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28 de março de 2014

...

"A terra é parte de meu corpo. Pertenço à terra de onde venho. A terra é minha mãe” (Tuhulkutsut).


Eu queria escrever algumas coisas sobre essa situação crítica que a Amazônia está vivendo, mas não sei se conseguirei traduzir meus pensamentos em palavras escritas.

O rio Madeira continua cheio, alagando a estrada e várias partes de Porto Velho e outros municípios. Acre e Rondônia enfrentam crises no abastecimento de alimento, combustível e produtos diversos. Hoje à tarde fui à padaria perto de casa e não tinha pão, pois acabou o trigo. Talvez chegue amanhã, talvez depois, talvez sei lá.
Mas isso é coisa leve perto do que Rondônia enfrenta... E ainda o interior do Acre, onde demora mais pra chegar os produtos.
O engraçado é que nos jornais quase não se fala ou não se fala nada sobre a responsabilidade que as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio têm sobre essa enchente do rio. Ou você acha mesmo que isso é SÓ um fenômeno da natureza?
Ah claro, a culpa não é só das hidrelétricas. É de todos nós. É dos desmatamentos absurdos, das queimadas, da poluição nos rios, do montante de lixo que produzimos todo santo dia nas cidades, enfim, do nosso total desrespeito para com a natureza. E não pense que a natureza é algo lá, longe de nós... A floresta lá e você aqui, na tua casa, no teu apto, no teu carro, no teu escritório. Não, meu irmão... A natureza É você. Você faz parte dela. Você que está no sul do país respira o mesmo ar de quem está no norte. Você aí que bebe a água limpa saída do filtro, bebe a água de um rio (supostamente tratada). Você aí que liga o computador para acessar o facebook todo dia, estás usando a força de um rio, que teve as águas represadas e o curso natural modificado numa hidrelétrica (que segundo o governo é energia limpa, mas sabemos muito bem que de limpa não tem nada).
O rio Madeira encheu e está trazendo à tona uma série de questões que não podem mais ser ignoradas. Precisamos repensar toda essa nossa forma de vida, todo esse sistema em que vivemos e precisamos, urgentemente, transforma-lo.
Chega de ganância e de um desenvolvimento que destrói a natureza, que destrói a nós mesmos. É hora de pensarmos em outras formas de geração de energia, cujos impactos ambientais sejam menores. É hora de olharmos a natureza como partes de nós mesmos, e entendermos que ao cuidarmos da Terra estaremos cuidando de nós e de nossas famílias. É hora de sermos mais solidários com os outros humanos e os outros seres desse mundo.
Estou vendo gente, que na ignorância ou no desespero, estoca quilos de alimentos e litros de combustível, sem necessidade. O que faz com que logo os produtos acabem e muitas pessoas fiquem sem. Até quando vamos só pensar no nosso umbigo?
E você já parou pra pensar o quão pequenos, e eu até diria, ridículos nós somos? Parece que para alguns sem gasolina a vida pára. Por acaso tu nascestes andando de carro? Não tens pernas? Se tem, ótimo, agradece por isso. Tem gente brigando em fila de posto de gasolina, indo aos tapas por uma chance de conseguir uns litros de combustível caro (diga-se de passagem muito caro, em Rio Branco está na faixa de R$ 3,30).
E tem tanta coisa nesse mundo que vale muito mais a pena a gente se preocupar, ou gastar nosso tempo e energia...
Se nesse exato momento, começasse um incêndio em tua casa. E você tivesse menos de 5 minutos para pegar alguma coisa e sair com vida. O que você pegaria?
Devemos parar de nos ver separados em nossos mundinhos. Não é “eu aqui no Acre e os outros lá em Rondônia”. Não é “tu aí em São Paulo, e o índio lá na aldeia no mato”. Somos NÓS vivendo em um mesmo planeta. O que acontece em Rondônia afeta o que acontece no Acre. O que acontece na Amazônia afeta o que acontece no sul do Brasil. O que acontece no sul, afeta o que acontece no nordeste. E o que acontece em qualquer lugar do mundo afeta o que acontece em todo o mundo!

