Não me deterei em explicar sobre a história e significado desse festival céltico, pois iria apenas repetir o que já está escrito em muitos bons artigos:
Então, nesse breve texto darei algumas sugestões (simples) para celebrar o Imbolc.
Como esse é um dos festivais celtas mais domésticos, por causa do extremo frio que faz essa época nas terras da Europa[1], as famílias se reuniam em suas casas, em especial diante da lareira para honrar a deusa Brighid que em breve traria o Sol e o calor. Preces, canções, atos mágico-religiosos e oferendas eram feitas para a proteção da casa, da família e dos animais.
No dia 1 de fevereiro (ou numa data próxima) comece suas práticas religiosas para honrar e saudar esse festival[2]. Limpe sua casa, seu quarto. Faça uma faxina. Livre-se de coisas velhas, que não usa mais ou que lhe lembram de coisas ruins que aconteceram. Mude, transforme hábitos, pensamentos e atitudes negativas e viciosas.
Enquanto que em Samhain e Solstício de inverno damos mais atenção aos anciãos e antepassados, no Imbolc e na Primavera focamos nas crianças e nos pequenos.
Acenda uma vela em honra a Brighid na cozinha e se for possível coloque-a sobre ou próximo ao fogão (a nossa “lareira” hoje). Enquanto a chama queima, ouça músicas que gosta (e que Brighid talvez possa gostar também), cante cantigas para Ela (de sua autoria ou não), entoe poemas, ore a Ela e aos ancestrais, pedindo por proteção, cura, prosperidade, alegria, amor ou o auxílio para um problema em questão. Cozinhe. Faça algo inusitado ou tradicional, de família ou seu em particular. Ao ficar pronto compartilhe do alimento com amigos e parentes queridos, e ofereça um pedaço a Brighid (enterre, queime, deite sobre um rio ou deixe no altar por um tempo). Você pode oferecer também leite, mel, água, um arranjo de flores ou uma arte feita por você.
Ao sol se pôr ou quando achar que é propício acenda uma chama (uma vela ou fogueira) e recite orações e/ou poemas para Ela. Podem ter sido criados por você ou por outra pessoa, não importa muito, contanto que sejam palavras verdadeiras, intensas e que lhe toquem a alma. Se quiser, dance para (e com) Ela. Coloque para tocar uma música animada que goste, dessas com violinos, flautas e tambores... Ou então toque você mesmo um!
Deixe sua inspiração fluir. Deixe que Brighid fale aos seus ouvidos e coração. Deixe ela entrar em sua casa e encher você e aos seus de bençãos![3]
Obs: Na região norte do Brasil não temos um inverno como na Europa ou sul e sudeste brasileiro. Nosso inverno é carregado de chuvas, e ainda assim o calor é presente. Mas a água é quem reina nessa época, e à ela devemos dedicar honra e respeito nos festivais dessa metade do ano. Brighid é também senhora que cura, deusa das águas sagradas, dos poços e fontes. Que as águas que caem dos céus e as águas que enchem os rios nos purifiquem e levem embora para o mar o que não nos serve. Que as águas de Brighid nos cure, purifique, proteja e nos encha de bençãos de fertilidade!
Poemas ou canções para Brighid
Quem é ela que tem os cabelos de fogo e olhos penetrantes?
Quem é ela da voz suave e doce canto?
Quem é ela da face mais bela e mãos que afastam o pranto?
Quem é essa que guarda os segredos da cura?
Quem é essa que doma o fogo e a água?
Quem é essa da aura pura e radiante como a lua?
É Brighid, dos cabelos de fogo!
É Brighid, da fala mais doce!
É Brighid, da alma serena!
É Brighid, dos raios de sol!
Mãe da canção,
Mãe dos poetas,
Mãe da purificação.
Luz que me guia,
Luz que me protege,
Luz que me inspira e me dá sabedoria.
Divina mulher, estejas em minha casa.
