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16 de janeiro de 2013

30. Conselhos

E chega o fim da jornada...! Com atrasos, mas chega rs.
Se me é permitido aconselhar, então faço-me das palavras de Gandhi e as dirijo a todos, que seguem o Druidismo ou não.

Mantenha seus pensamentos positivos, porque seus pensamentos tornam-se suas palavras.
Mantenha suas palavras positivas, porque suas palavras tornam-se suas atitudes.
Mantenha suas atitudes positivas, porque suas atitudes tornam-se seus hábitos.
Mantenha seus hábitos positivos, porque seus hábitos tornam-se seus valores.
Mantenha seus valores positivos, porque seus valores... Tornam-se seu destino.
(Mahatma Gandhi)

Aos que estão iniciando nos estudos sobre celtas e druidismo, perseverem, tenham fé, coragem e humildade. Saibam que o caminho não é fácil, pois exige muito estudo e dedicação, mas também não é um caminho tortuoso, pois é por demais prazeroso estudar o que nos toca a alma e seguir o caminho que nos leva de volta para casa...
Aos que estão na estrada há certo tempo, que haja humildade, sabedoria e gentileza para guiar os que estão começando e os que precisam de auxílio.
Àqueles que seguem solitários e desejam encontrar ou formar seu clã/grupo em suas cidades, que tenham força, esperança e dedicação, pois com a ajuda dos Deuses e no momento propício seu clã nascerá.
À família druídica brasileira eu aconselho ou peço apenas que cultivem a união entre si. O Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta (CBDRC) está aí, acabou de nascer e aos poucos ganhará força. Mas para isso é preciso que nós nos mantenhamos unidos, respeitando as diferenças que há entre nós e fortalecendo mais ainda nossas semelhanças.

(Uma parte da família druídica brasileira reunida durante o III EBDRC, em Nova Hamburgo, 2012)


No mais, agradeço aqueles que acompanharam meus 30 Dias Druídicos. Foi difícil manter o ritmo, mas com a benção de Brighid e Ogma consegui terminar a jornada, espero que tenha sido a contento de todos e que tenham se inspirado um pouco com minhas palavras. Fico feliz por ter participado dessa corrente dos 30DD, pois aprendi muito refletindo sobre esses temas. Para terminar, transcrevo a tríade celta que mais gosto e que para mim de certa forma resume o Druidismo:

“Honrar os Deuses, não fazer o mal, agir com bravura”.

Sigamos esse conselho, então, e sejamos o melhor que pudermos ser!

15 de janeiro de 2013

29. Futuro


Coisa mais incerta é o futuro... Por mais que recorramos a oráculos para obter respostas e fachos de luz sobre o que vem pela frente, ainda assim é incerto. O futuro depende muito mais de nossas escolhas e atitudes no presente do que de destino. O destino existe? Existe, ao menos acredito que sim. Mas ele é um caminho bifurcado, ou melhor, “multifurcado” (acho que nem existe esse termo rs), e o rumo das coisas depende diretamente de nossas escolhas, de qual caminho (entre muitos) decidimos seguir.

Por mais que alguns acreditem como dado o futuro do planeta, um futuro de destruição e colapso, ainda acredito (junto com tantas outras pessoas) que o rumo dos acontecimentos pode ser mudado. Acredito que a humanidade possa reencontrar a simplicidade e beleza da vida, que a natureza possa se regenerar, e que os seres humanos possam conviver em paz entre si e com os outros seres do mundo. Podem me chamar de ingênua ou o que for, mas acredito nisso. Se não acreditarmos e não fizermos o que é preciso para isso é claro que isso não acontecerá mesmo e então seria melhor “cantar pra subir”. É fácil se acomodar e dizer que o mundo não presta, que a humanidade está perdida, que a cidade é um lixo, e os políticos são uns miseráveis (tá, isso é verdade, mas quem vota neles?). Ao invés de criticarmos, que tal agirmos? Ao invés de esperar que o mundo acabe, que tal melhorar a realidade de vida da sua família, ou do seu bairro, ou sua cidade?
''Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança”, disse o conhecido e inspirador William Shakespeare.

Você já ouviu falar sobre a teoria do campo mórfico ou ressonância mórfica? Foi criada pelo biólogo inglês Rupert Sheldrake e segundo essa ideia “os campos mórficos são estruturas que se estendem no espaço-tempo e moldam a forma e o comportamento de todos os sistemas do mundo material” (ARANTES, 2002; retirado desse site). Essa teoria é explicada com base no relato fictício de duas distantes ilhas de macacos que aprendem a lavar raízes antes de comê-las ou quebrar os cocos de forma mais prática (no site referido acima contêm esses relatos). E essa mesma teoria está relacionada a citação seguinte, se não estou enganada, de Jean Shinoda, que gosto muito: "Quando um número crítico de indivíduos mudar a forma de pensar e de se comportar, uma nova era se iniciará".

Grupos de druidismo vêm surgindo aos poucos em locais onde antes não havia nenhum grupo ou onde não havia mais do que um druidista. Ecovilas vêm nascendo em diferentes cidades do Brasil e do mundo. Associações de proteção aos animais, ao meio ambiente e à mulher, por exemplo, surgem e/ou crescem em diversas regiões do país e do globo. Por outro lado, infelizmente, o capitalismo desenfreado também cresce... É uma luta constante entre essas correntes. E o resultado dessa peleja depende exclusivamente de cada um de nós. Não é só a vida da fauna e flora que correm risco, mas também a vida humana. Não somos donos do planeta e não podemos controlar a natureza. O que afeta a Terra, afeta também todos os que vivem nela. Isso não é novidade e temos que parar de agir como se não soubéssemos disso. Para o nosso bem e o de todos os seres no mundo.

Quanto ao futuro do Druidismo, bem, eu só tenho boas expectativas... =)


"A ressonância mórfica tende a reforçar qualquer padrão repetitivo, seja ele bom ou mal. Por isso, cada um de nós é mais responsável do que imagina. Pois nossas ações podem influenciar os outros e serem repetidas" (Sheldrake a revista Galileu).

13 de janeiro de 2013

28. Caminho


(Celtoi Volveci, um evento cultural céltico que acontece na Europa)

A tribo tem lugar para todos e todos fazem parte da tribo. Druida, vate, bardo, guerreiro, artesão, devoto, músico... Todos são importantes e necessários para a comunidade. Muitos grupos que seguem a linha reconstrucionista procuram manter essa ideia de várias funções dentro de um bosque ou grupo druídico, pois é óbvio que não existia apenas druidas ou bardos em uma tribo céltica, mas também guerreiros, ferreiros, agricultores, curadores etc. Algumas funções antigas são possíveis de serem adaptadas e ressignificadas para os grupos de hoje, outras não são, e outras ainda são criadas para suprir uma necessidade do próprio grupo.

No caminho do sacerdócio existem três funções, distintas entre si, mas ao mesmo tempo muito relacionadas. O bardo ou bardisa é o conhecedor profundo da história e dos mitos celtas. É o poeta - ou poetisa - sagrado, que compõe hinos, preces e canções aos deuses e ancestrais sob a influência da inspiração divina. O vate (uátis) é semelhante ao xamã ou pajé, pois é capaz de interpretar os presságios na natureza e nos oráculos, de visitar Outros Mundos e adquirir conhecimentos profundos dos ancestrais e seres feéricos ou encantados. Além disso, são capazes de realizar ou facilitar a cura por meio de preces, banhos, chás, ervas e outras formas de medicina (tradicional e/ou ocidental). O druida ou druidesa reúne de certa forma conhecimentos do bardo e do vate, mas vai um pouco mais além. Ele(a) deve ser versado na história e cultura do(s) povo(s) celta(s), conhecer as leis célticas e, sobretudo, as brasileiras (pois vivemos no Brasil, dã, rsrs) ou do local em que vive. De forma geral, o druida ou druidesa é uma atribuição que resulta do longo tempo de sacerdócio e de vivência no Druidismo, da dedicação ao grupo e, principalmente, da grande sabedoria apresentada por essa pessoa.

