24 de dezembro de 2012

18. Ciência e Filosofia

Foi-se o tempo em que a religião monopolizava o conhecimento, e também findou a era em que a ciência se auto-supervalorizava perante outras formas de saberes. Não há mais razão para uma excluir ou ignorar a outra. O extremismo da religião é o fanatismo cego, e o da ciência o ceticismo insensível. Seja para que lado a balança pesar mais, sempre haverá desequilíbrio e visões tortas da realidade.

A cada dia a sociedade se aproxima de um novo paradigma, que alguns sociólogos (como Boaventura de Sousa Santos) e filósofos (como Marilena Chauí) chamam de pós-moderno, onde as fronteiras entre a ciência e a religião, a razão e intuição, são tênues e fluidas. As áreas de conhecimento, antes fechadas em si mesmas, dialogam cada vez mais e compartilham ideias, conceitos e perspectivas. A medicina, a religião, a arte, a história, antropologia, sociologia, filosofia, biologia, entre outras ciências, de uns anos para cá têm dialogado profunda e positivamente, sem, no entanto, romper suas próprias fronteiras. E isso é bom, pois acarreta consequências positivas tanto para essas ciências quanto para as sociedades. Claramente, esse é um processo lento e que ainda enfrenta resistências de correntes fundamentalistas (tanto cientificas quanto religiosas), mas cada vez mais nos aproximamos desse novo paradigma.

É possível que esse novo paradigma esteja relacionado com a Nova Era dos místicos modernos, que para alguns se iniciou nesse último dia 21 de dezembro de 2012, a mudança de ciclo no antigo calendário maia. Seja como for, essa visão holística do mundo, de que tudo está relacionado e que a realidade não pode ser vista sob apenas uma perspectiva não é nova para o Druidismo e nem para as culturas tradicionais, como as indígenas. Acho que é por isso que nunca li a teoria do “big bang” ou a teoria das cordas ou ainda a hipótese de Gaia com espanto, pois de certa forma já sabia daquilo, só que de outra forma, claro. Você conhece o livro “O Tao da Física”, de Fritjof Capra? É bastante interessante e sugiro a leitura.

A ciência e a religião não são nada mais do que linguagens diferentes para explicar o mundo a nossa volta. Uma possui uma linguagem mais objetiva, e a outra mais subjetiva ou simbólica, mas ambas são válidas e comumente falam exatamente a mesma coisa, só que com termos e palavras diferentes. Só mesmo um cego para não perceber isso...

É incentivada no Druidismo uma formação acadêmica de seus adeptos, mas NÃO é algo obrigatório. De certa forma, hoje está cada vez mais fácil possuir uma graduação, pois o ingresso no ensino superior está mais acessível, e também é quase que inato em um druida ou politeísta celta a sede pelo conhecimento, já que o caminho do Druidismo e Reconstrucionismo Celta nos exige muito, mas muito estudo. Só temos que, com graduação ou sem graduação acadêmica, ter o cuidado para não pender demais para um lado, nem ser cientista demais ao ponto de nos tornar céticos e cegos à beleza da natureza, nem religioso demais que nos torne fanático. O equilíbrio, como sempre, é fundamental.

23 de dezembro de 2012

17. Ética

(Imagem de Jenny Dolfen)

“Não faças a outrem, o que não queres que façam a ti”. Essa máxima é de Confúcio, e vale com certeza para todo e qualquer indivíduo. Se todos aplicassem em suas vidas, muito provavelmente teríamos uma sociedade melhor. E isso cabe tanto para as relações entre humanos quanto entre humanos e outros animais, e humanos e natureza.
Uma pessoa que diz fazer o bem para outro ser humano, mas que maltrata um gato ou cachorro, por exemplo, é no mínimo hipócrita e de caráter um tanto duvidoso. Ser ético diz respeito não só aos seres humanos, mas a todos os seres que compartilham do mesmo planeta.

Uma tríade celta, que gosto muito, diz: "Honrar os Deuses, não fazer o mal, agir com bravura". No Druidismo, semelhante no Asatru Vanatru (paganismo nórdico), temos a ideia das Virtudes que todos, druidas ou não, devem cultivar.
Em um texto gaélico do século VII, chamado “Audacht Morainn” são mencionadas 15 virtudes: compaixão, veracidade, imparcialidade, responsabilidade, constância, generosidade, hospitalidade, cortesia, firmeza, benevolência, aptidão, confiabilidade, eloquência, serenidade, precisão no julgar. Algumas dessas virtudes podem ser unidas em uma só, pois estão profundamente ligadas, como a hospitalidade, generosidade e cortesia, e também compaixão e benevolência. Dessa forma foram elaboradas as 9 Virtudes no Druidismo, conhecidas como Verdade, Honra, Excelência, Justiça, Hospitalidade, Coragem, Lealdade, Piedade religiosa, Respeito. É possível encontrarmos variações de uma ou outra virtude, mas a ideia é basicamente a mesma. De todo modo, são virtudes esperadas tanto de um druida quanto de um devoto.

