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11 de julho de 2016

MACHA, deusa da Soberania e protetora das mulheres


Macha é a Deusa celta da soberania, do poder feminino, da força da Terra... Está relacionada à fertilidade, ao ciclo da vida-morte-vida e seu animal sagrado é o Cavalo.

Uma de suas histórias conta que havia um chefe tribal da região de Ulster (norte da Irlanda), Crunniuc, que era viúvo e há muito tempo estava triste e sem vontade de viver... Um belo dia chegou à sua casa uma mulher forasteira, muito bonita, bem vestida e com aura de nobreza. Sem dizer quase nada ela entrou em sua casa (e em sua vida), colocou ordem nos aposentos, nos serviçais e trouxe harmonia para o seu lar... Essa estranha e fascinante mulher conquistou o coração de Crunniuc e ele voltou a sentir alegria em viver. Ela correspondia o seu amor e não lhe pedia nada em troca, apenas que a honrasse e que guardasse segredo sobre sua verdadeira natureza (que ela era uma mulher dos Sídhe, do Outro Mundo). E ele concordou feliz.

Tempos se passaram e eles viviam contentes e em paz, mas algumas pessoas da vila sentiam um estranhamento ou medo diante daquela estranha mulher... Embora ela sempre tratasse todos bem e fosse gentil, ninguém sabia de onde ela vinha, como havia chegado ali, ou mesmo o seu verdadeiro nome... Boatos dos mais estranhos circulavam... Bruxa, feiticeira, fada, rainha...? Ninguém sabia quem ela era, mas ainda assim mantinham certo respeito à mulher.

Com o tempo, um fruto do amor foi gerado, a mulher estava grávida e logo daria à luz. Era também época de um grande festival, quando várias tribos e clãs do Ulster se reuniam para celebrar, fazer acordos, feiras, competições, entre as quais a mais esperada era a corrida de cavalos! Crunniuc não podia deixar de ir, como um chefe ele tinha que estar presente. Antes de partir, a mulher aconselhou que não exagerasse na bebida, pois temia que ele dissesse coisas que não deveria... Com um beijo e uma benção eles se despediram.
Tão logo ele partiu e a mulher começou a sentir as primeiras dores do trabalho de parto, e se recolheu em sua casa para ter a criança...

Crunniuc se divertia no festival, conversava, bebia, e bebia bastante... esquecendo-se do conselho de sua mulher. No auge do festival se deu a corrida de cavalos. Todos se aglomeraram eufóricos para ver os melhores cavalos e os melhores cavaleiros disputarem. O cavalo do Rei e seu cavaleiro eram os mais fortes e muitos apostavam que eles iriam vencer, mas Crunniuc que não se conteve lançou uma arriscada aposta... Falou para todos ouvirem... “Eu aposto que minha mulher corre mais do que qualquer cavalo de toda a terra de Ériu! Mais até do que o cavalo do próprio rei!”.
Todos silenciaram diante daquela aposta que era quase uma afronta ao rei... Este então disse... “Prove então! Traga sua mulher para correr com os cavalos e veremos! Cumpra o que diz, se não pagará com a vida pela afronta a mim dirigida.”

Prontamente, servos do rei partiram em disparada para a casa de Crunniuc buscar sua mulher. Quando a encontraram e lhe explicaram o que havia acontecido, ela suplicou aos homens: “Por favor, tenham piedade... Estou com muitas dores e minha criança logo irá nascer”. Mas eles insistiram dizendo que se ela não fosse seu marido iria morrer. Contrariada ela foi... Ao chegar lá a mulher foi colocada diante do rei e novamente suplicou: “Por favor, tenha piedade... Como vê estou prestes a ter minha criança... sinto muitas dores, não tenho condição de correr agora. Mas lhe dou minha palavra que depois que me recuperar do parto cumpro o que lhe foi prometido”. O rei recusou e a obrigou a correr, se quisesse salvar seu marido. Recorreu uma última vez aos homens, mulheres e crianças que assistiam o evento: “Por favor, eu peço piedade... Lembrem-se que todos vocês vieram de uma mãe que passaram pelo que estou passando agora... Deixem-me ter minha criança em paz, eu suplico!”, ela falou enquanto chorava e sentia cada vez mais forte as dores do parto. Mas ninguém atendeu seu pedido...
Sem saída, a mulher foi obrigada a correr com os cavalos. O rei deu a largada e todos saíram em disparada! A mulher, mesmo em desvantagem e cansada, correu, correu e correu o mais rápido que podia! E para o espanto de todos ela venceu!

No alto de uma colina e rodeada pelos cavalos, a mulher quase sem forças deu o grito que trouxe seus filhos gêmeos ao mundo! O grito pôde ser escutado por toda a ilha... As pessoas que ali estavam ficaram assustadas e fascinadas pela força daquela mulher. Enquanto a observavam em espanto, a mulher levantou-se com os bebês no colo e disse à todos: “Pela desonra que me fizeram sofrer, deste dia em diante durante cinco dias e cinco noites por nove gerações, eu condeno todos os homens do Ulster no momento em que mais precisarem de suas forças a sentirem as dores do meu parto!”