Sábia senhora, estejas em minha fala.
Grande curadora, esteja em minhas mãos.
E pelo poder dos Três,
Que eu esteja em ti
E Tu estejas em mim.
Em uma só Canção,
Dentro de um só Coração,
Em plena União.
(Darona ní Brighid, escrito em 04/01/2013)
***
Quem é ela que vem com o Sol?
Quem é?
Quem é ela que traz o calor e a alegria?
Que é ela que traz a cura e a sabedoria?
Quem é?
É Brighid!
Rainha do fogo.
Senhora do poço.
Mãe dos poetas.
Guardiã da lareira.
Matrona da família!
(Saudação a Brighid e ao Imbolc. Darona, em 29.01.13).
***
Gabhaim molta Bríde
Ionmhain í le hÉirinn
Ionmhain le gach tír í
Molaimis go léir í
Lóchrann geal na Laighneach
A’ soilsiú feadh na tíre
Cean ar óghaibh Éireann
Ceann na mban ar míne
Tig an geimhreadh dian dubh
A’ gearradh lena ghéire
Ach ar Lá ‘le Bríde
Gar dúinn earrach Éireann
Tradução:
Eu louvo Brighid
Amada da Irlanda
Amada de todas as terras
Deixe-nos todos louvá-la
A tocha brilhante de Leinster
Brilhando em todas as partes da terra
O orgulho de todas as mulheres irlandesas
O orgulho das mulheres de bondade
Vem o Inverno escuro e difícil
Cortante com a sua severidade
Mas no dia da Santa Brighid
A Primavera irlandesa está perto de nós (Tradicional canção/oração a Brighid)
***
Brighid do manto, rodeai-nos
Senhora dos cordeiros, protegei-nos
Defensora da lareira, iluminai-nos
Sob o vosso manto reuni-nos e restitui-nos a memória
Mãe das nossas Mães, antepassadas corajosas
Guiai nossas mãos nas vossas
Para acender a lareira, mantê-la viva, preservar a chama
Vossas mãos sobre as nossas, nossas mãos nas vossas
Para acender a luz tanto de dia como de noite
O manto de Brighid em torno de nós
A lembrança de Brighid dentro de nós
A proteção de Brighid livrando a nós
do mal, da crueldade e da ignorância
Neste dia e noite, do amanhecer ao anoitecer, do anoitecer ao amanhecer.
Assim seja.
(Tradicional prece a Brighid).
[1] No inverno, os dias que precedem a primavera são justamente os mais frios. À noite, o momento que precede a aurora costuma ser o mais escuro.
[2] Antes disso (uns dias antes), sugiro que estude e pesquise sobre a história, costumes e significados desse festival.
[3] Você pode fazer tudo o que foi sugerido aqui ou mais, ou ainda apenas o que for possível. Mas faça, e com espontaneidade, alegria e verdade, e tenha certeza que Brighid lhe abençoará.
Diferente do que
geralmente acontece em outras regiões do Brasil ou do mundo, o Outono é uma
estação muito bem-vinda no norte brasileiro, e recebido com alegria, festas e
alívio. Alívio porque finalmente o calor intenso e o sol massacrante começam a
ceder o lugar para as chuvas, o céu nublado e um clima mais ameno.
