15 de janeiro de 2013

29. Futuro


Coisa mais incerta é o futuro... Por mais que recorramos a oráculos para obter respostas e fachos de luz sobre o que vem pela frente, ainda assim é incerto. O futuro depende muito mais de nossas escolhas e atitudes no presente do que de destino. O destino existe? Existe, ao menos acredito que sim. Mas ele é um caminho bifurcado, ou melhor, “multifurcado” (acho que nem existe esse termo rs), e o rumo das coisas depende diretamente de nossas escolhas, de qual caminho (entre muitos) decidimos seguir.

Por mais que alguns acreditem como dado o futuro do planeta, um futuro de destruição e colapso, ainda acredito (junto com tantas outras pessoas) que o rumo dos acontecimentos pode ser mudado. Acredito que a humanidade possa reencontrar a simplicidade e beleza da vida, que a natureza possa se regenerar, e que os seres humanos possam conviver em paz entre si e com os outros seres do mundo. Podem me chamar de ingênua ou o que for, mas acredito nisso. Se não acreditarmos e não fizermos o que é preciso para isso é claro que isso não acontecerá mesmo e então seria melhor “cantar pra subir”. É fácil se acomodar e dizer que o mundo não presta, que a humanidade está perdida, que a cidade é um lixo, e os políticos são uns miseráveis (tá, isso é verdade, mas quem vota neles?). Ao invés de criticarmos, que tal agirmos? Ao invés de esperar que o mundo acabe, que tal melhorar a realidade de vida da sua família, ou do seu bairro, ou sua cidade?
''Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança”, disse o conhecido e inspirador William Shakespeare.

Você já ouviu falar sobre a teoria do campo mórfico ou ressonância mórfica? Foi criada pelo biólogo inglês Rupert Sheldrake e segundo essa ideia “os campos mórficos são estruturas que se estendem no espaço-tempo e moldam a forma e o comportamento de todos os sistemas do mundo material” (ARANTES, 2002; retirado desse site). Essa teoria é explicada com base no relato fictício de duas distantes ilhas de macacos que aprendem a lavar raízes antes de comê-las ou quebrar os cocos de forma mais prática (no site referido acima contêm esses relatos). E essa mesma teoria está relacionada a citação seguinte, se não estou enganada, de Jean Shinoda, que gosto muito: "Quando um número crítico de indivíduos mudar a forma de pensar e de se comportar, uma nova era se iniciará".

Grupos de druidismo vêm surgindo aos poucos em locais onde antes não havia nenhum grupo ou onde não havia mais do que um druidista. Ecovilas vêm nascendo em diferentes cidades do Brasil e do mundo. Associações de proteção aos animais, ao meio ambiente e à mulher, por exemplo, surgem e/ou crescem em diversas regiões do país e do globo. Por outro lado, infelizmente, o capitalismo desenfreado também cresce... É uma luta constante entre essas correntes. E o resultado dessa peleja depende exclusivamente de cada um de nós. Não é só a vida da fauna e flora que correm risco, mas também a vida humana. Não somos donos do planeta e não podemos controlar a natureza. O que afeta a Terra, afeta também todos os que vivem nela. Isso não é novidade e temos que parar de agir como se não soubéssemos disso. Para o nosso bem e o de todos os seres no mundo.

Quanto ao futuro do Druidismo, bem, eu só tenho boas expectativas... =)


"A ressonância mórfica tende a reforçar qualquer padrão repetitivo, seja ele bom ou mal. Por isso, cada um de nós é mais responsável do que imagina. Pois nossas ações podem influenciar os outros e serem repetidas" (Sheldrake a revista Galileu).

13 de janeiro de 2013

28. Caminho


(Celtoi Volveci, um evento cultural céltico que acontece na Europa)

A tribo tem lugar para todos e todos fazem parte da tribo. Druida, vate, bardo, guerreiro, artesão, devoto, músico... Todos são importantes e necessários para a comunidade. Muitos grupos que seguem a linha reconstrucionista procuram manter essa ideia de várias funções dentro de um bosque ou grupo druídico, pois é óbvio que não existia apenas druidas ou bardos em uma tribo céltica, mas também guerreiros, ferreiros, agricultores, curadores etc. Algumas funções antigas são possíveis de serem adaptadas e ressignificadas para os grupos de hoje, outras não são, e outras ainda são criadas para suprir uma necessidade do próprio grupo.