As funções não associadas ao sacerdócio são...
O guerreiro(a), que deve ter conhecimento ou mesmo a prática de artes marciais. Deve saber usar no momento adequado a raiva ou o "furor da batalha", não para matar inimigos, mas para conquistar seus desafios. Entre as nove virtudes, ele(a) deve cultivar em especial a Justiça e a Coragem. Sua função principal é proteger a tribo dos "forasteiros" (pessoas, energias e tudo que possa ser hostil à paz do grupo e suas atividades).
O artesão ou artesã é aquele(a) que possui habilidade com as diversas artes (pintura, desenho, artesanato, enfim). Fornece o material que sustenta as ações e a vida na tribo.
O devoto é aquela pessoa que não sente vontade ou vocação de seguir o sacerdócio e também não sente muita afinidade pelas outras funções, mas nutre uma grande ligação com a cultura celta e dedica-se a prática e estudo do Druidismo. O devoto ou devota mantém o culto aos deuses e ancestrais e às práticas diárias espirituais (preces, meditação, ritos etc.).
(Celtoi Volveci)

Outras funções podem ser acrescentadas e elas variam de grupo para grupo. Pode existir, por exemplo, a função do músico, que não é necessariamente o bardo, mas também compõe canções e músicas para as celebrações e festivais do grupo.
É possível também que uma pessoa sinta afinidade por mais de um caminho e queira dedicar-se a duas ou mais funções, como por exemplo, ser artesão e também bardo. Isso é perfeitamente possível, e ótimo até. Mas uma dessas funções provavelmente será a que ela desempenha e se sente melhor. Nesse caso, essa será considerada a sua função principal dentro do grupo.
Há conhecimentos da cultura e espiritualidade celta que todas as funções deverão cultivar, como, por exemplo, as Nove Virtudes e a Inspiração (Awen ou Imbas). O que foi mencionado acima seriam os conhecimentos específicos de cada caminho. Evidente que nem todos os grupos druídicos tem todas essas funções, pois isso requer que haja no mínimo seis ou sete membros no grupo, e são poucos os grupos no Brasil que apresentam mais de três ou quatro membros. Contudo, é um sonho de muitos (inclusive meu rs) de ter uma tribo (tuath; touta) relativamente grande, ao menos o suficiente para acolher essas ou outras funções/caminhos.

Todos nós temos um caminho, uma vocação, carregada de habilidades e afinidades muito particulares. Algo que só nós sabemos fazer e fazer bem, da nossa forma. Chamamos isso de dán, a nossa vocação, nosso dom... E o dom não pode ficar armazenado dentro de nós, ele tem que agir no mundo, tem que escoar, como uma torrente de inspiração, que toca os que estão a nossa volta e retorna para nós, fazendo um ciclo... A Inspiração é como a água, se parada acumula limo e não tem muita serventia, mas se corrente purifica e abençoa o caminho que percorre.

Quando cada pessoa tem uma função e dedica-se a ela dentro de um grupo druídico, ela sente-se realmente parte daquela tribo, daquela cultura, ou melhor, daquela família... Ela sente que pode, e realmente pode, contribuir muito com seu dán dentro do grupo.

Compor uma canção ou música para ser recitada em um festival sagrado, preparar uma deliciosa refeição para ser compartilhada por todos do grupo, aconselhar com sabedoria os que precisam de ajuda, curar por meio de preces, banhos, chás etc. alguém que necessita de uma cura (física e/ou espiritual), enfim, são formas dentre muitas outras de exercer seu dán, sua vocação ou função, dentro do grupo. Para alguns podem parecer ações pequenas, mas para os membros da Tribo e para os Deuses, são ações de suma importância e que merecem devido valor e reconhecimento.

E você, já descobriu seu dom? Já percebeu qual caminho sua alma sente profunda afinidade? Se sim, ótimo! Exerça-o com sabedoria, dedicação e alegria, e tenho certeza que todos serão beneficiados. Se ainda não, não se preocupe, tudo tem seu tempo e os Deuses lhe encaminharão no momento certo ao caminho que você deve trilhar. Você irá descobrir seu caminho ou o caminho descobrirá você. Ou então, crie seu caminho! Deixe ele brotar de dentro de você. No mais, não tenhas pressa... Segue em paz e aproveita a jornada!

10 de janeiro de 2013

27. Um Dia Druídico


Acordo, e procuro me lembrar dos sonhos que tive durante a noite e entender as possíveis mensagens neles contidas. Vou ao banheiro, lavo o rosto, troco de roupa, faço uma oração. Enquanto o café se apronta na cafeteira, faço algumas preces diante do altar. Depois disso, termino de fazer o café da manhã, sento-me na mesa com meu esposo enquanto conversamos e tomamos o café juntos. Recolho os pratos e xícaras, derramo água nas plantas, despeço-me de meu marido, que sai para o trabalho, com beijos e um abraço, e sigo para as tarefas do meu dia (algum trabalho acadêmico, leitura de um livro, ida a faculdade - e logo em breve ao trabalho - preparar o almoço, enfim).
Com o almoço no meu prato, me concentro e faço mentalmente uma oração de agradecimento ao alimento e ao animal que morreu. Almoço calmamente, enquanto assisto televisão ou escuto uma música. No fim da tarde, meu marido chega e preparamos um lanche para nós dois. Às vezes separo um pouco do café e ofereço aos meus ancestrais, em especial a minha avó materna. Durante o banho peço por purificação e renovação das minhas forças.
Sempre que possível, observo o pôr-do-sol pela janela da sala... Apenas contemplando aquele momento. Mais tarde, jantamos e novamente faço uma oração de agradecimento. Se o céu à noite estiver sem nuvens, gosto de observar as estrelas e a lua, e sentir a brisa noturna... Ou mesmo se o tempo estiver nublado, gosto de sentir o cheiro de chuva... Assistimos a um filme ou seriado, e depois vamos dormir, não sem antes eu realizar uma oração.

Meus dias são basicamente assim. Claro, que nem todo dia dá para seguir essa rotina que descrevi, mas faço o possível, ainda mais que capricorniano adora uma rotina... rs.
Deixo também muito a inspiração me guiar... Se me der vontade de ouvir tal música, eu ouço, se der vontade de escrever um poema, eu escrevo, se me der vontade de dançar alguma dança (especialmente circular ^^), eu danço... Enfim, deixo meus ouvidos, coração e sentidos abertos ao que os Deuses querem me dizer e ensinar.
O druida ou druidista não tem um dia druídico só quando irá comemorar um Imbolc ou Samhain. Evidentemente, que nos dias dos festivais dedicamos um pouco mais de atenção e práticas religiosas, mas os outros dias do ano não devem ser apenas “um dia normal do ano”. Nenhum dia é igual ao outro, e nenhum pôr-do-sol é igual ao de ontem. O Sagrado se manifesta tanto nos dias de pico do ciclo anual (os festivais) quanto nos outros dias. A verdade é que os Deuses e ancestrais estão presentes em todo o momento, ao nosso lado, sobre nós e abaixo de nós. Só nos resta perceber a presença deles. Viver todos os dias de forma druídica é viver uma vida mais plena de consciência, sacralidade e felicidade. 