Mas acho que não existe melhor texto da cultura celta que exprime a ética no Druidismo (e que devemos todos seguir) como “As Instruções de Cormac”, do Livro de Ballymote, e por isso a transcrevo a seguir:


As Instruções de Cormac
Do Leabhar Bhaile an Mhóta (Livro de Ballymote). Tradução de Bellouesos Isarnos.

Ethne deu a Cormac um filho, seu primogênito, Cairpre, que foi rei de Ériu depois de Cormac. Foi durante a vida de Cormac que Cairpre subiu ao trono, pois ocorreu que, antes de morrer, Cormac foi ferido por uma lança e perdeu um dos olhos e era proibido que qualquer homem com um defeito fosse rei em Ériu. Assim, Cormac entregou o reino nas mãos de Cairpre, mas, antes de fazê-lo, transmitiu a seu filho toda a sabedoria que possuía no governo dos homens e isso foi anotado em um livro chamado As Instruções de Cormac. Estas palavras encontram-se entre seus ensinamentos:

- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais são os deveres de um chefe numa taverna?
- Não é difícil dizer -  disse Cormac.
- Bom comportamento em volta de um bom chefe,
Luzes para as lamparinas,
Esforçar-se pelo grupo,
Distribuição adequada de assentos,
Generosidade dos distribuidores,
Mão ágil ao servir,
Atendimento solícito,
Música com moderação,
Narrativas curtas,
Semblante jovial,
Amável saudação aos convidados,
Durante récitas, quietude,
Cantorias harmoniosas.

- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais teus costumes quando eras um rapaz?
- Não é difícil dizer – falou Cormac.
- Eu escutava nas florestas,
Fitavas as estrelas,
Era cego a respeito de segredos,
Silencioso nos ermos,
Palrador no meio da multidão.
Moderado no salão de festas,
Duro no combate,
Cortês para com os aliados,
Um médico para o enfermo,
Fraco para com o débil,
Forte para com o poderoso,
Não era íntimo para não me tornar inconveniente,
Não era arrogante, embora fosse instruído,
Conquanto capaz, não era dado a prometer,
Não era temerário, embora fosse rápido,
Conquanto fosse jovem, não zombava dos velhos,
Não era jactancioso, embora fosse bom lutador,
Não falaria de alguém em sua ausência,
A vituperar eu preferia exaltar,
A pedir eu preferia dar,
Pois é com tais costumes que os jovens tornam-se maduros e nobres guerreiros.

- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a pior coisa que tens visto?
- Não é difícil dizer: – falou Cormac – as faces de inimigos no tumulto da batalha.
- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a mais doce coisa que tens ouvido?
- Não é difícil dizer: – falou Cormac – o grito de triunfo depois da vitória, louvor depois dos esforços, o convite de uma dama para seu leito.

- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, que é o pior para o corpo de um homem?
- Não é difícil dizer: – falou Cormac – sentar-se por muito tempo, ficar muito tempo deitado, esforçar-se além das próprias forças, correr demais, saltar demais, cair muitas vezes, dormir com a perna por cima da grade da cama, olhar brasas acesas fixamente, cera, colostro de vaca, cerveja nova, carne de touro, comida azeda, comida seca, água do brejo, levantar-se muito cedo, frio, sol, fome, beber demais, comer demais, dormir demais, pecar demais, tristeza, subir uma elevação correndo, gritar contra o vento, secar-se ao fogo, o orvalho do verão, o orvalho do inverno,  remexer cinzas, nadar de barriga cheia, dormir de barriga para cima, fazer brincadeiras idiotas.
       
- Ó Cormac, filho de Conn – disse Cairpre – quais são o pior pedido e a pior argumentação?
- Não é difícil dizer – falou Cormac.
-  Combater contra o conhecimento,
Argumentar sem provas,
Escudar-se em linguagem imprópria,
Uma elocução tensa,
Falar resmungando,
Excesso de minúcias,
Provas duvidosas,
Desprezo aos livros,
Voltar-se contra os costumes,
Mudar o pedido,
Instigar a ralé,
Soprar a própria corneta,
Berrar a todo pulmão.

- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairpre -, quem são os piores com quem podes fazer uma comparação?
- Não é difícil dizer – falou Cormac.
- Um homem com o descaramento de um satirista,
Com a belicosidade de uma escrava,
Com a negligência de um cão,
Com a consciência de um patife,
Com a mão de um ladrão,
Com a força de um touro,
Com a respeitabilidade de um juiz,
Com saber engenhoso e perspicaz,
Com o discurso de um homem majestoso,
Com a memória de um historiador,
Com o comportamento de um abade,
Com  o juramento de um ladrão de cavalos,
E sendo inteligente, mentiroso, grisalho, violento, blasfemo, falastrão, quando diz: “a questão está decidida, eu juro, jurarás também.”

- Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre – desejo saber como devo comportar-me entre os sábios e tolos, em meio aos amigos e estranhos, entre os jovens e os velhos, em meio aos inocentes e perversos.
- Não é difícil dizer – falou Cormac.
- Não sejas muito douto, não sejas muito néscio,
Não sejas muito presunçoso, não sejas muito acanhado,
Não sejas muito orgulhoso, não sejas muito humilde,
Não sejas muito falador, não sejas muito silencioso,
Não sejas muito rígido, não sejas muito débil.
Se fores muito douto, esperar-se-á muito de ti.
Se fores muito néscio, serás enganado.
Se fores muito orgulhoso, acreditar-te-ão molesto.
Se fores muito humilde, serás sem honra.
Se fores muito falador, não te darão atenção.
Se fores muito silencioso, não serás  estimado.
Se fores muito rígido, serás quebrado.
Se fores muito débil, serás esmagado.

Aqui terminam as Instruções de Cormac Ulfada, filho de Art, filho de Conn Cétchathach, filho de Óenlám Gaba, filho de Tuathal Techtmar, filho de Feradach Findfechtnach, filho de Crimthann Nia Nár, filho de Lugaid Riab nDerg, filho de Bres, Nár and Lothar, filhos de Eochaid Feidlech, filho de Find, Grande Rei de Ériu, que o filho de Art deu a seu primogênito, Cairpre Lifechair.

22 de dezembro de 2012

16. Poesia

Canto o Caldeirão do Movimento,
graça compreensível,
conhecimento reunido,
fluente inspiração poética como o leite do peito,
é o auge da maré do conhecimento,
união de sábios,
correnteza de soberania,
glória dos humildes,
maestria das palavras,
rápido entendimento,
sátira enrubescedora,
artesão de histórias,
cuidando dos alunos,
procurando princípios obrigatórios,
distinguindo as complexidades da linguagem,
movendo-se rumo à música,
propagação da boa sabedoria,
nobreza enriquecedora,
enobrecendo os não-nobres,
exaltando os nomes,
relatando louvores
por meio do trabalho da lei,
comparação de dignidades,
a bebida nobre em que é fervida
a raiz verdadeira de todo conhecimento,
que entrega em razão do respeito,
que cresce em razão da diligência,
cujo êxtase poético põe em movimento,
cuja alegria vira,
que é revelado por meio da tristeza,
proteção que não diminui,
canto o Caldeirão do Movimento.

(Caldeirão da Poesia, atribuída a Amhaergin, tradução de Bellovesos)


Só mesmo uma pessoa muito insensível ou ignorante para não gostar de poesia. Nem todos possuem dom para escrever poesia, mas todos apreciam ler ou ouvir uma.
Melhor do que a prosa, a poesia consegue expressar os sentimentos, sensações e intuições de forma magnífica e profunda, justamente porque a linguagem de todas elas é a mesma, a simbólica.

Acho que não existe uma religião que dê tanto destaque a poesia (ou a arte, em geral) e a quem a escreve como o Druidismo. Os bardos ou fíli eram (e são) aqueles que, depois de passar por um longo treinamento de memorização e estudos, detinham a memória de várias poesias e histórias da comunidade. Guardavam-nas no “Santuário que Preserva” e também criavam novas poesias e contos sob a inspiração sagrada.
Quem pensa que é fácil escrever uma poesia verdadeira engana-se. Tente transformar em palavras seus sentimentos mais profundos e intuições mais remotas... Só mesmo sob a luz da inspiração e sabedoria é que surgem as palavras certas e plenas de verdade que irão compor a poesia. E era (é) essa inspiração e sabedoria que os bardos buscavam sempre que precisavam de respostas e orientações; encontrar e acessar a Inspiração fazia parte de seu treinamento.

Há um texto medieval irlandês atribuído a Amhaergin como autor, chamado de Caldeirão da Poesia. Nesse texto-poema fala-se sobre três caldeirões que existem em todo ser humano e são o Caldeirão da Incubação, do Movimento e da Sabedoria. A posição deles pode estar de lado, invertida ou para cima, dependendo muito do momento em que o indivíduo está vivendo e, principalmente, de seus sentimentos, ou seja, a alegria e tristeza. Se estivermos alegres os caldeirões se movimentarão para cima e isso é bom, pois a inspiração pode circular livremente por eles e transbordar para nossa alma e corpo. Se estivermos tristes, eles emborcarão e isso é ruim, pois dificulta a circulação da inspiração/energia e pode provocar doenças emocionais e físicas.

Acredito que a arte, em especial a poesia e a música, seja a linguagem por excelência do Sagrado. É pela arte sagrada que os Deuses, Antepassados e Seres da Natureza se comunicam com a gente, e que nós nos comunicamos com eles. Não é por acaso que a divindade era chamada de Óran Mhor, a Grande Canção, no cristianismo irlandês. E também não é a toa que num ritual ou festival celta, antigo e moderno, a presença da música, dança e poesia é tão forte.