8 de dezembro de 2012

8. Divindades e Crença


(“Brigit”, de Pamela Matthews)

Acredito na existência de Buda, Jesus, Krishna, Shiva, Oxum, Oxalá, Pachamama, Quetzacoatl, Iaci, Mapinguari, Grande Deusa, Odin, Tupã Tenondé, Brighid, Manannan... Acredito, sim. Sei que existem, pois há pessoas que acreditam neles e que os reverenciam. E “tudo que tem nome, existe”, como disse-me uma vez uma professora de Psicologia da Religião em um simpósio. Acredito nessas, e em outras tantas, divindades, mas não sou devota de todas elas.

Pense comigo, se existem tantas pessoas diferentes, e existem tantas culturas e religiões diferentes, e existem tantos lugares e países diferentes, por que não haveria de existir tantos deuses e deusas diferentes? Nenhum problema nisso. O mundo é diverso e uno ao mesmo tempo. E se entendemos que os lugares, espaços e fenômenos naturais, como rios, trovões, montanhas, florestas etc., são plenos de vida e, portanto, têm alma, então faz todo o sentido crermos que cada lugar ou região têm uma força que anima aquele lugar, ou seja, têm um deus ou deusa, ou deuses e deusas. Gosto do que Ralph Waldo Emerson, um naturalista americano, disse:

“Aquele que vaga pelas florestas, percebe o quanto era natural para a imaginação dos pagãos encontrar deuses em cada bosque e em cada nascente. Para o pagão, a natureza não parece estar em silêncio, mas sedenta e ávida para irromper em música. Cada árvore, flor e pedra é investida por ele de vida e caráter. E é impossível que o vento, que sopra um som tão expressivo por entre as folhas não signifique nada”.

Uma afirmação muito feliz essa, assim eu penso. Creio que até ele mesmo captou esse espírito “pagão”.
Da mesma forma que umas pessoas se dão com outras, é como acho que acontece a relação entre uma (ou mais) divindade(s) com um indivíduo. Por pura e simples afinidade. Certos deuses e deusas nos tocam a alma muito mais do que outros(as). Assim como gostamos de um estilo de música, enquanto outra pessoa gosta de outro estilo. Tudo uma questão de afinidade, algo tão simples de entender, mas tão difícil de explicar em palavras.
Como é óbvio, sinto uma grande afinidade pelos deuses celtas, em especial da mitologia gaélica, mas não somente. Gosto também dos deuses galeses, gauleses, galaicos (embora ainda tenha pouco conhecimento sobre esses últimos). Agora, não é porque eu sou devota desses deuses que menosprezo os deuses de outros povos. Isso jamais! E acho extremamente rude, ridículo e desrespeitoso quem ofende os deuses de outras culturas e quem neles acreditam. A Terra é uma só, apesar de abrigar tantos povos e religiões diferentes. A Verdade é um espelho de muitas faces e é tão complexa que não poderia caber em apenas uma verdade religiosa. É como aquela história dos cegos e o elefante, sabe? Brilhante...!

Então, dentre os deuses e deusas celtas tenho um carinho maior por Brighid, Ériu, Dagda, Manannan e Angus Mac Og. Ériu, porque amo a Irlanda e quando estive lá pude sentir caminhando sobre aquela terra o Poder de Ériu... Dagda porque o acho engraçado e muito, muito sábio. Manannan porque adoro o mar e as águas... Angus porque adoro seus mitos e por ser o protetor dos que se amam. Além disso, gosto de um aspecto dele como um deus feérico. Tive um sonho uma vez, há não muito tempo, em que ele me surgia na forma de um menino loiro rodeado por fadas e outros seres (visíveis e invisíveis). Conheces a história do Peter Pan, né? Tenho a forte intuição de que esse conto foi inspirado no deus Angus (o Jovem Deus... O menino que não quer crescer... Terra do Verão, onde não há morte, nem velhice, nem doença... Terra do Nunca... hum... semelhanças demais, não acha?). E Brighid... Ah a Brighid...! Nem sei quando comecei a “prosear” com ela, ou quando ela começou a “prosear” comigo, só sei que quando vi já éramos amigas, irmãs...! Ela, minha mestra, eu sua aprendiz. Ela, minha mãe, eu sua filha. Ela, minha matrona e senhora, e eu sua sacerdotisa...