Em meio a multidão assustada um homem perguntou: “Quem é você mulher?”. E ela respondeu: “Eu Sou Macha! E para sempre esse lugar terá o meu nome!”
E assim aquela colina foi chamada desde então “Emain Macha” (Os gêmeos de Macha).

Após dizer aquelas palavras a Mulher desapareceu e nunca mais foi vista... Crunniuc caiu em profundo arrependimento e desgraça, e todas as pessoas ali jamais se esqueceram daquela mulher.


Sinto que Macha está muito próxima de nós... Em tempos em que a mulher ainda sofre violência de todo o tipo e onde o Feminino vem sendo desvalorizado, Ela vêm à nós (homens e mulheres) para nos lembrar de onde todos nós viemos: de um Ventre. E que devemos honrar esse sagrado ventre, respeitar o milagre da vida e a força da Terra. Às todas as mulheres, em especial aquelas que um dia foram humilhadas ou agredidas, Macha vêm para nos lembrar de nossa verdadeira natureza: que somos divinas, que somos Deusas!

Macha chama por todas nós! Nos acolhe em seu abraço de Mãe, cura nossas feridas, nos nutre e fortalece. Macha chama por todos os homens para que despertem de sua ignorância, que relembrem sua memória antiga e honrem novamente o Ventre de onde vieram!

Sláinte Macha!!!

/|\




(Mito de Macha recontado por Mayra Darona Ní Brighid).

16 de dezembro de 2015

Espiritualidade feminina, ecologia e coletor menstrual.

(texto publicado primeiramente no site aterrasagrada.blogspot.com)




Tem quase um ano que comecei a usar o “Copo da Lua”, como gosto de chamar o meu coletor menstrual, e desde então só tenho tido experiências maravilhosas com ele! Resolvi escrever um texto falando um pouco sobre isso, ainda mais porque li recentemente algumas dúvidas de meninas no Facebook. Então bora lá...

Primeira coisa, ao ler esse texto desprenda-se de qualquer preconceito e abandone pensamentos como “ah que nojo...”, “ah credo...”, “ah isso”, “ah aquilo...”, ok? Estamos falando de nossos corpos e tudo o que ele abrange, e dentro da Espiritualidade Feminina o nosso corpo é sagrado! O corpo feminino, sobretudo, já passou tempo demais sendo objetificado e desvalorizado em todos os aspectos. Tá na hora de reconhecermos o poder que ele tem e a força de nossos ciclos sagrados, ok mulherada?! (e macharada também, bora mudar esse comportamento/paradigma aê!).

Bom, antes de eu começar a usar o Copo da Lua eu já o tinha em casa, quero dizer, já tinha comprado ele fazia uns anos, mas nunca tinha conseguido usar, então ficava lá, guardado na minha gaveta... mas nunca esquecido. Até que nos últimos anos, meus estudos sobre a Espiritualidade Feminina e o Ecofeminismo começaram a se intensificar. Aí pensei, “hum... acho que tá na hora d’eu tomar vergonha na cara e aprender a usar esse coletor”. Então, comecei a participar de grupos no Facebook que tratavam sobre o assunto (coletores menstruais) e a conversar com amigas minhas que já usavam. Foi quando pude esclarecer um monte de dúvidas que ainda tinha sobre como usar o Copo da Lua.

Que ele é muito mais ecológico que os absorventes descartáveis, eu já sabia (pois o coletor é reutilizável e o absorvente não né? Sem falar que este último possui um monte de substâncias químicas, e ao ser descartado no lixo, ou seja, na natureza, vai provocar um dano terrível ao planeta... ainda mais em grandes quantidades; imaginem quantos absorventes vão parar no lixo todo dia, no mundo todo?!!). E que ele é muito mais higiênico que os ditos absorventes, eu também sabia (pára pra pensar, o absorvente fica ali, horas abafando a sua Yoni*, o sangue coagulando e proporcionando inclusive a proliferação de fungos, porque a Yoni fica abafada, e fungo adora uma umidade e um calor...).

Enfim, a minha dificuldade era colocar o coletor lá dentro...
E isso tinha a ver (hoje eu entendo) muito mais com a minha relação com meu próprio corpo do que se o coletor prestava mesmo ou não.
Bem, nesse quase um ano de uso do Copo da Lua eu vou mencionar alguns aspectos positivos (os negativos são muito poucos, e para mim, são praticamente nulos) das experiências que venho tendo com ele ok? Sempre relacionando com a Espiritualidade Feminina, afinal, é do que mais se trata esse site! ;)

Sobre as experiências boas (diga-se, maravilhosas!) de se usar o coletor...

1. Eu colocaria como primeira, a mudança na relação que a gente tem com nosso próprio corpo. Ou seja, você começa a se olhar diferente, a se conhecer. Como falei antes, o corpo feminino ao longo dos últimos séculos foi sobrecarregado de tabus e proibições que só prejudicaram as mulheres. Nós não conhecemos nossos corpos, algumas (muitas) mulheres ainda têm nojo de seu próprio corpo, de sua yoni, de seu sangue, etc. É muito difícil ainda para a grande maioria das mulheres ter uma relação saudável com sua própria menstruação ou conseguir sentir prazer numa relação sexual... Porque por muito tempo, a mulher foi subjugada e condenada ao status de pecadora, e à ela só cabe sentir dor, não prazer. E isso é um absurdo! A mulher tem um órgão em seu corpo cuja função é unicamente proporcionar prazer a ela (estudos científicos recentes estão comprovando isso), e esse órgão é o clitóris. Mas muitas de nós sequer sabe o que é o clitóris... Fomos ensinadas a ser recatadas, a ver o sexo ou o desejo como pecado, e isso demora a ser desconstruído na psique de uma mulher... Demora mesmo, é um processo.