Mais cedo ou mais tarde o Madeira vai baixar, e vai deixar um rastro de sujeira. Resta a nós, eu, você, representantes políticos, limparmos tudo e construir uma nova forma de viver nesse planeta. Antes que a próxima enchente do rio venha e nos leve a todos pra debaixo d’água.


5 de fevereiro de 2014

Na minha terra...

Na minha terra não tem Carvalho, mas tem Samaúma.
Na minha terra não tem Aveleira, mas tem Açaí.
Na minha terra não tem corvo, mas tem urubu e tem anu.
Na minha terra não tem cisne, mas tem garça.

Onde eu nasci não tem tinta azul.
Mas pra se pintar, usamos jenipapo e urucum.
Onde eu nasci não tem zimbro, mas tem breu e priprioca.
Onde eu nasci não faz frio,
Mas quando chove a gente deita na rede e se embala com a canção do vento e da chuva. E se der, ainda come uma tapioca.

Se isso me afasta do Druidismo ou dos Celtas antigos, eu vos digo: pelo contrário. Isso me aproxima deles e me religa ao que tem de mais sagrado: a Natureza.


Mayra (Darona) Ní Brighid.

(Raízes de uma samaúma, foto de Araquem Alcântara).



14 de março de 2013

Dia da Água e reflexões


(Docas, em Belém, foto de Mara Hermes, do Flickr)

Caminhando um pouco pela cidade de Belém é possível perceber o tratamento que estamos dando as nossas águas... Ou seja, nenhum. Estava eu andando ali nas Docas, um lugar movimentado da cidade, área nobre e turística, quando senti o cheiro pútrido da vala... Não era simplesmente o cheiro da fossa, era como se estivesse entrado num banheiro imundo e ainda com a descarga quebrada...! Não estou exagerando, minha irmã e cunhado que estavam comigo também sentiram esse cheiro. E olha que é ali, na área nobre de Belém... Imagine nos bairros periféricos da cidade...

Belém não possui saneamento básico decente, a prefeitura não trata o esgoto antes de ser lançado nos canais, pelo contrário, o que sai de nossas privadas e pias vai diretamente para os canais...! Isso é um absurdo!!! Canais que são originalmente rios, igarapés... Ou pelo menos eram... Se tivéssemos um adequado tratamento de esgoto, com certeza as águas desses canais não estariam tão poluídas como estão hoje. Poderíamos quem sabe nadar nessas águas? Ou ao menos desfrutar de fato de um lazer nesses locais, e não passar correndo por eles pra não sentir o cheiro podre de cocô. A vida nesses antigos rios e igarapés é prejudicada, as pessoas que moram no entorno deles são prejudicadas, a população inteira da cidade é prejudicada. E como ainda hoje nossos representantes políticos não tomam uma atitude para resolver essa situação? Como a população não se conscientiza de cobrar isso do poder público ou ao menos de protestar? Estamos mesmo muito acomodados... Belém então...?! A população só quer saber de “tremer” nas aparelhagens, passear no shopping, curtir um som na balada lá nas Docas... E se sentir cheiro de merda? “Fecha o vidro do carro, liga o ar e tapa o nariz, maninho!” E sobre a “onda” do “treme”, sem comentários... A mídia ainda dá a maior corda para essa “cultura” (oi?) que sinceramente não passa nada de bom para os jovens. Cadê o nosso carimbó? O siriá? E tantas outras manifestações tradicionais? Cadê a valorização aos mestres populares do Pará? Ficaram esquecidos? Eles com certeza não se esqueceram...

