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24 de dezembro de 2015

Paganismo e Veganismo: encontros e desencontros.


Bem, vamos lá discutir um tema pra lá de polêmico, e por isso mesmo interessante. Antes de tudo quero deixar claro que vou expor aqui a minha visão ok? Não falarei em nome de nenhum movimento do veganismo/vegetarianismo e nem do paganismo. Mas quero despertar sobretudo no Paganismo, e especialmente no Druidismo (que é a tradição a qual faço parte) essa reflexão. Reflexão, ok?! De forma nenhuma quero impor minha ideia a alguém ou comunidade.
Pois bem, vamos lá.

Sou nova nesse ramo do veganismo (embora eu não me considere vegana, e vou explicar mais adiante o porquê). Nova mesmo, comecei a mudar meus hábitos alimentares tem umas duas semanas. Mas bem antes disso já conhecia um pouco sobre a proposta do movimento e a achava interessante. Eu decidi parar de comer carne (de gado e de frango, ainda estou comendo peixe e lutando pra eliminar de vez o leite e ovos da alimentação, mas já consegui reduzir bastante. Enfim, ainda estou em fase de adaptação ^^ ). Essa decisão veio quando vi um vídeo de uma fazenda produtora de laticínios na Nova Zelândia e a forma cruel como tratam as vacas e seus filhotes... E não é difícil pensar que isso também ocorre no Brasil. As vacas são mantidas constantemente prenhas, são fertilizadas artificialmente e quando elas dão a luz, seu filhote é retirado dela poucas horas depois que nasce e levado para morrer ou outro destino semelhante...
É visível o sofrimento da vaca, e também do filhote... Isso mexeu muito comigo... E nessa hora decidi que não queria fazer mais parte disso. Além disso, o fato de que grande parte dos desmatamentos e conflitos de terra na Amazônia se dão em razão dos latifúndios e fazendas de gado. Isso tudo contribuiu para a minha decisão. E ainda tem mais um fator, há uns meses atrás eu tive plena consciência de que meu corpo tem vida e vontade própria. Ok, quando a gente estuda paganismo e espiritualidades antigas, a gente sabe que nosso corpo tem uma sabedoria... Mas entre saber e ter consciência disso, é outra coisa... Sempre que eu comia um lanche desses de rua ou fast food (de hambúrgueres a pizza) eu passava mal, de dar dor de barriga pouco tempo depois que eu ingeria a comida. Percebi que era meu corpo dizendo: “Moça, eu exijo respeito e não tolero essas porcarias que você põe pra dentro. Obrigada, de nada”. Então, abaixei a cabeça e “ouvi” a sábia voz do meu corpo...

Mas aí vem a questão, meus ancestrais comiam carne, ofereciam inclusive uma parte do alimento às divindades e usavam o couro para produzir desde roupas a tambores sagrados... Ok. Verdade. MAS, meus ancestrais viviam em outro tempo e tinham uma outra relação com os animais e tudo a sua volta. Eles cuidavam e criavam dos animais que um dia seriam sacrificados e comidos em comunidade, havia um respeito muito maior pela vida do animal do que temos hoje. Hoje o animal (e quase tudo em nossa sociedade) é objetificado, mercantilizado, desconsidera-se qualquer dignidade a sua vida e ao seu espírito (pois na visão pagã, os animais tem alma sim, e são tão ou mais sábios/evoluídos do que os humanos). E, a não ser que você viva num sítio ou fazenda e crie seus próprios animais, nós hoje não temos nenhuma relação com eles, simplesmente pegamos um pedaço de carne na prateleira de um supermercado e pronto.

Por isso resolvi aderir ao vegetarianismo/veganismo, mas não me considero vegana... Pois ainda toco meu tambor sagrado e tomo hidromel de vez em quando. Evito ao máximo comprar produtos transgênicos e de marcas que agridem ao meio ambiente ou fazem testes em animais. No entanto, não curto muito ficar compartilhando no facebook coisas com imagens fortes ou cruéis de animais sendo mortos em abatedouros ou coisa do tipo... (mas não critico quem faça isso, pois de certa forma isso dá uma visibilidade importante para a questão. Ok, só não toda hora porque já é demais rsrs).
Eu parei de comer carne e laticínios no meu dia-a-dia, nesse contexto em que vivo, num meio urbano e capitalista. Mas se um dia eu for para uma aldeia indígena ou comunidade tradicional e me oferecerem um peixe ou uma comida com carne animal, eu aceito sem problemas. Porque eu sei que a relação que os indígenas tem com o animal é bem diferente da que nós, não-indígenas, temos na cidade. Eles agradecem ao rio ou ao espírito do rio pelo peixe que foi dado, agradecem ao peixe que serviu como alimento para toda a comunidade, agradecem antes e depois de caçar ou matar o animal. E isso para mim, como pagã e druidista, é importante. Quantos abatedouros fazem isso? ...

Agora, eu penso que se toda a população do planeta parasse de comer qualquer tipo de carne, teríamos um outro desequilíbrio. Porém, é fato que se no momento pararmos ou reduzirmos consideravelmente o consumo de carne e laticínios vamos minimizar bastante os problemas de desmatamento e aquecimento global. Sem falar que uma mudança como essa não é só de hábitos alimentares, é também do modo de pensar e de se relacionar com a própria comida. Você tem que fazer o seu alimento – ou seja, acabou a vida de comer fora (a não ser que seja numa lanchonete/restaurante veg) –, e algumas pessoas até plantam vegetais em suas hortinhas, o que é muito legal. E isso vai totalmente ao encontro com o (neo)paganismo, que ensina que devemos retomar nosso contato e relação profunda com a Terra.
Mas ainda é difícil para um pagão ser vegano totalmente... (por algumas razões que citei acima... o tambor, o hidromel...), embora conheça alguns que o são. Talvez precisemos encontrar um equilíbrio, um meio termo e um termo propriamente... “Paganveg”? Mas isso não importa muito, acredito que cada um deve seguir com seus princípios e buscar uma alimentação mais consciente sim. Afinal, se acreditamos que nosso corpo também é sagrado é importante refletir sobre o que colocamos dentro dele.
Sobre virar veg (ou “paganveg”?) ou parar de comer carne... Sim, é difícil no começo... É ser contra todo um sistema que te impõe o que comer ou não comer. É nadar contra a corrente, mas quem é pagão já tem nadadeiras mais fortes ;) .



(Não escrevi tudo o que queria escrever, até porque não queria que fosse um texto longo e chato. E também foi difícil traduzir em palavras escritas todas as ideias e pensamentos que ainda estão borbulhando na minha mente sobre esse assunto. Mas espero que abra para a reflexão no meio pagão e possamos discutir “de boas” essa e outras questões).

16 de dezembro de 2015

Espiritualidade feminina, ecologia e coletor menstrual.