É a ela que recorro quando preciso de conselhos ou quando preciso adquirir algum conhecimento. É nela que penso quando vou dormir e quando me levanto. É a ela que agradeço quando observo um lindo pôr-do-sol e quando ouço uma linda canção. É a ela que oro quando saio de casa e quando pego um avião. Pode parecer meio estranho para alguns, mas é assim minha relação com Brighid, e de certa forma com os deuses de minha fé, o Druidismo.
Recentemente, tenho começado a “prosear” com Ogma, meio óbvio né? Já que iniciei os estudos sobre Ogham, e ninguém melhor do que ele para me ensinar sobre isso. Embora sua linguagem seja ainda um pouco difícil de entender, mas o seu olhar é muito doce e gentil...

Muitos druidas e druidistas têm afinidade com um ou mais deuses. Alguns sabem quem é seu patrono ou matrona, outros ainda estão descobrindo. Se ainda não descobriu, não tenha pressa. Ele ou Ela irá aparecer no seu caminho de uma forma ou de outra, e quando você se der conta ele(a) já estará ali, te acompanhando e te guiando.
Alguns Deuses também surgem em determinado momento de nossa vida, a nosso pedido ou não, para nos ensinar alguma coisa, ou nos proteger de algum perigo, ou esclarecer alguma questão importante, ou tudo isso ao mesmo tempo. O que você tem que fazer é apenas ouvir, observar e sentir o que ele(s) ou ela(s) está(estão) lhe dizendo. E depois que compreender, agradeça. O seu sentimento de amizade e honra fará com que o laço entre vocês nunca se quebre e seus caminhos nunca se separem, e a hospitalidade fará com que haja paz entre vocês e em seu lar. E isso é uma verdadeira benção.

6 de dezembro de 2012

7. Práticas Diárias


Não é só de 8 festivais que vive um druida rs. Manter uma prática devocional diária é fundamental, ainda mais numa religião como a nossa em que procuramos honrar cada dia e momento com o devido respeito e alegria. Sim, porque a vida não é um fardo tampouco uma maldição para nós. A vida é um dom, um presente dos Deuses, e deve ser vivida da melhor e mais feliz forma. Se não der certo essa vez, a gente tenta em outra vida, em outras formas, quem sabe como uma águia, uma árvore, uma borboleta, ou como humano de novo.

Nos povos celtas, para cada ação existia uma oração. Oração para o despertar, para o dormir, para agradecer a refeição, para a colheita, para o trabalho, para o nascer e o pôr do sol, para a lua nova e tantas outras coisas. O Carmina Gadelica, um compêndio de preces e orações coletadas por Alexander Carmichael em vilas escocesas no século XIX, mostra essa forma de pensar e viver com certeza herdada dos celtas, apesar das influências cristãs contidas nas orações.

Falando agora sobre minha vivência, antes de dormir faço duas orações à Brighid agradecendo e pedindo para que eu tenha um bom sono e que minha casa seja abençoada e protegida. Uma dessas orações é:

Abençoe tu, oh Brighid, esta morada,
E todos que aqui dormem.
Abençoe tu, oh Brighid, os meus queridos,
No lugar onde eles descansam.
A noite que é essa noite,
E cada única noite.
O dia que é esse dia,
E cada único dia.
(Adaptação da oração 338 do Carmina Gadelica, Volume III).

Ao acordar faço a seguinte oração, baseada na “Moch Maidin” de Robert Kaucher.

Eu me levanto hoje
Com a graça dos deuses,
Que eu tenha a força de um touro,
A sabedoria de um salmão,
A valentia de um javali,
A beleza de uma borboleta,
O encanto de um cisne.
Que haja excelência sobre minha casa,
Excelência sobre meus amigos,
E excelência sobre minha parte do trabalho.
Assim seja.

