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11 de julho de 2016

MACHA, deusa da Soberania e protetora das mulheres


Macha é a Deusa celta da soberania, do poder feminino, da força da Terra... Está relacionada à fertilidade, ao ciclo da vida-morte-vida e seu animal sagrado é o Cavalo.

Uma de suas histórias conta que havia um chefe tribal da região de Ulster (norte da Irlanda), Crunniuc, que era viúvo e há muito tempo estava triste e sem vontade de viver... Um belo dia chegou à sua casa uma mulher forasteira, muito bonita, bem vestida e com aura de nobreza. Sem dizer quase nada ela entrou em sua casa (e em sua vida), colocou ordem nos aposentos, nos serviçais e trouxe harmonia para o seu lar... Essa estranha e fascinante mulher conquistou o coração de Crunniuc e ele voltou a sentir alegria em viver. Ela correspondia o seu amor e não lhe pedia nada em troca, apenas que a honrasse e que guardasse segredo sobre sua verdadeira natureza (que ela era uma mulher dos Sídhe, do Outro Mundo). E ele concordou feliz.

Tempos se passaram e eles viviam contentes e em paz, mas algumas pessoas da vila sentiam um estranhamento ou medo diante daquela estranha mulher... Embora ela sempre tratasse todos bem e fosse gentil, ninguém sabia de onde ela vinha, como havia chegado ali, ou mesmo o seu verdadeiro nome... Boatos dos mais estranhos circulavam... Bruxa, feiticeira, fada, rainha...? Ninguém sabia quem ela era, mas ainda assim mantinham certo respeito à mulher.

Com o tempo, um fruto do amor foi gerado, a mulher estava grávida e logo daria à luz. Era também época de um grande festival, quando várias tribos e clãs do Ulster se reuniam para celebrar, fazer acordos, feiras, competições, entre as quais a mais esperada era a corrida de cavalos! Crunniuc não podia deixar de ir, como um chefe ele tinha que estar presente. Antes de partir, a mulher aconselhou que não exagerasse na bebida, pois temia que ele dissesse coisas que não deveria... Com um beijo e uma benção eles se despediram.
Tão logo ele partiu e a mulher começou a sentir as primeiras dores do trabalho de parto, e se recolheu em sua casa para ter a criança...

Crunniuc se divertia no festival, conversava, bebia, e bebia bastante... esquecendo-se do conselho de sua mulher. No auge do festival se deu a corrida de cavalos. Todos se aglomeraram eufóricos para ver os melhores cavalos e os melhores cavaleiros disputarem. O cavalo do Rei e seu cavaleiro eram os mais fortes e muitos apostavam que eles iriam vencer, mas Crunniuc que não se conteve lançou uma arriscada aposta... Falou para todos ouvirem... “Eu aposto que minha mulher corre mais do que qualquer cavalo de toda a terra de Ériu! Mais até do que o cavalo do próprio rei!”.
Todos silenciaram diante daquela aposta que era quase uma afronta ao rei... Este então disse... “Prove então! Traga sua mulher para correr com os cavalos e veremos! Cumpra o que diz, se não pagará com a vida pela afronta a mim dirigida.”

Prontamente, servos do rei partiram em disparada para a casa de Crunniuc buscar sua mulher. Quando a encontraram e lhe explicaram o que havia acontecido, ela suplicou aos homens: “Por favor, tenham piedade... Estou com muitas dores e minha criança logo irá nascer”. Mas eles insistiram dizendo que se ela não fosse seu marido iria morrer. Contrariada ela foi... Ao chegar lá a mulher foi colocada diante do rei e novamente suplicou: “Por favor, tenha piedade... Como vê estou prestes a ter minha criança... sinto muitas dores, não tenho condição de correr agora. Mas lhe dou minha palavra que depois que me recuperar do parto cumpro o que lhe foi prometido”. O rei recusou e a obrigou a correr, se quisesse salvar seu marido. Recorreu uma última vez aos homens, mulheres e crianças que assistiam o evento: “Por favor, eu peço piedade... Lembrem-se que todos vocês vieram de uma mãe que passaram pelo que estou passando agora... Deixem-me ter minha criança em paz, eu suplico!”, ela falou enquanto chorava e sentia cada vez mais forte as dores do parto. Mas ninguém atendeu seu pedido...
Sem saída, a mulher foi obrigada a correr com os cavalos. O rei deu a largada e todos saíram em disparada! A mulher, mesmo em desvantagem e cansada, correu, correu e correu o mais rápido que podia! E para o espanto de todos ela venceu!

No alto de uma colina e rodeada pelos cavalos, a mulher quase sem forças deu o grito que trouxe seus filhos gêmeos ao mundo! O grito pôde ser escutado por toda a ilha... As pessoas que ali estavam ficaram assustadas e fascinadas pela força daquela mulher. Enquanto a observavam em espanto, a mulher levantou-se com os bebês no colo e disse à todos: “Pela desonra que me fizeram sofrer, deste dia em diante durante cinco dias e cinco noites por nove gerações, eu condeno todos os homens do Ulster no momento em que mais precisarem de suas forças a sentirem as dores do meu parto!”

Em meio a multidão assustada um homem perguntou: “Quem é você mulher?”. E ela respondeu: “Eu Sou Macha! E para sempre esse lugar terá o meu nome!”
E assim aquela colina foi chamada desde então “Emain Macha” (Os gêmeos de Macha).

Após dizer aquelas palavras a Mulher desapareceu e nunca mais foi vista... Crunniuc caiu em profundo arrependimento e desgraça, e todas as pessoas ali jamais se esqueceram daquela mulher.


Sinto que Macha está muito próxima de nós... Em tempos em que a mulher ainda sofre violência de todo o tipo e onde o Feminino vem sendo desvalorizado, Ela vêm à nós (homens e mulheres) para nos lembrar de onde todos nós viemos: de um Ventre. E que devemos honrar esse sagrado ventre, respeitar o milagre da vida e a força da Terra. Às todas as mulheres, em especial aquelas que um dia foram humilhadas ou agredidas, Macha vêm para nos lembrar de nossa verdadeira natureza: que somos divinas, que somos Deusas!