Pois enfim, voltando ao foco, quando usamos o Copo da Lua inevitavelmente entramos em contato com nossos corpos, com nossa yoni. Temos que tocá-la, saber onde ficam os grandes e pequenos lábios, a entrada da yoni etc. Ao contrário de usar absorvente que você apenas coloca na calcinha e depois tira e joga fora, sem mal olhar para o sangue que flui do seu ventre e muito menos para o seu órgão.

2. Segunda coisa legal de usar o coletor, você vê o seu sangue! E ele não fede (como acontece quando usamos absorventes, porque eles abafam ali a região, lembra?). Quando se tem uma compreensão diferente ou, melhor dizendo, sagrada com nosso sangue menstrual você o olha com outros olhos... Na Espiritualidade Feminina o sangue menstrual representa tudo aquilo que seu útero está limpando de seu corpo e da sua vida. Toda energia acumulada, estagnada ou em desarmonia que esteja em seu Ser durante o último ciclo, é eliminada de seu corpo. Vemos o sangue então, não como algo sujo ou impuro, mas como um fluxo sagrado de transformação. Ele está te limpando para que um novo ciclo possa começar. Todos os meses as mulheres vivem um ciclo de vida-morte-vida... Saber reconhecer a força desse momento é o primeiro passo para honrar-se como mulher sagrada que você é.  E a cor vermelha?! Ah... Aquele vermelho vivo, intenso... É a cor da Vida!

3. Terceira coisa legal, você pode ficar até 12 horas com o coletor dentro de você! E então, é só lavar com sabão neutro, lavar sua Yoni e colocar de novo. Você pode tirar o coletor para limpar a cada 8 horas ou quando achar necessário, mas não recomendo que passe de 12 horas direto, porque aí sim o sangue (e o coletor) pode ficar com um cheiro ruim. Além disso, não vaza! Quem usou absorvente sabe como é uma chatice quando vaza sangue na calcinha né? Pois é, o coletor não deixa vazar nada! Só vaza se foi mal colocado (e para saber isso só você vai dizer, vai sentir... geralmente incomoda quando não está certinho no lugar). Ou seja, pode dormir de boas com o Copo da Lua!

4. Dê adeus aos gastos com absorventes descartáveis ou “ob’s”! Adoro passar pelas prateleiras de absorventes no supermercado e pensar: “Não preciso mais disso... ;)” . Mesmo que o coletor pareça caro no primeiro momento (em torno de 80 reais), compensa muito, pois a vida útil dele é de 10 anos. Sem falar que serão centenas de absorventes que você não irá jogar no lixo depois, né? Um pequeno alívio para a Mãe Terra...

5. Quando comecei a usar meu Copo da lua também comecei a fazer anotações sobre meu ciclo menstrual. Peguei um caderno simples, que chamo de “Caderno Lunar”, decorei com uma capa legal e me pus a anotar meus sonhos mais significativos, minhas sensações, intuições, emoções, pensamentos, algumas poesias, sempre registrando a fase da lua e a data em que vinha e ia embora minha “Lua Vermelha” (menstruação). Como se fosse um diário mesmo... Embora eu não escreva nele todo dia. Com o tempo você vai compreendendo melhor em qual fase da lua está mais disposta e em qual não está tanto assim... Em que momento você tem sonhos mais vívidos e o que eles significaram depois para você... O que suas emoções estavam lhe dizendo... E por aí vai. É um método muito interessante de autoconhecimento. Recomendo que façam isso, mesmo quem prefere não usar o coletor.

6. E a última coisa legal que menciono aqui (pois não dá para eu citar todas as coisas, estou relatando brevemente as que acho mais relevantes de escrever agora) é em relação ao modo de colocar o Copo da Lua. Como falei no início do texto, minha maior dificuldade era colocar o coletor, porque eu achava que o coletor era muito grande para mim, mas na verdade ele é do tamanho adequado e o problema estava em como eu estava tentando coloca-lo, ou seja, a posição. Quase todas as meninas que li comentando sobre essa questão e conversando com minhas amigas depois, diziam que a melhor posição para colocar o coletor era de cócoras. Quando fui tentar, na primeira vez não deu muito certo, pois estava tensa (e é muito importante que estejas relaxada), mas no dia seguinte na segunda tentativa deu tudo certo! Meu Copo da Lua entrou com facilidade e senti uma onda de alegria imensa! Com o tempo fui percebendo que a posição de cócoras carrega muito mais significado e simbolismo do que eu imaginava... As mulheres antigas quando se reuniam com outras mulheres na “tenda vermelha” (quando estavam todas menstruadas) costumavam ficar de cócoras em alguns momentos para deixar fluir na terra o sangue e ao mesmo tempo ofertar à Mãe-Terra esse sangue sagrado.
De cócoras é a posição que muitas mulheres dão à luz quando estão parindo uma criança.
De cócoras é a posição em que a figura/deidade mais emblemática e misteriosa, a meu ver, da mitologia celta se apresenta: Sheela-na-Gig. Ela está com as pernas bem abertas, com as mãos abrindo ou tocando a vulva, que mais parece um portal por onde algo ou alguém vai sair ou mesmo entrar. Sheela-na-Gig para mim está profundamente relacionada aos mistérios femininos, aos ciclos de vida-morte-vida e ao poder da Lua Vermelha que cada mulher carrega.



