31 de outubro de 2012

Duas músicas (vídeos) de Samhain


"Samhain Eve" (Damh the Bard)


"Samhain Song" (Lisa Thiel)

(Uma tradução adaptada desta música pode ser encontrada no fim desse texto)

23 de outubro de 2012

A Roda do Ano e os Festivais Sagrados


(Foto de Kaarol Almeida)


As Estações (Olavo Bilac)

O inverno

Coro das quatro estações:
Cantemos, irmãs, dancemos!
Espantemos a tristeza!
E dançando, celebremos
A glória da natureza!

O inverno:

Sou a estação do frio;
O céu está sombrio,
E o sol não tem calor.
Que vento nos caminhos!
Trago a tristeza aos ninhos,
E trago a morte à flor.

Há névoa no horizonte,
No campo e sobre o monte,
No vale e sobre o mar.
Os pássaros se encolhem,
Os velhos se recolhem
À casa a tiritar.

Porém fora a tristeza!
Em breve a natureza
Dá flores ao jardim:
Abramos a janela!
Outra estação mais bela
Já vem depois de mim.

Coro das quatro estações:

Cantemos, irmãs, dancemos!
Espantemos a tristeza!
E dançando, celebremos
A glória da natureza!

A primavera

Coro das quatro estações:

Cantemos! Fora a tristeza!
Saudemos a luz do dia:
Saudemos a natureza!
Já nos voltou a alegria!

A primavera:

Eu sou a primavera!
Está limpa a atmosfera,
E o sol brilha sem véu!
Todos os passarinhos
Já saem dos seus ninhos,
Voando pelo céu.

Há risos na cascata,
Nos lagos e na mata,
Na serra e no vergel
Andam os beija-flores
Pousando sobre as flores,
Sugando-lhes o mel.

Dou vida aos verdes ramos,
Dou voz aos gaturamos
E paz aos corações;
Cubro as paredes de hera;
Eu sou a primavera,
A flor das estações!

Coro das quatro estações;

Cantemos! Fora a tristeza!
Saudemos a luz do dia:
Saudemos a natureza!
Já nos voltou a alegria!

O verão

Coro das quatro estações:
Que calor, irmãs! Cantemos
Como ardem as ribanceiras
Cantemos, irmãs, dancemos,
À sombra destas mangueiras

O verão:

Sou o verão ardente:
Que, vivo e resplendente,
Acaba de nascer;
Nas matas abrasadas,
O fogo das queimadas
Começa a se acender.

Tudo de luz se cobre...
Dou alegria ao pobre;
Na roça a plantação
Expande-se, viceja,
Com a vinda benfazeja
Do próvido verão.

Sou o verão fecundo!
Nasce no céu profundo
Mais rutilo o arrebol...
A vida se levanta...
A natureza canta...
Sou a estação do sol!

Coro das quatro estações:

Que calor, irmãs! Cantemos
Como ardem as ribanceiras
Cantemos, irmãs, dancemos,
À sombra destas mangueiras.

O outono:

Sou a sazão mais rica:
A árvore frutifica
Durante esta estação;
No tempo da colheita,
A gente satisfeita
Saúda a criação,

Concede a natureza
O prêmio da riqueza
Ao bom trabalhador,
E enche, contente e ufana,
De júbilo a choupana
De cada lavrador,

Vede como do galho,
Molhado inda de orvalho,
Maduro o fruto cai...
Interrompendo as danças,
Aproveitai, crianças!
Os frutos apanhai!

Coro das quatro estações:

Há tantos frutos nos ramos,
De tantas formas e cores!
Irmãs! Enquanto dançamos,
Saíram frutos das flores!

***

“Da escuridão a luz, da luz a escuridão”, é um verso encontrado em muitos poemas e preces de origem e inspiração celta. Essas palavras referem-se a crença druídica de que da noite nasce o dia, do inverno nasce a primavera, e da morte nasce a vida. Para os celtas o dia começava com o pôr-do-sol, o ciclo anual começava no fim do verão, ou seja, em Samhain (novembro), e os meses, segundo o Calendário de Coligny, começam com a lua nova e têm na lua cheia o seu meio ou ápice.
Ao longo do ano druidas/druidesas e politeístas celtas celebram geralmente oito festivais. Os quatro a seguir são considerados os “grandes festivais” e foram largamente celebrados pelos antigos povos celtas:

Oíche Shamhna/Samhain (entre 30 de outubro e 2 de novembro): festival que marca o fim do verão, representa o fim e início do Ciclo e homenageia os antepassados.
Lá Fhaile Bríde/Oímealg (1 ou 2 de fevereiro): o primeiro sopro ou primeiro indício da primavera, festival de purificação e fertilidade.
Lá Bealtaine/Bealtaine (30 de abril - 1 de maio): o início do verão, ritos de fertilidade, cura e prosperidade.
Lá Fhaile Lœnasa/Lughnasadh (1 ou 2 de agosto): festival da colheita, início do outono, celebra-se a fartura da natureza e reforça-se os laços entre a Tribo e a Terra.