("Chuva abraçando Belém", foto de Fausto Nocetti, do Flickr)

Belém é a cidade das águas, incontestavelmente. Mais ainda do que cidade das mangueiras. A chuva é a grande rainha dessa terra. É ela que marca as nossas estações. A falta dela ou o seu excesso esvazia ou enche os rios. Estes, por sinal, espalhados em todos os lugares. Muitos, infelizmente, foram soterrados ou aterrados para a construção de casas, prédios e condomínios... Um crime ambiental. Belém é uma cidade alagada na verdade. Um grande igapó. Poucos locais são de terra firme. Mais ainda sim, somos insistentes e irresponsáveis. Destruímos áreas verdes e naturais para construir prédios sem fim. Na própria rua onde mora minha mãe, no bairro Batista Campos, tem um prédio altíssimo por sinal em construção. Já teve a licença ambiental não sei quantas vezes barrada, mas quase sempre conseguiam dar um “jeitinho”. Agora, parece que está parado de novo. Lembro que logo no começo da construção tubos e canos enormes ficaram dias e dias puxando água do fundo da terra e jogando sabe onde? Diretamente na vala. Tenho quase certeza que a água que estavam tirando era de um lençol freático... ou no mínimo ligada ao canal/igarapé aqui próximo. A água que escorria pelos canos era limpa, clara... e estava sendo ali jogada na vala... Senti como se estivessem secando uma veia. Uma veia da terra... Outro crime ambiental. Desses que a gente vê em cada esquina... infelizmente.
Um dos principais reservatórios de água de Belém, que abastecem a cidade, fica no Parque do Utinga, uma área (diz que) de proteção ambiental. No entorno é possível ver lixo, jogado quase sempre pela população mesmo, a cerca que o envolve encontra-se em muitas partes torcida ou quebrada... Enfim, um lugar que de longe a gente percebe que está mal cuidado, pela prefeitura e pela população, coisa que aliás não deve ser encarada separadamente. Se uma está com problemas, com certeza a outra também está.
A enorme tubulação de água que sai do Utinga e abastece a cidade fica ali, exposta na rua, bem na João Paulo II (antiga 1º de Dezembro), enferrujada, cheia de pichação, mato e lixo ao redor... E coladinha nela, uma invasão. Pense numa água “limpa” que chega em sua casa?! E mesmo não sendo aquela coisa, com a qualidade ideal que deveria ter, muitos bairros em Belém sofrem com a falta contínua de água. Alguns ficam dias, semanas sem água. Ô prefeito! Eles pagam impostos também e é um direito de todos terem água encanada e limpa em suas casas, sabia?
Para piorar, muitos dos que tem água em suas casas ainda a desperdiçam. É torneira com defeito pingando dia-e-noite, é chuveiro ligado por horas no banho, é gente lavando carro na mangueira (e enquanto ele ensaboa o carro, a água tá lá... escorrendo na vala)...
É um descaso total com a água. A cidade de Belém, o Pará e, infelizmente, o Brasil como um todo, não respeitam e não cuidam das águas que temos (se é que são “nossas”). Belém é uma terra que chove pra caramba, não é possível que não tenham pensado num projeto para captar e tratar a água da chuva como alternativa a água dos rios?! Se pensaram, então estão com preguiça ou má vontade de coloca-lo em prática, assim como tantos outros bons projetos engavetados.
Pensemos no nordeste que está sofrendo a pior seca das últimas décadas! E isso quase não se fala nos jornais... A moda agora é falar do Papa... Pessoas e animais estão sofrendo e morrendo por causa da seca no sertão. Cidades do nordeste têm que passar por um racionamento de água rigoroso, enquanto noutras cidades não só do Pará, mas do Brasil desperdiçam água a bangú e poluem monstruosamente os rios, igarapés e todas as águas da cidade e do interior... Não interessa que eles estejam “longe” de você e vivem noutra região. Eles são nossos parentes! Pisamos no mesmo solo, na mesma terra, país e planeta! Não podemos mais ser tão egocêntricos assim. Estamos acabando com a natureza e com nós mesmos, já que ela não está separada de nós, acredite você ou não nisso.