Depois de lavar o rosto etc., dirijo-me ao altar e faço a seguinte prática (que aprendi neste site http://recons-iberoceltica.forumeiros.com/t91-praticas-devocionais-matutinas#265):

Com água e fogo no altar, acendo uma chama (numa vela) dizendo:

Eu acenderei o fogo esta manhã
Na presença dos Deuses acima,
Na presença dos Ancestrais abaixo,
Na presença dos Nobres ao meu redor.

Coloco água de uma vasilha para outra dizendo:

Os três que estão na terra,
Os três que estão no céu,
Os três que estão no grande mar.

Molho os dedos (indicador, médio e anelar unidos) na água e toco a testa e bochechas dizendo:

Eu banho minha face em água pura,
Eu banho minha face nas águas da vida,
Que eu vá limpa por este dia.

Levanto a vela na altura dos olhos e digo:

Força para minhas mãos no trabalho,
Sabedoria em minha fala,
Amor em meu coração para todos,
E verdadeiro amor de todos para mim.

Seguro entre as mãos o pingente com a cruz de Brighid, que carrego em meu pescoço, e digo:

Haja agradecimento pelo meu despertar,
Haja agradecimento pelo meu levantar,
Haja agradecimento pelo meu viver,
E pela proteção que me cobre.

Faço então a oração de Brighid que adoro e/ou alguma outra prece que sinto vontade de proferir no momento. Depois disso, apago o fogo dizendo:

Em nome dos Antigos,
Em nome dos Nobres,
Em nome dos Deuses,
Que eu vá em frente na senda da virtude.

Libo a água derramando-a nos vasos de plantas e prossigo com as tarefas do dia.

(Prática elaborada pelo druida Marcílio Diniz, e pode ser lida na versão completa no site acima indicado).

Recentemente comecei a estudar o Ogham, então tem sido parte de minhas práticas diárias ler a cada começo do dia (geralmente após o café da manhã) sobre um determinado ogham. Ao almoçar e jantar eu agradeço pela comida, à Mãe Terra e ao animal que morreu para alimentar a mim e minha família. Ao tomar banho oro, ou apenas mentalizo, para que a água me purifique e renove minhas forças. Sempre que possível gosto de observar o pôr-do-sol pela janela de casa. E também gosto de olhar pro céu noturno quando está estrelado, com lua, sem lua ou carregado de nuvens de chuva.

Enfim, tenho tantas outras práticas que não são exatamente diárias (como fazer uma oração ao preparar um chá ou cantar para a lua cheia), mas que permeiam meu viver e enchem de magia e encanto meus dias. Confesso que não é todo dia que consigo realizar todas as práticas e preces diárias acima mencionadas, mas não consigo passar um dia sem ao menos fazer uma prece que seja. A prática devocional diária é uma coisa que deve ser construída e que também exige certa disciplina. Deixar de fazer as orações por preguiça é brincadeira né?! Seja o seu caminho o do(a) Druida(esa), Guerreiro(a) ou Devoto(a), manter uma prática diária é muito importante, pois isso faz com que sintamos o Druidismo em cada dia de nossas vidas, e não só em Beltane ou Samhain.

A prática diária deve ser realizada com um sentimento de honra e encantamento, não como uma obrigação. Se não, não faz sentido. Quando você conseguir realizar as práticas devocionais diárias sem se sentir obrigado a fazê-las, mas apenas porque gosta de realizar e sente que isso já faz parte de seu dia, então estará no caminho certo.

(imagem de alfsaga.tumblr.com)

5 de dezembro de 2012

6. Espaços Sagrados


Acredito que nem todos os lugares são sagrados, mas todos (sem exceção) possuem uma energia, alma ou egrégora (como alguns chamam). Nem sempre essa energia está propícia ou ideal para realizar um rito ou celebrar um festival, por exemplo. Algumas pessoas são sensíveis e conseguem perceber a energia de um local, outras consultam oráculos para saber tais coisas. Eu sou um pouco sensível, consigo perceber por meio de sensações e sentimentos e às vezes também por imagens que surgem em minha mente, revelando-me sobre o tipo de energia que circula em tal local.

