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28 de setembro de 2012

A Tradição Feérica e o Povo das Fadas

Por Monika Von Koss, em julho de 2010.


Você acredita em fadas? Não me refiro às fadinhas de jardim, mas sim aos seres etéreos, de fala doce e suave, que transitam entre nós de um modo que nem sempre os percebemos. Seres que nos falam de um mundo belo e harmonioso, isento de violência e decadência. Pois eu não apenas acredito, mas já encontrei algumas fadas em corpo humano e elas sempre são capazes de me emocionar. Tenho um grande respeito por elas, porque não é fácil para elas viverem neste mundo humano denso. E me sinto grata por se disporem a trazer sua energia perolada para diluir nossa densidade.

Se você está pensando que entrei pelo mundo da fantasia, sugiro que você leia o livro que o antropólogo americano e doutor em ciências sociais pela Universidade de Oxford, Inglaterra, Dr. W.Y.Evans-Wentz, publicou em 1911. Intitulado The Fairy Faith in Celtic Countries [A Crença nas Fadas nos Países Celtas], é o resultado de seus estudos literários e de campo a respeito da crença popular na existência das fadas, prevalente no folclore do mundo celta.

Na introdução à edição de 1994, Leslie Shepart escreve que este livro “é o trabalho mais acadêmico a respeito das fadas jamais publicado”. Em sua opinião, a história das fadas não apenas ilumina as origens e crenças de nossos ancestrais remotos, ao comunicarem um estado e uma atmosfera relativos à intuição, mas, principalmente, abrem a porta para a percepção religiosa.

Portanto, eu convido vocês a mergulharem no misterioso mundo das fadas. Não o mundo das fadas dos contos infantis, mas o mundo do povo feérico, os antigos habitantes das ilhas britânicas, que ainda vive nas crenças e ritos dos camponeses do País de Gales, da Irlanda, da Escócia e da Bretanha, principalmente.

A palavra inglesa ‘fairy’ [fada] deriva do francês antigo ‘faerie’ e do latim ‘fata’, referindo-se ao destino, no sentido daquilo que nos está fadado. Mas como não vou falar aqui de destino, seguirei a sugestão de R.J.Stewart, estudioso da tradição do Submundo Celta, do qual a tradição feérica é o ramo principal, e utilizar a designação ‘feérico’ [faery] para este povo, contornando não apenas a idéia das fadas como devas da natureza, mas também a idéia de que se trata apenas de pequenos seres femininos.

Na concepção céltica, os seres feéricos são seres viventes que estão a um passo, a uma mudança de percepção, da humanidade. A tradição feérica, nas palavras de Stewart, “é o fundamento de toda espiritualidade, religião e magia. Assim, se quisermos trabalhar para transformar nosso planeta exaurido e abusado, é uma boa tradição para explorar e o reino feérico é um bom lugar para começar.”

Os irlandeses nos legaram o mais antigo documento que tenta explicar a história arcaica do povoamento de sua ilha. Lemos n’O Livro das Invasões que a quarta e penúltima invasão ocorreu pelos Tuatha Dé Danann, o povo da deusa Dana, que trouxeram consigo a religião, a ciência, a profecia, a magia e os talismãs sagrados. Num trabalho magistral, Peter Vallance, estudioso da tradição celta e exímio contador de histórias, nos relata como os filhos da Deusa Dana vieram para moldar a Terra.

Os filhos da Deusa Dana estavam reunidos para ouvir Bride cantar. Com sua voz celestial, ela cantou de um mundo caótico e aterrador, uma terra envolta em águas escuras e repleta de monstros, que se devoram uns aos outros. Aengus, o mais jovem de todos, pediu para ela parar de cantar deste lugar, tirá-lo de sua mente como se tivesse sido apenas um sonho.

Mas Bride havia ouvido a Terra se lamentar a noite toda, porque havia sonhado com a beleza, com a quietude do amanhecer, com a estrela que brilha antes do nascer do sol e com a música celestial de Bride. E porque a Terra havia sonhado com a beleza, Bride decidiu que iria cobri-la com seu manto. Então alguns dos deuses se dispuseram a ir com ela e limpar um lugar para ela depositar o seu manto.

Levando consigo a Espada da Luz, a Lança da Vitória, o Caldeirão da Plenitude e a Pedra do Destino, eles desceram como uma chuva de estrelas, com o objetivo de construir poder, sabedoria, beleza e generosidade de coração para a Terra.

Olhando para baixo, viram a escuridão que envolvia a Terra. Viram o fundo do abismo, onde a vida torturada nascia, crescia e devorava a si mesma sem misericórdia. Então Nuada, empunhando a Lança da Vitória, desceu como uma chama para a escuridão. Assim como os humanos pisam as uvas, Manannan esmagou os monstros, até estar coberto de restos de carne e osso. Nuada girou a Lança da Vitória em torno si, até ela se tornar uma roda flamejante, cujas chamas e chispas transformavam a escuridão, transformando o sangue em carmesin, em vermelho rosada, em esplendor rubiáceo.