Nesse dia 23 de março é o Dia da Água no calendário civil, façamos essa reflexão... Se possível façamos manifestações e protestos em nossas cidades sobre essa questão. Como estamos tratando as águas dessa terra? Rios, igarapés...? Será que viraram todos canais? Esgotos a céu aberto? Ah Belém... Que vergonha... De mim, de ti, de todos nós que deixamos que isso acontecesse.
Faço um pedido, singelo, simples: cuidemos de nossas águas. Sem água não há vida.
E faço um convite, vamos fazer cada um em sua cidade, no dia e hora melhor para cada um de nós, um ato simbólico, sagrado para pedir desculpas e honrar as águas de nossa cidade. Ao passar por um canal, que antes era um rio ou igarapé, pare um pouco ali, olhe para ele, pense no que ele foi um dia e como poderia ser no futuro melhor... Deixa teus pensamentos voarem ali, deixa aquelas águas turvas, limpas ou seja lá como estiverem, falarem contigo... E como um pedido de desculpas e um ato de reconhecimento àquelas Águas jogue ali uma flor bem bonita e cheirosa. Com uma leve reverência se retire dali e volte a sua vida cotidiana... Depois me conte como foi, se quiser, eu gostaria muito de saber.

No mais, desejo um feliz Dia da Água para todos nós, e principalmente para elas, as Águas. E feliz Equinócio de Primavera, que aqui em terras belenenses já se manifesta com sua dança de chuva e calor intenso...

23 de janeiro de 2013

Bose Yacu Pacahuara



Hoje faleceu a indígena Bose Yacu, do povo Pacahuara, na amazônia boliviana (proximidade com o estado do Acre). Para alguns é só mais uma indígena que morreu, para outros é uma fonte enorme de sabedoria que se perdeu... Era a última que ainda falava a língua materna do povo Pacahuara, que conhecia canções tradicionais e guardava um enorme conhecimento de seu povo, hoje ameaçado de extinção, pois só existem cinco pacahuaras vivendo em um vilarejo no nordeste da Bolívia, e estão sendo assimilados pelo povo Chacobo.
Não acredito que a cultura Pacahuara morreu, pois nenhuma cultura morre completamente. Uma semente de sua sabedoria foi deixada com aqueles que conviveram com ela ou conheceram-na brevemente. Mas, infelizmente, muito se perdeu com a morte de Bose... E estou triste com isso... Deveríamos todos estar tristes com isso... 
Façamos uma corrente nas redes sociais (e em nossas vidas pessoais também, com orações, pensamentos, enfim) para honrar a memória de Bose e toda a sabedoria que ela representou (e ainda representa). E para lembrar a nós mesmos e aos governos da situação semelhante e injusta que ainda vivem muitas tribos indígenas no Brasil. 

Que Bose esteja em paz e alegria na terra sagrada de seus ancestrais. E que os povos indígenas tenham o devido valor e reconhecimento em nossa sociedade...! 

25 de novembro de 2012

Meditação de ida ao Fundo

Relacionada a roda de conversa que participei durante o III EBDRC, intitulada "Os sídhe e os encantados: traçando semelhanças e diferenças entre Druidismo e Encantaria amazônica". 


(foto de Mauricio de Paiva)