Quando estive na Irlanda (ah a Irlanda... *suspiros de saudade*), conheci dois lugares onde senti uma forte energia sagrada, Loughcrew e Cliffs of Moher. Não foram apenas esses lugares que me encantaram, mas com certeza foram os que mais me marcaram.
Loughcrew, uma tumba neolítica, um Cairn, como são chamados, localizada no alto de uma colina e rodeada por dois outros Cairns, menores. O corredor contêm pedras enormes com símbolos, a maioria sendo espirais, e leva ao centro da tumba composta por três câmaras, onde as paredes e pedras centrais estão repletas de símbolos antigos, e a pedra principal (na câmara do meio) é iluminada em todo equinócio de outono e primavera.

Cliffs of Moher é um incrível despenhadeiro, no lado oeste da Irlanda. Com a terra verde e sagrada sob os nossos pés, o mar em um lindo tom de azul profundo a nossa frente e ao redor, e o céu maravilhoso sobre nós, é impossível não sentir o poder daquele lugar. As ondas batendo no penhasco, o vento forte e frio despenteando nossos cabelos e atrás a Ilha Esmeralda nos sorrindo... Que lugar mágico! Ali era fácil encontrar alguns músicos tocando uma harpa, whistle, bandolim ou outro instrumento. Enquanto eles nos davam a trilha sonora dali, nós oferecíamos uma contribuição em dinheiro a eles, com um gesto de agradecimento e estímulo ao seu trabalho.

Saindo da Irlanda e retornando a “Hy Braesil” (Brasil) também encontro lugares sagrados. Adoro passar por manguezais no interior do Pará, pois são moradas dos encantados da mata e das águas. A praia do Pesqueiro em Soure (Ilha do Marajó/PA) além de linda é encantada, pois além de ser morada de encantados, ela recebe águas doces e salgadas em diferentes épocas do ano, e isso quer dizer que ela recebe as energias tanto do rio quanto do mar.

 
(Praia do Pesqueiro, em Soure, Marajó/PA. Foto de meus arquivos pessoais)


O horto florestal em Rio Branco/AC também me despertou sensações interessantes. Ali, onde a mata é densa e conservada, basta andarmos alguns minutos por dentro da trilha e é possível sentir-se fora da cidade e de fato na floresta. O cheiro úmido da terra, o canto dos pássaros ao redor e as árvores enormes nos observando são de provocar arrepios.

Além desses lugares, naturais, digamos assim, há também o meu altar, que fica em um pequeno quarto no lado leste da casa, e é onde realizo grande parte de minhas práticas religiosas e devocionais, mas não é o único lugar onde faço isso. A energia dali já está propícia para um ritual ou celebração, mas não é somente ali que os Deuses podem se comunicar comigo e eu me comunicar com eles. Acho importante termos um altar ou centro devocional em nossas casas, acredito que os povos celtas tinham, obviamente que de forma diferente  da que temos hoje, mas tinham, seja na forma de um fogo ou lareira central ou em um espaço dentro da casa e próprio para isso ou nos arredores do lar, aos pés de uma árvore, pedra ou poço, ou todas essas formas. Mas mais importante do que ter um altar, é termos a serenidade e sabedoria dentro de nós para que sejamos o próprio altar. O altar é apenas a extensão de algo que devemos manter dentro de cada um de nós.

Entendo que o sagrado é a interseção do divino com o mundano (ou o cotidiano). Nem todo local é sagrado, mas com certeza qualquer local pode se tornar sagrado, pois o divino, os Deuses e Deusas, podem se manifestar ali e em qualquer lugar, objeto ou pessoa, em diferentes maneiras. Basta sabermos olhar, escutar e sentir para entendermos o que eles têm a nos dizer e ensinar.