Mesmo que não
tenhamos aquele cenário clássico dos filmes e pinturas, das árvores amareladas,
as folhas caídas formando um belo tapete no chão e o vento frio anunciando a
proximidade do inverno, ainda assim amamos essa época. Bem, pelo menos eu. Não
temos esse cenário, mas temos as chuvas serenas, que pouco a pouco se
intensificam, o céu nublado, que ainda assim não impede que a luminosidade e o
calor do sol nos aqueçam, e o friozinho gostoso que fica depois de uma
madrugada de chuva. Sem muito calor, mas também sem o dia inteiro de chuva, o
outono para nós representa o equilíbrio. É como se a natureza mostrasse-nos sua
face mais calma, mais serena e madura, e como se esse seu aspecto nos chamasse
para fazer um momento de pausa, reflexão e descanso. E de fato fazemos essa
pausa, o mês de setembro e principalmente o de outubro é o mês que mais tem
feriados no calendário paraense, por causa do Círio (festa popular católica em
honra a N. Sra. de Nazaré, padroeira do Pará, dos pescadores e considerada
senhora das águas). Por ser uma festa que mobiliza boa parte da população é
chamada de o “Natal Paraense”, e é tradição reunir a família em um almoço, cujo
principal prato é o pato no tucupi, na casa do parente mais velho, geralmente a
matriarca da família.
Essa festa
popular lembra um pouco o Dia de Ação de Graças, comemorado nos EUA em novembro
e no Canadá em outubro, e que, por sua vez, recorda os banquetes dos povos de
outrora da antiga Europa em comemoração a época da Colheita. Essas festas
coincidem com o período do Outono, que é para as populações antigas e agrárias
o momento da grande colheita e representa a fartura da Terra, a maturidade da
Natureza, o recolhimento e descanso depois de longo tempo de plantio e cuidado
com a terra, aspectos esses que se refletem nos seres humanos. O Outono é a
maturidade não apenas da natureza, mas também dos humanos (macro e
microcosmos). É um tempo de, sobretudo, agradecimento pela fartura da Terra e
pelas bênçãos alcançadas ao longo do ano.
O equinócio de
outono era largamente celebrado pelos povos antigos (e ainda o é hoje, mas
claro, não das mesmas formas). Na Anatólia ocorriam festas em honra a Cibele;
na Grécia e outras regiões eram realizados os ritos eleusianos ou os mistérios
de Elêusis, em honra a Deméter e Perséfone; em Roma era comemorado o festival
de Ceres, deusa dos grãos e da agricultura; na Lusitânia céltica (em especial
na região da Galícia) realizavam-se ritos para Nábia e também para Aetegina; na
Irlanda o equinócio de outono era a ampliação e finalização das festas de
Lúnasa, dedicados a Lugh e Tailtiu; na Escócia, o último feixe de grãos era
ceifado de formas ritualísticas e amarrado em uma figura de palha que seria
chamada de “Rainha da Colheita” e estaria repleta de poder fertilizador.
Na Irlanda há um
monumento neolítico, o Loughcrew (que tive a dádiva de conhecer em julho desse
ano) que existe desde 5000 anos antes de nossa era e é conhecido não só por sua
beleza (pois fica no cume de uma grande colina) e complexidade, mas também por
estar intimamente relacionado aos equinócios de primavera e outono.
Loughcrew,
Irlanda (foto de Mayra Faro)
Há um desenho,
um símbolo (dentre muitos outros) esculpido na pedra central de Loughcrew que
se assemelha a uma roda do sol, e lembra a roda de uma carruagem. Esse símbolo
aparece em várias pedras do interior desse monumento, mas os que estão na pedra
central, e há quatro desenhados ali, são particularmente especiais, pois nos
dias 23 de março e 23 de setembro eles são exatamente iluminados pelo sol no
instante em que ele nasce. Nesses dias equinociais a luz do sol ao entrar na
tumba forma um quadrado nessa pedra, iluminando desenhos específicos, que
infelizmente hoje não sabemos o significado que eles trazem, e à medida que o
sol vai subindo no céu, sua luz vai fazendo um percurso na pedra central, até
finalmente sumir.
Rodas do sol e
outros símbolos na pedra central de Loughcrew (foto de M. Faro).
Sol iluminando a
pedra central no equinócio da primavera, em março de 2005 (foto retirada do
site www.knowth.com).
Sol iluminando a
pedra central no equinócio de outono, setembro de 2011 (do site http://www.newgrange.com/loughcrew-sep11.htm).