Macha chama por todas nós! Nos acolhe em seu abraço de Mãe, cura nossas feridas, nos nutre e fortalece. Macha chama por todos os homens para que despertem de sua ignorância, que relembrem sua memória antiga e honrem novamente o Ventre de onde vieram!

Sláinte Macha!!!

/|\




(Mito de Macha recontado por Mayra Darona Ní Brighid).

16 de dezembro de 2015

Espiritualidade feminina, ecologia e coletor menstrual.

(texto publicado primeiramente no site aterrasagrada.blogspot.com)




Tem quase um ano que comecei a usar o “Copo da Lua”, como gosto de chamar o meu coletor menstrual, e desde então só tenho tido experiências maravilhosas com ele! Resolvi escrever um texto falando um pouco sobre isso, ainda mais porque li recentemente algumas dúvidas de meninas no Facebook. Então bora lá...

Primeira coisa, ao ler esse texto desprenda-se de qualquer preconceito e abandone pensamentos como “ah que nojo...”, “ah credo...”, “ah isso”, “ah aquilo...”, ok? Estamos falando de nossos corpos e tudo o que ele abrange, e dentro da Espiritualidade Feminina o nosso corpo é sagrado! O corpo feminino, sobretudo, já passou tempo demais sendo objetificado e desvalorizado em todos os aspectos. Tá na hora de reconhecermos o poder que ele tem e a força de nossos ciclos sagrados, ok mulherada?! (e macharada também, bora mudar esse comportamento/paradigma aê!).

Bom, antes de eu começar a usar o Copo da Lua eu já o tinha em casa, quero dizer, já tinha comprado ele fazia uns anos, mas nunca tinha conseguido usar, então ficava lá, guardado na minha gaveta... mas nunca esquecido. Até que nos últimos anos, meus estudos sobre a Espiritualidade Feminina e o Ecofeminismo começaram a se intensificar. Aí pensei, “hum... acho que tá na hora d’eu tomar vergonha na cara e aprender a usar esse coletor”. Então, comecei a participar de grupos no Facebook que tratavam sobre o assunto (coletores menstruais) e a conversar com amigas minhas que já usavam. Foi quando pude esclarecer um monte de dúvidas que ainda tinha sobre como usar o Copo da Lua.

Que ele é muito mais ecológico que os absorventes descartáveis, eu já sabia (pois o coletor é reutilizável e o absorvente não né? Sem falar que este último possui um monte de substâncias químicas, e ao ser descartado no lixo, ou seja, na natureza, vai provocar um dano terrível ao planeta... ainda mais em grandes quantidades; imaginem quantos absorventes vão parar no lixo todo dia, no mundo todo?!!). E que ele é muito mais higiênico que os ditos absorventes, eu também sabia (pára pra pensar, o absorvente fica ali, horas abafando a sua Yoni*, o sangue coagulando e proporcionando inclusive a proliferação de fungos, porque a Yoni fica abafada, e fungo adora uma umidade e um calor...).

Enfim, a minha dificuldade era colocar o coletor lá dentro...
E isso tinha a ver (hoje eu entendo) muito mais com a minha relação com meu próprio corpo do que se o coletor prestava mesmo ou não.
Bem, nesse quase um ano de uso do Copo da Lua eu vou mencionar alguns aspectos positivos (os negativos são muito poucos, e para mim, são praticamente nulos) das experiências que venho tendo com ele ok? Sempre relacionando com a Espiritualidade Feminina, afinal, é do que mais se trata esse site! ;)

Sobre as experiências boas (diga-se, maravilhosas!) de se usar o coletor...

1. Eu colocaria como primeira, a mudança na relação que a gente tem com nosso próprio corpo. Ou seja, você começa a se olhar diferente, a se conhecer. Como falei antes, o corpo feminino ao longo dos últimos séculos foi sobrecarregado de tabus e proibições que só prejudicaram as mulheres. Nós não conhecemos nossos corpos, algumas (muitas) mulheres ainda têm nojo de seu próprio corpo, de sua yoni, de seu sangue, etc. É muito difícil ainda para a grande maioria das mulheres ter uma relação saudável com sua própria menstruação ou conseguir sentir prazer numa relação sexual... Porque por muito tempo, a mulher foi subjugada e condenada ao status de pecadora, e à ela só cabe sentir dor, não prazer. E isso é um absurdo! A mulher tem um órgão em seu corpo cuja função é unicamente proporcionar prazer a ela (estudos científicos recentes estão comprovando isso), e esse órgão é o clitóris. Mas muitas de nós sequer sabe o que é o clitóris... Fomos ensinadas a ser recatadas, a ver o sexo ou o desejo como pecado, e isso demora a ser desconstruído na psique de uma mulher... Demora mesmo, é um processo.

Pois enfim, voltando ao foco, quando usamos o Copo da Lua inevitavelmente entramos em contato com nossos corpos, com nossa yoni. Temos que tocá-la, saber onde ficam os grandes e pequenos lábios, a entrada da yoni etc. Ao contrário de usar absorvente que você apenas coloca na calcinha e depois tira e joga fora, sem mal olhar para o sangue que flui do seu ventre e muito menos para o seu órgão.