Com o espaço limpo, Bride deitou seu manto sobre a Terra. Ele se espalhou como uma chama prateada, fazendo recuar tudo que estava podre. O manto teria coberto toda a Terra, se Aengus tivesse tido paciência para esperar. Mas ele pisou com os dois pés sobre o manto e a chama prateada transformou-se em névoa, que se ergueu à sua volta. Deliciado, seu riso atraiu os demais, que se juntaram a ele na névoa que envolvia a todos e os fazia parecer figuras fantasmagóricas, como em um sonho.

Então Dagda mergulhou as mãos no Caldeirão da Plenitude e tirou um fogo verde, que ele espalhou num gesto de semear. Ao ver o fogo verde, Aengus juntou-o e deixou que passasse por entre seus dedos, fazendo brilhar todas as cores da luz solar: azul, violeta, amarelo, branco, vermelho.

Enquanto Dagda semeava e Aengus brincava com o fogo verde, Manannan viu os monstros exilados esgueirarem-se na borda do manto de Bride. Ao ver os estranhos olhos vindos da escuridão, ele desembainhou a Espada de Luz e avançou em direção ao caos, fazendo-o retroceder. E uma grande onda ergueu-se no oceano, para cumprimentar a espada. Uma segunda vez ele empunhou a espada e uma segunda onda de luz cristalina e espuma ametista e azul se ergueu para cumprimentar a espada. E uma terceira vez Manannan ergueu a espada e uma terceira onda, lenta, contínua, branca como cristal, se formou e desfez, retornando para o mar.

Então Bride ergueu o manto de névoa prateada e os seres brilhantes viram claramente a Terra em que estavam. Era uma ilha, coberta de grama verde, com suaves colinas, banhada pelas ondas incessantes do mar. E decidiram que esta seria sua casa. Aqui eles viveriam e realizariam belas coisas, para que a terra ficasse feliz. Tomando a Pedra do Destino em suas mãos, Bride a depositou na grama e ela imediatamente afundou na terra. Uma suave música se elevou em volta, criando riachos plenos de água cristalina, que desaguavam em lagos calmos.

Estava criado o reino feérico, o mundo primordial, a natureza da qual nosso mundo natural se desenvolveu. E os Tuatha De Danaan reinaram na Irlanda até o advento da quinta e última invasão pelos Filhos de Mil, quando então se retiraram para o interior da terra, onde permanecem até hoje nas colinas ocas.

Habitando o que é conhecido como o ‘outro mundo’, o povo feérico detém os poderes elementais formadores da terra e para quem o mundo humano é apenas um sonho. “Assumindo invisibilidade, com o poder de a qualquer tempo reaparecer em forma humana perante as crianças dos Filhos de Mil, o Povo da Deusa Dana se tornou o Povo Feérico, os Sidhe [proununcia-se 'xi'] da mitologia e romance irlandeses. Por isto que hoje a Irlanda contém duas raças – uma raça visível que chamamos de celtas e uma raça invisível que chamamos de fadas”, escreve Evan-Wentz.

Também conhecidos como o Bom Povo, os Sidhe são formados por vários grupos ou ordens, distintas umas das outras, mas que funcionam como uma coletividade, mais próximo do funcionamento de uma colméia. Possuem uma inteligência uniforme, que encontra sua expressão máxima na figura da rainha ou do rei de cada ordem, os expoentes das qualidades e poderes inerentes a todo o povo feérico.

Os antigos povos celtas concebiam a vida como existindo em três níveis distintos, integrados e presentes em cada ser. Estes três níveis eram os mundos físico, mental e espiritual. “Nas crenças celtas, a verdadeira visão do espírito só pode ser alcançada quando você encontra a harmonia central de corpo, mente e espírito” afirma McSkimming, pois o espírito não apenas existe em planos superiores, mas existe em tudo.

Quando percebemos estes três mundos entrelaçados, fica mais fácil compreender o conceito de ‘outro mundo’, esta dimensão em que vive o povo feérico, como estando dentro e em volta de nós. Somos parte dele e ele é parte de nós. Precisamos apenas deslocar nossa percepção, para entrar em contato com ele. ”Uma vez que realizamos esta mudança de percepção, toda nossa percepção de outras criaturas viventes também muda”, escreve Stewart em The Living World of Faery [O mundo vivo das Fadas].

Você não quer tentar?



Referências

L. MacDonald, O povo dos outeiros – artigos sobre os Sidhe. Dalriada Magazine, 1993

S. McSkimming, O Outro Mundo na crença popular celta. Dalriada Magazine, 1993

R.J. Stewart, Earth Light [Luz da Terra]. 1992

R.J. Stewart, The Living World of Faery [O mundo vivo das fadas]. 1995

W.Y. Evans-Wentz, The Fairy-Faith in Celtic Countries [A crença nas fadas nos países celtas]. 1989


Fonte: www.monikavonkoss.com.br


Imagem utilizada no texto: "Lady of the wood" (de Sean Domega).

11 de setembro de 2012

Deuses Gauleses


A maioria dos registros que temos sobre os deuses e deusas gauleses vem dos escritos de gregos e romanos que entraram em contato (direta ou indiretamente) com as tribos da Gália, além de inscrições em pedra, bronze e esculturas feitas pelos galo-romanos representando ou citando os Deuses. A lista a seguir é bem resumida e incompleta, mas já é uma ajudinha para começar a estudar a mitologia celta com mais profundidade. Ainda pretendo postar um breve texto sobre os Deuses da Lusitânia e Galícia, e por mais que esses ramos não sejam o foco na minha vivência druídica, é de extrema importância conhecer a cultura e mitologia dos povos celtas que viveram naquelas terras, e que como os outros resistiram até o fim contra a invasão romana.