Todo mês, quando a Lua vem me visitar e eu me posiciono de cócoras para colocar meu Copo da Lua, eu penso em Sheela-na-Gig, me conecto com essa força ancestral, bem como com todas as minhas ancestrais... Me permito ser limpa, transformada e curada pelo meu sangue sagrado. E com isso abençoo meu útero, meu ventre e todas as minhas relações, seja com as mulheres que vieram antes de mim, seja com aquelas que virão depois.


Bem, era mais ou menos isso que tinha para compartilhar. Convido agora vocês, mulheres, irmãs, para refletirem e se quiserem experimentar e vivenciar não só o Copo da Lua, mas, sobretudo, o seu corpo e o seu sangue, que são sem dúvida Sagrados.




* Yoni: nome menos pejorativo e mais sagrado de chamar a vagina; proveniente da tradição hindu, especialmente do Tantra. 


(Texto por Mayra Darona Ní Brighid. Escrito em 15/12/2015, Lua Nova).

9 de dezembro de 2012

9. Ancestrais


Hoje fez três anos que minha avó materna, Alzira (essa pessoa linda na foto ao lado), partiu para as Terras além das Ondas. E eu era, ainda sou, muito ligada a ela. Lembro bem da sua voz me chamando para a merenda da tarde. “Mayyyra...! Vem lanchar menina!”, e quando eu demorava para ir, ela insistia: “Mayra, menina, vem lanchar se não fica tarde...! Essa menina não come...”, ela resmungava. E era mesmo, quando criança era muito chata pra comer rs. E lembro-me bem do cheiro de café que rescindia pela casa quando dava umas 15:00 h. Acho que foi daí que peguei tanto gosto pelo café (mais pelo cheiro do que pelo gosto, pois prefiro o café misturado ao leite do que só o café puro). E esse costume, de “passar o café” e merendar a tarde se mantém tanto na casa de minha mãe, quanto na de minha tia (onde minha avó morava) e na minha também. Lembro de quando a minha avó preparava um lanche para mim todo especial, e ao mesmo tempo tão simples. Era café com leite e pão com manteiga cortado em pedaços, que eu mergulhava com uma colher na xícara de café e comia. Nossa... Como era gostoso! Demorei um bom tempo, bom tempo mesmo, para me acostumar a comer o pão inteiro e não cortá-lo em pedacinhos como minha vó fazia. Às vezes ainda como assim, e lembro-me dela com carinho ao fazer isso...

Acho que não há coisa mais sagrada no mundo do que a família. E acho lindo quando vejo uma família que se ama e é unida. Fico triste em ver tantas famílias desagregadas, brigando o tempo todo e parentes que não se amam e não se apoiam. Uma coisa triste isso e que só traz infelicidade e maldição a todos.

Os celtas davam uma atenção especial às famílias, os clãs, e aos membros que já se foram, os antepassados. Manter unidos os laços entre família e antepassados era mais do que importante, era fundamental para a paz e harmonia de uma casa. Coisa que hoje em dia não é uma preocupação muito constante das pessoas. Eles, os antepassados, ficam esquecidos, e nós, os descendentes, ficamos perdidos.

Não escreverei muito sobre as Três Famílias, coisa que já fiz em um texto anterior, mas vale a pena explicar um pouco sobre elas. No Druidismo a honra aos ancestrais está representada na crença das Três Famílias ou Ancestralidades, ou seja, temos Três Famílias de ancestrais, que são:

Ancestrais da Terra, que são os espíritos e seres da natureza (fadas e tantos outros seres, que em nossa região são chamados de Iaras, botos, cobras-grandes, saci, curupira, ou genericamente de Encantados). E também são os antigos que viveram e caminharam sobre esta terra a qual vivemos e caminhamos hoje, sendo os povos indígenas os mais lembrados, mas não somente eles, os povos africanos também (principalmente quando a pessoa tem uma ascendência afro). Espíritos ancestrais de animais (que alguns chamam de Totem) também são reverenciados como ancestrais da Terra.

Ancestrais de Sangue, são os que vieram antes de nós, os pais de nossos pais e mães de nossas mães. Nossos antepassados, conhecidos ou não, cujo sangue corre em nossas veias, cujos rostos podem ser vistos em nossos rostos, e cuja memória esconde-se e/ou revela-se em nossas memórias.

E os Ancestrais de Espírito ou de Caminho, que são os povos celtas e druidas antigos, os que viveram o Druidismo e a cultura celta antes de nós, que testemunharam a glória dos Deuses e que trilharam esse caminho o qual hoje estamos trilhando e também reconstruindo (na medida do possível ao nosso tempo e conhecimento, claro). São também os Deuses e Deusas celtas, se pensarmos que muitos deles são ancestrais divinizados de certas tribos.