2. Segunda coisa legal de usar o coletor, você vê o seu sangue! E ele não fede (como acontece quando usamos absorventes, porque eles abafam ali a região, lembra?). Quando se tem uma compreensão diferente ou, melhor dizendo, sagrada com nosso sangue menstrual você o olha com outros olhos... Na Espiritualidade Feminina o sangue menstrual representa tudo aquilo que seu útero está limpando de seu corpo e da sua vida. Toda energia acumulada, estagnada ou em desarmonia que esteja em seu Ser durante o último ciclo, é eliminada de seu corpo. Vemos o sangue então, não como algo sujo ou impuro, mas como um fluxo sagrado de transformação. Ele está te limpando para que um novo ciclo possa começar. Todos os meses as mulheres vivem um ciclo de vida-morte-vida... Saber reconhecer a força desse momento é o primeiro passo para honrar-se como mulher sagrada que você é.  E a cor vermelha?! Ah... Aquele vermelho vivo, intenso... É a cor da Vida!

3. Terceira coisa legal, você pode ficar até 12 horas com o coletor dentro de você! E então, é só lavar com sabão neutro, lavar sua Yoni e colocar de novo. Você pode tirar o coletor para limpar a cada 8 horas ou quando achar necessário, mas não recomendo que passe de 12 horas direto, porque aí sim o sangue (e o coletor) pode ficar com um cheiro ruim. Além disso, não vaza! Quem usou absorvente sabe como é uma chatice quando vaza sangue na calcinha né? Pois é, o coletor não deixa vazar nada! Só vaza se foi mal colocado (e para saber isso só você vai dizer, vai sentir... geralmente incomoda quando não está certinho no lugar). Ou seja, pode dormir de boas com o Copo da Lua!

4. Dê adeus aos gastos com absorventes descartáveis ou “ob’s”! Adoro passar pelas prateleiras de absorventes no supermercado e pensar: “Não preciso mais disso... ;)” . Mesmo que o coletor pareça caro no primeiro momento (em torno de 80 reais), compensa muito, pois a vida útil dele é de 10 anos. Sem falar que serão centenas de absorventes que você não irá jogar no lixo depois, né? Um pequeno alívio para a Mãe Terra...

5. Quando comecei a usar meu Copo da lua também comecei a fazer anotações sobre meu ciclo menstrual. Peguei um caderno simples, que chamo de “Caderno Lunar”, decorei com uma capa legal e me pus a anotar meus sonhos mais significativos, minhas sensações, intuições, emoções, pensamentos, algumas poesias, sempre registrando a fase da lua e a data em que vinha e ia embora minha “Lua Vermelha” (menstruação). Como se fosse um diário mesmo... Embora eu não escreva nele todo dia. Com o tempo você vai compreendendo melhor em qual fase da lua está mais disposta e em qual não está tanto assim... Em que momento você tem sonhos mais vívidos e o que eles significaram depois para você... O que suas emoções estavam lhe dizendo... E por aí vai. É um método muito interessante de autoconhecimento. Recomendo que façam isso, mesmo quem prefere não usar o coletor.

6. E a última coisa legal que menciono aqui (pois não dá para eu citar todas as coisas, estou relatando brevemente as que acho mais relevantes de escrever agora) é em relação ao modo de colocar o Copo da Lua. Como falei no início do texto, minha maior dificuldade era colocar o coletor, porque eu achava que o coletor era muito grande para mim, mas na verdade ele é do tamanho adequado e o problema estava em como eu estava tentando coloca-lo, ou seja, a posição. Quase todas as meninas que li comentando sobre essa questão e conversando com minhas amigas depois, diziam que a melhor posição para colocar o coletor era de cócoras. Quando fui tentar, na primeira vez não deu muito certo, pois estava tensa (e é muito importante que estejas relaxada), mas no dia seguinte na segunda tentativa deu tudo certo! Meu Copo da Lua entrou com facilidade e senti uma onda de alegria imensa! Com o tempo fui percebendo que a posição de cócoras carrega muito mais significado e simbolismo do que eu imaginava... As mulheres antigas quando se reuniam com outras mulheres na “tenda vermelha” (quando estavam todas menstruadas) costumavam ficar de cócoras em alguns momentos para deixar fluir na terra o sangue e ao mesmo tempo ofertar à Mãe-Terra esse sangue sagrado.
De cócoras é a posição que muitas mulheres dão à luz quando estão parindo uma criança.
De cócoras é a posição em que a figura/deidade mais emblemática e misteriosa, a meu ver, da mitologia celta se apresenta: Sheela-na-Gig. Ela está com as pernas bem abertas, com as mãos abrindo ou tocando a vulva, que mais parece um portal por onde algo ou alguém vai sair ou mesmo entrar. Sheela-na-Gig para mim está profundamente relacionada aos mistérios femininos, aos ciclos de vida-morte-vida e ao poder da Lua Vermelha que cada mulher carrega.



Todo mês, quando a Lua vem me visitar e eu me posiciono de cócoras para colocar meu Copo da Lua, eu penso em Sheela-na-Gig, me conecto com essa força ancestral, bem como com todas as minhas ancestrais... Me permito ser limpa, transformada e curada pelo meu sangue sagrado. E com isso abençoo meu útero, meu ventre e todas as minhas relações, seja com as mulheres que vieram antes de mim, seja com aquelas que virão depois.


Bem, era mais ou menos isso que tinha para compartilhar. Convido agora vocês, mulheres, irmãs, para refletirem e se quiserem experimentar e vivenciar não só o Copo da Lua, mas, sobretudo, o seu corpo e o seu sangue, que são sem dúvida Sagrados.




* Yoni: nome menos pejorativo e mais sagrado de chamar a vagina; proveniente da tradição hindu, especialmente do Tantra. 


(Texto por Mayra Darona Ní Brighid. Escrito em 15/12/2015, Lua Nova).