Esteja em um lugar calmo, onde não será perturbado por outras pessoas e barulhos. Se preferir, coloque uma música calma de fundo, som de águas, rio ou mar são ideais. Ou então, prefira somente o som da sua respiração. Se quiser acenda um incenso, mas não o coloque muito perto de você, para não irritar a garganta ou nariz. Coloque diante de você ou no seu altar/centro devocional (caso faça essa meditação próximo a ele) um recipiente com água limpa, e se preferir derrame umas gotas de essência perfumada na água (sugiro essência de breu branco, rosas brancas, jasmin ou outra suave). Feche seus olhos, respire profundamente, inspirando pelo nariz e expirando pela boca. À medida que respira, visualize o mar e sincronize sua respiração com o ir e vir das ondas. Quando sentir-se bastante relaxado e a respiração profunda for “automática”, veja-se diante de um igarapé, rio ou grande lago. Sinta a areia sob seus pés, sinta a brisa tocar sua pele, veja as águas limpas e profundas do igarapé a sua frente. Atrás de você e mais ao longe está uma densa floresta. Perceba se está de dia ou de noite. Você escuta pássaros cantando, e avista outros voando no céu acima de sua cabeça. Como são esses pássaros? Preste atenção nas águas a sua frente... A cor... A correnteza... O som do rio ou igarapé... De repente, você escuta um longo e fino assobio, vindo das águas... E então, você ouve uma doce música, uma doce voz que parece vir do fundo das águas e ao mesmo tempo parece estar próximo ao seu ouvido... Escute essa música por um tempo... Você sente que deve entrar no rio, ele lhe chama e você não tem nada a temer. Caminhe em direção ao rio. Sinta a água fria tocar seus pés, canelas, joelhos, coxas, barriga, peito e ombros. Respire fundo e mergulhe! Nade um pouco, sinta as águas acariciarem seu corpo, você é como um peixe, uma sereia, um golfinho... Você consegue até mesmo respirar debaixo d’água! Mergulhe mais e você percebe que o rio é mais fundo do que pensava... De repente, você enxerga vindo em sua direção um animal. O que é? Um boto? Peixe? Cobra? Ele não parece ameaçador, e não te assusta nem um pouco. Ele te olha nos olhos e você entende que ele quer que você suba nele, para que ele te leve mais ao Fundo. E você sobe gentilmente nele. Ele mergulha com você mais e mais fundo nas águas, à medida que vai tudo ficando escuro até você não enxergar mais nada, apenas sente a água e o animal que te guia... De repente, você vê uma claridade a sua frente, ainda longe. Uma luz que vai aos poucos aumentando conforme vocês se aproximam dela. Aproximando, aproximando... Nadando, nadando em frente... E então, você percebe que estão chegando perto de uma cidade. Uma grande cidade que reluz toda a ouro, como se o próprio sol estivesse ali no centro. O animal que lhe guiava se aproxima do fundo e então você desce e toca o chão, e sente que pode caminhar normalmente. Você caminha em direção ao portão de entrada da cidade, onde você vê que alguém lhe espera. Como é esse alguém? Ele(a) lhe sorri e pede para que o acompanhe. Você entra na cidade e vê pessoas, seres, animais caminharem nas ruas. Alguns te observam, outros te sorriem, outros te ignoram simplesmente. Como são os moradores dessa cidade? Perceba como é essa cidade... Você vai caminhando, acompanhando o seu guia, até que chegam à entrada de um palácio, no meio da cidade. Observe como é o palácio... As portas se abrem lentamente, e no grande salão do palácio uma grande e alegre festa está acontecendo. Não coma e nem guarde para si nada que há ali. Caso lhe ofereçam alguma comida ou bebida, agradeça a gentileza e recuse honrosamente. Aproxime-se do salão, observe as pessoas e seres que estão ali, dance se sentir vontade, brinque, sorria...! Todos ali são gentis e amigáveis. Uma pessoa se aproxima e diz que o rei e a rainha desejam lhe falar. Você segue adiante no salão e avista os tronos onde estão sentados o rei e a rainha. Observe como eles são e como estão vestidos. Aproxime-se e apresente-se. Ouça o que eles têm a dizer... Eles lhe entregam um presente, que você recebe e agradece. O que é esse presente? Em retribuição você tira do bolso ou bolsa que carrega um presente também, uma oferenda ao rei e rainha do Fundo. O que é que você entrega? ... Eles agradecem e abraçam você. Você também agradece e se despede, pois sente que já é momento de voltar. O animal que lhe guiou até o Fundo surge ao seu lado e lhe convida novamente para subir nele. Você olha a sua volta, agradece e se despede de todos, por enquanto. O animal lhe conduz para cima do palácio, em cujo teto há uma saída que dá acesso à correnteza das águas. Vocês seguem juntos pela correnteza, no ritmo das águas, fluindo no rio... Você olha para trás e vê a cidade se afastando. A escuridão novamente toma as águas, mas você se sente seguro, pois está na companhia de seu animal-irmão. A escuridão passa e você percebe que está se aproximando da superfície. Você consegue avistar acima de você o céu, a lua ou o sol... Então, finalmente você emerge das águas. Primeiro, sua cabeça, depois ombros, peito, barriga, pernas... Caminha até a margem, no exato lugar onde iniciou sua jornada. Seu corpo está molhado, mas você não sente frio. Seus pés tocam a areia... Você se vira e olha para seu amigo, o animal que lhe guiou durante toda a viagem. Você agradece, ele se despede e você sente que sempre que quiser ir ao Fundo basta chama-lo que ele virá para te guiar. Ele mergulha de volta nas águas profundas. Você se senta na areia, respirando fundo, e voltando lentamente ao aqui e agora do mundo cotidiano. Abra seus olhos.