Nunca fui de ver ou ouvir espíritos e outros seres estranhos. Mas quando escuto alguém contar histórias de visagens, fantasmas e “bichos visagentos” acho um pouco engraçado o espanto e estranhamento que essas pessoas têm. Para mim o que é uma coisa normal é considerado muito estranho e até mesmo demoníaco para outros. Seres peludos e curiosos invadindo casas no meio da mata, almas de pessoas recém-falecidas aparecendo para familiares ou amigos próximos, são histórias contadas e ouvidas com tanto medo e terror que acho até graça. Claro, que se eu passasse por uma experiência dessas ficaria gelada até os ossos e mais pálida do que já sou, até porque isso não é comum de me acontecer, mas acho que eu encararia depois o acontecimento com mais naturalidade do que muitas pessoas. Isso acontece porque, infelizmente, muitas religiões (principalmente, o cristianismo e suas vertentes) não preparam seus adeptos para lidar bem com a morte (e os mortos), e aí quando uma situação dessas acontece, a pessoa pensa logo que é obra do demônio (assim como um monte de outras coisas). Que vida triste deve ser dessa pessoa que pensa que quase tudo (ou praticamente tudo) no mundo é obra do “demônio”...

Li uma vez, não lembro direito onde, um pequeno conto* sobre um diálogo entre um padre e um sábio irlandês. O sábio perguntava ao padre onde estavam seus mortos, e o padre respondia: “No cemitério que você vê aqui perto, sob as lápides de pedra, sob a terra fria e escura”. O padre perguntou ao sábio o mesmo, e este lhe respondeu: “Nossos mortos estão aqui”, levantou o dedo e no mesmo instante o padre viu as almas de seus entes conhecidos e também pessoas desconhecidas pairando sobre todo o ar que os cercava, nas árvores, no céu, nas nuvens, no vento, nos rios, nas pedras, em tudo.
Legal né?! Adoro essa história...

No Druidismo, diferentemente da Wicca, por exemplo, os ancestrais são lembrados e honrados em todos os festivais sagrados, não só em Samhain (Samonios ou Oíche Samhna, a “Festa dos Antepassados”, o Fim do Verão). E muitos druidas e druidistas ou recons. celtas possuem em suas casas um altar ou espaço dedicado somente à eles. Acho isso bem legal e estou montando aos poucos um altar dos ancestrais em minha casa. Uma mesa ou bancada com fotografias, retratos, lembranças, joias e objetos pessoais dos antigos, onde você possa realizar orações e oferendas aos antepassados é uma forma bem interessante de manter a memória deles viva, fortalecendo com isso os laços entre eles e a família.

Tive há poucos dias atrás uma experiência que não sei dizer, sinceramente, se foi viagem da minha cabeça ou se foi real mesmo. Estava acordando de um sono ou cochilo da tarde e enquanto tomava coragem para levantar da cama fiquei olhando para o ventilador de teto, que tem embutida uma lâmpada e que está envolta por uma proteção ou uma capa (não sei ao certo o nome disso) de vidro fosco. Fiquei olhando fixamente para a lâmpada, ou melhor, a capa de vidro e de repente começou a se formar no reflexo um rosto de uma pessoa que ia mudando para outro rosto, e depois mudava para outro e assim ia. Foram uns cinco ou seis rostos diferentes (de homens e mulheres, o último parecia ser de um menino) e desconhecidos para mim. Veio-me na mente uma pergunta, “O que vocês querem?”, e em seguida a reposta: “Ser lembrados”. Bom, real ou não essa experiência foi válida, porque no fundo acredito que o que os antepassados mais querem é basicamente isso, serem lembrados. É o que mantêm eles vivos em nossas memórias e corações, e o que mantêm o “mundo de cá” ligado ao “mundo de lá”.

Já assistiram ao filme “Um olhar do Paraíso”? É bem interessante. Acredito muito na ideia que é trabalhada no filme, de que o mundo espiritual está ligado ao mundo físico e, o mais importante, que o que é feito no mundo de lá afeta o quê e quem está aqui, e o que é feito no mundo aqui toca o quê e quem está lá.
No final das contas acho que o que eles (os antepassados e espíritos) mais querem é ser lembrados, não com pesar ou tristeza, mas com saudade e amor. Porque afinal, todo mundo morre um dia, e também renasce.

("Remember the dead", foto de Graham M. Green).


* O conto está escrito aqui com minhas palavras, mas a ideia é essa mesma.

** Dedico esse texto à minha amada avó, Alzira Fecury Hage. Que ela esteja em paz e alegria na Terra dos Abençoados. 

23 de outubro de 2012

Os Ancestrais e o Outro Mundo



“Bem cedo na manhã do terceiro dia depois daquilo eles viram outra ilha, com uma paliçada de bronze no centro que dividia a ilha em duas, e viram grandes rebanhos de ovelhas por lá, um de ovelhas negras de um lado da cerca e outro de ovelhas brancas do outro lado. E viram um homem grande separando os rebanhos. Quando ele lançava uma ovelha branca sobre a cerca para o lado das ovelhas negras ela se tornava negra no ato. Quando ele lançava uma ovelha negra para o outro lado, ela logo se tornava branca.” (A Viagem de Mael Duin, tradução de Endovelicon).