18 de agosto de 2015

Ecologia Feminina - A relação da mulher com a Terra (por Ana Paula Silva)


"A Ecologia Feminina é uma prática que a mulher tende a procurar quando deseja se harmonizar com a natureza. 
Gestos tão simples que encontramos em nossas avós e ancestrais significam muitas vezes para nós, mulheres modernas, uma revisão da própria vida, quando colocamos em cheque tabus e hábitos, para construir uma relação mais harmoniosa de cuidado com o próprio corpo e com o Planeta.
Nas  culturas indígenas e maias  a Terra é vista como a Grande Mãe que nos dá abrigo e nos alimenta, segundo essas culturas, a existência humana é essencialmente conectada ao Planeta. As qualidades femininas da natureza são expressas pela receptividade da Terra ao receber, acolher, nutrir e oferecer todos os recursos necessários para que a planta germine, cresça, floresça e produza novas sementes concebendo suas múltiplas expressões de vida. 
Podemos observar práticas femininas ancestrais e ecológicas, como a devolução do ciclo menstrual para nutrir a Terra, que foram modificadas pela cultura e de maneira efetiva desconectaram a mulher do cuidado consigo mesma e com o Planeta. 

Segundo o site Museu da Menstruação (http://www.mum.org/), no ano de 1888 os absorventes femininos começaram a ser vendidos, eram aqueles em formato de almofada, adaptações dos que as enfermeiras norte-americanas preparavam para elas próprias usarem, feitos de gaze e outros materiais hospitalares a que tinham vasto acesso. Desde então o absorvente feminino descartável passou a ser comercializado com forte apelo publicitário à sua praticidade, marcando início à era dos descartáveis. As primeiras propagandas veiculadas para o produto, em 1921, pela Kotex, destacavam que os absorventes descartáveis eram muito mais limpos e assépticos, confortáveis.  Mas atualmente na contramão de todas as campanhas, vêm crescendo o movimento que quer abolir os absorventes descartáveis volta absorventes de tecido, por serem uma  solução mais natural para a pele sensível da vulva, além de muito mais econômicos e praticamente não-agressivos ao meio ambiente.
A Ecologia Feminina é um termo muito abrangente e profundo, e pelo viés da sustentabilidade, podemos identificar pelo menos cinco temas de grande impacto e muito palpáveis a todos nós: Consumo Consciente; Lixo: Absorventes Femininos e Fraldas Descartáveis; Humanização do Parto; Aleitamento Materno e Educação Ativa.

Consumo Consciente
Quando optamos por financiar pessoas e empresas que estão fazendo a sua parte, também fortalecemos esse trabalho. Nossas decisões de consumo são como os votos em uma eleição: o maior número decide quem ganha. Por isso, quanto mais optamos por produtos e empresas realmente preocupadas em fazer do mundo um lugar melhor, mais fortalecemos esse movimento e mais rápido veremos as mudanças necessárias.
Praticar o consumo consciente significa buscar o equilíbrio entre a sua satisfação pessoal e a sustentabilidade socioambiental, maximizando as conseqüências positivas deste ato não só para si mesmo, mas também para as relações com a sociedade, economia e natureza. Este também busca disseminar o conceito e a prática do consumo responsável, fazendo com que pequenos gestos realizados por muitas pessoas promovam grandes transformações.

Sugestões de práticas visando o consumo consciente:

 - Comprar roupas, alimentos e outras mercadorias na medida certa para o consumo individual ou da família, visando evitar ao máximo o desperdício;
- Gastar água e energia somente o necessário, evitando ao máximo o desperdício;
- Reutilizar produtos e bens naturais sempre que possível;
- Promover a separação e reciclagem do lixo;
- Usar sistemas que evitem o desperdício de água e energia nas residências;
- Valorizar e adquirir produtos de empresas que demonstram preocupações sociais e ambientais;
- Utilizar sacolas retornáveis para transportar os produtos adquiridos em supermercados;
- Valorizar o consumo de produtos orgânicos que, além de serem benéficos à saúde, a produção envolve práticas de respeito ao meio ambiente.

Lixo: Absorventes Femininos
Uma mulher que utiliza absorventes descartáveis para conter seu fluxo menstrual produz, desde a sua puberdade até a menopausa, aproximadamente 10 a 15 mil absorventes descartáveis de lixo, resíduo excessivo e de grande impacto ecológico para o Planeta. 

Absorventes e tampões descartáveis são feitos de papel alvejado, plástico e contêm ingredientes químicos inconvenientes à saúde da mulher, como metais, surfactantes, desinfetantes, fragrância, bactericida, fungicida, gel absorvente, colas, traços de organocloretos  (pesticidas), entre outras coisas. A legislação brasileira não regula os componentes dos produtos menstruais e as indústrias não precisam listá-los nas embalagens.

Componentes como organocloretos e dioxina, subprodutos do processo de branqueamento, têm sido associados a problemas de saúde em humanos e animais, contribuindo para o câncer de mama, deficiências do sistema imunológico, endometriose, defeitos no feto e câncer de colo de útero (cérvix).

Alternativas ecológicas disponíveis:

Além de serem práticas, econômicas e ecológicas, visto que custam menos ao bolso e reduzem consideravelmente a produção de lixo no Planeta, o uso das alternativas abaixo incentiva a valorização e aceitação do processo natural do corpo. Em ambos os casos o sangue pode ser devolvido para a natureza como adubo e alimento para as plantas, pois contém uma gama de nutrientes e energia vital que fertilizam a Terra.
Absorventes femininos de pano são laváveis, confeccionados em tecido de algodão, permitem ao corpo respirar livre de produtos químicos e plástico e não contêm químicas.

Copo coletor de silicone: além de ter a praticidade de ser interno, é reutilizável e lavável, e pode ser fervido para esterilização ao final do ciclo, ou colocado em água oxigenada por algumas horas antes de ser guardado para o mês seguinte. Normalmente possui durabilidade média de 10 anos".

26 de novembro de 2012

Uma canção para a Mãe Terra

Uma tradução e adaptação da música "Earth Mother", de Lisa Thiel e Ani Williams.

"Mãe Terra,
Estamos em seu corpo.
Mãe Terra,
Cantamos sua canção.

Mãe Terra,
Curamos seu corpo,
Mãe Terra,
Somos seu coração.

Oweoweoweouhá."


Para ser cantada no ritmo da música original, como pode ser ouvida abaixo.