No caminho do sacerdócio existem três funções, distintas entre si, mas ao mesmo tempo muito relacionadas. O bardo ou bardisa é o conhecedor profundo da história e dos mitos celtas. É o poeta - ou poetisa - sagrado, que compõe hinos, preces e canções aos deuses e ancestrais sob a influência da inspiração divina. O vate (uátis) é semelhante ao xamã ou pajé, pois é capaz de interpretar os presságios na natureza e nos oráculos, de visitar Outros Mundos e adquirir conhecimentos profundos dos ancestrais e seres feéricos ou encantados. Além disso, são capazes de realizar ou facilitar a cura por meio de preces, banhos, chás, ervas e outras formas de medicina (tradicional e/ou ocidental). O druida ou druidesa reúne de certa forma conhecimentos do bardo e do vate, mas vai um pouco mais além. Ele(a) deve ser versado na história e cultura do(s) povo(s) celta(s), conhecer as leis célticas e, sobretudo, as brasileiras (pois vivemos no Brasil, dã, rsrs) ou do local em que vive. De forma geral, o druida ou druidesa é uma atribuição que resulta do longo tempo de sacerdócio e de vivência no Druidismo, da dedicação ao grupo e, principalmente, da grande sabedoria apresentada por essa pessoa.

As funções não associadas ao sacerdócio são...
O guerreiro(a), que deve ter conhecimento ou mesmo a prática de artes marciais. Deve saber usar no momento adequado a raiva ou o "furor da batalha", não para matar inimigos, mas para conquistar seus desafios. Entre as nove virtudes, ele(a) deve cultivar em especial a Justiça e a Coragem. Sua função principal é proteger a tribo dos "forasteiros" (pessoas, energias e tudo que possa ser hostil à paz do grupo e suas atividades).
O artesão ou artesã é aquele(a) que possui habilidade com as diversas artes (pintura, desenho, artesanato, enfim). Fornece o material que sustenta as ações e a vida na tribo.
O devoto é aquela pessoa que não sente vontade ou vocação de seguir o sacerdócio e também não sente muita afinidade pelas outras funções, mas nutre uma grande ligação com a cultura celta e dedica-se a prática e estudo do Druidismo. O devoto ou devota mantém o culto aos deuses e ancestrais e às práticas diárias espirituais (preces, meditação, ritos etc.).
(Celtoi Volveci)

Outras funções podem ser acrescentadas e elas variam de grupo para grupo. Pode existir, por exemplo, a função do músico, que não é necessariamente o bardo, mas também compõe canções e músicas para as celebrações e festivais do grupo.
É possível também que uma pessoa sinta afinidade por mais de um caminho e queira dedicar-se a duas ou mais funções, como por exemplo, ser artesão e também bardo. Isso é perfeitamente possível, e ótimo até. Mas uma dessas funções provavelmente será a que ela desempenha e se sente melhor. Nesse caso, essa será considerada a sua função principal dentro do grupo.
Há conhecimentos da cultura e espiritualidade celta que todas as funções deverão cultivar, como, por exemplo, as Nove Virtudes e a Inspiração (Awen ou Imbas). O que foi mencionado acima seriam os conhecimentos específicos de cada caminho. Evidente que nem todos os grupos druídicos tem todas essas funções, pois isso requer que haja no mínimo seis ou sete membros no grupo, e são poucos os grupos no Brasil que apresentam mais de três ou quatro membros. Contudo, é um sonho de muitos (inclusive meu rs) de ter uma tribo (tuath; touta) relativamente grande, ao menos o suficiente para acolher essas ou outras funções/caminhos.

Todos nós temos um caminho, uma vocação, carregada de habilidades e afinidades muito particulares. Algo que só nós sabemos fazer e fazer bem, da nossa forma. Chamamos isso de dán, a nossa vocação, nosso dom... E o dom não pode ficar armazenado dentro de nós, ele tem que agir no mundo, tem que escoar, como uma torrente de inspiração, que toca os que estão a nossa volta e retorna para nós, fazendo um ciclo... A Inspiração é como a água, se parada acumula limo e não tem muita serventia, mas se corrente purifica e abençoa o caminho que percorre.