A proximidade com o dia de finados no calendário civil e com o festival céltico Samhain[1], nos faz pensar inevitavelmente sobre os ancestrais, nossos antepassados, e para onde vão depois que morrem nessa vida. Bem, não tenho como responder a essa dúvida com tanta certeza, pois todos nós quando renascemos nesse mundo, mergulhamos nas águas sagradas do Caldeirão do de Bran e saímos mudos, sem saber ou ter como dizer o que vimos e vivemos no “Outro Mundo”[2]. Porém, os celtas nos legaram alguns conhecimentos sobre a vida, a morte e o renascimento, e sobre nossa ligação com os antepassados. É um pouco sobre isso que conversaremos nesse encontro.
Para os Celtas antigos (e atuais), o Mar e as águas eram (são) os portais para Outros Mundos, assim como a profundidade da terra (cavernas, colinas “ocas”) e os lugares altos (montanhas, colinas). Contudo, o Mar é o local de excelência para a comunicação com Outros Mundos. No Mar do Oeste (onde o sol se põe, “morre”) é onde se acredita ser o local em que Deuses, seres feéricos e também as almas dos entes queridos habitam, e é composto por diversas ilhas (maravilhosas, paradisíacas, mas também assustadoras, perigosas). Seu guardião é Manannán Mac Lir, o bondoso e sábio rei das ondas, que guia as almas, e os homens corajosos[3], além do Mar. Além dele há também a Dama do Ramo de Prata, que na Imramm de Bran Mac Febal aparece como uma senhora bela e radiante portando um ramo prateado com maçãs douradas, e instiga Bran a viajar pelo mar e conhecer as Ilhas Abençoadas.
Nem todas as almas de homens e mulheres são dignas o bastante para descansarem nas ilhas bem-aventuradas. Algumas almas ficam perdidas entre os mundos ou se recusam a ir. Outras, por alguma lógica do Mistério, renascem tão logo morrem, e podem assumir um novo corpo humano, animal, vegetal, mineral ou outra forma de vida, nesse mundo que conhecemos ou em outro[4].
O trecho no início desse texto aborda simbolicamente a ideia de que a vida contém a semente da morte, e a morte carrega a promessa da vida. Quando nascemos nesse mundo, morremos no Outro. E quando morremos aqui, renascemos lá. A morte, definitiva, não existe de fato. A vida é um eterno ciclo de ir e vir, como as fases da lua, as estações do ano, o ritmo das marés, o percurso do sol, as ondas do mar... A eternidade existe e se manifesta nas transformações (trans = além, transcender; formações = formas, estruturas). A cobra troca de pele. A águia muda de penas e arranca as unhas velhas. Ambas se renovam, e renascem em cada mudança, em cada morte.
Nossos antepassados e pessoas queridas que fizeram a travessia pelo Mar do Oeste continuam vivas, e estão conectadas conosco pelo misterioso entrelaçar da Grande Teia. Os antigos estão em nós, seus descendentes, e nós estaremos em nossos filhos, sobrinhos e netos um dia. Manter acesa a memória e o amor pelos antepassados é fortalecer os laços com nosso passado e futuro, é guiar nossas vidas em honra, tradição e humildade[5], tal como uma chama na noite mais escura.


“Samhain, Samhain,
A noite cobre o céu.
Invoco os Ancestrais,
Vinde a nós, passai o véu!

Bem fino está o véu,
Eu vou cruzar o mar
Rumo à Porta do Tempo,
E aos que partiram vou cantar.

Samhain, Samhain,
Vimos aqui louvar.
E honrar nossas raízes
Enquanto a Roda girar.
Samhain, Samhain,
A Roda vai girar.
Aqueles que partiram
Neste canto vou lembrar!”
(Cântico de Samhain. Música de Lisa Thiel. Letra adaptada por Nemeton Lusitano).



(Texto utilizado na roda de conversa sobre Druidismo, em 20/10/12, Belém-PA)



[1] Festival sagrado para celebrar o fim e início de um novo ano/ciclo e honrar os antepassados. Realizado entre os dias 29 de outubro e 02 de novembro.
[2] No Mabinogion (compêndio de mitos galeses), na batalha pelo resgate de Branwen, muitos guerreiros são mortos ou fatalmente feridos, Bran então mergulha seus guerreiros em seu mágico caldeirão, e depois de certo tempo os homens saem vivos e renovados das águas, porém mudos.
[3] Pesquise e leia sobre as Imramma, jornadas de barco pelo mar.
[4] Na Canção de Amergin e em poemas de Taliesin fica claro que uma alma pode assumir diversas formas, pois na crença celta tudo que conhecemos e não conhecemos é vivo e tem consciência (em diferentes graus de complexidade, mas tem).
[5] Humildade deve ser entendida como saber o seu lugar, nem acima nem abaixo dos outros, mas no Seu lugar, em seu centro. É ter consciência de que não se está aqui por acaso, muitos vieram antes de você e muitos virão depois. O que você está fazendo para honrar os que vieram antes, seus antepassados? E o que está fazendo para preparar o caminho para os que virão depois, seus descendentes?