10 de outubro de 2012

Celebrando a Lua Vermelha


(Shakti, o divino feminino, esposa divina de Shiva na mitologia hindu)


Cada vez mais mulheres estão ressignificando seu sangue menstrual, buscando em tradições e Deusas antigas a inspiração que precisam para (re)sacralizarem seu sangue e seu ventre. Mas ainda assim, existem muitas mulheres que crescem ouvindo que seu sangue (e corpo) é sujo, impuro, profano.
O movimento cultural e espiritual de fortalecimento e reconhecimento (não gosto muito de usar o termo “resgate”) do Sagrado Feminino está se espalhando pelo mundo, felizmente, como um sussurro, um sopro da Mãe Terra nos corações de homens e, sobretudo, das mulheres. A meu ver, o movimento do Sagrado Feminino vai além de religião, ou melhor, transcende as religiões e instituições; está presente – em maior ou menor grau - em todas elas e ao mesmo tempo não se prende em nenhuma. Seja na Wicca, nas religiões da Grande Mãe, no(s) Xamanismo(s), no Druidismo, nas correntes da Nova Era e mesmo no Cristianismo (com a Teologia feminista), o Sagrado Feminino ganha cada vez mais força, e pode ser encontrado em movimentos não necessariamente religiosos, mas também sociais, como em ONGs de apoio ao parto humanizado, associações de mulheres, grupos ambientalistas etc.
O fortalecimento do Sagrado Feminino está relacionado profundamente ao movimento da Ecoespiritualidade feminina, e muitas vezes são considerados sinônimos.
Sabemos que o ciclo menstrual está intimamente ligado ao ciclo da lua, e conectar-se com esse e outros ciclos, ou melhor dizendo, com a Ciclicidade da Natureza é se conectar melhor com nossos próprios ciclos (internos e externos) e compreender mais profundamente nós mesmas, nossos sonhos, medos, anseios, desejos, intuições... Com isso nos sentiremos mais fortes, mais seguras, sábias e saudáveis.
Há muitas formas de se conectar e honrar a sua menstruação; neste texto irei propor algumas sugestões e ideias para que cada mulher celebre a sua Lua Vermelha. A intenção é que você possa desfrutar de momentos de meditação, reflexão e magia; refletir sobre o momento em que está vivendo, perceber que o seu sangue e seu corpo são sagrados, sentir-se parte da natureza, sentir que você está no coração da Mãe Terra, e que Ela está no seu coração...


* Primeiramente, procure reduzir ao máximo o uso de absorventes descartáveis, além de ser um gasto muito grande em longo prazo, são muito poluentes para a natureza. Se puder evite usa-los, opte por um coletor menstrual. No Brasil, existe um tipo de coletor chamado MissCup

* Alguns dias antes de menstruar ou também durante a menstruação, os sonhos geralmente ficam mais intensos e significativos, por isso procure prestar atenção a eles e as mensagens que podem te trazer.

* Durante o banho, perceba seu corpo, seu ventre, seus seios, se estão inchados ou não, se algo lhe incomoda, e o porquê lhe incomoda. Perceba seu sangue, toque-o, sinta o cheiro, a textura, tenha consciência dele. Pense que todas as mulheres no mundo menstruam, é um dom que todas compartilham, todas nós estamos interligadas pelo sangue menstrual, ligadas umas com as outras, e todas com a Mãe Terra.

* Sempre que puder escute músicas que você aprecie, principalmente se falam do Feminino. Particularmente, gosto muito das músicas de Lisa Thiel, Dani Lasalvia, e algumas do Omnia (como Moon, Luna, Morrigan), mas sinta-se livre para escutar o que sua alma pedir. Músicas de dança do ventre são uma ótima ideia também, e se sentir vontade, dance e cante!

* No primeiro dia da menstruação, ou enquanto o fluxo ainda estiver forte, diante de seu cantinho especial (o altar, oratório, quintal, quarto... Enfim, um lugar em que você tenha privacidade e se sinta bem) dedique alguns minutos para meditar e celebrar seu sangue. Acenda uma chama (vela ou fogueira) e coloque água (de rio, chuva ou mineral) em um recipiente; acenda incensos também se preferir. Medite, cante, toque instrumentos (tambor xamânico, bódhran, flauta ou maracá...), ore e honre as deusas que você tem afinidade e que estão ligadas a fertilidade e ao poder femininos. Pode ser Epona, Eriu, Danu, Morrigan, Rhiannon, Aetegina, ou mesmo Afrodite, Oxum, Iacy, Pachamama, ou simplesmente o Sagrado Feminino. Acredito que em uma celebração da lua vermelha todas as Deusas se solidarizam, se interligam, assim como as mulheres menstruadas... Peça às Deusas ou a Mãe Terra que desperte e fortaleça o Sagrado Feminino em todas as mulheres. Peça pela Paz entre os povos e todos os seres, pela Cura da Terra, e também por sua própria cura. Existe uma forma de meditação/oração que consiste primeiramente em deixar a mente livre, serena, e em seguida deixar que as palavras surjam espontaneamente em seu pensamento e então proferi-las, como um mantra, uma oração. Por exemplo:

Sangue sagrado
Sangue que cura
Sangue que transforma
Sangue que inspira
Sangue da Lua
Sangue sagrado

Corpo sagrado
Corpo que nutre
Corpo que gera
Corpo da Terra
Corpo que abraça
Corpo que ama
Corpo sagrado

Ventre sagrado
Ventre que gera
Ventre que cria
Ventre que purifica
Ventre que acolhe
Ventre fértil
Ventre sagrado

...