(Luminária no altar dos ancestrais, foto de M. Faro)

9 de janeiro de 2013

26. Distrações


Ah é... Distrações... Deixei-me levar muitas vezes pela distração enquanto escrevia os 30 Dias. Às vezes isso era bom, porque pensava mais sobre o tema, e certos momentos as palavras vinham quase prontas na minha mente, por inspiração e intuição. Mas outras vezes era ruim, porque deixava a distração tomar um rumo que não deveria, e acabava perdendo muito tempo e às vezes o dia.

O mundo atual nos enche de distrações, algumas são úteis, outras, definitivamente não. Televisão, consumismo, internet... Ah essa internet, e em especial, o facebook, esse “mardito” rs. Por um lado é maravilhoso, pois me aproxima de pessoas que estão distantes de mim no momento, mas por outro é uma praga, pois prende a atenção por horas enquanto tenho uma penca de coisas a fazer... É, eu sei que você me entende rsrs. Quem nunca?
O nosso desafio é saber distinguir justamente qual distração nos é útil e qual não é. Muitas vezes estamos tão focados num trabalho ou tarefa que uma distração se torna saudável e necessária. Sair para caminhar um pouco, assistir a um bom filme, ler um livro, ouvir uma música, tocar um violão, acessar a internet, muitas vezes clareia a nossa mente e traz ideias que provavelmente não teríamos se continuássemos concentrados (e cansados) diante da tarefa. O problema é quando nos deixamos distrair demais e esquecemos o nosso foco.

Não vejo nenhum problema em pessoas que gostam de assistir novelas e futebol, o problema é quando a pessoa não vive sem isso ou quando esse tipo de distrações está fritando seus cérebros... Cuidado com o que a mídia e a cultura de massa impõem às nossas mentes, olhos e ouvidos. “Reality shows”, músicas com letras vazias e baixas, consumismo cego, jornais cuja página principal mostra foto de mulher seminua ao lado de um corpo morto de uma pessoa... Isso tudo só nos tira a atenção do que é importante e nos idiotiza. Como diz o velho ditado, “meu ouvido não é pinico”, mas eu acrescentaria “meu ouvido, meus olhos e minha mente não são pinico”.
Somos afetados de alguma forma por aquilo que vemos e ouvimos. As imagens, cheiros e sons afetam positivamente ou não nossas mentes e corpos. E isso não é nenhuma especulação, cientistas já comprovaram isso. Se você tivesse consciência do que cada coisa que você ouve ou vê provoca em seu corpo e mente, o que você faria? 

8 de janeiro de 2013

25. Pisando Leve

Esse tema relaciona-se com o “Vida Consciente”, que escrevi há uns dias atrás. Mas vai mais além... A ideia de pisar leve me faz pensar em cuidado. Cuidado com a Terra que nos sustenta e acolhe, cuidado com os seres a nossa volta, animais, vegetais, cuidado com nossos semelhantes, cuidado com nós mesmos...
Enquanto pensava sobre o que escrever nesse tema, deparei-me na internet com a foto (abaixo) de uma preguiça e seu filhote. E percebi que a preguiça é o animal por excelência que representa o “pisar leve” no mundo, além de ser fofa demais!


Seus movimentos calmos e lentos, seu olhar sereno e um “sorriso” manso, nos mostram o oposto do que a sociedade nos instiga a ser: apressados, barulhentos e preocupados, em grande parte com coisas fúteis.
A preguiça, com seu jeito manso e calmo de viver, nos mostra a paz que precisamos ter. O olhar de uma preguiça me passa justamente isso, paz.

Se você não tem o hábito de “pisar leve”, tente passar um dia sendo como a preguiça, calmo, silencioso, sereno... Para alguns isso pode ser tremendamente difícil, mas tente, mesmo que só por um dia. Se não conseguir, tente outros meios. Meditação, terapia, música, um banho no mar ou rio, dança circular, dança do ventre, prática de um esporte... Há tantos meios para encontrar a paz. O estado de “ser preguiça” ou de “pisar leve” é muito mais um estado interior e um modo de ser e viver. Algo que brota de dentro pra fora, que transborda e reflete ao redor... E até contagia quem está perto.
Que tal começarmos a ser um pouco mais como o bicho-preguiça? Fazer uma pausa, ler um livro, dedicar-se a uma arte, compor poemas ou canções, estar na companhia de pessoas queridas, dormir, meditar, silenciar, ouvir, sentir... Com certeza seremos mais felizes, ou no mínimo, mais serenos.

6 de janeiro de 2013

24. Trabalho

No Druidismo, com o foco reconstrucionista, há lugar para todos. Artesãos, guerreiros, druidas, bardos, vates, devotos... Todos são bem-vindos e têm reconhecida importância para o clã ou grupo. Nenhuma função é inferiorizada. Todos exercem suas funções com dedicação e prazer, pois cada pessoa tem a habilidade e o dom para ser aquilo que ela escolheu e que os deuses lhe destinaram. Exercer seu trabalho com excelência é uma virtude muito valorizada no Druidismo e RC.

Essa virtude não se restringe só a função no grupo druídico, mas se estende a vida profissional da pessoa. Médicos, professores, advogados, engenheiros, psicólogos, técnicos, diaristas, prestadores de serviços gerais, artistas, músicos, comerciantes, donas de casa... Não importa qual seja a sua profissão, exerça seu trabalho com dedicação, amor e excelência, pois não só a sociedade lhe verá com bons olhos, mas também os Deuses.


Fazer um trabalho com excelência e prazer é também uma forma de sacrifício/oferenda aos deuses e ancestrais. Diante de algum desafio no seu trabalho, peça ajuda e proteção aos deuses patronos daquela arte. E quando concluir a tarefa agradeça a eles e ofereça um “fruto” do seu trabalho. Advogados, professores, mestres e artistas tem afinidade particular com Ogma, Lugh, Dagda e Brighid. Médicos, enfermeiros, terapeutas e técnicos da saúde, com Brighid, Airmid, Dian Cecht, Belenos, Sulis e Endovelicon. Pescadores, marinheiros e pessoas que trabalham no mar ou nas águas, afinam-se principalmente a Manannan Mac Lir, Boann, Sequana. Policiais, seguranças, atletas e lutadores, com Morrighan, Ogma, Scathach, Cú Chullain e Lugh. E por aí vai. Mas isso não é regra. Médicos, por exemplo, podem perfeitamente afinarem-se a Morrighan. Esse tipo de afinidade que me refiro aqui está relacionada principalmente ao trabalho, ao “saber fazer” de cada pessoa, não exatamente a afinidade espiritual com as deidades (acredito que cada pessoa tenha um, ou mais, patrono ou matrona, que guia, inspira e protege a pessoa durante toda a sua vida e para além dela). De qualquer forma, afinidade é algo muito relativo e deve ser levada em conta a individualidade de cada pessoa.

Encarar o trabalho do dia-a-dia com dedicação e prazer é algo que traz benefícios para as pessoas a sua volta (ligadas ao seu trabalho ou não) e, sobretudo, a você mesmo. Nada pior do que uma pessoa que é infeliz no seu trabalho. Não só mau-humor ela terá, mas também sua saúde e emoções serão prejudicadas. Claro, que nem todos os dias acordaremos com alegria no peito, disposição e riso fácil. Mas se ao menos tivermos o compromisso de exercer com excelência e boa vontade nossas tarefas, o cansaço e a indisposição amenizarão, e a vida será mais leve e gostosa, com certeza.