Ancestralidades: Deuses, Antepassados e Espíritos.



Não estamos sozinhos no mundo. Não estamos isolados no aqui e agora. Cada um de nós está interligado ao seu passado e futuro. Somos frutos de nossos antepassados, pais de nossos pais e mães de nossas mães, e também resultados das escolhas que tomamos em cada passo de nossas vidas. Na cultura celta e no druidismo hoje, um dos mais importantes ensinamentos se refere às ancestralidades. As três grandes famílias são formadas pelos espíritos da natureza, os antepassados e os deuses, que estão relacionadas aos Três Mundos, Terra, Mar e Céu, mas não estão limitados a apenas um deles. Essa crença está simbolizada na imagem do triskle (acima), um antigo símbolo encontrado em diversos artefatos e objetos na cultura celta, como em pedras, espadas, escudos e jóias. São três espirais que se movimentam ao redor de um centro, e todas essas espirais estão interligadas entre si, completando o círculo da vida. Você é o centro, que está conectado as espirais, recebendo influência e influenciando-as. O centro é também a essência da Vida, o Espírito, a Grande Canção, onde nascem e se expandem as espirais, e onde elas se encontram.
Abaixo veremos uma breve explicação sobre as três grandes famílias ou as três ancestralidades.

Espíritos da natureza
Refere-se a todas as formas de vida na natureza. São os espíritos dos animais, das árvores, rios, pedras, fontes etc. São nossos irmãos de penas, escamas, pêlos, e tantos outros. São os espíritos da terra, espíritos da região, e podem ser inclusive espíritos humanos que de alguma forma se integraram na paisagem natural. Em nossa região amazônica, a sabedoria popular os chama de encantados ou caruanas, e como exemplos podemos citar o Boto, a Uiara ou Mãe d’água, e Curupira.
Nós não estamos separados da natureza, e nem somos tão diferentes desses seres, os outros animais. Nós somos natureza também. Nascemos da Terra, nosso corpo é feito dela. Como alguns mitos de outras culturas, como a grega e a judaica, nos contam que nosso corpo foi criado da lama, ou seja, da mistura da água com a terra. Estudos científicos apontam que o que nos diferencia dos coelhos ou macacos, são apenas alguns genes.
O povo indígena Kamaiurá também pensa dessa maneira, como atesta a antropóloga Carmen Junqueira, no artigo “Pajés e Feiticeiros” (2004). Ela escreve a respeito de uma crença desse povo em que os seres humanos e os outros animais falavam, em um tempo remoto, a mesma língua e todos eram essencialmente semelhantes. A autora escreve:

“Quando a vida foi criada, todos os seres se comunicavam numa mesma língua, o que facilitava a união entre espécies diferentes. E, mais ainda, por trás da aparência diversa residia uma semelhança niveladora: todos eram uma concretização do fenômeno da vida e, mais, eram mortais e possuíam uma alma. O fundamento que os animava era o mesmo e a diferença de aspecto pouco significava” (p. 4).

Em um trecho de uma prece druídica a Epona, lemos o seguinte:

“Como a terra é minha carne, pedra os meus ossos, cada erva é meu cabelo, o mar meu sangue, o Sol é minha pele, minha alma a Lua, as estrelas meus sentidos, minha razão as nuvens e o vento é minha respiração”.

Logo, nós não só estamos na natureza, como a natureza está em nós.


Antepassados

Os antepassados são nossos pais e mães, tios e tias, avós, bisavós, tataravós... São nossos ancestrais de sangue e a eles devemos nossa vida e a razão de estarmos na família em que nascemos. Herdamos deles os traços físicos, a educação, a nutrição, as alegrias e as dores, e uma parte importante de nossa personalidade. Os celtas demonstravam um profundo respeito para com os antigos, os mais velhos da família e da tribo, pois eles viveram mais do que nós, viram mais do que nós e com certeza têm muito a nos ensinar. Eles representam a memória não só de uma vida, mas de uma ou mais gerações. O respeito aos mais velhos, e consequentemente a tradição e ao passado, é uma das coisas mais importantes que o druidismo ensina, e que nossa sociedade hoje mais precisa aprender. Lembrar de nossos antepassados, aqueles que já foram para o Outro Mundo e as ilhas além do Mar, respeitar sua memória, e não nos esquecer dos laços que temos com eles, são atitudes que devemos manter sempre.
Mas, não temos como nossos antepassados apenas os do laço sanguíneo. Há também os antepassados espirituais, ligados a nós, não com laços de sangue, mas de afinidade espiritual. Como druidas/druidesas e druidistas (ou politeístas celtas) temos como nossos antepassados os druidas e celtas antigos, que viveram séculos antes de nós, em terras distantes da nossa (como no nosso caso), mas que ainda assim nos influenciam e nos despertam o interesse e afinidade profunda por sua cultura e espiritualidade. São os povos gaélicos, gauleses, bretões, galeses e galaicos que viveram nas terras que chamamos de célticas (Irlanda, Escócia, Inglaterra, França, Galícia...), e que deixaram na história da humanidade profundas marcas de sua cultura, e nos inspiram hoje a (re)construir sua cultura e religião.