Esses eventos
tão marcados em Loughcrew só podem nos confirmar uma coisa: que os equinócios
definitivamente tinham grande importância para os povos da Idade da Pedra na
Irlanda, e muito provavelmente também para os povos na Idade do Ferro, os
celtas, que entraram em contato com esses primeiros povos, influenciaram-nos e
com certeza foram influenciados por eles.
Vídeo mostrando a luz do sol iluminando a pedra central no equinócio.
Em várias
regiões do mundo céltico, como a Escócia, Gales e a Cornualha, o último feixe da
colheita que era ceifado reunia em si um grande poder da Deusa Terra. Alex
Kondratiev, em The Apple Branch, descreve alguns costumes tradicionais
relacionados ao Outono ou a “Última Colheita”. Transcrevo aqui alguns trechos,
que apesar de longos, são muito interessantes sobre os ritos e festas outonais:
“Então o último feixe era pregado a uma
figura, um boneco de milho, representando o espírito que era planejado a morar.
Este era frequentemente um animal, normalmente um animal fortemente associado
com a Deusa da Terra – a lebre, porque ela realmente poderia se esconder entre
os grãos, era um animal favorito óbvio. Na Cornualha ocidental o último Feixe
ou pescoço era chamado de penn-yar (o
pescoço da galinha). Mas em Gales a transformação da Deusa em uma égua era um
tema tão importante e bem conhecido que a figura feita do último feixe era
chamada caseg fedi (colheita da
égua). Quando a boneca era uma figura humana, ela sempre era a representação da
Deusa-Terra, mesmo se como um agente da fertilidade ou da seca. Em partes da
Escócia os dois aspectos eram muito claramente diferenciados: se a colheita era
julgada como uma boa colheita, a figura era dita como sendo de uma mulher jovem
(a Rainha da Colheita, a Deusa como um ser fértil e amigável), mas se a
colheita tinha sido ruim, a boneca era chamada Cailleach (a velha infértil,
hostil às necessidades humanas). A maioria das comunidades mantinham a figura
por um ano inteiro, queimando-a ritualmente na conclusão da colheita seguinte,
tão logo a nova boneca havia sido feita. Nesse meio tempo, ela seria guardada
em um espaço significantemente relacionado com a terceira função: numa árvore
(retornando parcialmente, para a Terra),
em uma cozinha, na igreja (onde os instrumentos de colheita eram abençoados),
ou entre o estoque de semente que era mantido para ser semeado na primavera seguinte,
onde era esperado que fosse ensinar aos novos grãos o poder do crescimento,
passando em alguns deles sua essência.”
(...)
“A conclusão da colheita do grão era celebrada
com uma festa na comunidade, o ancestral das festas da colheita doméstica ‘que
ainda subsiste em áreas rurais, normalmente como atos de agradecimento sob o
auspício da paróquia. Na Cornualha isso era chamado de Goeldheys ou festa das
pilhas de palha’. A boneca de milho originalmente presidia nestas festas como
convidado de honra. Em várias comunidades as cenouras - porque elas eram
juntadas neste tempo – caracterizavam proeminentes como um ritual de comida; e
na Escócia sua aparência fálica era invocada em magia de fertilidade, conforme
as mulheres as desenterravam com espadas (associadas com simbolismo vaginal)
enquanto cantavam:
Torcan torrach, torcan
torrachSonas curran corr orm!Micheal mil a bhi dha’m chonuilBríde gheal dha’m chòmhnadh.Piseach linn gach piseach,Piseach
dha mo bhroinn;Piseach
linn gach piseach,Piseach dha mo chloinn!Fértil fenda, fértil fendaQue a boa fortuna das cenouras pontudas estejam
sobre mim!Bravo Michael [i.e. Lugh] vai me doar,Brilhante Brigit irá me ajudar.O aumento de uma geração seja cada aumento,Aumento para meu útero, aumento de uma geração
seja cada aumento, aumento para minhas crianças!”
(...)