(texto publicado primeiramente no site aterrasagrada.blogspot.com)




Tem quase um ano que comecei a usar o “Copo da Lua”, como gosto de chamar o meu coletor menstrual, e desde então só tenho tido experiências maravilhosas com ele! Resolvi escrever um texto falando um pouco sobre isso, ainda mais porque li recentemente algumas dúvidas de meninas no Facebook. Então bora lá...

Primeira coisa, ao ler esse texto desprenda-se de qualquer preconceito e abandone pensamentos como “ah que nojo...”, “ah credo...”, “ah isso”, “ah aquilo...”, ok? Estamos falando de nossos corpos e tudo o que ele abrange, e dentro da Espiritualidade Feminina o nosso corpo é sagrado! O corpo feminino, sobretudo, já passou tempo demais sendo objetificado e desvalorizado em todos os aspectos. Tá na hora de reconhecermos o poder que ele tem e a força de nossos ciclos sagrados, ok mulherada?! (e macharada também, bora mudar esse comportamento/paradigma aê!).

Bom, antes de eu começar a usar o Copo da Lua eu já o tinha em casa, quero dizer, já tinha comprado ele fazia uns anos, mas nunca tinha conseguido usar, então ficava lá, guardado na minha gaveta... mas nunca esquecido. Até que nos últimos anos, meus estudos sobre a Espiritualidade Feminina e o Ecofeminismo começaram a se intensificar. Aí pensei, “hum... acho que tá na hora d’eu tomar vergonha na cara e aprender a usar esse coletor”. Então, comecei a participar de grupos no Facebook que tratavam sobre o assunto (coletores menstruais) e a conversar com amigas minhas que já usavam. Foi quando pude esclarecer um monte de dúvidas que ainda tinha sobre como usar o Copo da Lua.

Que ele é muito mais ecológico que os absorventes descartáveis, eu já sabia (pois o coletor é reutilizável e o absorvente não né? Sem falar que este último possui um monte de substâncias químicas, e ao ser descartado no lixo, ou seja, na natureza, vai provocar um dano terrível ao planeta... ainda mais em grandes quantidades; imaginem quantos absorventes vão parar no lixo todo dia, no mundo todo?!!). E que ele é muito mais higiênico que os ditos absorventes, eu também sabia (pára pra pensar, o absorvente fica ali, horas abafando a sua Yoni*, o sangue coagulando e proporcionando inclusive a proliferação de fungos, porque a Yoni fica abafada, e fungo adora uma umidade e um calor...).

Enfim, a minha dificuldade era colocar o coletor lá dentro...
E isso tinha a ver (hoje eu entendo) muito mais com a minha relação com meu próprio corpo do que se o coletor prestava mesmo ou não.
Bem, nesse quase um ano de uso do Copo da Lua eu vou mencionar alguns aspectos positivos (os negativos são muito poucos, e para mim, são praticamente nulos) das experiências que venho tendo com ele ok? Sempre relacionando com a Espiritualidade Feminina, afinal, é do que mais se trata esse site! ;)

Sobre as experiências boas (diga-se, maravilhosas!) de se usar o coletor...

1. Eu colocaria como primeira, a mudança na relação que a gente tem com nosso próprio corpo. Ou seja, você começa a se olhar diferente, a se conhecer. Como falei antes, o corpo feminino ao longo dos últimos séculos foi sobrecarregado de tabus e proibições que só prejudicaram as mulheres. Nós não conhecemos nossos corpos, algumas (muitas) mulheres ainda têm nojo de seu próprio corpo, de sua yoni, de seu sangue, etc. É muito difícil ainda para a grande maioria das mulheres ter uma relação saudável com sua própria menstruação ou conseguir sentir prazer numa relação sexual... Porque por muito tempo, a mulher foi subjugada e condenada ao status de pecadora, e à ela só cabe sentir dor, não prazer. E isso é um absurdo! A mulher tem um órgão em seu corpo cuja função é unicamente proporcionar prazer a ela (estudos científicos recentes estão comprovando isso), e esse órgão é o clitóris. Mas muitas de nós sequer sabe o que é o clitóris... Fomos ensinadas a ser recatadas, a ver o sexo ou o desejo como pecado, e isso demora a ser desconstruído na psique de uma mulher... Demora mesmo, é um processo.

Pois enfim, voltando ao foco, quando usamos o Copo da Lua inevitavelmente entramos em contato com nossos corpos, com nossa yoni. Temos que tocá-la, saber onde ficam os grandes e pequenos lábios, a entrada da yoni etc. Ao contrário de usar absorvente que você apenas coloca na calcinha e depois tira e joga fora, sem mal olhar para o sangue que flui do seu ventre e muito menos para o seu órgão.

2. Segunda coisa legal de usar o coletor, você vê o seu sangue! E ele não fede (como acontece quando usamos absorventes, porque eles abafam ali a região, lembra?). Quando se tem uma compreensão diferente ou, melhor dizendo, sagrada com nosso sangue menstrual você o olha com outros olhos... Na Espiritualidade Feminina o sangue menstrual representa tudo aquilo que seu útero está limpando de seu corpo e da sua vida. Toda energia acumulada, estagnada ou em desarmonia que esteja em seu Ser durante o último ciclo, é eliminada de seu corpo. Vemos o sangue então, não como algo sujo ou impuro, mas como um fluxo sagrado de transformação. Ele está te limpando para que um novo ciclo possa começar. Todos os meses as mulheres vivem um ciclo de vida-morte-vida... Saber reconhecer a força desse momento é o primeiro passo para honrar-se como mulher sagrada que você é.  E a cor vermelha?! Ah... Aquele vermelho vivo, intenso... É a cor da Vida!

3. Terceira coisa legal, você pode ficar até 12 horas com o coletor dentro de você! E então, é só lavar com sabão neutro, lavar sua Yoni e colocar de novo. Você pode tirar o coletor para limpar a cada 8 horas ou quando achar necessário, mas não recomendo que passe de 12 horas direto, porque aí sim o sangue (e o coletor) pode ficar com um cheiro ruim. Além disso, não vaza! Quem usou absorvente sabe como é uma chatice quando vaza sangue na calcinha né? Pois é, o coletor não deixa vazar nada! Só vaza se foi mal colocado (e para saber isso só você vai dizer, vai sentir... geralmente incomoda quando não está certinho no lugar). Ou seja, pode dormir de boas com o Copo da Lua!

4. Dê adeus aos gastos com absorventes descartáveis ou “ob’s”! Adoro passar pelas prateleiras de absorventes no supermercado e pensar: “Não preciso mais disso... ;)” . Mesmo que o coletor pareça caro no primeiro momento (em torno de 80 reais), compensa muito, pois a vida útil dele é de 10 anos. Sem falar que serão centenas de absorventes que você não irá jogar no lixo depois, né? Um pequeno alívio para a Mãe Terra...