Deuses

Os deuses e deusas são os ancestrais mais antigos que temos. Viveram em um tempo em que o próprio tempo ainda não existia, e a Terra como a conhecemos ainda estava se formando. Os consideramos deuses porque são extremamente antigos, conhecem o(s) mundo(s) em profundidade, suas forças e seus mistérios, e por isso têm poder, porque eles são as forças do mundo, eles exprimem as forças da natureza. Muitos deuses ou deusas têm sua morada ou seu corpo formado por um rio, montanha ou colina. Alguns deuses podem ser os próprios ancestrais de uma tribo celta, que o viam como um antepassado primordial, que poderia descender mesmo de uma divindade. Se entendermos por essa forma, veremos que os deuses e deusas são nossos antepassados também. São nossos Pais e Mães primordiais e, portanto, nossa família mais antiga. A diferença é, além da ancestralidade, a enorme sabedoria que eles possuem, e também a imortalidade. No texto “Ensinamentos de Fintan”, de Bellovesos, encontra-se uma concepção muito interessante de imortalidade, e é dessa forma que compreendemos o que é ser imortal.

“A água cai do céu, corre pela terra nos leitos dos rios, descansa nos lagos, sobe nas altas ondas dos mares, retorna ao firmamento atendendo ao chamado do Sol e, quando a brilhante Grēnā assim determina, vem outra vez fazer fértil a terra. A árvore cobre-se de brotos na primavera, seus frutos amadurecem no outono, o inverno deixa-a nua e coberta de neve à espera de uma nova primavera que virá no círculo sem fim das estações. Os livros que vocês trouxeram falam de pecado, punição e morte. Não os li, não me interessam. Li o mundo. Em meu livro, a morte é porta que se abre para outro nascimento, inseparável da vida exatamente como a noite leva a um novo dia. Está escrito no mundo: tudo é passageiro na roda que começou a girar antes que o tempo existisse, que não deixará de seguir seu curso antes que o tempo acabe, pois somente aquilo que nasce dentro do tempo pode dentro dele ter fim. Imortal porque sempre renovado, vivo como o mundo vive. Por isso tornei-me testemunha de todos os reis.” (Ensinamentos De Fintan, por Bellovesos).

Deuses, antepassados e espíritos da natureza. Essas são as nossas grandes famílias. Todas interligadas entre si e conectadas a nós. Entre esses laços deve haver sempre honra, respeito e hospitalidade, e isso deve ser ensinado aos nossos filhos e aos filhos deles, pois hoje somos nós lembrando dos ancestrais e antepassados, mas amanhã nós é que seremos lembrados como antepassados de alguém ou de uma geração. Nas palavras do druida Marcos Reis (do Caer Tabebuya):

“Se deixe levar pelo sangue e ele te mostrará um caminho antigo, de nomes esquecidos, batalhas ganhas e perdidas e assim, o Rio se faz em você, e para onde ainda irá percorrer em um mundo que amanhã será ancestral de alguém”.


Meditação com os Ancestrais:

Feche os olhos, respire fundo três vezes. Veja e sinta a Terra sob seus pés, o Céu acima de você, e o Mar ao seu redor. Veja uma luz descendo do Céu tocando sua cabeça até seus pés, preenchendo seu corpo. Veja uma luz saindo do coração da Terra, subindo por seus pés e chegando até a cabeça. Veja uma luz vinda do Mar, azul e profundo, que te rodeia e preenche seu corpo totalmente. Então veja as três luzes se encontrando no seu coração, no seu centro, e formando uma espiral de luz e força. Respire fundo...
Agora veja uma árvore bela e grande. As suas raízes são fortes e se afundam no mais profundo da terra e bebem de uma água pura e cristalina. Veja na base da árvore, nas raízes, a sua família, seus parentes próximos e distantes, seus antepassados, aqueles que já se foram, e aqueles que você não conheceu nessa vida, os antigos celtas, com seus mantos quadriculados e coloridos, segurando lanças e escudos, harpas e flautas. O tronco da árvore é forte e saudável, coberto de musgo e flores. Veja no tronco da árvore todos os seres que te rodeiam, os seres de pele, de escama, de penas e folhas, os seres que voam, que andam, nadam ou rastejam. Veja a natureza como um todo, os rios, as florestas, montanhas, e sinta como há vida em tudo isso, como a natureza e os seres pulsam vida e energia. Você vê agora a copa da árvore, os seus galhos são fortes e altos que alcançam o céu e podem tocar o sol, a lua e as estrelas. Veja na copa da árvore os Deuses, os Imortais, as Forças que regem a natureza, veja Taranis, Dagda, Morrigan, Brighid, Lugh, e outros deuses a quem tens devoção.
Veja a grande árvore, veja as três grandes famílias. Agora perceba que a árvore é você. Você é a árvore. E as três grandes famílias, os Ancestrais, estão ligados a você, e você a eles. Mantenha fixa essa imagem. Agradeça e honre. Respire fundo. E abra os olhos.


(Texto utilizado na roda de conversa sobre Druidismo em maio de 2012, em Belém-PA)