Ao finalizar a meditação, celebre ouvindo essa lindíssima música =)


4 de setembro de 2012

Mãe Amazônia

Amazônia encantada,
Teu corpo é a terra fecunda e teu sangue são as águas escuras.
Teu espírito está em tudo e em todos que de ti nascem.
Teu sopro está nos ventos que correm sobre os rios e despenteiam as árvores.
Teu pranto de dor e alegria está nas chuvas que molham as ruas e nossas faces.
Mãe Amazônia, terra sofrida e esquecida.
Que teus filhos escutem o teu pulsar uma vez mais e sintam que é a tua Vida que os anima.
Sou tua filha, nasci de teu corpo, e para o teu corpo no fim dessa vida eu voltarei.
Que minha voz seja a Tua voz, que meu pranto seja o Teu pranto, que minha vitória seja a Tua.
E quando no fim dos meus dias eu me deitar sobre teu doce colo, que meus filhos e os filhos deles se lembrem que Tu, Mãe Amazônia, és a nossa mãe primeira.

(Darona ní Brighid)


(Imagem de Don Pablo Amaringo)


* Em homenagem ao dia da Amazônia, 05 de setembro.

16 de dezembro de 2011

Druidismo na Amazônia


Foto de Adriano Cavalcante. Paisagem em Soure (Ilha do Marajó-PA).


Um dos princípios fundamentais do Druidismo é honrar nossas Três Famílias de Ancestrais, que são os Ancestrais da Terra (povos nativos de sua região ou país e espíritos da natureza), Ancestrais de Sangue (nossos antepassados) e Ancestrais Divinos (os Deuses e Deusas Celtas).

Contextualizando para a Amazônia, onde nasci e resido (no Pará), os Ancestrais da Terra seriam os povos indígenas que habitaram e habitam a região, como o povo Tupinambá, Mundurucu, Aruã, Sateré-Mawé, Mawés e tantos outros (alguns já nem mais existem nesse mundo...); e os espíritos da natureza, que são Iara, Mãe do mato, Mãe do rio, Cobra Grande, Boto e uma infinidade de seres que guardam a mata e o rio chamados de encantados e caruanas. Nem todos esses seres são amigáveis, vale lembrar. Por isso o cuidado e o respeito serem extremamente necessários ao adentrarmos em um local, como matas e proximidade de igarapés e mangues, considerados locais onde eles habitam ou portais para o seu mundo (chamado de Fundo ou Encante).
Isso não é diferente nas culturas celtas, em que nem todas as ‘fadas’ e seres que habitam os Sídhe são amigáveis com os humanos. Alguns são indiferentes e outros podem ser mesmo hostis. Aqui em minha região, costuma-se dizer que um encantado pode malinar (fazer mal) uma pessoa sem nenhum motivo aparente, apenas por vontade. Às vezes o motivo é um desrespeito com o local onde eles habitam (sujar, por exemplo), caçar demasiadamente um tipo de animal ou passar em horas impróprias ou mágicas perto do rio ou mata, como ao meio-dia, às 15:00 h e 18:00 h.