5. Quando comecei a usar meu Copo da lua também comecei a fazer anotações sobre meu ciclo menstrual. Peguei um caderno simples, que chamo de “Caderno Lunar”, decorei com uma capa legal e me pus a anotar meus sonhos mais significativos, minhas sensações, intuições, emoções, pensamentos, algumas poesias, sempre registrando a fase da lua e a data em que vinha e ia embora minha “Lua Vermelha” (menstruação). Como se fosse um diário mesmo... Embora eu não escreva nele todo dia. Com o tempo você vai compreendendo melhor em qual fase da lua está mais disposta e em qual não está tanto assim... Em que momento você tem sonhos mais vívidos e o que eles significaram depois para você... O que suas emoções estavam lhe dizendo... E por aí vai. É um método muito interessante de autoconhecimento. Recomendo que façam isso, mesmo quem prefere não usar o coletor.

6. E a última coisa legal que menciono aqui (pois não dá para eu citar todas as coisas, estou relatando brevemente as que acho mais relevantes de escrever agora) é em relação ao modo de colocar o Copo da Lua. Como falei no início do texto, minha maior dificuldade era colocar o coletor, porque eu achava que o coletor era muito grande para mim, mas na verdade ele é do tamanho adequado e o problema estava em como eu estava tentando coloca-lo, ou seja, a posição. Quase todas as meninas que li comentando sobre essa questão e conversando com minhas amigas depois, diziam que a melhor posição para colocar o coletor era de cócoras. Quando fui tentar, na primeira vez não deu muito certo, pois estava tensa (e é muito importante que estejas relaxada), mas no dia seguinte na segunda tentativa deu tudo certo! Meu Copo da Lua entrou com facilidade e senti uma onda de alegria imensa! Com o tempo fui percebendo que a posição de cócoras carrega muito mais significado e simbolismo do que eu imaginava... As mulheres antigas quando se reuniam com outras mulheres na “tenda vermelha” (quando estavam todas menstruadas) costumavam ficar de cócoras em alguns momentos para deixar fluir na terra o sangue e ao mesmo tempo ofertar à Mãe-Terra esse sangue sagrado.
De cócoras é a posição que muitas mulheres dão à luz quando estão parindo uma criança.
De cócoras é a posição em que a figura/deidade mais emblemática e misteriosa, a meu ver, da mitologia celta se apresenta: Sheela-na-Gig. Ela está com as pernas bem abertas, com as mãos abrindo ou tocando a vulva, que mais parece um portal por onde algo ou alguém vai sair ou mesmo entrar. Sheela-na-Gig para mim está profundamente relacionada aos mistérios femininos, aos ciclos de vida-morte-vida e ao poder da Lua Vermelha que cada mulher carrega.



Todo mês, quando a Lua vem me visitar e eu me posiciono de cócoras para colocar meu Copo da Lua, eu penso em Sheela-na-Gig, me conecto com essa força ancestral, bem como com todas as minhas ancestrais... Me permito ser limpa, transformada e curada pelo meu sangue sagrado. E com isso abençoo meu útero, meu ventre e todas as minhas relações, seja com as mulheres que vieram antes de mim, seja com aquelas que virão depois.


Bem, era mais ou menos isso que tinha para compartilhar. Convido agora vocês, mulheres, irmãs, para refletirem e se quiserem experimentar e vivenciar não só o Copo da Lua, mas, sobretudo, o seu corpo e o seu sangue, que são sem dúvida Sagrados.




* Yoni: nome menos pejorativo e mais sagrado de chamar a vagina; proveniente da tradição hindu, especialmente do Tantra. 


(Texto por Mayra Darona Ní Brighid. Escrito em 15/12/2015, Lua Nova).

18 de agosto de 2015

Ecologia Feminina - A relação da mulher com a Terra (por Ana Paula Silva)


"A Ecologia Feminina é uma prática que a mulher tende a procurar quando deseja se harmonizar com a natureza. 
Gestos tão simples que encontramos em nossas avós e ancestrais significam muitas vezes para nós, mulheres modernas, uma revisão da própria vida, quando colocamos em cheque tabus e hábitos, para construir uma relação mais harmoniosa de cuidado com o próprio corpo e com o Planeta.
Nas  culturas indígenas e maias  a Terra é vista como a Grande Mãe que nos dá abrigo e nos alimenta, segundo essas culturas, a existência humana é essencialmente conectada ao Planeta. As qualidades femininas da natureza são expressas pela receptividade da Terra ao receber, acolher, nutrir e oferecer todos os recursos necessários para que a planta germine, cresça, floresça e produza novas sementes concebendo suas múltiplas expressões de vida. 
Podemos observar práticas femininas ancestrais e ecológicas, como a devolução do ciclo menstrual para nutrir a Terra, que foram modificadas pela cultura e de maneira efetiva desconectaram a mulher do cuidado consigo mesma e com o Planeta. 

Segundo o site Museu da Menstruação (http://www.mum.org/), no ano de 1888 os absorventes femininos começaram a ser vendidos, eram aqueles em formato de almofada, adaptações dos que as enfermeiras norte-americanas preparavam para elas próprias usarem, feitos de gaze e outros materiais hospitalares a que tinham vasto acesso. Desde então o absorvente feminino descartável passou a ser comercializado com forte apelo publicitário à sua praticidade, marcando início à era dos descartáveis. As primeiras propagandas veiculadas para o produto, em 1921, pela Kotex, destacavam que os absorventes descartáveis eram muito mais limpos e assépticos, confortáveis.  Mas atualmente na contramão de todas as campanhas, vêm crescendo o movimento que quer abolir os absorventes descartáveis volta absorventes de tecido, por serem uma  solução mais natural para a pele sensível da vulva, além de muito mais econômicos e praticamente não-agressivos ao meio ambiente.
A Ecologia Feminina é um termo muito abrangente e profundo, e pelo viés da sustentabilidade, podemos identificar pelo menos cinco temas de grande impacto e muito palpáveis a todos nós: Consumo Consciente; Lixo: Absorventes Femininos e Fraldas Descartáveis; Humanização do Parto; Aleitamento Materno e Educação Ativa.

Consumo Consciente
Quando optamos por financiar pessoas e empresas que estão fazendo a sua parte, também fortalecemos esse trabalho. Nossas decisões de consumo são como os votos em uma eleição: o maior número decide quem ganha. Por isso, quanto mais optamos por produtos e empresas realmente preocupadas em fazer do mundo um lugar melhor, mais fortalecemos esse movimento e mais rápido veremos as mudanças necessárias.
Praticar o consumo consciente significa buscar o equilíbrio entre a sua satisfação pessoal e a sustentabilidade socioambiental, maximizando as conseqüências positivas deste ato não só para si mesmo, mas também para as relações com a sociedade, economia e natureza. Este também busca disseminar o conceito e a prática do consumo responsável, fazendo com que pequenos gestos realizados por muitas pessoas promovam grandes transformações.

