezembro de 2011

Sobre Celtas e Druidas

Texto originalmente postado no blog do Nemeton Samaúma, e que transcrevo para cá também.

OS CELTAS 

Os celtas falavam línguas de origem indo-europeia, cujas variações hoje são o irlandês, o gaélico escocês, o córnico, o galês e o bretão – portanto, os celtas eram de origem indo-europeia, assim como também o são os povos germânicos, eslavos, gregos, romanos e indianos. Uma análise de evidências arqueológicas mostra a difusão de um povo nômade através da Europa, que se espalhou tanto em direção ao ocidente quanto ao oriente, e a medida que se estabeleciam e se mesclavam com populações locais pré-históricas, que remontam ao paleolítico, deram origem a diversos povos da antiguidade. 
Estudos indicam que os Indo-Europeus podem ter introduzido no continente tecnologias de construção de fortalezas, criação de gado, bem como uso de veículos com rodas para uso bélico. Além disso, tinham uma estrutura social mais definida, dividida entre um povo cultivador, uma classe de sábios e eruditos, e uma elite guerreira. 

Território ocupado pelas tribos celtas. 

Os celtas, além de herdarem a cultura linguística indo-europeia, também herdaram alguns costumes sociais e valores espirituais, como: 

- Sociedade relativamente patriarcal (embora, não seja errado também afirmar que era relativamente matriarcal, já que os direitos de mulheres e homens eram em muitos aspectos iguais, e a participação das mulheres na sociedade era mais marcante se comparada a sociedade greco-romana, por exemplo). 
- “tripartida”, de acordo com o estudioso Dúmezil: o povo ‘comum’, composto por trabalhadores, pastores, agricultores; os eruditos, que seriam os sacerdotes, adivinhos, curandeiros, e demais que possuíam o “ouvido dos Deuses”, e em alguns casos, artesãos específicos, como ferreiros; e a nobreza, que seria formada por uma elite, inicialmente guerreira. Não havia uma hierarquia absoluta entre esses grupos, pois entende-se que todos são importantes para o funcionamento e harmonia da comunidade. 
- Religião politeísta e animista (onde o sagrado estava presente nos fenômenos naturais, ou seja, em rios, árvores, colinas, animais). 

A primeira etapa do desenvolvimento da cultura celta é conhecida como Hallstatt e é identificada com o período que vai de 700 a 450 antes da era cristã (a.e.c.), mas variações dos idiomas celtas já eram falados pela Europa séculos antes.Os paleo-linguistas apontam para o vale do rio Danúbio, na Europa Central, como o berço onde surge o idioma celta. Os vestígios arqueológicos da região mostram que, nessa área, desenvolveu-se a cultura Hallstatt, caracterizada por fortificações em colinas, sepultamentos ricamente elaborados (alguns com carruagens inteiras) e uma arte singular. Nessa área fica a vila austríaca de Hallstatt onde, em 1846, Georg Ramsauer descobriu um cemitério da Idade do Ferro. As escavações revelaram mais de mil sepulturas com objetos – espadas, escudos, lanças, cerâmica – de formas características, identificadas com a cultura celta. Mais tarde, em 1857, uma seca no lago Neuchatel, na Suíça revelou uma nova fase do desenvolvimento da cultura celta, que recebeu o nome da vila às margens do lago: La Tène, que corresponde ao período de 450 a 50 anos a.e.c. 
Os celtas promoveram incursões regulares às terras circunvizinhas, culminando com a expansão dos territórios por eles povoados. Partindo de suas terras na Europa Central, os celtas estabeleceram-se nas Ilhas Britânicas (700 a.e.c.), na Península Ibérica (600 a.e.c.), no norte da Itália (400 a.e.c.), saquearam Roma (390 a.e.c.), cruzaram os Cárpatos (310 a.e.c.), saquearam Delfos na Grécia (279 a.e.c.), fundaram os reinos celtas da Galácia na Ásia Menor e de Tylis nas margens do Mar Negro e quase se estabeleceram ao longo do Rio Don, na Ucrânia.

