5 de dezembro de 2012

6. Espaços Sagrados


Acredito que nem todos os lugares são sagrados, mas todos (sem exceção) possuem uma energia, alma ou egrégora (como alguns chamam). Nem sempre essa energia está propícia ou ideal para realizar um rito ou celebrar um festival, por exemplo. Algumas pessoas são sensíveis e conseguem perceber a energia de um local, outras consultam oráculos para saber tais coisas. Eu sou um pouco sensível, consigo perceber por meio de sensações e sentimentos e às vezes também por imagens que surgem em minha mente, revelando-me sobre o tipo de energia que circula em tal local.

Quando estive na Irlanda (ah a Irlanda... *suspiros de saudade*), conheci dois lugares onde senti uma forte energia sagrada, Loughcrew e Cliffs of Moher. Não foram apenas esses lugares que me encantaram, mas com certeza foram os que mais me marcaram.
Loughcrew, uma tumba neolítica, um Cairn, como são chamados, localizada no alto de uma colina e rodeada por dois outros Cairns, menores. O corredor contêm pedras enormes com símbolos, a maioria sendo espirais, e leva ao centro da tumba composta por três câmaras, onde as paredes e pedras centrais estão repletas de símbolos antigos, e a pedra principal (na câmara do meio) é iluminada em todo equinócio de outono e primavera.

Cliffs of Moher é um incrível despenhadeiro, no lado oeste da Irlanda. Com a terra verde e sagrada sob os nossos pés, o mar em um lindo tom de azul profundo a nossa frente e ao redor, e o céu maravilhoso sobre nós, é impossível não sentir o poder daquele lugar. As ondas batendo no penhasco, o vento forte e frio despenteando nossos cabelos e atrás a Ilha Esmeralda nos sorrindo... Que lugar mágico! Ali era fácil encontrar alguns músicos tocando uma harpa, whistle, bandolim ou outro instrumento. Enquanto eles nos davam a trilha sonora dali, nós oferecíamos uma contribuição em dinheiro a eles, com um gesto de agradecimento e estímulo ao seu trabalho.

Saindo da Irlanda e retornando a “Hy Braesil” (Brasil) também encontro lugares sagrados. Adoro passar por manguezais no interior do Pará, pois são moradas dos encantados da mata e das águas. A praia do Pesqueiro em Soure (Ilha do Marajó/PA) além de linda é encantada, pois além de ser morada de encantados, ela recebe águas doces e salgadas em diferentes épocas do ano, e isso quer dizer que ela recebe as energias tanto do rio quanto do mar.

 
(Praia do Pesqueiro, em Soure, Marajó/PA. Foto de meus arquivos pessoais)


O horto florestal em Rio Branco/AC também me despertou sensações interessantes. Ali, onde a mata é densa e conservada, basta andarmos alguns minutos por dentro da trilha e é possível sentir-se fora da cidade e de fato na floresta. O cheiro úmido da terra, o canto dos pássaros ao redor e as árvores enormes nos observando são de provocar arrepios.

Além desses lugares, naturais, digamos assim, há também o meu altar, que fica em um pequeno quarto no lado leste da casa, e é onde realizo grande parte de minhas práticas religiosas e devocionais, mas não é o único lugar onde faço isso. A energia dali já está propícia para um ritual ou celebração, mas não é somente ali que os Deuses podem se comunicar comigo e eu me comunicar com eles. Acho importante termos um altar ou centro devocional em nossas casas, acredito que os povos celtas tinham, obviamente que de forma diferente  da que temos hoje, mas tinham, seja na forma de um fogo ou lareira central ou em um espaço dentro da casa e próprio para isso ou nos arredores do lar, aos pés de uma árvore, pedra ou poço, ou todas essas formas. Mas mais importante do que ter um altar, é termos a serenidade e sabedoria dentro de nós para que sejamos o próprio altar. O altar é apenas a extensão de algo que devemos manter dentro de cada um de nós.

Entendo que o sagrado é a interseção do divino com o mundano (ou o cotidiano). Nem todo local é sagrado, mas com certeza qualquer local pode se tornar sagrado, pois o divino, os Deuses e Deusas, podem se manifestar ali e em qualquer lugar, objeto ou pessoa, em diferentes maneiras. Basta sabermos olhar, escutar e sentir para entendermos o que eles têm a nos dizer e ensinar.