“Eu me levanto hoje com a graça dos Deuses,
Que eu tenha a força de um touro,
A sabedoria do salmão,
A valentia do javali,
A beleza da borboleta,
A graça e o encanto do cisne.
Que haja excelência sobre minha casa,
Excelência sobre meus amigos,
E excelência sobre minha parte do trabalho”.
(Prece ao acordar).

5 de janeiro de 2013

23. Comunidade


("Celtoi Volveci", um evento moderno cultural céltico na Europa)

O Druidismo é uma das religiões no mundo mais focadas na vida comunitária, no sentido de Clã, e Clã quer dizer família, e família, como escrevi no dia 22, existe a de sangue e a de alma.
Mesmo que uma pessoa afirme praticar “solitariamente” o Druidismo, vai chegar um momento na vida dela em que sentirá uma necessidade de compartilhar conhecimentos e celebrar em conjunto os festivais. Faz parte do caminho druídico e reconstrucionista celta o sentir-se parte de uma família, um clã, um grupo ou “bosque”. É um sentimento quase que intrínseco em nós.

A imagem de um grupo de pessoas que se querem bem sentadas ao redor de uma fogueira ou lareira, cantando músicas antigas e novas, contando histórias dos antepassados, do dia-a-dia ou mesmo histórias engraçadas, partilhando de boa bebida, boa comida e claro, boa conversa, é algo que muito, mas muito mesmo nos agrada e conforta a alma. Pois é exatamente aí que podemos perceber a essência, a alma da(s) cultura(s) celta(s)... Mesmo que os antigos celtas estivessem divididos em várias tribos, umas aliadas outras inimigas, o sentimento de lealdade, amizade e alegria é que buscamos ressaltar.

(Foto durante o III EBDRC, em novembro de 2012)

Muitas pessoas no Brasil seguem o caminho druídico individualmente simplesmente porque não encontraram ainda outras pessoas interessadas para formar um grupo. A maioria dos grupos druídicos se concentra no sudeste brasileiro (principalmente no estado de São Paulo), mas aos poucos novos grupos ou bosques vão surgindo em outras cidades e regiões do Brasil. Hoje podemos encontrar grupos, além de São Paulo, em Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, Rio de Janeiro, João Pessoa, Recife, Salvador, Brasília, Belém... Alguns já existem há certo tempo e possuem as raízes fortes, outros ainda estão se construindo e aos poucos se fortalecendo.

Provavelmente também existem diversas pessoas espalhadas pelo Brasil estudando e seguindo o Druidismo, ainda timidamente, mas que não tardará muito para entrarmos em contato com elas ou elas entrarem em contato conosco. Com “conosco” quero dizer a “Comunidade” ou “Família Druídica Brasileira”, pois hoje creio que podemos nos sentir e nos denominar dessa forma. Não sem exagero, pois recentemente, em 2012, nasceu o que há meses ou mesmo anos se sonhava e planejava: o Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta. O nome é grande, mas é porque a família também é grande, e isso implica em diversidade, mesmo na unidade, e também em respeito. Dentro do Conselho há representantes no momento de quase todos os grupos do Brasil e de diferentes ramos. E apesar das diferenças, pequenas na verdade, são as semelhanças e os sonhos em comum que nos unem nessa causa por reconhecimento e respeito no âmbito social e legal, além de outras coisas tão importantes quanto.

Se você ainda não encontrou um grupo em sua cidade, tenha paciência que um dia encontrará ou construirá. Enquanto isso, continue estudando e vivenciando sua espiritualidade. O Druidismo é como uma semente que se espalha no vento... Como a kapok, a linda semente da mãe Samaúma... Mas nosso intuito não é espalhar o Druidismo para agregar mais adeptos, num sentido proselitista. Pelo contrário, não apoiamos nenhuma forma de proselitismo ou fundamentalismo. Acredito que cada um tem o seu caminho... Aquele que toca a sua alma. O mundo é diverso, e é na diversidade do mundo, de seus povos, crenças e culturas que reside a sua beleza.

O Druidismo é como uma semente no sentido de que mesmo que uma pessoa decida não seguir esse caminho, se ela ao menos compreender uma pequena parte do que é Druidismo (e de modo geral o Paganismo ou Politeísmo) algo novo irá brotar dentro dela. Uma nova perspectiva de mundo, um novo olhar, uma nova forma de vida, uma semente... Mesmo que essa pessoa siga por outras sendas depois, ela nunca mais vai olhar o mundo e as pessoas com os olhos de antes. E o mundo para ela, e quem sabe para outras, será um outro mundo... Um mundo melhor (assim esperamos).


Pois uma das coisas fundamentais que se aprende no Druidismo é que vivemos em comunidade. Ou melhor, vivemos em Comunidades dentro de uma Grande Comunidade. E não podemos ignorar nem cortar os laços que nos ligam. Devemos respeitar esses laços e zelar para que a harmonia e a paz se façam não só em uma, mas em todas as comunidades do mundo. Utopia? Quem sabe. Mas como já disse William Shakespeare, não é de pó e matéria que somos feitos, mas sim de sonhos. “Nós somos do tecido de que são feitos os sonhos”, ele escreveu.

(Dança Circular Sagrada, durante o III EBDRC)

E nas palavras de Eduardo Galeano, “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.
Mais do que qualquer outra coisa, o que motiva nossas vidas são os sonhos. Para uns, utopia. Para outros, metas. Para os druidas (e druidistas), é a inspiração em ação. 

(Fogueira sagrada no último dia do III EBDRC)

3 de janeiro de 2013

22. Família e Amigos

Achei muito adequado esse tema estar relacionado, família e amigos. Tenho a minha família de sangue, mãe, pai, irmãs, tios e tias, avós, primos etc., e minha família de alma, amigos e amigas (perto e distantes), sendo que uns considero mesmo como irmãos ou irmãs.
A família de sangue, bem, nasci nela já e se foi por escolha ou não, não sei, mas amo a todos, apesar das diferenças e discussões, são minha família. Cuidaram e cuidam de mim, assim como cuido e cuidarei deles.

Minha família é católica, e quando comecei a demonstrar interesse ainda na adolescência pelas religiões antigas e paganismo sofri algumas (na verdade, muitas) discriminações dentro de casa. Não podia realizar rituais, acender velas ou comprar livros sobre o assunto que já ouvia coisas absurdas, como “isso não é coisa certa”, “isso não é religião”, “isso é perigoso”, “isso é do mal”... E coisas semelhantes. Mesmo que eu tentasse explicar, a discussão entre nós era inevitável. Mas com o tempo, minha família foi vendo que as “coisas que eu lia” não me faziam mal, muito pelo contrário, e a situação foi enfim amenizando e melhorando até o ponto de não haver mais discussões sobre isso e até mesmo de familiares próximos me pedirem para “colocar cartas” para eles (e até hoje ainda me pedem, e eu faço com muito prazer!). No fim, com paciência e amor de ambas as partes houve compreensão e respeito.