Para algumas pessoas isso não passa de crença ou superstição do povo caboclo ou ribeirinho. Mas a verdade é que isso faz parte de todo um modo de vida, de pensar e relacionar com o meio a sua volta dessas populações. Muitas pessoas não conhecem ou sequer valorizam a cultura do local onde vivem. Observo com pesar muitos indivíduos que nasceram e moram na região amazônica, ou no Brasil, e não conhecem ou não dão devido valor a sua história, sua cultura. Pessoas que não gostam de sua terra, não gostam de viver no Brasil, na Amazônia, ou de serem brasileiros ou amazônidas. E como não gostam, não sentem vontade de lutar para melhorar a realidade de sua vida e sua comunidade. Isso é resultado, de certa forma, de todo um processo de colonização e história de uma sociedade que nos fizeram pensar que o Brasil e sua população não possuem valor e estão aí para serem explorados. Explorar a terra, os rios, os animais, as pessoas...

Uma pessoa que segue o Druidismo jamais deve pensar dessa forma. Algumas atitudes devem ser cultivadas entre aqueles que procuram estudar e viver o Druidismo, penso que algumas delas sejam as seguintes.
Primeiro de tudo, considerar sua terra como sagrada ou no mínimo merecedora de reverência e respeito, assim como todo o planeta. Devemos entender que o Brasil, a Amazônia, enfim, são espaços sagrados, tão quanto é a Irlanda, a Escócia e as terras célticas.

Conheça a história e a cultura de seu país e região. Ao conhecermos nosso passado, entendemos o presente e podemos mudar o futuro. Você não precisa ser um revolucionário ou militante político se não quiser. Podemos mudar o futuro de nossa comunidade ou região trabalhando a conscientização dentro de casa, do ambiente de trabalho e entre os amigos. Fazer as pessoas ao nosso redor conhecerem e refletirem sobre sua realidade já é muita coisa, mesmo que não pareça.
Conheça a cultura, a música e dança folclórica de sua região e país. Você não precisa sair dançando o samba, o frevo ou carimbó, se não quiser. Mas entender apenas que essas formas de arte são maravilhosas, falam por si, falam da história, cultura e imaginário de um povo.
Conheça um pouco sobre as plantas da região, suas propriedades medicinais e místicas. Temos na Amazônia e no Brasil como um todo uma diversidade rica e ainda pouco conhecida de ervas, plantas e árvores, cada uma com sua essência e poder.
Saiba sobre os animais comuns da natureza a sua volta, observe sua beleza, seu canto, seu movimento, suas cores e hábitos. Os animais são mensageiros dos deuses e também nossos irmãos.

Tenha a consciência de que uma árvore, um rio, uma pedra ou inseto que seja possui vida. O povo do interior conta que alguns encantados tomam a forma de animais, e não se engane em pensar que todos eles são amigos. Mas em todo caso, tenha respeito, sinta respeito e humildade com esse ser e sua morada, e nenhum mal ele poderá lhe fazer.
Não é muito pedir para que você acredite em botos e mães d’água. Se você acredita em fadas e leprechauns da Irlanda, porque não crer no povo encantado da Amazônia ou do Brasil? (lembrando da fala do amigo João Uberti em uma palestra no II Encontro Brasileiro de Druidismo). Importante apenas ter em mente que um não equivale ao outro. Quero dizer, o boto não é a selkie, curupira não é o Homem Verde e a matinta não é a Morrigan. As semelhanças entre eles pode até ser óbvia, mas há algumas características marcantes de cada um que não podemos ignorar, pois são seres relacionados a certos locais e suas personalidades chegam a ser bem diferentes.