“Depois do recolhimento da colheita o
ano pode ser dito como vindo para seu próprio clabhsúr (encerramento), tanto em
termos da relação da Tribo/Terra no ciclo agrícola quanto em termos do ciclo
samos/giamos dentro da Terra. Com o equinócio a Escuridão novamente ganha o
controle, a energia giamos fica ainda mais proeminente nos ritmos diários do
mundo natural, e as energias da Tribo humana devem lutar para se realinharem
com a mudança da ordem das coisas. O próprio ato de recolhimento, de se voltar
para o interior, é a característica principal do giamos (como oposto à
qualidade expansiva e mudança externa de samos), e uma vez as atividades de
coleta e armazenamento da colheita tenha sido completada, a estação da
Escuridão pode se estabelecer completamente, presenteando o mundo com um
período necessário de inação, contemplação, e descanso”
Além desses temas simbólicos, havia um outro
muito presente em alguns costumes e mencionado em mitos celtas, que é a disputa
do rei do verão com o rei do inverno pela união com a rainha da primavera ou a
Deusa-Terra. Em outras palavras, era a peleja entre o inverno e o verão pela
primavera, que dependendo da estação, ou do momento da Roda do Ano, um ou outro
saía vencedor. Os equinócios são conhecidos pelo equilíbrio (em termos de
duração) do dia e da noite, e simbolicamente, entre o verão e o inverno, mas
passado o momento de equilíbrio um ou outro ganhará mais duração e intensidade
com o passar dos dias. No caso, a partir do equinócio de outono, a noite (e o
inverno) será mais longa do que o dia. E a partir da primavera, ocorrerá o
contrário. Claro, isso pensando no contexto dos países célticos ou em lugares onde
as quatro estações, de fato, são definidas, o que não é o nosso caso (que
moramos no norte do Brasil). Mas era - e é - dessa forma que os celtas
compreendiam e - o mais importante – honravam a natureza e o desenrolar de seus
ciclos.
Na região norte a duração entre o dia e
a noite não se altera ao longo do ano, mas é evidente a mudança do clima. De
março a setembro é o calor e o sol que reinam, é o período que chamamos aqui de
Verão Amazônico. E nos outros meses é a chuva e o tempo quase sempre nublado que
dominam, sendo, portanto, o Inverno Amazônico.
A batalha entre o Rei Azevinho (inverno)
e o Rei Carvalho (verão), disputando pela soberania na natureza, ou entre Gwynn
e Gwythyr, disputando pelo amor de Creudiladd, ou ainda entre Bríde e Beira*,
disputando pelo reinado e o amor do sempre jovem Aengus (o Sol), encarnam um
tema mítico muito significativo relacionado a mudança das estações e ao ciclo
anual (a Roda do Ano). Por essa razão acredito que esse tema também deva estar
presente em um rito de celebração de equinócio.
Pontuando o que escrevemos até aqui,
sugiro três aspectos que devem estar presentes, de alguma forma, em um rito de
Outono.
1. Agradecimento à
Mãe Terra pela colheita (ou seja, por todas as coisas boas que te
aconteceram ao longo do ano, pelos frutos, simbolicamente falando, colhidos e
pelos aprendizados adquiridos).
2. Um banquete, tendo como “convidada
de honra” a Rainha da Colheita, que pode estar representada em uma boneca de
palha (ou feita com raízes de patchouli, muito encontrada em feiras de
artesanato em Belém), e que no próximo outono esta será queimada e uma nova deverá
ser confeccionada ou adquirida (representando o fim de uma colheita-ciclo e
início de outra).