Os celtas mantiveram muitos contatos comerciais e culturais com gregos e romanos. Às vezes estabelecia-se uma relação pacífica entre esses povos, outras vezes a relação era conflituosa, e desencadeava comumente em guerras. As trocas culturais eram inevitáveis. Os celtas da Gália, por exemplo, absorveram muitos costumes mediterrâneos, como o uso da moeda, a construção de estruturas proto-urbanas (oppida), e a influência na própria arte. No entanto, aos poucos a relação entre celtas e romanos foi se tornando cada vez mais complicada. 
No extremo oeste da Europa, onde hoje é Portugal, vivia a tribo celta dos Lusitani, descrita pelos romanos: “nos confins da Europa, onde as terras beijam o mar, vive um povo selvagem que não se governa e não se deixa governar”. Em 139 a.e.c. os romanos assassinam Viriato, líder dos Lusitani, com a ajuda de traidores de seu próprio bando. A expansão de Roma, então, se fortalecia.

Anos depois, o sul da Gália é anexado a Roma tornando-se uma província romana. É aproximadamente nesse período que surgem a maioria dos registros de redatores clássicos sobre a cultura celta, como o do grego-sírio Poseidonius (que infelizmente, hoje só restam alguns trechos citados por outros autores, pois o texto integral se perdeu), Diodoro da Sicília, Estrabão, Ateneu, Julio César e outros. Esses registros normalmente foram escritos em épocas de guerra com os Celtas da Gália ou Grã-Bretanha, e em parte são tendenciosos e reprimem alguns aspectos de sua cultura. Mas ainda assim, são importantes, pois nem sempre são realmente detrativos e foram escritos por sociedades que tinham mentalidades, ao menos em parte, semelhantes à dos Celtas, ou pelo menos muito mais próximas do que a dos cristãos medievais. 

Em 55, Julio César finaliza a conquista da Gália após a batalha de Alésia, quando o líder gaulês Vercingetorix depõe suas armas. Vercingetorix é até hoje lembrado pelos franceses e estudiosos da cultura celta como um herói, por ter conseguido um feito grandioso: unir tribos celtas diferentes sob seu comando e quase expulsar as hostes romanas do território gaulês. A autoridade inter-tribal era uma característica da habilidade e função dos druidas, e há indícios que o próprio Vercingetorix fosse um druida. 

Os druidas tinham grande respeito e poder na sociedade celta, e é óbvio que as conquistas das terras celtas da Gália e da Bretanha só seriam possíveis quando os romanos se livrassem dos druidas. Julio César afirma que os druidas da Gália dirigiam-se à Bretanha para lá serem instruídos, e é por isso que, após a conquista da Gália, os romanos se dirigem com força para as terras britânicas. 

Mesmo resistindo, os celtas britânicos são derrotados quando, em 51, o líder Caratacus é capturado. Menos de dez anos depois, os romanos promovem um terrível massacre da Ilha de Môn (Anglesey, País de Gales), um centro druídico onde a crueldade dos legionários romanos é reprovada até pelo historiador Tácito. Em Anglesey, mulheres, crianças e idosos são massacrados pelas legiões de Roma. 

A destruição desse centro druídico, somada a morte de seu marido e a violência física e sexual sofrida por Boudicca e suas filhas, tem relação direta com a revolta liderada por ela, a rainha dos Iceni, no ano 60. Ela uniu sob seu comando tribos diferentes com o intuito de expulsar os romanos da ilha da Grã-Bretanha, e ela quase consegue, mas sua resistência também se mostra insuficiente para deter as legiões, e diante da derrota iminente, Boudicca comete suicídio, preferindo tirar a própria vida a ser capturada e humilhada mais uma vez pelos romanos. 
Aqui cessam os registros clássicos sobre os celtas. As terras da Gália, da Grã-Bretanha, da Galácia e da Ibéria, não eram mais celtas, mas romanas; as tribos dos Boii, dos Sequani, dos Belgae, dos Parisi e outras, não eram mais completamente livres, pois haviam sido romanizadas e subjugadas. À exceção da Irlanda, Escócia e País de Gales, que não foram conquistadas por Roma, e conseguiram, portanto, preservar elementos de sua cultura. 
No entanto, mais tarde o cristianismo, a partir do século V, representou a nova ameaça às remanescentes tribos celtas, exercendo uma forte cristianização e sufocando a religiosidade antiga. Contudo, os monges copistas exerceram um papel fundamental na história dos celtas, registrando alguns mitos e contos da tradição oral para a escrita. A influência cristã nesses escritos é clara, mas ainda assim foi impossível ocultar elementos do “paganismo” celta e sem eles saberíamos muito pouco sobre sua mitologia. 

