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10 de outubro de 2012

Celebrando a Lua Vermelha


(Shakti, o divino feminino, esposa divina de Shiva na mitologia hindu)


Cada vez mais mulheres estão ressignificando seu sangue menstrual, buscando em tradições e Deusas antigas a inspiração que precisam para (re)sacralizarem seu sangue e seu ventre. Mas ainda assim, existem muitas mulheres que crescem ouvindo que seu sangue (e corpo) é sujo, impuro, profano.
O movimento cultural e espiritual de fortalecimento e reconhecimento (não gosto muito de usar o termo “resgate”) do Sagrado Feminino está se espalhando pelo mundo, felizmente, como um sussurro, um sopro da Mãe Terra nos corações de homens e, sobretudo, das mulheres. A meu ver, o movimento do Sagrado Feminino vai além de religião, ou melhor, transcende as religiões e instituições; está presente – em maior ou menor grau - em todas elas e ao mesmo tempo não se prende em nenhuma. Seja na Wicca, nas religiões da Grande Mãe, no(s) Xamanismo(s), no Druidismo, nas correntes da Nova Era e mesmo no Cristianismo (com a Teologia feminista), o Sagrado Feminino ganha cada vez mais força, e pode ser encontrado em movimentos não necessariamente religiosos, mas também sociais, como em ONGs de apoio ao parto humanizado, associações de mulheres, grupos ambientalistas etc.
O fortalecimento do Sagrado Feminino está relacionado profundamente ao movimento da Ecoespiritualidade feminina, e muitas vezes são considerados sinônimos.
Sabemos que o ciclo menstrual está intimamente ligado ao ciclo da lua, e conectar-se com esse e outros ciclos, ou melhor dizendo, com a Ciclicidade da Natureza é se conectar melhor com nossos próprios ciclos (internos e externos) e compreender mais profundamente nós mesmas, nossos sonhos, medos, anseios, desejos, intuições... Com isso nos sentiremos mais fortes, mais seguras, sábias e saudáveis.
Há muitas formas de se conectar e honrar a sua menstruação; neste texto irei propor algumas sugestões e ideias para que cada mulher celebre a sua Lua Vermelha. A intenção é que você possa desfrutar de momentos de meditação, reflexão e magia; refletir sobre o momento em que está vivendo, perceber que o seu sangue e seu corpo são sagrados, sentir-se parte da natureza, sentir que você está no coração da Mãe Terra, e que Ela está no seu coração...


* Primeiramente, procure reduzir ao máximo o uso de absorventes descartáveis, além de ser um gasto muito grande em longo prazo, são muito poluentes para a natureza. Se puder evite usa-los, opte por um coletor menstrual. No Brasil, existe um tipo de coletor chamado MissCup

* Alguns dias antes de menstruar ou também durante a menstruação, os sonhos geralmente ficam mais intensos e significativos, por isso procure prestar atenção a eles e as mensagens que podem te trazer.

* Durante o banho, perceba seu corpo, seu ventre, seus seios, se estão inchados ou não, se algo lhe incomoda, e o porquê lhe incomoda. Perceba seu sangue, toque-o, sinta o cheiro, a textura, tenha consciência dele. Pense que todas as mulheres no mundo menstruam, é um dom que todas compartilham, todas nós estamos interligadas pelo sangue menstrual, ligadas umas com as outras, e todas com a Mãe Terra.

* Sempre que puder escute músicas que você aprecie, principalmente se falam do Feminino. Particularmente, gosto muito das músicas de Lisa Thiel, Dani Lasalvia, e algumas do Omnia (como Moon, Luna, Morrigan), mas sinta-se livre para escutar o que sua alma pedir. Músicas de dança do ventre são uma ótima ideia também, e se sentir vontade, dance e cante!

* No primeiro dia da menstruação, ou enquanto o fluxo ainda estiver forte, diante de seu cantinho especial (o altar, oratório, quintal, quarto... Enfim, um lugar em que você tenha privacidade e se sinta bem) dedique alguns minutos para meditar e celebrar seu sangue. Acenda uma chama (vela ou fogueira) e coloque água (de rio, chuva ou mineral) em um recipiente; acenda incensos também se preferir. Medite, cante, toque instrumentos (tambor xamânico, bódhran, flauta ou maracá...), ore e honre as deusas que você tem afinidade e que estão ligadas a fertilidade e ao poder femininos. Pode ser Epona, Eriu, Danu, Morrigan, Rhiannon, Aetegina, ou mesmo Afrodite, Oxum, Iacy, Pachamama, ou simplesmente o Sagrado Feminino. Acredito que em uma celebração da lua vermelha todas as Deusas se solidarizam, se interligam, assim como as mulheres menstruadas... Peça às Deusas ou a Mãe Terra que desperte e fortaleça o Sagrado Feminino em todas as mulheres. Peça pela Paz entre os povos e todos os seres, pela Cura da Terra, e também por sua própria cura. Existe uma forma de meditação/oração que consiste primeiramente em deixar a mente livre, serena, e em seguida deixar que as palavras surjam espontaneamente em seu pensamento e então proferi-las, como um mantra, uma oração. Por exemplo:

Sangue sagrado
Sangue que cura
Sangue que transforma
Sangue que inspira
Sangue da Lua
Sangue sagrado

Corpo sagrado
Corpo que nutre
Corpo que gera
Corpo da Terra
Corpo que abraça
Corpo que ama
Corpo sagrado

Ventre sagrado
Ventre que gera
Ventre que cria
Ventre que purifica
Ventre que acolhe
Ventre fértil
Ventre sagrado

...

       * Ofereça seu sangue menstrual para a Mãe Terra. Esse foi e ainda é um costume ancestral. Mulheres indígenas de tribos nativas dos EUA se reuniam na tenda da lua ou tenda vermelha durante o período menstrual e ofertavam seu sangue a Terra. No Brasil, em algumas tribos indígenas as mulheres se recolhem em cabanas específicas, sentam-se em círculo de cócoras e deixam seu sangue escorrer para a Terra, como uma forma de oferenda e ao mesmo tempo purificação. Caso você use absorventes, derrame um pouco de água nele e o esprema sobre a terra (ou em vasos de plantas), oferecendo à Mãe Terra e pedindo pela cura do planeta e da humanidade. Sinta-se grata pela Deusa Terra compartilhar com você Seu poder de fertilidade.

       * Consulte oráculos pedindo conselhos para algum momento difícil em que esteja passando.

      * Se possível, reúna-se com outras mulheres, forme um Círculo de Mulheres, troquem informações, experiências, saberes, fortaleçam-se nessa união, celebrem juntas o sangue sagrado e a alegria de ser mulher.


(Um Círculo de Mulheres)


Essas ideias aqui sugeridas foram e são frutos de minha vivência pessoal. Saiba que não é necessário você realizar todas elas, pode optar por algumas e adapta-las ao seu contexto. Fique a vontade e ouça sua intuição. Espero com isso incentivar cada vez mais mulheres a celebrarem sua menstruação e fortalecerem em si o Sagrado Feminino, independentemente se seguem ou não uma religião ou espiritualidade, pois torna-se urgente o surgimento de uma nova consciência, de uma humanidade com mulheres, e também homens, conectados com a Natureza e em sintonia com os ciclos sagrados. 

23 de maio de 2012

Um Conto de Criação


A Grande Divindade, aquela que reúne em si todas as formas e não-formas, no momento de criação do universo e de tudo o que existe, se iniciou a cantar. A primeira canção, a primordial canção assim nasceu. E nessa Grande Canção a Divindade falava sobre tudo o que desejava criar. Todos os seres, todas as coisas, tudo o que conhecemos e o que ainda vamos conhecer, eram proferidos dos lábios divinos, e no instante mesmo em que eram proferidos, as coisas e os seres todos iam surgindo. A criação florescia e se expandia por todo o universo, como inúmeras estrelas no céu escuro e como as minúsculas areias no mar infindo. Quando a Divindade se deu por satisfeita, olhou tudo o que sua canção havia criado e sentiu enorme êxtase, um prazer inexplicável, como o de uma mãe a receber pela primeira vez o filho em seus braços. De tanta alegria, de tanto prazer e enorme amor a Divindade simplesmente não aguentou, e num súbito grito se abriu inteira e numa explosão ela então se tornou. Se transformou em milhões de sementes de luz, pequenas na aparência mas grandiosas em sua essência. E cada semente de luz continha uma parte da Divindade, e cada semente de luz era a própria Divindade, que caia dos céus lenta e delicadamente, como penas ao vento, e se espalhavam por todo o canto, e se alojavam em cada coisa, animando a tudo e trazendo o divino alento. A Divindade então se fez em tudo, e tudo se fez na Divindade. E é por isso, que desde então, tudo é vivo. E é por isso que sendo vivo, tudo é sagrado. E é por isso que sendo sagrado, tudo é divino.
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9 de janeiro de 2012

Nome, Palavra e Poder

"Um nome é mais que um nome, é um destino".