3. A disputa entre
o Inverno e o Verão,
sendo que a vitória será do Inverno (é interessante que esse mesmo tema também
ocorra no equinócio da primavera, e nesse caso, a vitória será do Verão). Duas
pessoas podem representá-los e fazerem uma dramatização dessa batalha. Se
houver uma terceira pessoa, preferivelmente do sexo feminino, ela pode
representar a Deusa-Terra, a Soberania, que “entra em cena” no ápice da batalha
e presenteia o Inverno com uma “dádiva” (pode ser uma espada, ou uma coroa de
folhas secas ou típicas da época, um cetro ou cajado, ou um simples toque, que
simboliza a sua escolha), que o dará força e o ajudará na vitória sobre o
Verão. Para ficar com um aspecto mais regionalista, as duas pessoas podem ser
denominadas de o Sol e a Chuva, que corresponderia ao Verão (Rei Carvalho, Gwythyr
ou Bríde) e ao Inverno (Rei Azevinho, Gwynn ou Cailleach), respectivamente, tendo
em vista que Sol e Chuva são atores marcantes em nossa região amazônica, e
constantemente estão em “dança de guerra” ao longo de todo o ano.
Rei Azevinho e Rei Carvalho
Bom,
essas sugestões podem ser obviamente adaptadas para cada contexto e realidade.
Pode funcionar muito bem em um grupo druídico ou pagão céltico, mas com algumas
modificações pode ser que também funcione em uma celebração individual. Aí vai
depender de sua vontade e criatividade. Espero que essas sugestões e esse texto
tenham lhe inspirado de alguma forma, e caso você utilize algumas ideias aqui
expostas para sua celebração de equinócio, depois me conte como foi!
No
mais, desejo um feliz Outono (ou Primavera, para quem está na Roda Sul) para
todos!
*
Mitologia escocesa. Deusas que disputam pela soberania e de certa forma pelo
amor de Aengus, o Sol. Para saber mais,
leia “Wonder tales from scottish myths and lengends” (Donald Alexander
Mackenzie), disponível em sacred-texts.com .
Pelo druida Ceisiwr Serith(Tradução de Bellovesos. Postado no blog de Renata Gueiros, Saindo da Bruma)
Equipamento:
Lâmpada de óleo ou uma vela
Fósforos
Oferendas para o Fogo (incenso)
Fonte ("Regwes": Lugar Escuro)
Árvore (um bastão num suporte)
Tigela de água
Tigela de oferendas
Prata (objeto prateado, brinco, moeda ou outro) para a Fonte
Oferenda num jarro (cerveja ou hidromel é mais PIE)
Aspersório
=============================================
Preparação
Posicione a Árvore no leste, o Fogo no centro e a Fonte no oeste. Sente-se a oeste da Fonte. Coloque os fósforos e o incenso perto do Fogo e os outros itens à sua frente.
Purificação
Unja sua boca, coração e mãos. A cada vez, diga:
Púros esyém.
[Que eu possa ser puro.]
===================================
O "Ghordhos" [Lugar Fechado]
Fique de frente para o leste e diga:
Deiwons aisyém.
[Desejo honrar os Deuses.]
Estou aqui para honrar os Deuses.
Possa minha adoração estar de acordo com o "artos".
Acenda o Fogo. Diga:
No verdadeiro centro do mundo
Acendo o Fogo da oferenda,
No local onde o divino e o mundano se encontram.
Sob o cuidado da Deusa brilhante,
Sob o vigilante olho de Wesya.
Faça a oferenda ao Fogo, dizendo:
Faço a oferenda ao Fogo do sacrifício.
Que eu possa orar com um bom Fogo.
Ofereça a prata à Fonte, dizendo:
Pelo "Regwes" estou unido ao mundo abaixo.
Água à terra, o "Regwes" expande.
Borrife a Árvore, dizendo:
Pela árvore Sagrada estou unido ao mundo acima.
Terra ao céu, a Árvore expande.
Verta parte da oferenda no jarro para o Guardião do Portal, dizendo:
Akwam Nepot, faço-te uma oferenda.
Possa o caminho estar aberto para os Sagrados.
Faça um triskele em sentido anti-horário, de dentro para fora, sobre a lâmpada, dizendo:
Akwam Nepot, dhwermos Hmé ruyes.