"A Mitologia Galo-Romana e seu Panteão"
(Por Lucas Rafael, do site www.templodoconhecimento.com).

Conjunto de crenças dos povos celtas que viviam na região da Gália, nas fronteiras do Império Romano, e que teve grandes influências dos deuses latinos.
O que se conhece dessa mitologia foi redigido por escritores latinos depois do século I a.C., como Posidônio, Diodoro Siciliano, Estrabão, Lucano, Tácito e Julio César em seu “As Guerras Gálicas”, que narra a conquista da Gália por Roma.

A seguir um pequeno resumo do Panteão Galo-Romano:

Andrasta: Deusa guerreira. Aparece [associada] com a rainha Boudicca [que é devota desta deusa]. Tinha um esposo que foi identificado com Marte (deus da guerra) romano.
  
Arduinna: Deusa-ursa.

Belenos: Deus do sol e da medicina, heterônimo de Apolo.

Belisama (ou Dama, ou Ana): é a divindade solar feminina, a Minerva gaulesa. [Associada também à lua e as águas termais].

Bormo e Damona: deus e deusa das fontes e das águas termais.

Cernunos (ou Kernunnos, Slough Feg, ou Cornífero): Seu nome deve ser pronunciado como se tivesse um "k": kernunnos. Deus Cornudo, deus da Natureza, Senhor do Mundo. Comumente representado por um homem sentado na posição de lótus, cabelo comprido e encaracolado, de barba, nu, usando apenas um torque (colar celta) ao pescoço, ou ainda por um homem de chifres, sendo, por isso, erroneamente comparado ao diabo dos cristãos. Os seus símbolos eram o veado, o carneiro, o touro e a serpente. Deus da virilidade, fertilidade, animais, amor físico, natureza, bosques, riqueza, comércio e dos guerreiros. 

(Cernunnos, detalhe do Caldeirão de Gundestrup)

Dis Pater: Originalmente deus da morte e do mundo subterrâneo, eventualmente o chefe dos deuses. É dito que é o ancestral de todos os Gauleses.

Divonna: deusa das águas correntes e das fontes.

Epona: deusa dos cavalos, identificada com a galesa Rhiannon e a irlandesa Macha.

(Epona, em uma escultura gaulesa)

Esus: Ligado a Mercúrio ou Marte, seu nome significava senhor e conpunha a tríade dos maiores deuses com Taranis e Teutates.

Lug [ou Lugus]: Maior dos deuses [eu diria que foi um dos deuses mais cultuados entre os gauleses], equivalente gaulês de Mercúrio, presente também nos mitos Irlandeses. [Relacionado a guerra, ao comércio, a eloquência, as artes e as viagens, principalmente por terra].

Math: Deus gaulês da magia.

Matrona: era a divindade mãe na Gália primitiva. [Possivelmente ou seja esteja relacionada  às Matres ou Matronae, trio de deusas associadas ao lar, a prosperidade, fertilidade e conhecimento].

(Matres)

Medru: deus gaulês identificado com Mider ou Midir irlandês.

Moccus: seu nome significa porco e seu culto ligava-se ao javali.

Nantosuelta: deusa gaulesa. [Companheira de Sucellos, deusa da soberania, da prosperidade e fertilidade].



Nodens: deus gaulês identificado com o Nuada irlandês.

Ogmios: deus gaulês da palavra, fazia a ligação entre homens e deuses, era o Ogma irlandês.

Rosmerta: deusa da abundância e fertilidade.

Sirona: deusa galesa [associada às águas e a cura].

Smertrios: deus gaulês, “o provedor”.

Sul [ou Sulis]: deusa gaulesa do sol [e também das fontes termais].

Sucellos: deus que porta um martelo, identificado com o Dagda Irlandês.

Taranis: deus gaulês do trovão [associado ao céu, as tempestades e ao fogo celeste].

Teutates: o Marte Gaulês, comparado ao grande deus celta do outro mundo. O Rei Pescador dos romanos asturianos. [Seu nome na verdade quer dizer "Deus da tribo", e pouco se sabe sobre ele, mas parece estar relacionado às batalhas e a fertilidade].

Como se pode perceber apesar das muitas tentativas de absorção do mitos dos gauleses pelos romanos, eles mantêm sua identidade, visto que possuem estreita ligação com os celtas insulares, a ligação de Sucellos com Dagda, a presença de Lug em ambos os panteões e Nodens que é o mesmo que Nuada é prova mais que clara dessa ligação que dá identidade ao povo celta.

Deuses Galeses

Continuando a sequência de textos sobre mitologia celta, abaixo segue uma pequena lista sobre os principais textos mitológicos galeses, e os Deuses e personagens (não todos, porém) descritos nesses manuscritos antigos. Mais uma vez, essa é apenas uma introdução sobre mitologia celta, no caso a galesa, e o intuito é incentivar a busca e estudo mais aprofundado daqueles que se interessam pelo Druidismo e a cultura celta.