Sugestões de práticas visando o consumo consciente:

 - Comprar roupas, alimentos e outras mercadorias na medida certa para o consumo individual ou da família, visando evitar ao máximo o desperdício;
- Gastar água e energia somente o necessário, evitando ao máximo o desperdício;
- Reutilizar produtos e bens naturais sempre que possível;
- Promover a separação e reciclagem do lixo;
- Usar sistemas que evitem o desperdício de água e energia nas residências;
- Valorizar e adquirir produtos de empresas que demonstram preocupações sociais e ambientais;
- Utilizar sacolas retornáveis para transportar os produtos adquiridos em supermercados;
- Valorizar o consumo de produtos orgânicos que, além de serem benéficos à saúde, a produção envolve práticas de respeito ao meio ambiente.

Lixo: Absorventes Femininos
Uma mulher que utiliza absorventes descartáveis para conter seu fluxo menstrual produz, desde a sua puberdade até a menopausa, aproximadamente 10 a 15 mil absorventes descartáveis de lixo, resíduo excessivo e de grande impacto ecológico para o Planeta. 

Absorventes e tampões descartáveis são feitos de papel alvejado, plástico e contêm ingredientes químicos inconvenientes à saúde da mulher, como metais, surfactantes, desinfetantes, fragrância, bactericida, fungicida, gel absorvente, colas, traços de organocloretos  (pesticidas), entre outras coisas. A legislação brasileira não regula os componentes dos produtos menstruais e as indústrias não precisam listá-los nas embalagens.

Componentes como organocloretos e dioxina, subprodutos do processo de branqueamento, têm sido associados a problemas de saúde em humanos e animais, contribuindo para o câncer de mama, deficiências do sistema imunológico, endometriose, defeitos no feto e câncer de colo de útero (cérvix).

Alternativas ecológicas disponíveis:

Além de serem práticas, econômicas e ecológicas, visto que custam menos ao bolso e reduzem consideravelmente a produção de lixo no Planeta, o uso das alternativas abaixo incentiva a valorização e aceitação do processo natural do corpo. Em ambos os casos o sangue pode ser devolvido para a natureza como adubo e alimento para as plantas, pois contém uma gama de nutrientes e energia vital que fertilizam a Terra.
Absorventes femininos de pano são laváveis, confeccionados em tecido de algodão, permitem ao corpo respirar livre de produtos químicos e plástico e não contêm químicas.

Copo coletor de silicone: além de ter a praticidade de ser interno, é reutilizável e lavável, e pode ser fervido para esterilização ao final do ciclo, ou colocado em água oxigenada por algumas horas antes de ser guardado para o mês seguinte. Normalmente possui durabilidade média de 10 anos".

28 de março de 2014

...

"A terra é parte de meu corpo. Pertenço à terra de onde venho. A terra é minha mãe” (Tuhulkutsut).


Eu queria escrever algumas coisas sobre essa situação crítica que a Amazônia está vivendo, mas não sei se conseguirei traduzir meus pensamentos em palavras escritas.

O rio Madeira continua cheio, alagando a estrada e várias partes de Porto Velho e outros municípios. Acre e Rondônia enfrentam crises no abastecimento de alimento, combustível e produtos diversos. Hoje à tarde fui à padaria perto de casa e não tinha pão, pois acabou o trigo. Talvez chegue amanhã, talvez depois, talvez sei lá.
Mas isso é coisa leve perto do que Rondônia enfrenta... E ainda o interior do Acre, onde demora mais pra chegar os produtos.
O engraçado é que nos jornais quase não se fala ou não se fala nada sobre a responsabilidade que as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio têm sobre essa enchente do rio. Ou você acha mesmo que isso é SÓ um fenômeno da natureza?
Ah claro, a culpa não é só das hidrelétricas. É de todos nós. É dos desmatamentos absurdos, das queimadas, da poluição nos rios, do montante de lixo que produzimos todo santo dia nas cidades, enfim, do nosso total desrespeito para com a natureza. E não pense que a natureza é algo lá, longe de nós... A floresta lá e você aqui, na tua casa, no teu apto, no teu carro, no teu escritório. Não, meu irmão... A natureza É você. Você faz parte dela. Você que está no sul do país respira o mesmo ar de quem está no norte. Você aí que bebe a água limpa saída do filtro, bebe a água de um rio (supostamente tratada). Você aí que liga o computador para acessar o facebook todo dia, estás usando a força de um rio, que teve as águas represadas e o curso natural modificado numa hidrelétrica (que segundo o governo é energia limpa, mas sabemos muito bem que de limpa não tem nada).
O rio Madeira encheu e está trazendo à tona uma série de questões que não podem mais ser ignoradas. Precisamos repensar toda essa nossa forma de vida, todo esse sistema em que vivemos e precisamos, urgentemente, transforma-lo.
Chega de ganância e de um desenvolvimento que destrói a natureza, que destrói a nós mesmos. É hora de pensarmos em outras formas de geração de energia, cujos impactos ambientais sejam menores. É hora de olharmos a natureza como partes de nós mesmos, e entendermos que ao cuidarmos da Terra estaremos cuidando de nós e de nossas famílias. É hora de sermos mais solidários com os outros humanos e os outros seres desse mundo.
Estou vendo gente, que na ignorância ou no desespero, estoca quilos de alimentos e litros de combustível, sem necessidade. O que faz com que logo os produtos acabem e muitas pessoas fiquem sem. Até quando vamos só pensar no nosso umbigo?
E você já parou pra pensar o quão pequenos, e eu até diria, ridículos nós somos? Parece que para alguns sem gasolina a vida pára. Por acaso tu nascestes andando de carro? Não tens pernas? Se tem, ótimo, agradece por isso. Tem gente brigando em fila de posto de gasolina, indo aos tapas por uma chance de conseguir uns litros de combustível caro (diga-se de passagem muito caro, em Rio Branco está na faixa de R$ 3,30).
E tem tanta coisa nesse mundo que vale muito mais a pena a gente se preocupar, ou gastar nosso tempo e energia...
Se nesse exato momento, começasse um incêndio em tua casa. E você tivesse menos de 5 minutos para pegar alguma coisa e sair com vida. O que você pegaria?
Devemos parar de nos ver separados em nossos mundinhos. Não é “eu aqui no Acre e os outros lá em Rondônia”. Não é “tu aí em São Paulo, e o índio lá na aldeia no mato”. Somos NÓS vivendo em um mesmo planeta. O que acontece em Rondônia afeta o que acontece no Acre. O que acontece na Amazônia afeta o que acontece no sul do Brasil. O que acontece no sul, afeta o que acontece no nordeste. E o que acontece em qualquer lugar do mundo afeta o que acontece em todo o mundo!

Mais cedo ou mais tarde o Madeira vai baixar, e vai deixar um rastro de sujeira. Resta a nós, eu, você, representantes políticos, limparmos tudo e construir uma nova forma de viver nesse planeta. Antes que a próxima enchente do rio venha e nos leve a todos pra debaixo d’água.