Além desses festivais comumente celebram-se os Solstícios de Verão (21 de junho) e Inverno (21 de dezembro), e Equinócios de Primavera (21 de março) e Outono (21 de setembro), momentos que marcam as estações e as transformações do clima e da natureza como um todo.
Alguns grupos e indivíduos acrescentam festivais ou devoções a deidades individuais ou de acordo com o clima local, como um fenômeno natural do local que tenha significado para eles. No Pacifico noroeste, por exemplo, reconstrucionistas celtas celebram um festival anual na época dos salmões. Há alguns grupos de Gales e França, que celebram um festival para Épona no mês de dezembro, e na Ilha de Man muitos pagam tributos (oferecem junco, maçã e outros sacrifícios) à Manannan por volta do solstício de verão.
De maneira geral, as estações são marcadas por mudanças do clima e da paisagem local e não da estrita observação de datas no calendário. Apesar de nos guiarmos por datas, não nos fixamos nelas, pois os ciclos da natureza não se fixam. Alguns druidistas, baseando-se no Calendário de Coligny, celebram os festivais na lua cheia mais próxima da data, e dessa forma guiam-se pelo ciclo lunar, que é mais natural do que seguir datas no calendário civil.
Os festivais sagrados são marcados não só por aspectos temporais, climáticos, relacionados aos ciclos da Natureza, mas também por aspectos míticos, simbólicos, atemporais, relacionados aos ciclos de nossa vida, seja no âmbito interior ou exterior, emocional ou físico, espiritual ou material.
Assim como a natureza vive as estações, nós também vivemos as nossas estações. Vivemos a Primavera quando somos (e nos sentimos) jovens e pulsamos energia e entusiasmo; vivemos o Verão quando estamos plenos de vitalidade, paixão e fertilidade; o Outono, quando colhemos os frutos de nossas ações e nos sentimos gratos pela generosidade do universo; e o Inverno, quando acumulamos sabedoria diante das inúmeras experiências vividas e recolhemos nossas energias dentro de nós mesmos para, enfim, devolvê-las a Terra...
Ao celebrarmos os festivais sagrados a intenção deve ser honrar os Deuses e ancestrais, fortalecendo os laços entre eles e nós, e sintonizar ou alinhar os ciclos da natureza com os ciclos de nossa vida. As dádivas provindas disso, dentre muitas, são a cura (nossa e da Terra), a sabedoria diante dos mistérios da Vida, e a compreensão serena diante das mudanças que tanto a natureza quanto nós passamos.



(Texto utilizado na roda de conversa sobre Druidismo, em 16/06/12, Belém-PA, realizada pelo Nemeton Samaúma)

Os Ancestrais e o Outro Mundo



“Bem cedo na manhã do terceiro dia depois daquilo eles viram outra ilha, com uma paliçada de bronze no centro que dividia a ilha em duas, e viram grandes rebanhos de ovelhas por lá, um de ovelhas negras de um lado da cerca e outro de ovelhas brancas do outro lado. E viram um homem grande separando os rebanhos. Quando ele lançava uma ovelha branca sobre a cerca para o lado das ovelhas negras ela se tornava negra no ato. Quando ele lançava uma ovelha negra para o outro lado, ela logo se tornava branca.” (A Viagem de Mael Duin, tradução de Endovelicon).