Sei que muitos que estão estudando o Druidismo (ou outro ramo do paganismo) estão passando por situação parecida a que vivi, e sei que é difícil. O que posso lhes dizer é tenham paciência e sabedoria para enfrentar essa fase, pois ela é justamente isso, uma fase. Tente tirar lições para sua vida desses desafios que lhe são postos. Lembre-se que o ferro precisa ser várias vezes batido para torna-se forte o bastante para uma espada, e é assim que A Senhora da Forja prepara seus filhos(as). E que um(a) guerreiro(a) é considerado valoroso não por quantas batalhas venceu, mas por quantas batalhas, vencidas e perdidas, sobreviveu e o quanto aprendeu com elas. E é assim que A Grande Rainha testa seus filhos(as). No mais, tenha em mente que um dia você terá a sua casa, o seu canto, e será livre para exercer a sua espiritualidade do jeito que quiser.

A amizade sempre foi muito valorizada na cultura irlandesa, e céltica como um todo. É conhecida a obra de John Donohue, “Anam Cara” (termo traduzido como “Amigo de Alma”), em que contêm a belíssima Oração da Amizade:

“Que sejas abençoado com bons amigos.
Que aprendas a ser um bom amigo para ti mesmo.
Que sejas capaz de viajar àquele lugar na tua alma onde existe o grande amor, calidez, sentimento e perdão.
Que isso te modifique.
Que isso transfigure o que é negativo, distante ou frio em ti.
Que sejas apresentado à verdadeira paixão, parentesco e afinidade da vinculação.
Que prezes os teus amigos.
Que sejas bom para eles e que estejas lá para eles; que eles te tragam todas as bênçãos, desafios, verdade e luz de que necessitas para a tua viagem.
Que nunca fiques isolado.
Que sempre fiques no sereno refúgio da vinculação com o teu Anam Cara”.

Tenho grande carinho pelos meus amigos e amigas do caminho druídico. Mais do que amigos, eles são meus irmãos e irmãs, pois alguns eu conheço desde quando comecei a engatinhar no Druidismo (e sinceramente, ainda acho que estou engatinhando rs), há cerca de sete ou oito anos atrás. Wallace, Andréa, Simão e Marcos, foram os primeiros que tive contato, além de amigos, eles foram (e ainda são) meus mestres e mestras, ensinando-me muitas coisas e indicando o caminho quando precisava de auxílio. A eles sou eternamente grata e nutro um enorme sentimento de amizade e carinho.
Seguindo na estrada encontrei outros amigos-irmãos, como Eldrich, Alessah, Endovelicon, Rowena, Renata, Hugo, Rafael, Náthaly, Marcela, Vera, Juliana, JP, Sheila, João, Bellovesos, Marina, Jéfferson, Suênia, Marcílio, Paula e tantos outros (porque a família é grande! e tenho certeza que esqueci de citar algum nome, mas estão todos no meu coração ^^).
Com alguns tenho mais contato do que com outros, e também mais afinidade, mas sinto que todos fazemos parte da mesma família. E é incrível como somos invadidos por um sentimento de união, amizade, amor e alegria quando nos encontramos (quem já esteve em um Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta, sabe muito bem do que estou dizendo), e também da saudade que bate quando nos distanciamos após um EBDRC (e com a saudade vem a ansiedade para logo participar do próximo!).

Em muitos momentos de dificuldade que passei, só o fato de pensar nessas pessoas e nos momentos maravilhosos que vivi ao lado delas me deu forças para prosseguir. A lembrança das rodas de conversas, da música e boa bebida ao redor de uma fogueira, da celebração conjunta de ritos sagrados, da alegria entre amigos... aquecia (e aquece) meu coração com bons sentimentos e enche de alegria minha alma. Alguns podem achar isso tudo meio exagerado. Que achem, não me importo. Mas que essas coisas a gente só sente quando os laços que nos une são realmente fortes e quando somos mesmo uma família, isso é. E é o que somos na verdade, uma família de alma, a família druídica brasileira.
À minha família de sangue e de alma quero dizer apenas muito obrigada pelos desafios e pelas alegrias, e que eu amo muito todos vocês...! :)

(Foto durante o III EBDRC)


"E um jovem disse, Fala-nos da Amizade.
E ele respondeu, dizendo:
O vosso amigo é a resposta às vossas necessidades.
Ele é o campo que cultivais com amor e colheis com gratidão.
E é o vosso apoio e o vosso abrigo.
Pois ides até ele com fome e procurai-lo para terdes paz.
Quando o vosso amigo fala livremente, vós não receais o "não", nem retendes
o " não".
E quando ele está calado o vosso coração não deixa de ouvir o coração dele;
Pois na amizade, todos os pensamentos, todos os desejos, todas as esperanças
nascem e são partilhadas sem palavras, com alegria.
Quando vos separais de um amigo não fiqueis em dor, pois aquilo que mais
amais nele tornar-se-à mais claro com a sua ausência, tal como a montanha, para
quem a escala, é mais nítida vista da planície.
E não deixeis que haja outro propósito na amizade que não o aprofundamento
do espírito.
Pois o amor que só procura a revelação do seu próprio mistério, não é amor
mas uma rede lançada que só apanha o que não é essencial.
E deixai que o que de melhor há em vós seja para o vosso amigo.
Já que ele tem de conhecer o refluxo da vossa maré, que conheça também o
seu fluxo.
Pois para que serve o vosso amigo se só o procurais para matar o tempo?
Procurai-o também para viver.
Pois ele preencher-vos-à os desejos, mas não o vazio.
E na doçura da amizade que haja alegria e a partilha de prazeres.
Pois é nas pequenas coisas que o coração encontra a frescura da sua manhã."

("Sobre a Amizade", de Khalil Gibran, em O Profeta).

2 de janeiro de 2013

21. Vida Consciente

“Tread gently on the Earth
Breath gently of the Air
Lie gently on the Water
Touch gently to the Fire”
“Caminhe gentilmente sobre a Terra
Respire gentilmente o Ar
Deite gentilmente sobre a água
Toque gentilmente ao Fogo”
(“Tread gently on the Earth”, de Carolyn Hillyer)


No Druidismo é incentivado que todos nós tenhamos uma vida consciente. Isso quer dizer que devemos ser conscientes de nossos atos, pois eles afetam não só a nós mesmos, mas também aqueles que estão a nossa volta; conscientes de nossos pensamentos, pois eles direcionam a nossa vida; e conscientes de nossos sentimentos, pois eles motivam a nossa caminhada.
Há um ditado druídico que diz “tread gently on the Earth”, ou seja, “caminhe gentilmente sobre a Terra”, e seu ensinamento não deve ser entendido literalmente, apenas, mas principalmente simbolicamente. Caminhar gentilmente sobre a Terra é caminhar reconhecendo a vida que há a nossa volta, e que cada passo que damos deixa pegadas, memórias e legados. Que pegadas você tem deixado no mundo?

Procuro ter uma vida consciente e faço isso de várias formas. Sou prudente em minha fala, pois sei que palavras podem ferir ou curar mais do que uma espada ou um bálsamo. Ao almoçar ou jantar sou consciente de que um (ou mais) animal e vegetais foram mortos para que eu e minha família pudéssemos continuar vivendo. Diante daquele alimento, reflito sobre os sacrifícios que foram feitos e faço uma oração agradecendo e bendizendo-o, e com isso torno o nosso alimento sagrado. Ao despertar procuro lembrar dos sonhos que tive e tentar entender as possíveis mensagens transmitidas. Ao caminhar na rua olho com atenção a minha volta, notando as pessoas (quase sempre apressadas e preocupadas...), a grama que cresce entre o asfalto, a árvore que teve os galhos cortados, mas que ainda luta por se regenerar, os pássaros voando de um fio elétrico a outro, um bem-te-vi cantando forte no alto de uma árvore, o céu azul ou nublado, a lua rodeada de estrelas...
Ao comprar um produto, seja o que for, penso no impacto que ele causou e que ainda vai causar no meio ambiente, se for reciclável ótimo, se não, evito o máximo de comprar. Embora a gente saiba que no Brasil o uso de sacolas plásticas, por exemplo, é comum e ainda difícil de ser abolido (pois os governos e empresas não têm vergonha na cara para criar políticas públicas de fato ecológicas), eu procuro evitar sacolas plásticas, apesar de usarmos todos para jogar o lixo fora. O lixo, por sinal, é separado em casa em orgânico, seco e reciclável, e sujo e não-reciclável, apesar de no Pará e no Acre não haver coleta seletiva de lixo ainda assim mantemos esse hábito, pois tenho consciência de que isso trará algum benefício à alguém (quantas pessoas em situação financeira precária vivem da reciclagem no Brasil?).