       * Ofereça seu sangue menstrual para a Mãe Terra. Esse foi e ainda é um costume ancestral. Mulheres indígenas de tribos nativas dos EUA se reuniam na tenda da lua ou tenda vermelha durante o período menstrual e ofertavam seu sangue a Terra. No Brasil, em algumas tribos indígenas as mulheres se recolhem em cabanas específicas, sentam-se em círculo de cócoras e deixam seu sangue escorrer para a Terra, como uma forma de oferenda e ao mesmo tempo purificação. Caso você use absorventes, derrame um pouco de água nele e o esprema sobre a terra (ou em vasos de plantas), oferecendo à Mãe Terra e pedindo pela cura do planeta e da humanidade. Sinta-se grata pela Deusa Terra compartilhar com você Seu poder de fertilidade.

       * Consulte oráculos pedindo conselhos para algum momento difícil em que esteja passando.

      * Se possível, reúna-se com outras mulheres, forme um Círculo de Mulheres, troquem informações, experiências, saberes, fortaleçam-se nessa união, celebrem juntas o sangue sagrado e a alegria de ser mulher.


(Um Círculo de Mulheres)


Essas ideias aqui sugeridas foram e são frutos de minha vivência pessoal. Saiba que não é necessário você realizar todas elas, pode optar por algumas e adapta-las ao seu contexto. Fique a vontade e ouça sua intuição. Espero com isso incentivar cada vez mais mulheres a celebrarem sua menstruação e fortalecerem em si o Sagrado Feminino, independentemente se seguem ou não uma religião ou espiritualidade, pois torna-se urgente o surgimento de uma nova consciência, de uma humanidade com mulheres, e também homens, conectados com a Natureza e em sintonia com os ciclos sagrados. 

28 de agosto de 2012

Terra sagrada, Corpo sagrado.



Incrível como a inspiração é maravilhosa e vem, quase sempre, repentinamente, nos surpreendendo nos momentos mais cotidianos e nos tirando da rotina alucinógena de todos os dias.
Depois de tempos, meses, sem escrever nada para ser publicado no blog, eis que hoje, 27/08/12, há mais ou menos 20 minutos atrás[1], os Deuses mais uma vez sopram sua sabedoria em meus ouvidos.
Enquanto lavava a louça, senti de repente uma pontada debaixo do dedão do pé esquerdo. Sem parar de enxaguar o prato, me abaixei e com a mão direita cocei onde havia sentido a pontada. Mas ela continuou, como se estivessem a alfinetar aquele lugarzinho debaixo do dedão. De repente, pensei que deveria escrever alguma coisa pro meu blog, pois estava em débito com os leitores (e comigo mesma), se é que alguém me lê rsrs.
E então, mais de repente ainda, começaram a surgir palavras, ideias em minha cabeça sobre o corpo, o nosso corpo e sua relação com o sagrado. Terminei de lavar a louça, ainda com os pensamentos brotando em minha cabeça, e me sentei na frente do computador. Eis as ideias que me foram sopradas...

Muitas religiões valorizam demais o espírito, a mente, em detrimento da matéria e do corpo. Isso, para mim, provoca um desequilíbrio. Porque simplesmente não podemos ignorar nossos corpos. Temos sensações, sentimentos, prazeres e dores, que se ignoradas, e às vezes dessacralizadas, nós adoecemos, nos desequilibramos emocional e fisicamente.
No Druidismo, e também em muitos ramos do paganismo e espiritualidades ligadas a Terra, procura-se valorizar tanto o espírito quanto o corpo. Na verdade, dentro do Druidismo temos uma visão de que corpo e alma não estão profundamente separados, ou melhor, que o Divino e o Mundano não são oponentes. São “lados da mesma moeda”, são faces da mesma realidade.
É através de nosso corpo, de nossos sentidos e sensações que o sagrado se comunica conosco. No voo dos pássaros, no canto de um bem-te-vi, no barulho do vento, no cair da chuva, no sonho no meio da noite, os Deuses e ancestrais falam conosco, nos inspiram e nos aconselham a todo momento.

Nosso corpo deve ser cuidado, deve ser mantido saudável, pois ele é sagrado. Uma prece à Epona diz, “como a terra é minha carne, pedra os meus ossos, cada erva é meu cabelo, o mar meu sangue, o Sol é minha pele, minha alma a Lua, as estrelas meus sentidos, minha razão as nuvens e o vento é minha respiração”. O nosso corpo, portanto, é a Terra, e a Terra é sagrada.
Nosso corpo possui uma linguagem, uma fala, e ele está o tempo todo nos dizendo algo. Se pararmos para pensar, temos órgãos, células, neurônios, que funcionam perfeitamente e divinamente bem (quando estamos saudáveis, claro, e mesmo quando não, pois ainda assim ele luta para restabelecer a saúde), sem a nossa “vontade”, ou seja, sem a nossa autorização consciente. E o nosso corpo faz isso o tempo todo. Não acho loucura pensar que ele tenha uma consciência própria. Quando algo está errado em nosso organismo, ele tenta de todas as formas nos avisar disso, seja por meio de dores, sensações estranhas, irritação e até mesmo de sonhos ou insônia. Nós é que, ocupados demais com os afazeres e principalmente com as distrações da vida moderna, ignoramos essa voz, essa fala do corpo. Mas ela está lá, ou melhor, aqui, dentro de mim, e aí dentro de você, o tempo todo se comunicando com sua consciência. Resta-nos parar um pouco, silenciar a mente e escutar.
No xamanismo de influência maia, existe um conceito chamado “a fala do sangue”, como explica Tedlock no livro “A mulher no corpo de xamã” (2010), que é na verdade uma forma de sabedoria, por vezes se aproximando de um tipo de oráculo, em que o/a xamã sente uma pontada, fisgada, calafrio ou sensação de calor em determinada parte do corpo, e dependendo da região do corpo existem interpretações e significados diferentes.