O Renascimento Druídico

E o que parecia morto, estava, na verdade, adormecido, mas de alguma forma já se manifestava no folclore, nos costumes e festas populares. Foi, então, que no século XVIII surgiu um movimento de “resgate” da cultura celta, iniciado na Inglaterra, com o surgimento da primeira ordem “druídica”, a Druid Order, criada por John Toland e John Aubrey, ambos católicos com interesse e estudos no ocultismo. 

A partir de então a “celtomania pagã” (como denomina Marc Orens) faz surgir uma série de novas ordens druídicas, que se diziam antigas, de ancestralidade verídica, mas que na realidade, todas estavam profundamente relacionadas com a maçonaria, o ocultismo e o cristianismo. Por outro lado, as línguas célticas que se encontravam extintas ou quase extintas começaram a renascer e a serem estudadas e faladas, como ocorreu na Cornualha, no século XX. 

Somente a partir do século XIX, com o nascimento da arqueologia, e século XX, com o avanço dos estudos históricos, linguísticos, antropológicos, o Neo-Druidismo e o Reconstrucionismo Celta (RC) começam a se basear fortemente nos estudos acadêmicos, como forma de se desvencilhar da influência do ocultismo e cristianismo e resgatar as características mais próximas possíveis da antiga cultura celta. O RC é um movimento cultural e religioso, consolidado nos anos 80 e que teve como um dos idealizadores Erynn Rowan Laurie, busca “reconstituir, em um contexto cultural Céltico moderno, os aspectos das antigas religiões Celtas que se perderam ou foram suprimidos pelo Cristianismo” (CR FAQ Brasil). 

No Brasil, não é possível estabelecer quando exatamente o Druidismo ou Reconstrucionismo Celta chegou ao país, mas imaginamos que já entre os anos 80 e 90 já existiam adeptos desses movimentos. Para algumas pessoas, entre os anos 2000 e 2002 ocorreu um marco para o movimento no país, através da presença de Robert Kaucher, um norte-americano considerado um ícone do Reconstrucionismo Celta, que pretendia organizar a Ordem Druídica do Brasil (ODB). Ele ganhou notoriedade e respeito por seu conhecimento e proposta séria, porém, a ordem não teve muito sucesso. Da ODB surgiram vários grupos, alguns ainda atuantes e outros não mais. No sul e sudeste do Brasil é onde se encontram a maioria dos grupos druídicos, como a Ordem Walonom, o Ramo de Carvalho, Caer Tabebuya, Caer Piratininga, Gergóvia, e entre outros; e também de grupos musicais, como Keltoi, Terra Celta, Leannan Shee, Braia. No nordeste, e especificamente na Paraíba, o druidismo se consolida através dos Brigaecoi. E no norte, existe o Nemeton Samaúma. 

Os celtistas e druidistas brasileiros geralmente procuram observar aspectos regionalistas em suas práticas, ou seja, procuram valorizar e honrar a cultura e história dos povos locais, indígenas, afro-brasileiros, além de, é claro, honrar a cultura e história dos celtas antigos. 

Cultura e Religião Celta


Depois de seu surgimento na Europa Oriental por volta do segundo milênio a.e.c., os celtas se expandiram pelo continente europeu em sucessivas ondas migratórias, chegando à Europa Ocidental entre os séculos VII e VI a.e.c. Quando as primeiras tribos celtas chegam às regiões hoje conhecidas como França, Ilhas Britânicas e Península Ibérica, aquelas áreas já eram ocupadas por culturas conhecidas como povos neolíticos, sobre os quais sabemos muito pouco. O que sabemos através dos vestígios arqueológicos é que sua cultura baseava-se na agricultura e na astronomia. Eles tinham conhecimentos precisos sobre a movimentação dos astros e corpos celestes, permitindo a construção de magníficas e misteriosas estruturas megalíticas como Newgrange na Irlanda, Carnac na França, Avebury e Stonehenge na Inglaterra. 

A chegada dos celtas àquela região pôs em contato essas duas culturas e, do contato entre elas, surge uma espiritualidade que funde os elementos indo-europeus trazidos pelos celtas e as características dos povos autóctones da região. O resultado dessa fusão deu origem a espiritualidade celta e o que chamamos hoje de druidismo. 

O politeísmo, a crença de que tudo tinha “alma” (animismo), a sacralidade da natureza, inclusive de animais, a crença na imortalidade da alma e nos mundos míticos e feéricos do Outro Mundo, são alguns aspectos da religiosidade celta. 