4 de dezembro de 2012

5. Elementos


Uma das coisas que mais amo no Druidismo e no RC é essa sabedoria de que somos de fato parte da natureza. De que ela está em nós, e nós estamos nela. Essa crença, inclusive, existe em muitas outras religiões e culturas profundamente ligadas a Terra. Em um documento dos aborígenes australianos há as seguintes palavras:

“Somos aborígenes, somos os ventos do deserto, somos as planícies ensolaradas, somos as águas puras, somos a Austrália. Esta terra é nossa por direito de nascimento. Neste novo mundo, nesta nova sociedade, só temos um princípio: sermos os guardiões de nossos irmãos”. 
(Somos as águas puras, de Carlos R. Brandão, 1994).

Soa bem familiar aos ouvidos de um(a) druida(esa) ou druidista* isso, não?

Apesar de ser basicamente inexistente nas religiões monoteístas, esse pensamento existiu de forma interessante no “cristianismo irlandês”, pois mesmo São Patrício condenando as práticas e crenças antigas, ele mantinha algumas práticas consideradas cristãs, mas que eram no fundo pagãs ou oriundas de um modo de pensar certamente anterior ao cristianismo. Muitos devem conhecer, por exemplo, a “Lorica de São Patrício”, de 433 d.C. , ou uma versão baseada nela:

"Eu me levanto hoje pela Força do Céu,
Luz do Sol, Radiância da Lua,
Esplendor do Fogo, Velocidade do Raio,
Leveza do Vento, Profundidade do Mar,
Estabilidade da Terra, Firmeza da Rocha"

Nesta prece podemos identificar os nove elementos, e que em outras versões ou estudos são sete ou onze, mas é mais conhecida a ideia dos nove elementos. Na Lorica acima os elementos são: Céu, Sol, Lua, Fogo, Raio, Vento, Mar, Terra e Rocha. Em outras versões o Raio não aparece, e sim a Vegetação.
Vejamos abaixo uma lista relacionando os elementos as partes de nosso corpo.

Céu – Cabeça
Sol – Face
Lua – Mente
Nuvem – Cérebro (Pensamentos)
Vento – Respiração
Mar – Sangue
Terra – Carne
Vegetação – Cabelo
Rochas – Ossos

Os três primeiros elementos estão relacionados ao reino do Céu (Neamh), os três seguintes ao reino do Mar (Muir) e os três últimos a Terra (Talamh). Tentei fazer uma lista associando os elementos também às direções, virtudes, objetos (ou tesouros) sagrados e animais, mas ainda não cheguei a bons resultados. Vou pensar mais e quando chegar a uma boa conclusão compartilho com vocês essa lista.

Existe também a ideia dos “Três Elementos Druídicos” (que no geral não é tão desconhecida, como veremos), presente em um artigo do John Michael Greer no site da AODA, e que foram traduzidos alguns trechos por Renata Gueiros. Nesse artigo, Greer explica que há o Nwyfre, representado pelo Céu azul, e é a fonte da consciência e da vida; o Gwyar, que é o sangue, e significa fluxo, fluidez, mudanças e movimento; e o Calas, que significa solidez, é a fonte da forma, materialidade, manifestação e estabilidade.
Greer finaliza sua explicação dizendo que “tudo no universo é criado da combinação desses três elementos, com um deles predominando. Todos são formas da substância original, a qual é chamada de manred. Manred não possui características próprias, exceto pelo poder de se condensar em calas, fluir para gwyar ou expandir para nwyfre” (tradução de Renata Gueiros).

Tudo isso nos remete a crença de que o mundo é na verdade um grande ser vivo. O que realmente os cientistas e ecologistas estão nas últimas décadas confirmando com a hipótese de Gaia, de J. Lovelock. Além disso, a ideia de que o mundo está em nós, e nós estamos no mundo é bem clara. Nós somos o mundo, e o que fizermos a ele, estaremos fazendo a nós mesmos.
Essa crença também pode estar fundamentada em algum mito celta de criação, perdido no tempo e nos registros antigos de mitologia céltica, infelizmente, em que um deus ancestral ou um gigante era morto e sacrificado, e seu corpo dividido para formar o(s) mundo(s) em que vivemos. Tema esse que é universal na(s) Mitologia(s).
Há um mito, que li em um livro ("O mundo místico dos caruanas da Ilha do Marajó") escrito por uma pajé de Soure (Marajó/PA), a sra. Zeneida Lima, que conta que Auí, o ser luminoso, depois de ter ido às profundezas das águas e descoberto a matéria ou essência da qual era feito o Girador (a divindade criadora) teve seu corpo dividido em três partes para formar o mundo. As três partes deram origem ao reino mineral, animal e vegetal, e essas três partes estão presentes em cada ser vivo, e obviamente nos seres humanos. Quando uma (ou mais) dessas partes encontra-se desequilibrada no indivíduo, uma doença, uma perturbação emocional, mental ou mesmo financeira pode ser provocada.