Quando cada pessoa tem uma função e dedica-se a ela dentro de um grupo druídico, ela sente-se realmente parte daquela tribo, daquela cultura, ou melhor, daquela família... Ela sente que pode, e realmente pode, contribuir muito com seu dán dentro do grupo.

Compor uma canção ou música para ser recitada em um festival sagrado, preparar uma deliciosa refeição para ser compartilhada por todos do grupo, aconselhar com sabedoria os que precisam de ajuda, curar por meio de preces, banhos, chás etc. alguém que necessita de uma cura (física e/ou espiritual), enfim, são formas dentre muitas outras de exercer seu dán, sua vocação ou função, dentro do grupo. Para alguns podem parecer ações pequenas, mas para os membros da Tribo e para os Deuses, são ações de suma importância e que merecem devido valor e reconhecimento.

E você, já descobriu seu dom? Já percebeu qual caminho sua alma sente profunda afinidade? Se sim, ótimo! Exerça-o com sabedoria, dedicação e alegria, e tenho certeza que todos serão beneficiados. Se ainda não, não se preocupe, tudo tem seu tempo e os Deuses lhe encaminharão no momento certo ao caminho que você deve trilhar. Você irá descobrir seu caminho ou o caminho descobrirá você. Ou então, crie seu caminho! Deixe ele brotar de dentro de você. No mais, não tenhas pressa... Segue em paz e aproveita a jornada!

10 de janeiro de 2013

27. Um Dia Druídico


Acordo, e procuro me lembrar dos sonhos que tive durante a noite e entender as possíveis mensagens neles contidas. Vou ao banheiro, lavo o rosto, troco de roupa, faço uma oração. Enquanto o café se apronta na cafeteira, faço algumas preces diante do altar. Depois disso, termino de fazer o café da manhã, sento-me na mesa com meu esposo enquanto conversamos e tomamos o café juntos. Recolho os pratos e xícaras, derramo água nas plantas, despeço-me de meu marido, que sai para o trabalho, com beijos e um abraço, e sigo para as tarefas do meu dia (algum trabalho acadêmico, leitura de um livro, ida a faculdade - e logo em breve ao trabalho - preparar o almoço, enfim).
Com o almoço no meu prato, me concentro e faço mentalmente uma oração de agradecimento ao alimento e ao animal que morreu. Almoço calmamente, enquanto assisto televisão ou escuto uma música. No fim da tarde, meu marido chega e preparamos um lanche para nós dois. Às vezes separo um pouco do café e ofereço aos meus ancestrais, em especial a minha avó materna. Durante o banho peço por purificação e renovação das minhas forças.
Sempre que possível, observo o pôr-do-sol pela janela da sala... Apenas contemplando aquele momento. Mais tarde, jantamos e novamente faço uma oração de agradecimento. Se o céu à noite estiver sem nuvens, gosto de observar as estrelas e a lua, e sentir a brisa noturna... Ou mesmo se o tempo estiver nublado, gosto de sentir o cheiro de chuva... Assistimos a um filme ou seriado, e depois vamos dormir, não sem antes eu realizar uma oração.

Meus dias são basicamente assim. Claro, que nem todo dia dá para seguir essa rotina que descrevi, mas faço o possível, ainda mais que capricorniano adora uma rotina... rs.
Deixo também muito a inspiração me guiar... Se me der vontade de ouvir tal música, eu ouço, se der vontade de escrever um poema, eu escrevo, se me der vontade de dançar alguma dança (especialmente circular ^^), eu danço... Enfim, deixo meus ouvidos, coração e sentidos abertos ao que os Deuses querem me dizer e ensinar.
O druida ou druidista não tem um dia druídico só quando irá comemorar um Imbolc ou Samhain. Evidentemente, que nos dias dos festivais dedicamos um pouco mais de atenção e práticas religiosas, mas os outros dias do ano não devem ser apenas “um dia normal do ano”. Nenhum dia é igual ao outro, e nenhum pôr-do-sol é igual ao de ontem. O Sagrado se manifesta tanto nos dias de pico do ciclo anual (os festivais) quanto nos outros dias. A verdade é que os Deuses e ancestrais estão presentes em todo o momento, ao nosso lado, sobre nós e abaixo de nós. Só nos resta perceber a presença deles. Viver todos os dias de forma druídica é viver uma vida mais plena de consciência, sacralidade e felicidade. 

(Luminária no altar dos ancestrais, foto de M. Faro)