5 de fevereiro de 2014

Na minha terra...

Na minha terra não tem Carvalho, mas tem Samaúma.
Na minha terra não tem Aveleira, mas tem Açaí.
Na minha terra não tem corvo, mas tem urubu e tem anu.
Na minha terra não tem cisne, mas tem garça.

Onde eu nasci não tem tinta azul.
Mas pra se pintar, usamos jenipapo e urucum.
Onde eu nasci não tem zimbro, mas tem breu e priprioca.
Onde eu nasci não faz frio,
Mas quando chove a gente deita na rede e se embala com a canção do vento e da chuva. E se der, ainda come uma tapioca.

Se isso me afasta do Druidismo ou dos Celtas antigos, eu vos digo: pelo contrário. Isso me aproxima deles e me religa ao que tem de mais sagrado: a Natureza.


Mayra (Darona) Ní Brighid.

(Raízes de uma samaúma, foto de Araquem Alcântara).



14 de março de 2013

Dia da Água e reflexões


(Docas, em Belém, foto de Mara Hermes, do Flickr)

Caminhando um pouco pela cidade de Belém é possível perceber o tratamento que estamos dando as nossas águas... Ou seja, nenhum. Estava eu andando ali nas Docas, um lugar movimentado da cidade, área nobre e turística, quando senti o cheiro pútrido da vala... Não era simplesmente o cheiro da fossa, era como se estivesse entrado num banheiro imundo e ainda com a descarga quebrada...! Não estou exagerando, minha irmã e cunhado que estavam comigo também sentiram esse cheiro. E olha que é ali, na área nobre de Belém... Imagine nos bairros periféricos da cidade...

Belém não possui saneamento básico decente, a prefeitura não trata o esgoto antes de ser lançado nos canais, pelo contrário, o que sai de nossas privadas e pias vai diretamente para os canais...! Isso é um absurdo!!! Canais que são originalmente rios, igarapés... Ou pelo menos eram... Se tivéssemos um adequado tratamento de esgoto, com certeza as águas desses canais não estariam tão poluídas como estão hoje. Poderíamos quem sabe nadar nessas águas? Ou ao menos desfrutar de fato de um lazer nesses locais, e não passar correndo por eles pra não sentir o cheiro podre de cocô. A vida nesses antigos rios e igarapés é prejudicada, as pessoas que moram no entorno deles são prejudicadas, a população inteira da cidade é prejudicada. E como ainda hoje nossos representantes políticos não tomam uma atitude para resolver essa situação? Como a população não se conscientiza de cobrar isso do poder público ou ao menos de protestar? Estamos mesmo muito acomodados... Belém então...?! A população só quer saber de “tremer” nas aparelhagens, passear no shopping, curtir um som na balada lá nas Docas... E se sentir cheiro de merda? “Fecha o vidro do carro, liga o ar e tapa o nariz, maninho!” E sobre a “onda” do “treme”, sem comentários... A mídia ainda dá a maior corda para essa “cultura” (oi?) que sinceramente não passa nada de bom para os jovens. Cadê o nosso carimbó? O siriá? E tantas outras manifestações tradicionais? Cadê a valorização aos mestres populares do Pará? Ficaram esquecidos? Eles com certeza não se esqueceram...

("Chuva abraçando Belém", foto de Fausto Nocetti, do Flickr)

Belém é a cidade das águas, incontestavelmente. Mais ainda do que cidade das mangueiras. A chuva é a grande rainha dessa terra. É ela que marca as nossas estações. A falta dela ou o seu excesso esvazia ou enche os rios. Estes, por sinal, espalhados em todos os lugares. Muitos, infelizmente, foram soterrados ou aterrados para a construção de casas, prédios e condomínios... Um crime ambiental. Belém é uma cidade alagada na verdade. Um grande igapó. Poucos locais são de terra firme. Mais ainda sim, somos insistentes e irresponsáveis. Destruímos áreas verdes e naturais para construir prédios sem fim. Na própria rua onde mora minha mãe, no bairro Batista Campos, tem um prédio altíssimo por sinal em construção. Já teve a licença ambiental não sei quantas vezes barrada, mas quase sempre conseguiam dar um “jeitinho”. Agora, parece que está parado de novo. Lembro que logo no começo da construção tubos e canos enormes ficaram dias e dias puxando água do fundo da terra e jogando sabe onde? Diretamente na vala. Tenho quase certeza que a água que estavam tirando era de um lençol freático... ou no mínimo ligada ao canal/igarapé aqui próximo. A água que escorria pelos canos era limpa, clara... e estava sendo ali jogada na vala... Senti como se estivessem secando uma veia. Uma veia da terra... Outro crime ambiental. Desses que a gente vê em cada esquina... infelizmente.
Um dos principais reservatórios de água de Belém, que abastecem a cidade, fica no Parque do Utinga, uma área (diz que) de proteção ambiental. No entorno é possível ver lixo, jogado quase sempre pela população mesmo, a cerca que o envolve encontra-se em muitas partes torcida ou quebrada... Enfim, um lugar que de longe a gente percebe que está mal cuidado, pela prefeitura e pela população, coisa que aliás não deve ser encarada separadamente. Se uma está com problemas, com certeza a outra também está.
A enorme tubulação de água que sai do Utinga e abastece a cidade fica ali, exposta na rua, bem na João Paulo II (antiga 1º de Dezembro), enferrujada, cheia de pichação, mato e lixo ao redor... E coladinha nela, uma invasão. Pense numa água “limpa” que chega em sua casa?! E mesmo não sendo aquela coisa, com a qualidade ideal que deveria ter, muitos bairros em Belém sofrem com a falta contínua de água. Alguns ficam dias, semanas sem água. Ô prefeito! Eles pagam impostos também e é um direito de todos terem água encanada e limpa em suas casas, sabia?
Para piorar, muitos dos que tem água em suas casas ainda a desperdiçam. É torneira com defeito pingando dia-e-noite, é chuveiro ligado por horas no banho, é gente lavando carro na mangueira (e enquanto ele ensaboa o carro, a água tá lá... escorrendo na vala)...
É um descaso total com a água. A cidade de Belém, o Pará e, infelizmente, o Brasil como um todo, não respeitam e não cuidam das águas que temos (se é que são “nossas”). Belém é uma terra que chove pra caramba, não é possível que não tenham pensado num projeto para captar e tratar a água da chuva como alternativa a água dos rios?! Se pensaram, então estão com preguiça ou má vontade de coloca-lo em prática, assim como tantos outros bons projetos engavetados.
Pensemos no nordeste que está sofrendo a pior seca das últimas décadas! E isso quase não se fala nos jornais... A moda agora é falar do Papa... Pessoas e animais estão sofrendo e morrendo por causa da seca no sertão. Cidades do nordeste têm que passar por um racionamento de água rigoroso, enquanto noutras cidades não só do Pará, mas do Brasil desperdiçam água a bangú e poluem monstruosamente os rios, igarapés e todas as águas da cidade e do interior... Não interessa que eles estejam “longe” de você e vivem noutra região. Eles são nossos parentes! Pisamos no mesmo solo, na mesma terra, país e planeta! Não podemos mais ser tão egocêntricos assim. Estamos acabando com a natureza e com nós mesmos, já que ela não está separada de nós, acredite você ou não nisso.