Dentre outras ações conscientes que procuro manter em minha vida, essas são as principais e que me lembrei ao escrever esse dia 21 (que nem é exatamente o dia 21, pois tenho consciência de que me atrasei nos 30 dias druídicos rsrs). São ações pequenas e cotidianas, sei que poderia fazer muito mais, mas também sei que o que faço já é alguma coisa e é melhor do que não fazer nada. Algumas ações já são “tão conscientes” que já se tornaram automáticas em mim, como fechar a torneira quando não estou usando ao escovar os dentes e pensar em minha avó materna (já nas Terras Bem-Aventuradas) enquanto preparo um rotineiro (e sagrado) café da tarde. No final das contas, viver consciente é ter a plena consciência de que existem muitas outras consciências a nossa volta, sejam elas visíveis ou não, e que estamos todos ligados num emaranhado de nós e laços, imersos numa Grande Teia.


28 de dezembro de 2012

20. Oração

“Na profundidade do centro tranquilo do meu ser,
que eu possa encontrar a paz.
Silenciosamente dentro da quietude do Bosque,
que eu possa partilhar a paz.
Suavemente dentro do grande círculo da humanidade,
que eu possa irradiar a paz”.
(Prece Druídica da Paz, da Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas, proferida nas luas cheias).

Há poucos minutos olhei pro céu e vi a lua, cheia, brilhante e perolada, já despontada no horizonte. As nuvens em volta banhadas pelo luar formando uma cena digna de um quadro... Fechei os olhos, busquei na memória as palavras certas e proferi a prece acima transcrita. Troquei uma ou outra palavra, culpa da memória falha. Pensei comigo, “ainda preciso decorar melhor a prece”. Mas o importante é que ela foi dita e a intenção de paz para mim e para o mundo foi lançada, juntando-se agora à corrente de intenção lançada por outros que disseram as mesmas (ou semelhantes) palavras. Mais tarde, ainda em tempo, realizarei uma singela celebração de solstício de inverno, sendo basicamente um emaranhado de orações e oferendas, para honrar o período do ano mais chuvoso nas terras amazônicas e agradecer pelo ciclo que finda.


Sabemos que a oração compunha grande parte da prática religiosa dos celtas (e de muitos outros povos antigos), e o Carmina Gadelica está aí para nos demonstrar isso, apesar de tratar-se de preces coletadas séculos depois do auge das culturas celtas, é notória a herança cultural desses povos nelas contidas. Oração para saudar e se despedir do sol, oração para iniciar o trabalho, para iniciar uma viagem, para pedir cura, para abençoar a casa, para acender a lareira, para abençoar a comida, e tantas outras orações com as mais diversas finalidades.

O Carmina Gadelica é uma boa fonte de inspiração para compormos preces para nossa prática religiosa, filtrando, claro, as influências cristãs ali presentes. Mas a melhor fonte de inspiração para as orações não pode ser outra se não a própria inspiração, a espontaneidade e criatividade surgidas em momentos de meditação e introspecção.

Alguns gostam de proferir orações em línguas célticas, e outros em português mesmo. Alguns gostam de usar palavras rebuscadas, e outros preferem a simplicidade. Alguns gostam de recitar ou declamar as orações, outros preferem falar baixinho, apenas ao vento, ou ainda entoá-las como canções. A preferência aqui vai de cada um e garanto que todas são válidas. O importante mesmo é sentir-se a vontade no momento e carregar de emoção as orações. Não adianta nada recitar aos quatro ventos uma oração linda, rimada e extensa, se não houver sentimento e forte intenção no seu peito. Os Deuses e espíritos compreendem muito mais nossa mensagem por meio de nossas emoções e pensamentos do que por palavras secas e decoradas. Também não há a necessidade de gestos e “performance” ritualística se isso te faz ficar mais preocupado com a posição certa das mãos do que com as palavras que brotam no seu coração. Obviamente que uma coluna reta e uma posição confortável ajudam na concentração.

O que quero dizer é que você não precisa dizer uma oração, inclusive como a transcrita acima, só porque foi criada pelo druida tal ou encontrada em uma inscrição antiga na porta de um templo antigo da Gália no período galo-romano antigo (rs), se as palavras não te fazem sentido ou não te emocionam. Eu gosto dessa oração criada pela OBOD, sinto que a alma dessas palavras tem poder, mas pode ser que você ou alguém não sinta, e não há problema nisso, e caso também queira participar dessa “corrente” de paz você pode perfeitamente proferir uma oração criada por você mesmo, ali no momento de espontânea inspiração ou escrever previamente a prece. O que importa é a intenção/emoção que você imprime nas palavras e os pensamentos que mantêm durante aquela hora sagrada. É o que quer dizer a druidesa Emma Restall Orr ao afirmar que no Druidismo a comunicação se dá de “espírito para espírito”. Comunicamo-nos com os Deuses e seres sagrados por meio da oração, canção e oferendas, e eles se comunicam conosco por meio da Inspiração (a Awen ou Imbas), dos oráculos, “sinais” e presságios na natureza.

26 de dezembro de 2012

19. Magia

"Creio na prática e na filosofia daquilo que convencionamos chamar de magia; creio no que devemos chamar de evocação dos espíritos - ainda que eu não saiba qual a sua natureza; creio no poder de gerar ilusões; nas visões da verdade no mais profundo da mente quando os olhos estão fechados. E creio em três doutrinas que foram, penso eu, transmitidas desde tempos remotos, e que constituem os alicerces de quase todas as práticas mágicas.

Tais doutrinas são:
1) que as fronteiras de nossas mentes estão sempre em movimento, e que muitas mentes podem mesclar-se umas às outras, por assim dizer, para criar ou revelar uma única mente, uma única energia;
2) Que as fronteiras de nossas memórias também estão em movimento, e que nossas memórias são parte de uma memória maior - a memória da própria Natureza;
3) Que essa grande mente e essa grande memória podem ser evocadas através de símbolos." – W. B. Yeats.


Seria legal se os magos da realidade fossem iguais aos dos filmes, como em Harry Potter e Senhor dos Anéis. Os mais desinformados começam a estudar paganismo ou “bruxaria” (prefiro não usar esse termo, é muito pejorativo) achando que irão aprender feitiços para mudar o tempo, levitar objetos etc. Só que não. Até que seria legal se pudéssemos arrumar a casa ou fazer comida com um simples balançar da varinha... Mas não é assim que a coisa que funciona. O que não quer dizer que por conta disso a vida perdeu o encanto.