"A Mitologia Galesa e seu Panteão"
(Por Lucas Rafael, retirado do site www.templodoconhecimento.com).

A Mitologia galesa foi mais afetada por elementos externos, e seus principais escritos são:

O  Llyfr Du Caerfyddin (“Livro Negro de Caermarthen"). Aqui estão os poemas mais antigos em língua celta galesa sobre o rei Artur e o mago Merlim.

O Llyfr Aneirin (Livro de Aneirin), que contém o poema Gododdin do poeta galês Aneirin.

O Llyfr Taliesin (Livro de Taliesin), onde aparecem os relatos do livro Mabinogion.

O Llyrf Coch Hergest, o (Livro Vermelho de Hergesuno). Entre outros textos, conta com uma cópia em galês do poema arturiano Brut, os relatos do Mabinogion, e poesias de alguns bardos medievais importantes.

Livros como o Historia Brittonum de Nennius e o Historia regum Britanniae de Godofredo de Monmouth tratam do rei Artur.

O Mabinogion se encontra dividido em quatro ramos principais que são narrativas independentes, mas que se relacionam entre si. Possue também 4 contos independentes (Macsen Wledig, Cyfranc Lludd e Llefelys, Culhwch e Olwen e O Sonho de Rhonabwy) e mais três contos arturianos (Owein ou A Senhora da Fonte, Peredur, Filho de Efrawk e Gereint e Enid).

Personagens dos Quatro Ramos do Mabinogion:

Arawn: Rei de Annwvyn, submundo na tradição galesa. Deus da caça, associado aos cães.

Bran Vendigeit:  Herói do segundo ramo do Mabinogion gales, Bran “o Abençoado”, filho de Llyr, era um gigante. [No mito, ele e seu exército lutam contra o rei da Irlanda que desposou sua irmã por a ter maltratado. Na batalha muitos homens morrem, quase toda a população da Irlanda e de Gales, e Bran é seriamente ferido, mas pede que seus guerreiros cortem sua cabeça que magicamente - ora ele é um Deus! - continua a falar como se continuasse ligada ao corpo. Por muitos anos a cabeça de Bran fica no palácio, contando histórias e cantando belas e tristes canções a todos que o escutam, até que um dia Bran pede para que enterrem sua cabeça sob o palácio, para que mesmo sob a terra ele continue a proteger seu povo].
(A cabeça de Bran)


Branwen: “Corvo branco”. Filha de Llyr e irmã de Bran, esposa do rei da Irlanda Matholwch. Parece ser o aspecto poético de uma antiga divindade do  amor.

(Branwen)

Prydery: Filho de Pwyll e de Rhiannon, companheiro de Bran. Arrebatado de sua mãe o cria o rei Teyrnon.

Gilvaethwy: Na tradição galesa irmão de Ariandrod e de Gwyddyon.

Goevin: Formosa jovem em cujo colo devia apoiar os pés Math, filho de Mathonwy, para sobreviver em tempos de paz.

Gwyddyon: O Grande Druida dos galeses. Feiticeiro e bardo do Norte de Gales, seu símbolo era um cavalo branco. Rege a ilusão, as mudanças, a magia, o céu e as curas.

Lleu Llaw Gyffes: Filho incestuoso de Arianrod e Gwyddyon segundo a tradição galesa. 

Llywarch Hen: Bardo mítico da tradição galesa.

Rhiannon: Grande rainha dos galeses, Rhiannon era a protetora dos cavalos e das aves. Rege os encantamentos, a fertilidade e o submundo. Aparece sempre montando um veloz cavalo branco.

(Rhiannon, imagem de Rebecca Guay)

Gwynn ap Nud: Rei das fadas e do submundo na tradição galesa.

Gwythyr: Oposto [isto é, opositor] de Gwynn ap Nud, Gwythyr era o senhor do mundo superior, também no folclore galês. [Gwynn e Gwythyr disputam constantemente pelo amor de Creudiladd ou Cordélia, que representa a primavera].

Math Mathonwy: Deus da feitiçaria, da magia e do encantamento no folclore galês.


Personagens do ciclo arthuriano:

Rei Arthur: Rei lendário da Bretanha, unificou o reino e é em torno de seu reinado que gira todo o ciclo arthuriano. 

Bohort: Primo de Lancelot do Lago e rei de uma parte da Armórica. Encontra o Graal junto com Galahad e Perceval (o único que sobrevive nessa busca).

Edern: Filho de Nudd. Um dos mais velhos companheiros do rei Arthur. 

Elaine: Filha de Pelles, o rei Pescador.

Pelles: O Rei pescador nos relatos arthurianos franceses.

Afang-Du: O filho da deusa Keridwen ou Cerridwen, para quem fez ferver um caldeirão da ciência do qual bebe três gotas o futuro bardo Taliesin.

Tristão: Herói de uma das lendas celtas mais conhecidas. Suas aventuras rondam em volta de seu amor pela jovem Isolda.

Uther Pendragon: Pai de Arthur e rei antes dele, se deitou com a mãe de Arthur por meio das manipulações de Merlin.

Viviane: Senhora do Lago de Avalon.

Vortigern: Rei usurpador e traidor na tradição galesa.

Ygerne (Igraine): Mãe do rei Arthur e de Morgana.