Nesse dia 23 de março é o Dia da Água no calendário civil, façamos essa reflexão... Se possível façamos manifestações e protestos em nossas cidades sobre essa questão. Como estamos tratando as águas dessa terra? Rios, igarapés...? Será que viraram todos canais? Esgotos a céu aberto? Ah Belém... Que vergonha... De mim, de ti, de todos nós que deixamos que isso acontecesse.
Faço um pedido, singelo, simples: cuidemos de nossas águas. Sem água não há vida.
E faço um convite, vamos fazer cada um em sua cidade, no dia e hora melhor para cada um de nós, um ato simbólico, sagrado para pedir desculpas e honrar as águas de nossa cidade. Ao passar por um canal, que antes era um rio ou igarapé, pare um pouco ali, olhe para ele, pense no que ele foi um dia e como poderia ser no futuro melhor... Deixa teus pensamentos voarem ali, deixa aquelas águas turvas, limpas ou seja lá como estiverem, falarem contigo... E como um pedido de desculpas e um ato de reconhecimento àquelas Águas jogue ali uma flor bem bonita e cheirosa. Com uma leve reverência se retire dali e volte a sua vida cotidiana... Depois me conte como foi, se quiser, eu gostaria muito de saber.

No mais, desejo um feliz Dia da Água para todos nós, e principalmente para elas, as Águas. E feliz Equinócio de Primavera, que aqui em terras belenenses já se manifesta com sua dança de chuva e calor intenso...

26 de novembro de 2012

Uma canção para a Mãe Terra

Uma tradução e adaptação da música "Earth Mother", de Lisa Thiel e Ani Williams.

"Mãe Terra,
Estamos em seu corpo.
Mãe Terra,
Cantamos sua canção.

Mãe Terra,
Curamos seu corpo,
Mãe Terra,
Somos seu coração.

Oweoweoweouhá."


Para ser cantada no ritmo da música original, como pode ser ouvida abaixo.


10 de outubro de 2012

Celebrando a Lua Vermelha


(Shakti, o divino feminino, esposa divina de Shiva na mitologia hindu)


Cada vez mais mulheres estão ressignificando seu sangue menstrual, buscando em tradições e Deusas antigas a inspiração que precisam para (re)sacralizarem seu sangue e seu ventre. Mas ainda assim, existem muitas mulheres que crescem ouvindo que seu sangue (e corpo) é sujo, impuro, profano.
O movimento cultural e espiritual de fortalecimento e reconhecimento (não gosto muito de usar o termo “resgate”) do Sagrado Feminino está se espalhando pelo mundo, felizmente, como um sussurro, um sopro da Mãe Terra nos corações de homens e, sobretudo, das mulheres. A meu ver, o movimento do Sagrado Feminino vai além de religião, ou melhor, transcende as religiões e instituições; está presente – em maior ou menor grau - em todas elas e ao mesmo tempo não se prende em nenhuma. Seja na Wicca, nas religiões da Grande Mãe, no(s) Xamanismo(s), no Druidismo, nas correntes da Nova Era e mesmo no Cristianismo (com a Teologia feminista), o Sagrado Feminino ganha cada vez mais força, e pode ser encontrado em movimentos não necessariamente religiosos, mas também sociais, como em ONGs de apoio ao parto humanizado, associações de mulheres, grupos ambientalistas etc.
O fortalecimento do Sagrado Feminino está relacionado profundamente ao movimento da Ecoespiritualidade feminina, e muitas vezes são considerados sinônimos.
Sabemos que o ciclo menstrual está intimamente ligado ao ciclo da lua, e conectar-se com esse e outros ciclos, ou melhor dizendo, com a Ciclicidade da Natureza é se conectar melhor com nossos próprios ciclos (internos e externos) e compreender mais profundamente nós mesmas, nossos sonhos, medos, anseios, desejos, intuições... Com isso nos sentiremos mais fortes, mais seguras, sábias e saudáveis.
Há muitas formas de se conectar e honrar a sua menstruação; neste texto irei propor algumas sugestões e ideias para que cada mulher celebre a sua Lua Vermelha. A intenção é que você possa desfrutar de momentos de meditação, reflexão e magia; refletir sobre o momento em que está vivendo, perceber que o seu sangue e seu corpo são sagrados, sentir-se parte da natureza, sentir que você está no coração da Mãe Terra, e que Ela está no seu coração...


* Primeiramente, procure reduzir ao máximo o uso de absorventes descartáveis, além de ser um gasto muito grande em longo prazo, são muito poluentes para a natureza. Se puder evite usa-los, opte por um coletor menstrual. No Brasil, existe um tipo de coletor chamado MissCup

* Alguns dias antes de menstruar ou também durante a menstruação, os sonhos geralmente ficam mais intensos e significativos, por isso procure prestar atenção a eles e as mensagens que podem te trazer.

* Durante o banho, perceba seu corpo, seu ventre, seus seios, se estão inchados ou não, se algo lhe incomoda, e o porquê lhe incomoda. Perceba seu sangue, toque-o, sinta o cheiro, a textura, tenha consciência dele. Pense que todas as mulheres no mundo menstruam, é um dom que todas compartilham, todas nós estamos interligadas pelo sangue menstrual, ligadas umas com as outras, e todas com a Mãe Terra.

* Sempre que puder escute músicas que você aprecie, principalmente se falam do Feminino. Particularmente, gosto muito das músicas de Lisa Thiel, Dani Lasalvia, e algumas do Omnia (como Moon, Luna, Morrigan), mas sinta-se livre para escutar o que sua alma pedir. Músicas de dança do ventre são uma ótima ideia também, e se sentir vontade, dance e cante!