Os antigos enxergavam (e nós, pagãos na atualidade, buscamos essa visão) a vida plena de magia. Nenhum pôr-do-sol é o mesmo que o anterior, nenhuma rosa é igual a outra, e nenhum passarinho canta igual ao outro. Há singularidade em cada momento de nossas vidas, em cada lua, em cada amanhecer, em cada sonho.
Os antigos imbuíam de magia cada ato importante. Ao raiar do dia dizia-se uma prece, ao preparar um pão recitava-se uma canção, ao limpar a casa centrava-se os pensamentos e ao acender a lareira proferia-se determinada oração. Mas se olharmos um pouco esses atos importantes eram na realidade cotidianos. Então todos os dias e toda ação eram mágicos, porque estavam imbuídos de gestos rituais, tornando-os sagrados. Esse modo de viver preenchia a vida com um encantamento e sentimento de plenitude que hoje nos são raros e extremamente necessários em nossa sociedade.

Eu entendo que magia é como estar seguindo livremente e harmoniosamente o fluxo de um rio, sem impedimentos, sem apegos, sem pesares... É seguir junto a correnteza, para onde quer que o rio nos leve. Na verdade, não estamos só seguindo o fluxo do rio, somos o próprio o rio. Magia não é mudar, mas seguir o curso da vida, adaptar-se e aproveitar da melhor maneira as oportunidades que surgem em cada curva, descida, subida ou obstáculo no caminho do rio. E com isso realidades podem ser transformadas e desejos alcançados.

(imagem de Lisa Hunt)

Viver com magia é estar em sintonia com os rumos da Vida, e por isso as coisas simplesmente acontecem. É estar aberto, receptível para as dádivas e sinais dos Deuses, e estando abertos saberemos o momento certo de agir e como agir. É por isso que para mim magia tem um pouco a ver com sorte. Pessoas destoantes do fluxo do rio, ou seja, amarguradas, presas em sentimentos ruins, achando que nada de bom lhes acontece e que todos estão contra ela, atraem exatamente esses acontecimentos.

Magia é enxergar as minúcias da vida, a teia por trás dos acontecimentos, e enxergando a teia podemos não só compreende-la, mas também interpretar, prever e transformar o rumo dos acontecimentos. E isso implica não só em um privilégio, uma dádiva, mas, sobretudo, uma responsabilidade em agir da melhor forma para o bem comum ou de pessoas envolvidas.
Quando vivemos com magia nos conectamos a algo muito maior, que gosto de chamar de Grande Teia ou Alma do Mundo, sendo a intuição (ou inspiração) aquilo que nos liga a ela. É por isso que podemos pressentir algo que está para acontecer, pois nos entrelaços da teia a coisa de certa forma já aconteceu.

Magia é enxergar além do que os outros conseguem ver. E por isso o mago, druida ou sábio é considerado meio louco pelos que não veem nem entendem o que ele vê. E apesar de toda a complexidade que a Grande Teia pode representar, quem vive com magia se encanta com a simplicidade que dela pode sair. O nascer de uma planta entre o asfalto da rua, o poente em tons de rosa e laranja escorrendo pela brecha da janela, o vento que bagunça o cabelo e traz a lembrança de algo querido, a lua mostrando sua face entre as nuvens, o brotar de uma semente na terra, a risada gostosa de uma criança, o afago carinhoso de quem se ama.

Quem nunca acordou de um sonho intenso com a certeza de alguma mensagem ali contida? Quem nunca escreveu um poema ou texto cujas palavras pareciam ter simplesmente surgido inteiras na mente? Quem nunca pensou numa pessoa e instantes depois recebeu uma ligação ou mensagem dessa mesma pessoa? Quem nunca olhou pro céu e sentiu lá no fundo da alma que aquela noite era mágica? Quem nunca se pegou cantarolando uma canção criada ali na hora pela própria espontaneidade e leveza do coração? Quem nunca ouviu uma música até então desconhecida, mas ao mesmo tempo tão familiar e que toca o mais fundo da alma? ... Quem nunca?
Isso para mim é magia. E magia talvez seja a essência do universo. Essência essa tão invisível, mas ainda assim tão perceptível, forte e presente em todo o lugar. 

24 de dezembro de 2012

18. Ciência e Filosofia

Foi-se o tempo em que a religião monopolizava o conhecimento, e também findou a era em que a ciência se auto-supervalorizava perante outras formas de saberes. Não há mais razão para uma excluir ou ignorar a outra. O extremismo da religião é o fanatismo cego, e o da ciência o ceticismo insensível. Seja para que lado a balança pesar mais, sempre haverá desequilíbrio e visões tortas da realidade.

A cada dia a sociedade se aproxima de um novo paradigma, que alguns sociólogos (como Boaventura de Sousa Santos) e filósofos (como Marilena Chauí) chamam de pós-moderno, onde as fronteiras entre a ciência e a religião, a razão e intuição, são tênues e fluidas. As áreas de conhecimento, antes fechadas em si mesmas, dialogam cada vez mais e compartilham ideias, conceitos e perspectivas. A medicina, a religião, a arte, a história, antropologia, sociologia, filosofia, biologia, entre outras ciências, de uns anos para cá têm dialogado profunda e positivamente, sem, no entanto, romper suas próprias fronteiras. E isso é bom, pois acarreta consequências positivas tanto para essas ciências quanto para as sociedades. Claramente, esse é um processo lento e que ainda enfrenta resistências de correntes fundamentalistas (tanto cientificas quanto religiosas), mas cada vez mais nos aproximamos desse novo paradigma.

É possível que esse novo paradigma esteja relacionado com a Nova Era dos místicos modernos, que para alguns se iniciou nesse último dia 21 de dezembro de 2012, a mudança de ciclo no antigo calendário maia. Seja como for, essa visão holística do mundo, de que tudo está relacionado e que a realidade não pode ser vista sob apenas uma perspectiva não é nova para o Druidismo e nem para as culturas tradicionais, como as indígenas. Acho que é por isso que nunca li a teoria do “big bang” ou a teoria das cordas ou ainda a hipótese de Gaia com espanto, pois de certa forma já sabia daquilo, só que de outra forma, claro. Você conhece o livro “O Tao da Física”, de Fritjof Capra? É bastante interessante e sugiro a leitura.

A ciência e a religião não são nada mais do que linguagens diferentes para explicar o mundo a nossa volta. Uma possui uma linguagem mais objetiva, e a outra mais subjetiva ou simbólica, mas ambas são válidas e comumente falam exatamente a mesma coisa, só que com termos e palavras diferentes. Só mesmo um cego para não perceber isso...

É incentivada no Druidismo uma formação acadêmica de seus adeptos, mas NÃO é algo obrigatório. De certa forma, hoje está cada vez mais fácil possuir uma graduação, pois o ingresso no ensino superior está mais acessível, e também é quase que inato em um druida ou politeísta celta a sede pelo conhecimento, já que o caminho do Druidismo e Reconstrucionismo Celta nos exige muito, mas muito estudo. Só temos que, com graduação ou sem graduação acadêmica, ter o cuidado para não pender demais para um lado, nem ser cientista demais ao ponto de nos tornar céticos e cegos à beleza da natureza, nem religioso demais que nos torne fanático. O equilíbrio, como sempre, é fundamental.

23 de dezembro de 2012

17. Ética

(Imagem de Jenny Dolfen)

“Não faças a outrem, o que não queres que façam a ti”. Essa máxima é de Confúcio, e vale com certeza para todo e qualquer indivíduo. Se todos aplicassem em suas vidas, muito provavelmente teríamos uma sociedade melhor. E isso cabe tanto para as relações entre humanos quanto entre humanos e outros animais, e humanos e natureza.
Uma pessoa que diz fazer o bem para outro ser humano, mas que maltrata um gato ou cachorro, por exemplo, é no mínimo hipócrita e de caráter um tanto duvidoso. Ser ético diz respeito não só aos seres humanos, mas a todos os seres que compartilham do mesmo planeta.