Yvain: Companheiro de Arthur. É um herói civilizador que combate as trevas mas não pode viver se não sob a dependência de uma mulher.

Galahad: Filho de Lancelot do Lago e de Elaine, supera todas as provas do Graal e morre vendo o que há dentro dele.

Ginebra (Guinevere): Esposa do rei Arthur. É célebre, sobre tudo, por seus amores com Lancelot do Lago. Precisamente por isto se produz a ruptura entre Lancelot e Arthur.

Gwendolin: Nome da esposa de Merlin em a Vita Merlini de Godofredo de Monmouth.

Gwendydd: Na tradição galesa é a irmã de Myrddin (Merlin).

Gwrhyr: Velho e bom amigo do rei Arthur, que possue poderes mágicos e fala com os animais.

Kai: Companheiro de Arthur. 

Lancelot do Lago: Mias famoso cavaleiro de Arthur, tem relações com Guinevere e é pai de Galahad que acha o Graal.

Mordred: Um dos sobrinhos de Arthur e seu filho incestuoso. Era a encarnação das forças das trevas. Mata o pai e é morto por ele.

Morgana: Sua comunidade consta de um total de nove sacerdotisas (Gliten, Tyrone, Mazoe, Glitonea, Cliten, Thitis, Thetis, Moronoe e Morgana) que, nos tempos romanos, habitavam uma ilha diante das costas da Bretanha. Falam também das nove donzelas que, no submundo galês, vigiam o caldeirão que Arthur procura, como pressagiando a procura do Santo Graal. Morgana faz seu debut literário no poema de Godofredo de Monntouth intitulado "Vita Merlini", como feiticeira benigna. Mas sob a pressão religiosa, os autores a convertem em uma irmã bastarda do rei, ambígua, frequentemente maliciosa, tutelada por Merlim, perturbadora e fonte de problemas.


Nimue: Nome que Thomas Malory  dá a Viviane. [seduz e aprisiona Merlin em uma torre de cristal na floresta de Broceliande e rouba seus poderes].

Olwen: Heroína galesa, filha do gigante Yspaddaden Penkawr.

Merlin: Figura já conhecida do círculo da mitologia arthuriana, este era o Grande Feiticeiro, o Druida Supremo dos galeses. (...) A tradição diz que Merlin dorme numa caverna de cristal depois de enganado por um encantamento de Nimue. Merlin era o senhor da ilusão, da profecia, da adivinhação, das previsões, dos artesãos e ferreiros. Diz-se ainda que tinha grande habilidade de mudar de forma. [Auxilia Arthur ao longo de toda a sua vida, o que indica a antiga tradição celta da aliança que deveria entre o rei e o druida].

Taliesin: Taliesin o Bardo, foi o druida chefe da corte de Arthur, um dos maiores reis da Inglaterra. Dominava a arte da escrita, a poesia, a sabedoria, a magia e a música. Taliesin é tido como patrono dos druidas, bardos e menestréis. [É o segundo nome de Gwion, o servente de Cerridwen, que deveria cuidar da mistura que ela fervia em seu caldeirão, mas por descuido acabou tomando três gotas do sumo e adquiriu toda a sabedoria do mundo. Por essa razão foi perseguido por Cerridwen que por fim foi engolido por ela, que depois de 9 meses deu a luz a um belo menino do "semblante brilhante", Taliesin].

(Taliesin, de Selina Fenech)


Deuses Gaélicos (Irlanda)

Para quem está chegando e começando a estudar a cultura celta e o druidismo, segue abaixo um resumo (resumo mesmo) da mitologia gaélica irlandesa. Não estão todos os deuses e heróis da mitologia irlandesa, mas uma boa parte é citada aqui. O texto foi escrito por Lucas Rafael e publicado no site do Templo do Conhecimento, mas acrescentei alguns comentários (que estão entre colchetes) que achei necessários.
O estudo da mitologia celta é longo e praticamente interminável, mas é sempre uma caminhada proveitosa e enriquecedora, que nos leva ao mais fundo de nossas almas, é quase uma Imram ("jornada além do mar", ou viagem de descobrimento).
À esse texto, seguirão dois outros sobre os Deuses Galeses e Gauleses. Que essa leitura seja uma introdução sobre o tema e lhe instigue a buscar e conhecer mais sobre a mitologia celta.


"A Mitologia Irlandesa e seu Panteão"
(Por Lucas Rafael. Retirado do site templodoconhecimento.com)