A proximidade com o dia de finados no calendário civil e com o festival céltico Samhain[1], nos faz pensar inevitavelmente sobre os ancestrais, nossos antepassados, e para onde vão depois que morrem nessa vida. Bem, não tenho como responder a essa dúvida com tanta certeza, pois todos nós quando renascemos nesse mundo, mergulhamos nas águas sagradas do Caldeirão do de Bran e saímos mudos, sem saber ou ter como dizer o que vimos e vivemos no “Outro Mundo”[2]. Porém, os celtas nos legaram alguns conhecimentos sobre a vida, a morte e o renascimento, e sobre nossa ligação com os antepassados. É um pouco sobre isso que conversaremos nesse encontro.
Para os Celtas antigos (e atuais), o Mar e as águas eram (são) os portais para Outros Mundos, assim como a profundidade da terra (cavernas, colinas “ocas”) e os lugares altos (montanhas, colinas). Contudo, o Mar é o local de excelência para a comunicação com Outros Mundos. No Mar do Oeste (onde o sol se põe, “morre”) é onde se acredita ser o local em que Deuses, seres feéricos e também as almas dos entes queridos habitam, e é composto por diversas ilhas (maravilhosas, paradisíacas, mas também assustadoras, perigosas). Seu guardião é Manannán Mac Lir, o bondoso e sábio rei das ondas, que guia as almas, e os homens corajosos[3], além do Mar. Além dele há também a Dama do Ramo de Prata, que na Imramm de Bran Mac Febal aparece como uma senhora bela e radiante portando um ramo prateado com maçãs douradas, e instiga Bran a viajar pelo mar e conhecer as Ilhas Abençoadas.
Nem todas as almas de homens e mulheres são dignas o bastante para descansarem nas ilhas bem-aventuradas. Algumas almas ficam perdidas entre os mundos ou se recusam a ir. Outras, por alguma lógica do Mistério, renascem tão logo morrem, e podem assumir um novo corpo humano, animal, vegetal, mineral ou outra forma de vida, nesse mundo que conhecemos ou em outro[4].
O trecho no início desse texto aborda simbolicamente a ideia de que a vida contém a semente da morte, e a morte carrega a promessa da vida. Quando nascemos nesse mundo, morremos no Outro. E quando morremos aqui, renascemos lá. A morte, definitiva, não existe de fato. A vida é um eterno ciclo de ir e vir, como as fases da lua, as estações do ano, o ritmo das marés, o percurso do sol, as ondas do mar... A eternidade existe e se manifesta nas transformações (trans = além, transcender; formações = formas, estruturas). A cobra troca de pele. A águia muda de penas e arranca as unhas velhas. Ambas se renovam, e renascem em cada mudança, em cada morte.
Nossos antepassados e pessoas queridas que fizeram a travessia pelo Mar do Oeste continuam vivas, e estão conectadas conosco pelo misterioso entrelaçar da Grande Teia. Os antigos estão em nós, seus descendentes, e nós estaremos em nossos filhos, sobrinhos e netos um dia. Manter acesa a memória e o amor pelos antepassados é fortalecer os laços com nosso passado e futuro, é guiar nossas vidas em honra, tradição e humildade[5], tal como uma chama na noite mais escura.


“Samhain, Samhain,
A noite cobre o céu.
Invoco os Ancestrais,
Vinde a nós, passai o véu!

Bem fino está o véu,
Eu vou cruzar o mar
Rumo à Porta do Tempo,
E aos que partiram vou cantar.

Samhain, Samhain,
Vimos aqui louvar.
E honrar nossas raízes
Enquanto a Roda girar.
Samhain, Samhain,
A Roda vai girar.
Aqueles que partiram
Neste canto vou lembrar!”
(Cântico de Samhain. Música de Lisa Thiel. Letra adaptada por Nemeton Lusitano).



(Texto utilizado na roda de conversa sobre Druidismo, em 20/10/12, Belém-PA)



[1] Festival sagrado para celebrar o fim e início de um novo ano/ciclo e honrar os antepassados. Realizado entre os dias 29 de outubro e 02 de novembro.
[2] No Mabinogion (compêndio de mitos galeses), na batalha pelo resgate de Branwen, muitos guerreiros são mortos ou fatalmente feridos, Bran então mergulha seus guerreiros em seu mágico caldeirão, e depois de certo tempo os homens saem vivos e renovados das águas, porém mudos.
[3] Pesquise e leia sobre as Imramma, jornadas de barco pelo mar.
[4] Na Canção de Amergin e em poemas de Taliesin fica claro que uma alma pode assumir diversas formas, pois na crença celta tudo que conhecemos e não conhecemos é vivo e tem consciência (em diferentes graus de complexidade, mas tem).
[5] Humildade deve ser entendida como saber o seu lugar, nem acima nem abaixo dos outros, mas no Seu lugar, em seu centro. É ter consciência de que não se está aqui por acaso, muitos vieram antes de você e muitos virão depois. O que você está fazendo para honrar os que vieram antes, seus antepassados? E o que está fazendo para preparar o caminho para os que virão depois, seus descendentes?