Uma tríade celta, que gosto muito, diz: "Honrar os Deuses, não fazer o mal, agir com bravura". No Druidismo, semelhante no Asatru Vanatru (paganismo nórdico), temos a ideia das Virtudes que todos, druidas ou não, devem cultivar.
Em um texto gaélico do século VII, chamado “Audacht Morainn” são mencionadas 15 virtudes: compaixão, veracidade, imparcialidade, responsabilidade, constância, generosidade, hospitalidade, cortesia, firmeza, benevolência, aptidão, confiabilidade, eloquência, serenidade, precisão no julgar. Algumas dessas virtudes podem ser unidas em uma só, pois estão profundamente ligadas, como a hospitalidade, generosidade e cortesia, e também compaixão e benevolência. Dessa forma foram elaboradas as 9 Virtudes no Druidismo, conhecidas como Verdade, Honra, Excelência, Justiça, Hospitalidade, Coragem, Lealdade, Piedade religiosa, Respeito. É possível encontrarmos variações de uma ou outra virtude, mas a ideia é basicamente a mesma. De todo modo, são virtudes esperadas tanto de um druida quanto de um devoto.

Mas acho que não existe melhor texto da cultura celta que exprime a ética no Druidismo (e que devemos todos seguir) como “As Instruções de Cormac”, do Livro de Ballymote, e por isso a transcrevo a seguir:


As Instruções de Cormac
Do Leabhar Bhaile an Mhóta (Livro de Ballymote). Tradução de Bellouesos Isarnos.

Ethne deu a Cormac um filho, seu primogênito, Cairpre, que foi rei de Ériu depois de Cormac. Foi durante a vida de Cormac que Cairpre subiu ao trono, pois ocorreu que, antes de morrer, Cormac foi ferido por uma lança e perdeu um dos olhos e era proibido que qualquer homem com um defeito fosse rei em Ériu. Assim, Cormac entregou o reino nas mãos de Cairpre, mas, antes de fazê-lo, transmitiu a seu filho toda a sabedoria que possuía no governo dos homens e isso foi anotado em um livro chamado As Instruções de Cormac. Estas palavras encontram-se entre seus ensinamentos:

- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais são os deveres de um chefe numa taverna?
- Não é difícil dizer -  disse Cormac.
- Bom comportamento em volta de um bom chefe,
Luzes para as lamparinas,
Esforçar-se pelo grupo,
Distribuição adequada de assentos,
Generosidade dos distribuidores,
Mão ágil ao servir,
Atendimento solícito,
Música com moderação,
Narrativas curtas,
Semblante jovial,
Amável saudação aos convidados,
Durante récitas, quietude,
Cantorias harmoniosas.

- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais teus costumes quando eras um rapaz?
- Não é difícil dizer – falou Cormac.
- Eu escutava nas florestas,
Fitavas as estrelas,
Era cego a respeito de segredos,
Silencioso nos ermos,
Palrador no meio da multidão.
Moderado no salão de festas,
Duro no combate,
Cortês para com os aliados,
Um médico para o enfermo,
Fraco para com o débil,
Forte para com o poderoso,
Não era íntimo para não me tornar inconveniente,
Não era arrogante, embora fosse instruído,
Conquanto capaz, não era dado a prometer,
Não era temerário, embora fosse rápido,
Conquanto fosse jovem, não zombava dos velhos,
Não era jactancioso, embora fosse bom lutador,
Não falaria de alguém em sua ausência,
A vituperar eu preferia exaltar,
A pedir eu preferia dar,
Pois é com tais costumes que os jovens tornam-se maduros e nobres guerreiros.

- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a pior coisa que tens visto?
- Não é difícil dizer: – falou Cormac – as faces de inimigos no tumulto da batalha.
- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a mais doce coisa que tens ouvido?
- Não é difícil dizer: – falou Cormac – o grito de triunfo depois da vitória, louvor depois dos esforços, o convite de uma dama para seu leito.

- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, que é o pior para o corpo de um homem?
- Não é difícil dizer: – falou Cormac – sentar-se por muito tempo, ficar muito tempo deitado, esforçar-se além das próprias forças, correr demais, saltar demais, cair muitas vezes, dormir com a perna por cima da grade da cama, olhar brasas acesas fixamente, cera, colostro de vaca, cerveja nova, carne de touro, comida azeda, comida seca, água do brejo, levantar-se muito cedo, frio, sol, fome, beber demais, comer demais, dormir demais, pecar demais, tristeza, subir uma elevação correndo, gritar contra o vento, secar-se ao fogo, o orvalho do verão, o orvalho do inverno,  remexer cinzas, nadar de barriga cheia, dormir de barriga para cima, fazer brincadeiras idiotas.
       
- Ó Cormac, filho de Conn – disse Cairpre – quais são o pior pedido e a pior argumentação?
- Não é difícil dizer – falou Cormac.
-  Combater contra o conhecimento,
Argumentar sem provas,
Escudar-se em linguagem imprópria,
Uma elocução tensa,
Falar resmungando,
Excesso de minúcias,
Provas duvidosas,
Desprezo aos livros,
Voltar-se contra os costumes,
Mudar o pedido,
Instigar a ralé,
Soprar a própria corneta,
Berrar a todo pulmão.

- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairpre -, quem são os piores com quem podes fazer uma comparação?
- Não é difícil dizer – falou Cormac.
- Um homem com o descaramento de um satirista,
Com a belicosidade de uma escrava,
Com a negligência de um cão,
Com a consciência de um patife,
Com a mão de um ladrão,
Com a força de um touro,
Com a respeitabilidade de um juiz,
Com saber engenhoso e perspicaz,
Com o discurso de um homem majestoso,
Com a memória de um historiador,
Com o comportamento de um abade,
Com  o juramento de um ladrão de cavalos,
E sendo inteligente, mentiroso, grisalho, violento, blasfemo, falastrão, quando diz: “a questão está decidida, eu juro, jurarás também.”

- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre – desejo saber como devo comportar-me entre os sábios e tolos, em meio aos amigos e estranhos, entre os jovens e os velhos, em meio aos inocentes e perversos.
- Não é difícil dizer – falou Cormac.
- Não sejas muito douto, não sejas muito néscio,
Não sejas muito presunçoso, não sejas muito acanhado,
Não sejas muito orgulhoso, não sejas muito humilde,
Não sejas muito falador, não sejas muito silencioso,
Não sejas muito rígido, não sejas muito débil.
Se fores muito douto, esperar-se-á muito de ti.
Se fores muito néscio, serás enganado.
Se fores muito orgulhoso, acreditar-te-ão molesto.
Se fores muito humilde, serás sem honra.
Se fores muito falador, não te darão atenção.
Se fores muito silencioso, não serás  estimado.
Se fores muito rígido, serás quebrado.
Se fores muito débil, serás esmagado.

Aqui terminam as Instruções de Cormac Ulfada, filho de Art, filho de Conn Cétchathach, filho de Óenlám Gaba, filho de Tuathal Techtmar, filho de Feradach Findfechtnach, filho de Crimthann Nia Nár, filho de Lugaid Riab nDerg, filho de Bres, Nár and Lothar, filhos de Eochaid Feidlech, filho de Find, Grande Rei de Ériu, que o filho de Art deu a seu primogênito, Cairpre Lifechair.