As principais fontes da Mitologia Irlandesa vem dos monges irlandeses que escreveram as historias ancestrais de seu povo, os principais desses manuscritos são o Lebhor na bUidhre (livro da Vaca Parda), o Livro de Leinster, o Grande Livro de Lecan, o Livro Amarelo de Lecan, o Livro de Bellymote, o Livro de Lismore, o Livro de Fermoy e o Livro das Invasões (talvez o mais importante escrito da história mitológica da Irlanda).
Importantes também são os contos A Batalha de Mag Tuired e principalmente A Segunda Batalha de Mag Tuired. As principais histórias irlandesas rondam em torno do Ciclo de Ulster ou Ciclo do Ramo Vermelho, cuja história é contada no épico Táin Bó Cúalgne (formado pelos livros da Vaca Parda, de Leinster e o Livro Amarelo de Lecan), e no menos conhecido Táin Bó Froagh.
Também importante na Mitologia Irlandesa são as histórias de Finn e Oisin, que compõe o ciclo Fenianico ou Ossiânico, que estão narradas no Acallam na Senorach (Colóquios dos Anciãos).       
Os Táins e o Ciclo Feniano são os grandes épicos da Irlanda, comparáveis à Ilíada e a Odisséia de Homero, ao Mahabahrata hindu e os Eddas germânicos.
São centrais na mitologia Irlandesa as invasões sucessivas na ilha, começando por Cessair e Fintan, os seguintes foi o povo de Partholonm que foram destruídos pelos Fomorianos, logo depois viera os Nemedianos, foram rechaçados pelos Fomorianos e depois voltaram como os Fir Bolg, que fizeram uma era de paz e prosperidade.
Os Tuathas De Dannan foram os seguintes, como narrado nas Batalhas de Mag Tuired, eles derrotaram os Fir Bolg e depois os Fomorianos e tomaram o controle da Irlanda, mas foram depostos pelos Milesianos., liderados por Amergin; esses então passaram a controlar o mundo superior e os Thuata o inferior, vivendo nos Sídhe e se transformaram no povo pequeno, nas fadas irlandesas.
Com isso fica preparado o terreno para as histórias passadas no Táin Bó Cúalgne e no ciclo Ossiânico, povoados por personagens como Cuchullain, Conchobhar, Fergus, a rainha Medb, Finn, Oisin, Conaire e outros.
A última das invasões da Irlanda ocorre com São Patrício que cristianiza a ilha.
Nessa mitologia as figuras de deuses e heróis muitas vezes se confundem, não há uma separação clara, mas os Thuata sem dúvida são os que mais se aproximam dos deuses das demais tradições indo-européias, e os Fomorianos com os inimigos dos Deuses, como os Titãs gregos e os Gigantes germânicos.
A seguir um pequeno resumo do Panteão Irlandês:

Aine of Knockaine: Deusa do amor e da fertilidade, mais tarde foi conhecida como a rainha das fadas. Deusa relacionada à lua, colheita, e a criação de gado [associada a colina Knockaine].

Airmed: filha do deus da medicina Dian Cecht [é uma deusa da cura e conhece todas as ervas e plantas curativas].

Amergein: Bardo dos Milesianos que derrotaram os Thuata e tomaram o controle da Irlanda.

Angus Og: Deus da Juventude, do Amor e da Beleza na Irlanda Antiga. Um dos Tuatha de Dannan, Angus possuía uma harpa dourada que produzia música de irresistível doçura. Os seus beijos transformavam-se em pássaros que transportavam mensagens de amor [ele é associado a Newgrange ou Brú na Bóinne].

(Angus Mac Óg, o Jovem Deus)

Aoibhell: Mulher do Sidhe, morava em Craig Liath. 

Badb: Na mitologia irlandesa, Badb era uma das formas gigantes de Morrigan. Ela era suficientemente alta para colocar um pé em cada lado de um rio.

Balor: Fomoriano, avô de Lug, cujo equivalente gales é Yspaddaden Penkawr; tinha um único olho que fulminava todos a sua volta com seu veneno.

Banba, Eriu e Fodla: Trio de deusas filhas de Fiachna que personificam o Espírito da Irlanda.  [Eriu é a mais importante entre as três, e de seu nome originou o nome da Irlanda, Erin ou Eirénn].

Boann: Deusa do Rio Boyne e mãe de Angus Mac Og com o Dagda. Ela era esposa de Nechtan. [Em outras versões ela aparece como esposa de Ogma ou Elcmar. Por se aproximar da Fonte de Segais, o poço da sabedoria, as águas se rebelaram contra sua ousadia e provocou o surgimento do rio Boyne, às margens de Newgrange].

(O rio Boyne, na Irlanda, foto de Mayra Faro, 2012).

Bodbh: Deusa irlandesa que incitava os guerreiros durante a batalha.

Bres: Filho de pai Fomoriano e mão Thuata, traiu os Thuata e foi o pivô da segunda Batalha de Mag Tuired.

Brigit: Deusa tríplice de origem irlandesa, era filha de Dagda. [Nasceu junto com o sol no dia 01 de fevereiro, daí sua festa ser comemorada nesse dia, em Imbolc. Deusa do fogo sagrado, da lareira, da forja, poesia, sabedoria, cura e maternidade].

(Brighid, imagem de Jo Jayson, 2012)

Cessair: Mulher primordial que ocupou Irlanda antes do diluvio, era neta de Noé.

Cian: pai de Lug.

Creidhne, Goibhniu e Luichtanel: Deuses do trabalho em metal e das artes manuais da Tuatha De Danaan, respectivamente brazeiro, ferreiro e  carpinteiro.

Dagda: O Bom Deus, um dos principais do panteão irlandês, possuía uma harpa e um caldeirão mágicos e podia ter poderes maléficos ou benéficos [nesse sentido, acho que o autor se refere ao cajado de Dagda, que tinha o poder tanto de dar a vida quanto tirá-la de qualquer ser].