O desenvolvimento do druidismo permanece pouco conhecido desde suas origens até os primeiros contatos dos celtas com a cultura clássica, já que a escrita não era utilizada pelos celtas para registrar suas crenças; é somente a partir dos registros de gregos e romanos que os celtas e sua cultura entram de fato para a história oficial. Os druidas (de druid, druir, druwid) palavra que se traduz hoje como “o que tem a sabedoria do carvalho” (uma árvore sagrada para os celtas), eram os sábios da sociedade, e além de terem funções religiosas e sacerdotais, eram também juízes, poetas, músicos, conselheiros e curandeiros. 

Diodoro da Sicília escreve sobre os druidas gauleses que: 
Os filósofos, como nós os chamamos, e os homens versados em assuntos religiosos são especialmente honrados entre os gauleses, que os chamam de druidas. Os gauleses também se valem de adivinhos, tendo-os na mais alta estima; esses homens preveem o futuro através do vôo ou do canto das aves e do sacrifício de animais sagrados, e toda a população lhes é obediente... é seu costume não praticar nenhum ritual sem um desses ‘filósofos’, pois as oferendas aos deuses devem ser feitas pelas mãos daqueles que conheçam a natureza do divino, e que falem, por assim dizer, a língua dos deuses. É também por intermédio desses homens que eles recebem suas bênçãos.
Escreveram sobre os druidas diversos redatores clássicos, como Pomponius Mela, que afirma que eles “são mestres de muitas artes”, e também César, observando que eles “costumam discutir os astros e seus movimentos, a grandiosidade do mundo e da terra e sobre a natureza das coisas”. Os próprios celtas não adotaram a escrita, raras vezes utilizavam o dialeto local para escrever coisas simples, como a demarcação de locais especiais, territorial ou funerário. Em algumas regiões, como na Irlanda, era utilizada uma escrita sagrada, Ogham, para inscrições em pedras, árvores e ossos, ao mesmo tempo em que era usada como oráculo. 

Qualquer indivíduo poderia se tornar um druida na sociedade celta, desde que se submetesse ao um treinamento longo e árduo, que durava em torno de 20 anos, nos centros druídicos existentes em alguns locais e ilhas na Bretanha e antiga Inglaterra. São conhecidos três tipos de sacerdotes, que são na verdade estágios do treinamento: bardo, vate e druida. O bardo é aquele que conhece os mitos, contos e leis célticas, ele deve conhecer a história de seu povo e saber contá-las, e também possuem conhecimento de música. O vate conhece os oráculos, técnicas de cura e meios de comunicação com os mundos espirituais. O druida, por sua vez, reúne as funções e conhecimentos do bardo e vate, realizam os rituais, os sacrifícios, aconselham o rei e a população, decidem sobre situações da tribo (questões de propriedade, divórcio, crimes), interpretam os presságios, interveem conflitos inter-tribais, etc. 

Da mesma forma como havia sacerdotes, também havia sacerdotisas na sociedade celta, embora não tenha se utilizado o termo “druidesa” em documentos históricos até antes do século 3, segundo Miranda Green, para denominá-las, é inegável a existência de mulheres sábias, curandeiras, magas e profetizas. 

Pintura representando druidas e druidesas em um rito de retirada do musgo do carvalho. 


A seguir, algumas das principais crenças e características do Druidismo: 


DEUSES E DEUSAS: Praticamente cada tribo possuía um panteão próprio, embora algumas divindades possam ser consideradas “pan-célticas”, pois eram reverenciadas em diversas tribos, tendo apenas algumas variações em seus nomes e atributos; exemplo: Lugh Samildanach – Llew Llaw Giffes; Brigit – Brigantia – Bríg Ambue; Epona – Rigantona – Macha – Rhiannon; Manannan Mac Lir – Manawyddan. Entre as deidades celtas não há hierarquias ou conceitos de dominância como se encontra na mitologia grega. E nem possuem um único atributo, como "o deus da guerra" ou "a deusa do amor". Os deuses têm múltiplas faces, atributos e características. Não são apenas bons ou apenas maus. A idéia de dicotomia ou maniqueísmo de que estamos acostumados não é presente, e sim o equilíbrio de forças negativas com positivas. Os deuses podem ser num momento benevolentes e noutro cruéis, tal como a própria Natureza, forma máxima de expressão das divindades. Como uma chuva que cai sobre a Terra que pode ser uma benção quando os campos estão ressequidos ou uma desgraça quando causa enchentes e destruição. Os druidas e os celtas não adoram os deuses, procuram desenvolver com eles um relacionamento pessoal baseado em honra, amizade, reconhecimento e laços de hospitalidade, mesmo porque alguns deuses são os ancestrais, ou seja, nossa família. Assim era com os celtas em tempos antigos, e assim continua hoje entre os pagãos celtas modernos. 