A dança, caminhada, ioga, exercícios físicos em geral, atrelados a uma boa alimentação, são ótimas formas de fortalecer, não só a nossa saúde, como também a conexão entre mente e corpo, espírito e matéria. E estando essa conexão bem harmonizada, podemos ser capazes de ouvir a voz e a canção dos Deuses, e sermos por ela inspirados...
Na mulher, durante os dias que antecedem a menstruação e durante esta é um bom período para perceber e se conectar com o seu corpo. Perceber as mudanças que ocorrem nele, como seios inchados, pele oleosa, sonhos mais vívidos, enfim, percepções que irão aos poucos nos (re)despertar para a consciência do próprio corpo.
No homem, bem, não sou homem, mas imagino que nos momentos de excitação o corpo é tomado por sensações de êxtase, e mais do que em qualquer outro momento, o corpo “fala” e age por si. Esta é a hora em que deve-se abrir à percepção para o corpo, sentir e ouvi-lo.
Entre todas as formas, penso que a dança seja a mais incrível de nos fazer despertar para a percepção do corpo, e mais do que isso, de nos conectar com o sagrado. Seja na dança do ventre, tribal fusion, flamenco ou na dança circular (que é a que eu mais tenho afinidade e carinho), sentimos que naquele instante tudo pára, as preocupações, as responsabilidades, a correria, e só sentimos o momento presente, a música, o chão sobre nossos pés, o ar que enche nossos pulmões, a sensação de bem-estar, leveza, paz... E é nesse momento, quando paramos para o mundo de fora e nos voltamos para o nosso interior, que sentimos nosso corpo, e que ouvimos nossa alma.

Experimente fazer uma coisa, ponha uma música que gosta muito, aquela que te faz viajar nos pensamentos. Feche a porta, a cortina, não deixe ninguém te atrapalhar. Feche os olhos, respire fundo e lentamente. Sinta seus pés, suas pernas, suas raízes, sustentando seu corpo. Comece a movimentar seus braços no ritmo da música, e então os pés. Enquanto movimenta os braços no ar, olhe para eles, veja-os cortando o ar, liberando faíscas, lançando luzes no ambiente. Movimente seu corpo, solte-o, sem tensões, sem vergonha, seja uma criança de novo. Brinque, ria, chore, pule, gire! Sinta a música! E quando seu fôlego faltar pare um pouco e respire fundo... Sente seu coração bater? Sente o suor cair na face? Sente o sangue quente sob a pele? Sente o Espírito pulsar em seu Corpo? Quando você sentir isso, sentirá então o riso dos Deuses no seu riso, e ouvirá a voz da natureza lhe falar aos ouvidos. E isso é sagrado.


Abençoado seja o caminho que me conduz aos Deuses e ancestrais.
Abençoados sejam meus pés que trilham este caminho sagrado.
Abençoadas sejam minhas pernas, minhas raízes, que sustentam meu corpo.
Abençoado seja meu sexo e meu sangue, símbolo de meu poder feminino na Terra.
Abençoado seja meu ventre, que guarda e germina as sementes de nova vida.
Abençoados sejam meus seios, que produzirão o leite cujo meus filhos se alimentarão.
Abençoadas sejam minhas mãos, que elas levem a Cura para o doente,
O afago para o ser carente e a benção para tudo o que tocarem.
Abençoados sejam meus braços e toda a produção que venha deles.
Abençoados sejam meus lábios, que eles somente profiram a sabedoria e a verdade.
Abençoada seja minha mente, que nela haja o bem e pensamentos de paz.
Que haja benção, proteção e saúde em mim e em meu lar.
Todo o dia e toda a noite.
Os Deuses acima para me inspirar.
Os Nobres ao lado para me guiar.
E os Ancestrais abaixo para me proteger.
Assim seja.

(Benção de plenitude)




[1] Comecei a escrever esse texto no dia 27/08/12 às 22:16 h, horário de Rio Branco, uma hora antes de Brasília.

16 de dezembro de 2011

Espiritualidade Feminina no Caminho Druídico


“A voz da mulher é tão sagrada como a terra”

(Aniceto Xavante).

Sabemos por meio dos registros de romanos e gregos que as mulheres celtas gozavam de uma considerável liberdade (social, religiosa, sexual...) se comparadas às mulheres romanas, por exemplo. Além desses registros, a mitologia celta também nos deixa indícios do poder e atuação da mulher na sociedade celta e em seu imaginário. Exemplos de coragem, honra e prestígio feminino podem ser encontrados nas histórias factuais ou míticas da rainha Cartimandua (dos Brigantes), a rainha Boudicca (dos Iceni), Maeve, Morrigan, Macha, Morgan Le Fay, entre outras mulheres e deusas. Sem falar no poder da soberania da terra que é relacionado diretamente a certas mulheres/deusas portadoras desse poder que o entregam somente aos homens justos e dignos destinados a serem reis.

No entanto, ainda se sabe pouco sobre as mulheres celtas e, principalmente, a mulher no druidismo antigo. Ainda se discute hoje em dia se existiram de fato druidesas, ou sacerdotisas celtas. Muitos afirmam que eram raras ou que não poderiam ser consideradas druidesas, e sim magas, sábias e profetizas. Outros afirmam que elas existiram sim, e mesmo não recebendo a devida atenção e cuidado de registro pelos observadores romanos e gregos e os monges do cristianismo medieval, elas não podem ser ignoradas. Eu prefiro acreditar nesse segundo pensamento, que se baseia em muitos argumentos históricos e mitológicos, mas para não ficar um texto muito longo não os abordarei aqui.

Minha intenção neste texto não é defender a existência de druidesas ou sacerdotisas nas tribos celtas antigas apresentando provas e discutindo sobre elas. Até mesmo porque já tem certa quantidade de textos e artigos disponíveis em livros e na internet sobre essa questão (Jean Markale, por exemplo, escreveu alguns textos sobre isso). Quero apenas escrever alguns pensamentos que tenho sobre a mulher que segue o druidismo hoje e como a espiritualidade feminina pode contribuir para as suas práticas, crenças e vivências.