Danu: Deusa mãe Irlandesa, dá nome aos Tuathas de Dannan, o Povo da Deusa Dana. Mãe de Dagda. [há algumas controvérsias sobre essa informação, alguns estudiosos afirmam que Danu ou Anu sequer existe na mitologia céltica, e outros argumentam que ela representa a própria Terra, e por ser tão antiga e primordial seus mitos se perderam ou os escribas não se preocuparam em registrar algo tão intrinsecamente conhecido, que Anu é a mãe de todos os homens e deuses. Na Irlanda existem duas colinas que são associadas a Anu, chamadas de "Dá Chich Annan", ou seja, "Dois seios de Annan"].

(Deusa Danu)

Dian Cecth: Deus da medicina irlandês, colocou a mão de prata em Nuadu e matou seu filho Miach por não gostar da cura que ele fez na mão verdadeira de Nuadu.

Edain: Deusa dos cavalos, a Epona Irlandesa.

Elcmar: irmão de Dagda.

Etain: Na mitologia celta, Etain (A Brilhante) era a tripla deusa do sol, água, cavalos, fragrâncias, beleza, música e transmigração das almas.

Ethlin: Na mitologia celta,  era filha de  Balor. Balor, aterrorizado pela profecia de que seria morto pelo neto, trancou  Ethlin numa torre de vidro e colocou guardas para vigiá-la. Contudo, Cian disfarçado como mulher, entrou na torre e uniu-se a ela.

Fintan: Na mitologia celta, o salmão da sabedoria, era um metamorfo. Foi o único irlandês a sobreviver ao dilúvio mudando sua forma para um falcão para sobrevoar as águas e depois em salmão para nelas sobreviver. Tendo comido nozes mágicas recebeu todo o conhecimento, mas ficou preso numa rede e foi comido por Finn MacCool que acabou adquirindo seu conhecimento e seus poderes.
(Ilustração de Will Worthington em "O Oráculo Animal dos Druidas", 2010)


Lir: Divindade irlandesa, o Velho Homem do Mar [Lir é o mar, propriamente dito].

Lug (ou Lugh, Luga, Lamhfada, Llew Llaw Gyffes, Lleu, Lugos, Samildanach): Maior dos deuses irlandeses, chamado de Mão Poderosa ou Mão Longa, foi o último a se juntar aos Tuatha e possuía muitas habilidades.

Macha: Na mitologia irlandesa,  deusa de jogos atléticos, festivais e fertilidade [dá a luz 
 gêmeos no alto de uma colina, depois de ser forçada a fazer uma corrida com cavalos, e por essa razão amaldiçoa os homens do Ulster por terem-na desrespeitado, e a colina passou a se chamar desde então Emain Macha].

Manannan: era homenageado como uma das principais divindades do mar pelos irlandeses [é o deus do Outro Mundo, o que abre os portais para as ilhas abençoadas além do Oeste e  guia as almas dos antepassados. Deus preferido dos percadores e pessoas que vivem do mar ou próximo a ele].

(Manannán)


Mider: Deus do Outro Mundo [apaixona-se por Etain que a toma como esposa e a leva para o Outro Mundo].

Morrigan: Deusa irlandesa associada à gralha, deusa da guerra e do amor [seu nome quer dizer Grande Rainha, e portanto é uma deusa da soberania. Assume diversas formas, como a de um corvo, loba, enguia, uma bela e sedutora mulher ou uma velha curandeira. Antes da segunda batalha de Mag Tuired, une-se ao Dagda a beira de uma vala repleta de corpos dos guerreiros que iriam morrer na luta, Ela então prevê a vitória dos Tuatha De Dannan].

(Mor Rhioghain, Grande Rainha).


Nechtan: divindade irlandesa das fontes.

Nuada (Nuadu): Deus irlandês que perde o braço na primeira batalha de Mag Tuired, reverenciado como maior dos deuses, cultuado também na Gália.

Ogma: deus irlandês semelhante a Hércules, Ogma tinha uma enorme maça com a qual defendia seu povo, os Tuatha de Dannan, sendo eleito seu campeão. Ele inventou a linguagem rúnica dos druidas, o Ogham [creio que o termo “linguagem rúnica” foi empregado aqui no sentido de comparação entre o Ogham e as Runas, não no sentido de equivalência].

Scathach / Scota / Scatha / Scath: Seu nome traduzia-se como A Sombra, Aquela que combate o medo. Mulher guerreira e profetisa que viveu em Albion, na Escócia, e que ensinava artes marciais para os guerreiros que tinham coragem suficiente para treinar com ela, pois era tida como dura e impiedosa. Não foi à toa que o adestramento [ou seja, treinamento] do herói Cuchulainn foi levado a cabo por ela mesma, considerada a maior guerreira de toda a Irlanda. Scath era ainda a patrona dos ferreiros, das curas, magia, profecia e artes marciais.

9 de setembro de 2012

O Caldeirão da Poesia


Atribuído a Amhairghin.

Traduzido por Bellovesos.


"Meu verdadeiro Caldeirão da Incubação,
ele foi tomado por Deus dos mistérios do abismo elemental,
uma decisão adequada que dignifica alguém a partir do seu centro,
que verte da boca uma correnteza terrível de palavras.  
  
Sou Amhairghin Joelho-Branco,
pálido de substância, de cabelo cinzento,
concluindo minha incubação
em formas poéticas adequadas,
em cores diversas. 
  