Alguns seres encantados da Amazônia:

Iara: palavra que quer dizer “senhora da água” ou “sobre a água”. Espírito feminino que mora e protege um rio ou igarapé. Se sentir que seu lugar está sendo desrespeitado por algum invasor que entra sem pedir licença, pode malinar essa pessoa provocando uma doença ou levando-a para o fundo. Também são chamadas de mães d’água e podem assumir a aparência de alguém conhecido para atrair a pessoa para o fundo da água.


Mãe do Mato: Encantado que protege as matas fechadas, árvores e animais que ali circulam. Pode mundiar (malinar) com caçadores que matam demais um tipo de animal ou pessoas que sujam o local ou fazem muito barulho enquanto andam na mata. Costuma aparecer em forma de sombra ou como um animal (geralmente um veado) para a pessoa.

Boto: Encantado que assume a forma de um homem bonito entre os humanos para seduzir moças em período de menstruação. Dizem que ele é atraído pelo sangue menstrual. As moças que se relacionam durante certo tempo com os botos podem ou morrer ou engravidar deles, dando a luz crianças normais ou botos (encantados), propriamente, e nesse caso eles devem ser deixados no rio para viverem no fundo. Há quem diga que os botos são na verdade marinheiros que aportam em cidades ribeirinhas e se aventuram com moças do local. Mas... vai saber. Infelizmente, existem pessoas insensíveis e covardes que matam esses animais para pegar apenas os olhos e o sexo, acreditando ser afrodisíaco. Isso é um crime e uma maldade terrível com esses animais...

Cobra-Grande: há vários tipos de cobras-grandes na Amazônia, algumas são princesas encantadas que se transformam em cobras como castigo por alguma transgressão. Outras são crianças que nascem com essa natureza (provavelmente filhas de encantados). Outras são caruanas importantes do fundo que auxiliam os pajés nos trabalhos de cura. E outras são cobras enormes que amedrontam pescadores e ameaçam afundar seus barcos. Reza a lenda que existe uma cobra-grande embaixo da cidade de Belém, com a cabeça localizada na Igreja matriz, e o rabo na Igreja em São Luís (Maranhão). O dia em que essa cobra se mexer, a cidade inteira vai para o fundo, e a cidade do fundo, com todos os encantados, vem à superfície. Acredito que exista algo mais substancial na lenda da cobra-grande, uma herança mítica ancestral quase esquecida. A tradição dos Mawés conta que a Grande Serpente, Mói wató Mãgkarú-sése, mãe de todas as cobras-grandes, teve que sacrificar seu corpo para ser transformado em nosso planeta (Urutópiag, de Yaguarê Yamã). Assim, do corpo da grande-cobra mãe surgiram as florestas, rios e muitos dos seres que conhecemos.

Matinta-Perera: seu nome nem é pronunciado em algumas cidades, de tão perigosa que é essa bruxa. Uma mulher (mas pode ser homem também) que tem o fardo de se transformar em matinta a noite para fazer o mal às pessoas ou testar sua coragem. Transforma-se em pássaro que anuncia a sua chegada com um assovio bem alto e agudo. Contam que se oferecer a ela café e tabaco, no dia seguinte ela vem buscar na sua casa. É um ser muito hostil e perigoso, de aparência feia que assusta até os ossos. Melhor nem mexer.

Há muitos outros seres que povoam o imaginário e a vida do povo na região, tão diversos quanto a própria Amazônia... mas fico por aqui, talvez em outro momento seja oportuno abordar mais coisas.


Obs.: essas informações são baseadas em livros que estudo sobre o folclore e a encantaria amazônica, e também em pesquisas de campo realizadas nos últimos anos em cidades do interior do Pará, além de casos e histórias contadas por conhecidos meus.

Obs.2: Texto publicado primeiramente no site do Templo de Avalon e blog do Nemeton Samaúma.