Akwam nepot, abre o portal para mim.
Borrife a área em sentido anti-horário, dizendo:
Meg moris Hmé gherdmi.
O grande mar me circunda.
Quando a aspersão estiver feita, diga:
Meu "ghordos" é sagrado, separado,
Dentro do limite da água circundante.
Sagrado e santo é este meu lugar,
Apropriado para os Deuses entrarem.
A oferenda
Verta a oferenda aos Deuses, dizendo:
Aos Deuses e Deusas eu faço uma oferenda.
Possa haver entre nós os laços da hospitalidade.
Deiwos, te-bhyom gheumi.
[Deuses, verto uma oferenda para vós.]
Verta a oferenda aos Ancestrais, dizendo:
Aos Espíritos dos Ancestrais eu faço uma oferenda.
Possa haver entre nós os laços da hospitalidade.
Wikpoties, te-bhyom gheumi.
[Ancestrais, verto uma oferenda para vós.]
Verta uma oferenda aos Espíritos da Terra, dizendo:
Aos Espíritos da Terra eu faço uma oferenda.
Possa haver entre nós os laços da hospitalidade.
Ansues, te-bhyom gheumi.
[Espíritos, verto uma oferenda para vós.]
Faça uma pausa. Pegue a tigela de oferendas e diga:
Recebo minha parte do sacrifício.
Beba um pouco da oferenda. Coloque a tigela no chão e diga:
Deidades, Ancestrais e Espíritos:
Eu vos dou honra e adoração,
Louvor e reverência.
Possa haver paz e amizade entre nós.
Usmei gwrtins dédemi.
[Eu vos dou graças.]
=============================================
Encerramento
Faça um triskele sobre o Fogo, em sentido horário, de fora para dentro, dizendo:
Akwam Nepot, possa o portal ser fechado.
Apague a lâmpada. Fique em pé e diga:
Sigo meu caminho em amizade com as Famílias.
Incline-se uma vez para o leste.
NOTAS:
"Que eu possa orar com um bom fogo": baseia-se no Rig Veda, 1.26.8.
A tradução das linhas em proto-indo-europeu (PIE) é apresentada imediatamente depois. As traduções que não se pretende sejam ditas em voz alta aparecem entre colchetes ( [] ).
A pronúncia do proto-indo-europeu é fonética. As vogais têm seus valores latinos. "Gh", "bh" e "dh" são pronunciados como a consoante inglesa correspondente seguida de um curto sopro de ar. São semelhantes ao "dh" na pronúncia indiana de "Buddha". "H" representa um som de "schwa". O acento marca vogais longas e sílabas tônicas. Ditongos, tais como "ei", são pronunciados como se as duas vogais fossem ditas rapidamente, ligadas. O "w" em "gwrtins" é uma semi-vogal, pronunciada de forma semelhante à versão curta do "u" em "put".
O "axis mundi" na cultura proto-indo-européia era variadamente representado como uma árvore, uma montanha ou uma árvore numa montanha. Ao invés da árvore, uma pedra vertical que seja notavelmente mais alta que a fonte pode ser usada. Nesse caso, substitua "Árvore" por "Montanha".
Akwam Nepot (o Padrinho, Guardião ou Tio das Águas), cognato com Nechtain, Netuno e Apam Napat, é o guardião da fonte das águas flamejantes, que dá poder, prosperidade e sabedoria (isto é, as bençãos trifuncionais) para aqueles que dela beberem. (Mas somente se estiverem qualificados.) Uso-o como o Guardião do Portal PIE.
Wesya ("A Chamejante") é o nome que construí para a deusa da lareira PIE. O nome original não pode ser reconstruído, mas muitas das formas descendentes são relacionadas a palavras como "queimar", "brilhar", etc.
Texto original em: http://www.adf.org/rituals/proto-indo-european/piesolrit.html