* No primeiro dia da menstruação, ou enquanto o fluxo ainda estiver forte, diante de seu cantinho especial (o altar, oratório, quintal, quarto... Enfim, um lugar em que você tenha privacidade e se sinta bem) dedique alguns minutos para meditar e celebrar seu sangue. Acenda uma chama (vela ou fogueira) e coloque água (de rio, chuva ou mineral) em um recipiente; acenda incensos também se preferir. Medite, cante, toque instrumentos (tambor xamânico, bódhran, flauta ou maracá...), ore e honre as deusas que você tem afinidade e que estão ligadas a fertilidade e ao poder femininos. Pode ser Epona, Eriu, Danu, Morrigan, Rhiannon, Aetegina, ou mesmo Afrodite, Oxum, Iacy, Pachamama, ou simplesmente o Sagrado Feminino. Acredito que em uma celebração da lua vermelha todas as Deusas se solidarizam, se interligam, assim como as mulheres menstruadas... Peça às Deusas ou a Mãe Terra que desperte e fortaleça o Sagrado Feminino em todas as mulheres. Peça pela Paz entre os povos e todos os seres, pela Cura da Terra, e também por sua própria cura. Existe uma forma de meditação/oração que consiste primeiramente em deixar a mente livre, serena, e em seguida deixar que as palavras surjam espontaneamente em seu pensamento e então proferi-las, como um mantra, uma oração. Por exemplo:

Sangue sagrado
Sangue que cura
Sangue que transforma
Sangue que inspira
Sangue da Lua
Sangue sagrado

Corpo sagrado
Corpo que nutre
Corpo que gera
Corpo da Terra
Corpo que abraça
Corpo que ama
Corpo sagrado

Ventre sagrado
Ventre que gera
Ventre que cria
Ventre que purifica
Ventre que acolhe
Ventre fértil
Ventre sagrado

...

       * Ofereça seu sangue menstrual para a Mãe Terra. Esse foi e ainda é um costume ancestral. Mulheres indígenas de tribos nativas dos EUA se reuniam na tenda da lua ou tenda vermelha durante o período menstrual e ofertavam seu sangue a Terra. No Brasil, em algumas tribos indígenas as mulheres se recolhem em cabanas específicas, sentam-se em círculo de cócoras e deixam seu sangue escorrer para a Terra, como uma forma de oferenda e ao mesmo tempo purificação. Caso você use absorventes, derrame um pouco de água nele e o esprema sobre a terra (ou em vasos de plantas), oferecendo à Mãe Terra e pedindo pela cura do planeta e da humanidade. Sinta-se grata pela Deusa Terra compartilhar com você Seu poder de fertilidade.

       * Consulte oráculos pedindo conselhos para algum momento difícil em que esteja passando.

      * Se possível, reúna-se com outras mulheres, forme um Círculo de Mulheres, troquem informações, experiências, saberes, fortaleçam-se nessa união, celebrem juntas o sangue sagrado e a alegria de ser mulher.


(Um Círculo de Mulheres)


Essas ideias aqui sugeridas foram e são frutos de minha vivência pessoal. Saiba que não é necessário você realizar todas elas, pode optar por algumas e adapta-las ao seu contexto. Fique a vontade e ouça sua intuição. Espero com isso incentivar cada vez mais mulheres a celebrarem sua menstruação e fortalecerem em si o Sagrado Feminino, independentemente se seguem ou não uma religião ou espiritualidade, pois torna-se urgente o surgimento de uma nova consciência, de uma humanidade com mulheres, e também homens, conectados com a Natureza e em sintonia com os ciclos sagrados. 

29 de setembro de 2012

Lua

E porque hoje é lua cheia... E essa música cai bem =)



Prece druídica da Paz (OBOD)



Gente, vamos fazer essa corrente?
Na primeira noite de lua cheia (ou quando você puder, mas que seja durante a lua cheia), e diante da Rainha da Noite faça a Prece druídica da Paz (da OBOD) escrita abaixo e, se quiser, faça também outras orações ou pedidos pela paz no(s) mundo(s). O planeta está precisando...

Na profundidade do centro tranquilo do meu ser,
que eu possa encontrar a paz. 

Silenciosamente dentro da quietude do Bosque,
que eu possa partilhar a paz.

Suavemente dentro do grande círculo da humanidade,
que eu possa irradiar a paz.


"A cada Lua Cheia a OBOD promove meditações pela Paz. Onde quer que esteja, pode juntar-se a nós "em pensamento" nesta meditação que tem como ponto central a paz no mundo." (Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas)

/|\


9 de setembro de 2012

Oração a Mãe Terra


(Dá Chich Anann, "Os seios de Anann/Anu", Irlanda)

"Abençoado seja o Filho da Luz que conhece sua Mãe Terra.
Pois é ela a doadora da vida.
Saibas que a sua Mãe Terra está em ti e tu estás Nela.
Foi Ela quem te gerou e que te deu a vida.
E te deu este corpo que um dia tu lhe devolvas.

Saibas que o sangue que corre nas tuas veias.
Nasceu do sangue da tua Mãe Terra,
O sangue Dela cai das nuvens, jorra do ventre Dela.
Borbulha nos riachos das montanhas.
Flui abundantemente nos rios das planícies.

Saibas que o ar que respiras nasce da respiração da tua Mãe Terra,
O alento Dela é o azul celeste das alturas do céu.
E os sussurros das folhas da floresta.

Saibas que a dureza dos teus ossos foi criada dos ossos de tua Mãe
Terra.
Saibas que a maciez da tua carne nasceu da carne de tua Mãe Terra.
A luz dos teus olhos, o alcance dos teus ouvidos.
Nasceram das cores e dos sons da tua Mãe Terra.
Que te rodeiam feito às ondas do mar cercando o peixinho.

Como o ar tremelicante sustenta o pássaro.
Em verdade te digo, tu és um com tua Mãe Terra.
Ela está em ti e tu estás Nela.
Dela tu nasceste, Nela tu vives e para Ela voltará novamente.

Segue, portanto, as Suas leis.
Pois teu alento é o alento Dela.
Teu sangue o sangue Dela.
Teus ossos os ossos Dela.
Tua carne a carne Dela.
Teus olhos e teus ouvidos são Dela também.

Aquele que encontra a paz na sua Mãe Terra.
Não morrerá jamais,
Conhece esta paz na tua mente.
Deseja esta paz ao teu coração.
Realiza esta paz com o teu corpo". 

(Autor desconhecido)

28 de agosto de 2012

Terra sagrada, Corpo sagrado.



Incrível como a inspiração é maravilhosa e vem, quase sempre, repentinamente, nos surpreendendo nos momentos mais cotidianos e nos tirando da rotina alucinógena de todos os dias.
Depois de tempos, meses, sem escrever nada para ser publicado no blog, eis que hoje, 27/08/12, há mais ou menos 20 minutos atrás[1], os Deuses mais uma vez sopram sua sabedoria em meus ouvidos.
Enquanto lavava a louça, senti de repente uma pontada debaixo do dedão do pé esquerdo. Sem parar de enxaguar o prato, me abaixei e com a mão direita cocei onde havia sentido a pontada. Mas ela continuou, como se estivessem a alfinetar aquele lugarzinho debaixo do dedão. De repente, pensei que deveria escrever alguma coisa pro meu blog, pois estava em débito com os leitores (e comigo mesma), se é que alguém me lê rsrs.
E então, mais de repente ainda, começaram a surgir palavras, ideias em minha cabeça sobre o corpo, o nosso corpo e sua relação com o sagrado. Terminei de lavar a louça, ainda com os pensamentos brotando em minha cabeça, e me sentei na frente do computador. Eis as ideias que me foram sopradas...