Ouvi esse provérbio enquanto assistia um documentário sobre a cultura e religião em Cuba. Achei mais que interessante. É profundamente verdadeiro. Lembrei imediatamente do mito de Cu Chullain, Taliesin, Llew Llaw Giffes e tantos outros que tem em seus nomes o destino e características pessoais impressas. Mesmo que algumas pessoas não acreditem, um nome diz muito sobre ela, seja esse nome o civil como também o religioso, que pode não ser o mesmo, principalmente nas tradições pagãs (como Druidismo, Wicca, Asatru...), e também na religião Hindu e na Hare Krishna.
O nome tanto diz sobre o seu portador, como também lhe dá alguns dons. Cu Chullain, o Cão de Cullan; Taliesin, da face brilhante; Llew Llaw Giffes, do braço longo ou do braço certeiro; Arianrhod, a Roda de Prata; Bran, Corvo; Morrighan, a Grande Rainha... Deuses e Deusas celtas cujos nomes nos falam de seus atributos e também de suas histórias, mitos.

Isso não é diferente dos nomes próprios comuns que conhecemos, como Talita, Maria, Pedro, Iara e tantos outros. Nomes são palavras, e palavras têm significado, que agrega não só uma ideia, mas toda uma realidade. Então, aquele antigo ditado que diz "a palavra tem poder", faz todo o sentido.
Os judeus e cristãos acreditam que Deus se fez em Verbo e o mundo foi criado. Os hindus creem que o universo surgiu da palavra primordial de Brahman, OM. Os irlandeses acreditam que o mundo nasceu e é uma grande canção, a Oran Mor. A palavra que carrega som e intenção, cria realidades. Um outro ditado nos diz para termos cuidado com o que pedimos, pois nosso desejo pode ser realizado. 
Tudo isso para mim liga diretamente a palavra com pensamento, o pensamento com intenção, a intenção com criação. E isso é poder. Isso é magia. Um sábio entende a verdade contida nessa relação.
Essas coisas me fazem refletir sobre a qualidade das palavras que proferimos e que ouvimos ao longo de nossa vida. Já parou pra pensar no que você escuta? A música, as notícias de jornais, a fala das pessoas que te rodeiam... Quanto lixo a gente escuta, e às vezes sem perceber, isso nos causa um mal... emocional, mental, físico e espiritual.

Em nossa sociedade infelizmente ainda prevalece uma cultura de violência ao invés de uma cultura de paz. Por que nos jornais as notícias são na maioria sobre violência e crime? Por que raramente vemos uma matéria sobre bons projetos sociais, culturais? Por que quase não vemos notícias de heróis e heroínas? E quase sempre são os vilões que ganham notoriedade? 
Semelhante atrai semelhante. Acredito nessa máxima. Parece que quanto mais vemos notícias ruins, mais coisas ruins acontecem. Como se fosse uma cadeia de ações se reproduzindo. E se (ou)víssemos mais coisas boas, notícias boas, projetos e ideais sociais, pessoas que realmente fazem a diferença? Será que isso estimularia que mais coisas boas acontecessem? Com certeza.

Há alguns anos um grupo de cientistas desenvolveu a partir de uma experiência com macacos a Teoria do Campo Mórfico, que diz que quando um número crítico de indivíduos alcança determinada forma de pensar e agir, uma mudança acontece e uma nova era se inicia. 
De uns anos para cá temos ouvido e visto tanta besteira na televisão, nas ruas, rádios, escolas, que já nem sabemos o que é importante e verdadeiro. São poucos os que honram uma promessa, honram sua palavra. Poucos falam e agem com verdade. As pessoas costumam valorizar mais o Ter do que o Ser.

Precisamos aprender e estimular os que estão a nossa volta a serem de fato verdadeiros, consigo mesmo e com o mundo. Precisamos entender que quando morrermos não levaremos nossas riquezas, carros, casas e dinheiro. Seremos lembrados pelo que dizemos, fizemos e fomos em vida. Precisamos estabelecer uma relação de respeito e harmonia com as outras pessoas, os outros animais e a natureza como um todo, pois nós somos parte dela. Concordo plenamente com L. Boff quando diz que estamos NA Terra, não sobre ela. 
Nossas palavras devem ser encaradas como orações, nossas vozes como ecos de nossa alma, que tocam outras pessoas, outras almas... O que dizemos não só é ouvido por outras pessoas, é levado pelo ar e pode ser ouvido pelos Deuses.
Pense um pouco agora. Que palavras costumam sair de sua boca? Que intenção acompanha essas palavras? Você percebe como elas te afetam? E como afetam o que e quem está a sua volta? 
Agora pense que tipo de palavras e coisas você poderia dizer a partir de hoje? Palavras positivas, sábias e verdadeiras, que façam bem a você e aos que te escutam. Palavras desencadeiam pensamentos, que resultam em ações. Pelo menos é assim que geralmente acontece. E é assim que acredito. 

“Quatro elementos da sabedoria: 
paciência, docilidade, sobriedade, polidez no falar, 
pois toda pessoa paciente é inteligente e toda pessoa dócil é sábia 
e toda pessoa sóbria é generosa e toda pessoa que fala com polidez é tratável” (tríade irlandesa).