Deusa gaulesa Epona. 

ANIMISMO: cada característica da natureza (um rio, uma montanha, um lago, uma floresta, a chuva, os ventos, o trovão, as estações do ano) possui, do ponto de vista druídico, um espírito próprio, uma energia vital por trás do elemento em questão, com a qual é possível estabelecer um diálogo, uma relação, um contato de espírito para espírito. 

NATUREZA SAGRADA: a ideia de animismo resulta na crença de que a natureza é viva e sagrada. As divindades celtas são os espíritos que habitam nosso mundo, dando-lhe forma e interagindo conosco. Diversas montanhas, florestas, nascentes e lagos das paisagens celtas refletem a mesma crença de que a paisagem é povoada por poderosos espíritos da natureza – em outras palavras, deuses e deusas. O fato de os druidas históricos não construírem templos, como os romanos, é explicado justamente por sua crença de que nenhuma estrutura erguida por mãos humanas é tão sagrada quanto a Natureza que nos rodeia. 

RODA DO ANO: As datas sagradas do druidismo estão associadas às estações do ano, cada qual com temáticas e mitos que promovem a compreensão dos ciclos da vida como um todo: nascimento, apogeu, declínio, morte e renascimento. Os principais rituais realizados no druidismo são: Samhain (fim do verão), que ocorre no hemisfério norte entre os dias 31 de outubro a 2 de novembro; Imbolc (primeiro sopro da primavera), 1º de fevereiro; Beltane (início do verão), 1º de maio; La Lunása (primeira colheita), 1º de agosto. Além desses também são celebrados os solstícios de verão (entre 21 e 24 de junho), de inverno (21 de dezembro), e equinócios de primavera (21 de março) e outono (21 de setembro).

O UNIVERSO: não há um registro histórico ou mitológico de uma cosmogênese, os mitos e lendas celtas não mencionam uma criação, um início do universo. Para alguns druidistas isso quer dizer que o universo não foi criado, mas que ele vem sendo criado através das eras, pelas ações transformadoras do tempo, da Terra e das criaturas, sobretudo nós. Esta visão é interessante, pois nos devolve a responsabilidade por nossos atos, individuais e coletivos. A ação individual é parte da ação global, e pelo pensamento céltico estamos todos interligados. Cada ser humano deve ter consciência de seus atos, das causas e consequências, das origens das coisas e pensamentos, das interconexões, e de que cada indivíduo tem um papel dentro do Universo. 

OS TRÊS MUNDOS: os celtas viam o mundo dividido por três níveis de realidade: um mundo superior, este mundo intermediário e um mundo inferior - todos interligados e entrelaçados como num ‘knotwork’ celta. Entende-se essa divisão também como Céu, Terra e Mar, os três reinos divinos; e Corpo-Mente-Espírito. Como a cultura celta e o druidismo prezam o equilíbrio e não o conflito entre os extremos, então, não existe conceitos como bem ou mal absolutos, e nem “Paraíso” ou “Inferno”. O que existe é a percepção do ‘mundo médio’ (o universo em que vivemos) e o Outro Mundo, o mundo sutil, espiritual, divino. 

O OUTRO MUNDO: seja na forma de ilhas a oeste das terras celtas, seja na forma das colinas ocas da paisagem britânica, o Outro Mundo Celta é sempre descrito como um local “paradisíaco”, habitado por deuses e deusas, heróis e heroínas, onde não há inverno nem tempestades e há fartura e alegria. O Outro Mundo é tanto perceptível de forma física quanto intuitiva; lagos, o mar, poços e rios são passagens para o Outro mundo, assim como fendas no solo, colinas, montanhas, florestas e árvores específicas. É possível também que uma passagem para o Outro Mundo possa ser construída, facilitada através de técnicas apropriadas, da mesma forma que pode ser obstruída. 