Muitas religiões valorizam demais o espírito, a mente, em detrimento da matéria e do corpo. Isso, para mim, provoca um desequilíbrio. Porque simplesmente não podemos ignorar nossos corpos. Temos sensações, sentimentos, prazeres e dores, que se ignoradas, e às vezes dessacralizadas, nós adoecemos, nos desequilibramos emocional e fisicamente.
No Druidismo, e também em muitos ramos do paganismo e espiritualidades ligadas a Terra, procura-se valorizar tanto o espírito quanto o corpo. Na verdade, dentro do Druidismo temos uma visão de que corpo e alma não estão profundamente separados, ou melhor, que o Divino e o Mundano não são oponentes. São “lados da mesma moeda”, são faces da mesma realidade.
É através de nosso corpo, de nossos sentidos e sensações que o sagrado se comunica conosco. No voo dos pássaros, no canto de um bem-te-vi, no barulho do vento, no cair da chuva, no sonho no meio da noite, os Deuses e ancestrais falam conosco, nos inspiram e nos aconselham a todo momento.

Nosso corpo deve ser cuidado, deve ser mantido saudável, pois ele é sagrado. Uma prece à Epona diz, “como a terra é minha carne, pedra os meus ossos, cada erva é meu cabelo, o mar meu sangue, o Sol é minha pele, minha alma a Lua, as estrelas meus sentidos, minha razão as nuvens e o vento é minha respiração”. O nosso corpo, portanto, é a Terra, e a Terra é sagrada.
Nosso corpo possui uma linguagem, uma fala, e ele está o tempo todo nos dizendo algo. Se pararmos para pensar, temos órgãos, células, neurônios, que funcionam perfeitamente e divinamente bem (quando estamos saudáveis, claro, e mesmo quando não, pois ainda assim ele luta para restabelecer a saúde), sem a nossa “vontade”, ou seja, sem a nossa autorização consciente. E o nosso corpo faz isso o tempo todo. Não acho loucura pensar que ele tenha uma consciência própria. Quando algo está errado em nosso organismo, ele tenta de todas as formas nos avisar disso, seja por meio de dores, sensações estranhas, irritação e até mesmo de sonhos ou insônia. Nós é que, ocupados demais com os afazeres e principalmente com as distrações da vida moderna, ignoramos essa voz, essa fala do corpo. Mas ela está lá, ou melhor, aqui, dentro de mim, e aí dentro de você, o tempo todo se comunicando com sua consciência. Resta-nos parar um pouco, silenciar a mente e escutar.
No xamanismo de influência maia, existe um conceito chamado “a fala do sangue”, como explica Tedlock no livro “A mulher no corpo de xamã” (2010), que é na verdade uma forma de sabedoria, por vezes se aproximando de um tipo de oráculo, em que o/a xamã sente uma pontada, fisgada, calafrio ou sensação de calor em determinada parte do corpo, e dependendo da região do corpo existem interpretações e significados diferentes.

A dança, caminhada, ioga, exercícios físicos em geral, atrelados a uma boa alimentação, são ótimas formas de fortalecer, não só a nossa saúde, como também a conexão entre mente e corpo, espírito e matéria. E estando essa conexão bem harmonizada, podemos ser capazes de ouvir a voz e a canção dos Deuses, e sermos por ela inspirados...
Na mulher, durante os dias que antecedem a menstruação e durante esta é um bom período para perceber e se conectar com o seu corpo. Perceber as mudanças que ocorrem nele, como seios inchados, pele oleosa, sonhos mais vívidos, enfim, percepções que irão aos poucos nos (re)despertar para a consciência do próprio corpo.
No homem, bem, não sou homem, mas imagino que nos momentos de excitação o corpo é tomado por sensações de êxtase, e mais do que em qualquer outro momento, o corpo “fala” e age por si. Esta é a hora em que deve-se abrir à percepção para o corpo, sentir e ouvi-lo.
Entre todas as formas, penso que a dança seja a mais incrível de nos fazer despertar para a percepção do corpo, e mais do que isso, de nos conectar com o sagrado. Seja na dança do ventre, tribal fusion, flamenco ou na dança circular (que é a que eu mais tenho afinidade e carinho), sentimos que naquele instante tudo pára, as preocupações, as responsabilidades, a correria, e só sentimos o momento presente, a música, o chão sobre nossos pés, o ar que enche nossos pulmões, a sensação de bem-estar, leveza, paz... E é nesse momento, quando paramos para o mundo de fora e nos voltamos para o nosso interior, que sentimos nosso corpo, e que ouvimos nossa alma.

Experimente fazer uma coisa, ponha uma música que gosta muito, aquela que te faz viajar nos pensamentos. Feche a porta, a cortina, não deixe ninguém te atrapalhar. Feche os olhos, respire fundo e lentamente. Sinta seus pés, suas pernas, suas raízes, sustentando seu corpo. Comece a movimentar seus braços no ritmo da música, e então os pés. Enquanto movimenta os braços no ar, olhe para eles, veja-os cortando o ar, liberando faíscas, lançando luzes no ambiente. Movimente seu corpo, solte-o, sem tensões, sem vergonha, seja uma criança de novo. Brinque, ria, chore, pule, gire! Sinta a música! E quando seu fôlego faltar pare um pouco e respire fundo... Sente seu coração bater? Sente o suor cair na face? Sente o sangue quente sob a pele? Sente o Espírito pulsar em seu Corpo? Quando você sentir isso, sentirá então o riso dos Deuses no seu riso, e ouvirá a voz da natureza lhe falar aos ouvidos. E isso é sagrado.


Abençoado seja o caminho que me conduz aos Deuses e ancestrais.
Abençoados sejam meus pés que trilham este caminho sagrado.
Abençoadas sejam minhas pernas, minhas raízes, que sustentam meu corpo.
Abençoado seja meu sexo e meu sangue, símbolo de meu poder feminino na Terra.
Abençoado seja meu ventre, que guarda e germina as sementes de nova vida.
Abençoados sejam meus seios, que produzirão o leite cujo meus filhos se alimentarão.
Abençoadas sejam minhas mãos, que elas levem a Cura para o doente,
O afago para o ser carente e a benção para tudo o que tocarem.
Abençoados sejam meus braços e toda a produção que venha deles.
Abençoados sejam meus lábios, que eles somente profiram a sabedoria e a verdade.
Abençoada seja minha mente, que nela haja o bem e pensamentos de paz.
Que haja benção, proteção e saúde em mim e em meu lar.
Todo o dia e toda a noite.
Os Deuses acima para me inspirar.
Os Nobres ao lado para me guiar.
E os Ancestrais abaixo para me proteger.
Assim seja.

(Benção de plenitude)




[1] Comecei a escrever esse texto no dia 27/08/12 às 22:16 h, horário de Rio Branco, uma hora antes de Brasília.