Deus não atribui a mesma porção a todos:
emborcado, virado de lado, com o lado certo para cima;
conhecimento nenhum, conhecimento pela metade, conhecimento completo.
Para Eber e Donn
a criação da poesia temível,
vastos, poderosos goles de encantamentos mortais
em voz ativa, no silêncio passivo, no equilíbrio neutro intermediário,
na construção apropriada da rima
desse modo narra o caminho e a função do meu caldeirão.  
  
Canto o Caldeirão da Sabedoria
que concede o mérito de cada arte, 
através do qual cresce o tesouro,
que engrandece cada artesão comum,
que constrói uma pessoa por meio do seu dom. 
  
Onde está a raiz da poesia numa pessoa, no corpo ou na alma? Dizem que está na alma, pois o corpo nada faz sem a alma. Outros dizem que está no corpo, onde as artes são aprendidas, passadas através dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que essa é a sede do que permanece na raiz da poesia e o bom conhecimento na ancestralidade de cada pessoa não passa para todos, mas passa a cada outra pessoa. 
  
Qual é então a raiz da poesia e de toda as outras formas de sabedoria? Não é difícil. Três caldeirões nascem em cada pessoa, isto é, o Caldeirão da Incubação, o Caldeirão do Movimento e o Caldeirão da Sabedoria.  
  
O Caldeirão da Incubação (Coire goiriath) nasce virado para cima numa pessoa desde o começo. Distribui sabedoria às pessoas na sua juventude. 
  
O Caldeirão do Movimento (Coire érmai), no entanto, aumenta depois de virar. Isso significa que ele nasce virado de lado numa pessoa. 
  
O Caldeirão da Sabedoria (Coire sois) nasce sobre seus lábios (virado para baixo) e distribui sabedoria em cada arte, além da (em acréscimo à) poesia. 
  
O Caldeirão do Movimento, então, está sobre seus lábios em cada outra pessoa, isto é, nas pessoas ignorantes. Está obliquamente virado em pessoas do ofício bárdico e outras de pequeno talento poético. Está virado para cima nos maiores dentre os poetas, que são poderosas torrentes de sabedoria. Por causa disso, não em todo poeta mediano está ele voltado para cima, pois o Caldeirão do Movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria. 
  
Pergunta: quantas são as divisões da tristeza que viram o caldeirão dos sábios? Não é difícil; quatro. Saudade, pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação a lugares sagrados. É internamente que estas nascem, embora a causa venha do exterior.  
  
Existem então duas divisões da alegria que viram o Caldeirão da Sabedoria, isto é, a alegria divina e a alegria humana. 
  
Na alegria humana, existem quatro divisões entre os sábios. Intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo do ofício bárdico; a alegria da sabedoria depois da criação harmoniosa dos poemas e a alegria do adequado frenesi poético da trituração das claras nozes das nove aveleiras na Fonte de Segais no reino dos Sídhe. Elas se lançam em grandes quantidades como um rebanho de carneiros no leito do Boyne, movendo-se contra a correnteza mais rápidas do que cavalos de corrida no meio do ano no dia esplêndido a cada sete anos.  
  
Deus toca uma pessoa por meio de alegrias divinas e humanas, de modo que seja capazes de pronunciar poemas proféticos e conferir a sabedoria e realizar milagres, bem como oferecer um julgamento sábio e dar precedentes e sabedoria em resposta aos desejos de todos. Mas a fonte dessas alegrias (Deus) está fora da pessoa, embora a verdadeira causa da alegria seja interna.  
  
Canto o Caldeirão do Movimento,
graça compreensível,
conhecimento reunido,
fluente inspiração poética como o leite do peito,
é o auge da maré do conhecimento,
união de sábios,
correnteza de soberania,
glória dos humildes,
maestria das palavras, 
rápido entendimento,
sátira enrubescedora,
artesão de histórias,
cuidando dos alunos,
procurando princípios obrigatórios,
distinguindo as complexidades da linguagem,
movendo-se rumo à música,
propagação da boa sabedoria,
nobreza enriquecedora,
enobrecendo os não-nobres,
exaltando os nomes,
relatando louvores
por meio do trabalho da lei,
comparação de dignidades,
a bebida nobre em que é fervida
a raiz verdadeira de todo conhecimento,
que entrega em razão do respeito,
que cresce em razão da diligência,
cujo êxtase poético põe em movimento,
cuja alegria vira,
que é revelado por meio da tristeza,
proteção que não diminui,
canto o Caldeirão do Movimento. 
  
O que é esse movimento? Não é difícil; uma virada artística ou uma revirada artística ou viagem artística, isto é, concede a boa sabedoria e a nobreza e a honra depois de virar. 
  
O Caldeirão do Movimento
concede, é concedido,
aumenta, é aumentado,
alimenta, é alimentado,
engrandece, é engrandecido,
invoca, é invocado,
canta, é cantado,
preserva, é preservado,
combina, é combinado,
sustenta, é sustentado. 
  
Boa é a nascente do ritmo,
boa é a morada da fala,
boa é a confluência do poder
que edifica a força. 
  
É maior do que cada domínio,
é melhor do que cada herança,
traz o homem ao conhecimento
ousando além da ignorância."