A ALMA CELTA: a alma de um indivíduo é a manifestação de uma consciência maior, que é o conjunto de todas as almas. Essa alma é indestrutível, assim como o espírito do universo. A crença de que a alma de um indivíduo pode ‘migrar’ para outra criatura após a morte, foi confundida com o conceito de reencarnação (bastante presente tanto na religião hindu como na espírita), que implica num constante processo evolutivo, e que um dia se encerra. Mas se o universo é infinito, ele não pode se encerrar definitivamente ou estagnar. Além do mais, a ideia de evolução pressupõe uma “hierarquia”, em que uma espécie é ‘superior’ a outra. Ao afirmar que um ser é superior a outro podemos cair no problema de dizer que uma raça é superior a outra. Essa ideia de reencarnação evolutiva ignora o fato de que, para o universo, um ser humano, uma planta e uma bactéria tem a mesma importância. Quando entendemos que os celtas acreditavam que a alma de um ser humano poderia renascer noutra criatura, reforça-se a percepção de que tudo na paisagem é sagrado, dotado de vida. 

ANCESTRALIDADES: estamos acostumados com o conceito de ancestralidade associado a “linhagem sanguínea”. Temos um pai e uma mãe – nossos ancestrais diretos – e também avós, bisavós, trisavós e assim por diante. Essa ancestralidade sanguínea determina quem somos fisicamente (a cor de nossos olhos, pele e cabelos, estatura etc.) e parte de quem somos psicologicamente. A eles todos devemos o simples fato de existirmos. Mas essa não é nossa única ancestralidade. Há também a ancestralidade local ou nativa, que se refere aos povos originários de nossa terra, região ou cidade. E há outra, tão importante quanto as outras, que determina o que cremos, nossos valores e filosofia, ou seja, determina a herança de nossa alma. A ancestralidade espiritual ou de alma, que não depende da ancestralidade sanguínea. Quando optamos por seguir uma determinada religião ou tradição espiritual, inevitavelmente ingressamos num caminho aberto por outros antes de nós. Para que sigamos esse caminho com segurança é essencial que conheçamos suas características, história, origens e transformações. 

AWEN / INSPIRAÇÃO: o conceito da Awen já foi traduzido como “espírito que flui” através de nós, êxtase poético, arrebatamento profético, enfim. Mas a palavra e o sentido que mais define a Awen (do galês, ou Imbas, do gaélico) é Inspiração. Inspirar é receber algo, introjetar, gerar, criar, conhecer... E posteriormente expirar, transformar em ação o que se aprendeu. Como o ar que inspiramos e enche nossos pulmões, a Awen nos toca, nos estimula e transforma, primeiro interior e individualmente, depois coletivamente. De dentro para fora. Do indivíduo para a comunidade. A Awen, portanto, é o espírito que flui através de nós, é o que inspira nossas ações. Quando reconhecemos a presença do espírito em tudo, é possível então o contato profundo entre cada um de nós e “o outro” – seja o outro uma pessoa, um animal, uma paisagem, um nascer do sol, um lugar, uma música ou nosso trabalho. 



SUGESTÃO DE ALGUNS LIVROS: 

BARROS, Maria Nazareth Alvim de. Uma Luz sobre Avallon. São Paulo: Mercuryo, 1994. 

BELLIGHAM, David. Mitología Celta: Dioses e Leyendas. Madrid: EdimatLibros, 1997. 

ELIADE, Mircea. Tratado de História das Religiões. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 

FUNARI, Pedro Paulo (org.). As Religiões que o Mundo Esqueceu. São Paulo: Contexto, 2009. 

KONDRATIEV, Alexei. The Apple Branch: A Path to Celtic Ritual. 1992. 

LAUNAY, Olivier. A Civilização dos Celtas. Rio de Janeiro: Otto Pierre Editores, 1978. 

MACKENZIE, Donald Alexander. Wonder Tales from Scottish Myth and Legend. 1917. 

MAY, Pedro Pablo G. Os Mitos Celtas. São Paulo: Angra, 2002. 

Revista História Viva. Celtas. São Paulo: Duetto, maio 2004. 

SQUIRE, Charles. Mitos e Lendas Celtas. São Paulo: Nova Era 

ORENS, Marc. A Civilização dos Megálitos. Rio de Janeiro: Otto Pierre Editores, 1980.


Um comentário:

  1. Ola lindo Cisne!!!
    Gostaria de poder trocar algumas mensagens com vc, seria possível por Facebook? Ou WhatsApp! ? Fico no aguardo. Carinho!! AWEN/|\

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