Novamente, isso nos soa familiar, não?

É tudo um grande nó. Tudo está interligado. O fim e o começo não podem ser vistos, nem medidos. Os laços não podem ser quebrados, mas fortalecidos. E se assim o forem, benditos seremos nós e cada um dos nós. Os reinos, os elementos, os mundos... O mundo.

(imagem de Lisa Hunt)


* Para termos de esclarecimento, por druidista quero dizer aquele(a) que estuda e pratica o Druidismo sem, no entanto, se definir como um druida, ou seja, é o devoto ou devota da fé céltica. Uma pessoa que vivencia o druidismo, mas não segue o caminho do sacerdócio, isto é, não se considera um druida, vate ou bardo.

2 de dezembro de 2012

4. Três Reinos

(Cliffs of Moher, Irlanda, do site cliffsofmoher.ie).

Os Três que estão no Céu,
Os Três que estão na Terra,
Os Três que estão no Mar.
(parte da oração do rito diário da manhã).

Sem querer querendo acabei falando dos Três Reinos ou Três Mundos no texto sobre Cosmologia. Então, para não me repetir e também para sairmos um pouco da teoria e irmos mais à prática, escrevo abaixo uma meditação/visualização de sintonia com os Três Mundos que faço com frequência e sugiro que a façam também. É simples, mas bem interessante.

Prepare o lugar onde fará a meditação. Fique numa posição confortável (mas não deite, pois é capaz de cair no sono rs) e em um lugar em que não poderás ser perturbado. Respire profundamente e limpe tua mente de qualquer preocupação. Visualize a Terra, verde, pulsante, fértil. Veja-se caminhando sobre a terra, sinta a grama em teus pés e pedregulhos roçarem teu sapato ou pé. Visualize extensas florestas, bosques, campos, colinas e cavernas profundas...  Sinta a Terra, sinta-se parte dela. Então diga (baixinho ou mentalmente):

A terra que me sustenta,
A terra que me nutre,
A terra em mim,

Respire fundo. Agora visualize o Mar, em tons de azul e verde. Ouça o barulho das ondas, como se fosse uma respiração, a respiração de Manannan Mac Lir. Sintonize a sua respiração com o ir e vir das ondas. Você inspira, e o mar recolhe as águas. Você expira, e o mar quebra as ondas na margem. Sinta a brisa marinha acariciando seu rosto, seu cabelo... Visualize as águas e rios no Brasil, as águas escuras, profundas, barrentas, como as do rio Amazonas e seus afluentes, ou águas translúcidas e frias, como a dos igarapés... Sinta-se mergulhando no mar ou em um rio ou igarapé. Saiba que está mergulhando em águas sagradas... Sinta o mar (ou as águas), sinta-se parte dele... Diga:

O mar que me rodeia
O mar que me guia
O mar em mim
An Muir ("míuãr")

Respire fundo. Visualize então o Céu, a luz do sol iluminando toda a extensão da terra. Veja-se no alto de uma montanha ou penhasco, veja as nuvens, sinta o vento... Veja a profusão de cores que pintam o céu num pôr-do-sol... Veja a lua, as estrelas, sinta-se banhado pelo luar e pela brisa fresca e perfumada da noite. E diga:

O céu que me coroa
O céu que me inspira
O céu em mim
An Neamh.

Respire fundo. Veja-se num penhasco, como o de Cliffs of Moher ou outro semelhante. Sinta a terra em seus pés, veja o mar a sua volta, batendo as ondas nas paredes do penhasco e respingando águas em você, e veja o céu acima de ti, o sol ou a lua iluminando tudo. Você está entre os Três Mundos, sinta-se abençoado(a) pelos Deuses, Ancestrais e Espíritos da natureza. Respire fundo e abra os olhos...

Durante a visualização, muitas impressões e outras imagens poderão surgir. Perceba se animais, pessoas e/ou deidades aparecem, e atente para o que eles têm a lhe dizer. Você pode fazer essa meditação sempre que quiser, e tenha certeza que cada uma será diferente da outra. E isso é bom.

Pelo Céu acima,
Que haja nobreza em minha alma.
Pelo Mar ao redor,
Que haja sabedoria em minha fala.
Pela Terra abaixo,
Que haja saúde em meu corpo
E pelo poder dos Três,
Que haja proteção ao meu povo.