Uma coisa que me intriga muito é a falta de registros sobre a questão da menstruação entre os celtas. Eu me pergunto: como eles pensavam esse momento tão feminino? Que ideias, tabus e preceitos rondavam o ciclo menstrual da mulher? E como a mulher se pensava nesse período? Diversas culturas apresentam um conjunto de ideias, positivas e negativas, de poder e (im)pureza, de cura e doença, relacionadas ao sangue menstrual. Monika Von Koss, em “Rubra Força”, e Mary Douglas, em “Pureza e Perigo”, analisam diversos contextos culturais onde os tabus do sangue estão presentes. Mas sobre essa questão, os registros clássicos e medievais sobre os celtas não nos dizem nada, ou ao menos ainda não foi descoberta ou traduzida tal informação. Enfim, essa é uma lacuna que a história dos celtas nos deixou.

É nesse ponto que acho muito interessante o que a espiritualidade feminina tem a nos oferecer. Não estou me referindo especificamente às religiões modernas da Deusa ou a bruxaria, mesmo que a espiritualidade feminina perpasse essas vertentes, ela na verdade as transcende.

A consciência feminina e muitos dos aspectos daquilo que vem a ser chamado de espiritualidade feminina ou ainda ecofeminismo perpassam diversas religiões hoje. Mulheres cada vez mais tomam consciência sobre seu corpo, sua sacralidade e ciclos. Cada vez mais se faz a reflexão e crítica sobre a posição e sujeição da mulher nas sociedades, e muitas vezes essa reflexão parte de dentro da própria cultura. A teologia feminista do cristianismo está crescendo e ganhando voz e espaço dentro desse âmbito. Por isso e outras coisas é que eu acredito ser muito válida tal consciência feminina para a sociedade como um todo e para nós, mulheres que seguem ou dedicam-se ao druidismo.

Uma das ideias que mais acho interessante, e que talvez seja a central, dentro do movimento da espiritualidade feminina está relacionada aos ciclos naturais da mulher, que abrange desde o ciclo menstrual, gravidez, menopausa e o puerpério. Cada um desses ciclos tem seu simbolismo, seus aspectos físicos, subjetivos e os aprendizados para a vida da mulher. Momentos marcados pela fertilidade, introspecção, intuições, desejos, expansão, recolhimento e sabedoria. Cada mulher percebe e sente seus ciclos de uma determinada forma. E cada ciclo possui sua lição, poder e renovação para a vida da mulher.

A menstruação, que ainda é mal vista em nossa sociedade, encarada por algumas pessoas como algo impuro, sujo, perigoso e incômodo, passa a ser considerada - sob a visão de uma espiritualidade feminina - como um momento extremamente sagrado para a mulher e quem a rodeia. Nada mais feminino do que menstruar. Nada mais natural do que sangrar todos os meses, seguindo o ritmo da lua, que rege as marés, as plantações, as águas do mundo todo, e inclusive dos seres humanos, afinal nosso corpo é 70% água.
A palavra menstruação pode ser interpretada como “medida da lua” ou “tempo da lua”, já que a raiz “mens” quer dizer medida (de tempo), e o ciclo menstrual é indubitavelmente influenciado pela Lua. Os termos “lua vermelha” e “sob a influência da lua” costumam ser usados por muitas mulheres para dizerem que estão menstruadas.

Com o sangue que escorre fora de seu ventre, acredita-se que vai embora junto tudo o que precisa “morrer” na vida subjetiva e objetiva daquela mulher. Mágoas, incertezas, problemas, hábitos ruins, comportamentos e sentimentos prejudiciais vão embora junto com o fluxo rubro. Para fortalecer esse propósito, algumas mulheres nos primeiros dias de menstruação fazem uma meditação, voltadas para o oeste, pedindo para que tudo o que for ruim e prejudicial à sua vida, as coisas chatas que lhe aconteceram naquele mês, enfim, vão embora e sejam transformadas em aprendizados, força e poder para si. O ato de entregar à terra um pouco do sangue simboliza essa ação. Nos dias seguintes, por volta do terceiro dia da menstruação, a mulher realiza outra meditação, voltada para o leste, pedindo pelas coisas boas e por objetivos que deseja alcançar para o próximo ciclo. Um banho com rosas brancas pode ser feito e danças sagradas podem ser realizadas, para simbolizar e fortalecer essa intenção.

Essa é uma prática que venho buscando realizar em meus dias de “lua vermelha”, com a finalidade de fortalecer em mim a consciência sagrada dos meus ciclos e uma comunicação melhor com meu corpo. Você pode incrementar mais esses ritos menstruais, acrescentando outros ou modificando esses. Oráculos podem ser consultados nesse período, inclusive o oráculo com o sangue. Observar que formas ou desenhos o sangue forma no seu absorvente e interpretá-los, derramar um pouco do sangue num recipiente com água e ter visões e intuições do passado, presente ou futuro, entre outras maneiras, que você mesma pode criar. Basta ouvir sua intuição e perceber o que seus sonhos lhe dizem.

Imagino que algumas pessoas devem ter lido esse texto com um certo nojo ou incômodo. Espero sinceramente que não. Mas se sim, talvez seja hora de repensar os valores e ideias sobre a menstruação, a mulher e o corpo (feminino e masculino, também). Quem lhe inculcou essas ideias, afinal? Até que ponto elas prejudicam sua relação com seu corpo, sua sexualidade e sua espiritualidade?

Para aqueles e aquelas que leram minhas palavras e gostaram, já fico enormemente satisfeita. O propósito principal deste texto era compartilhar meus pensamentos e ideias sobre um assunto tão delicado e ao mesmo tempo tão forte para nós mulheres. Espero que minhas palavras tenham tocado seu coração e ventre, e despertado em você as vozes ancestrais da Mulher Sábia.

Que seu sangue seja honrado, que seu corpo seja curado, que sua alma feminina floresça e seu poder enfim se fortaleça. Assim seja!


Obs: Texto publicado também no Templo de Avalon.