11 de julho de 2016

MACHA, deusa da Soberania e protetora das mulheres


Macha é a Deusa celta da soberania, do poder feminino, da força da Terra... Está relacionada à fertilidade, ao ciclo da vida-morte-vida e seu animal sagrado é o Cavalo.

Uma de suas histórias conta que havia um chefe tribal da região de Ulster (norte da Irlanda), Crunniuc, que era viúvo e há muito tempo estava triste e sem vontade de viver... Um belo dia chegou à sua casa uma mulher forasteira, muito bonita, bem vestida e com aura de nobreza. Sem dizer quase nada ela entrou em sua casa (e em sua vida), colocou ordem nos aposentos, nos serviçais e trouxe harmonia para o seu lar... Essa estranha e fascinante mulher conquistou o coração de Crunniuc e ele voltou a sentir alegria em viver. Ela correspondia o seu amor e não lhe pedia nada em troca, apenas que a honrasse e que guardasse segredo sobre sua verdadeira natureza (que ela era uma mulher dos Sídhe, do Outro Mundo). E ele concordou feliz.

Tempos se passaram e eles viviam contentes e em paz, mas algumas pessoas da vila sentiam um estranhamento ou medo diante daquela estranha mulher... Embora ela sempre tratasse todos bem e fosse gentil, ninguém sabia de onde ela vinha, como havia chegado ali, ou mesmo o seu verdadeiro nome... Boatos dos mais estranhos circulavam... Bruxa, feiticeira, fada, rainha...? Ninguém sabia quem ela era, mas ainda assim mantinham certo respeito à mulher.

Com o tempo, um fruto do amor foi gerado, a mulher estava grávida e logo daria à luz. Era também época de um grande festival, quando várias tribos e clãs do Ulster se reuniam para celebrar, fazer acordos, feiras, competições, entre as quais a mais esperada era a corrida de cavalos! Crunniuc não podia deixar de ir, como um chefe ele tinha que estar presente. Antes de partir, a mulher aconselhou que não exagerasse na bebida, pois temia que ele dissesse coisas que não deveria... Com um beijo e uma benção eles se despediram.
Tão logo ele partiu e a mulher começou a sentir as primeiras dores do trabalho de parto, e se recolheu em sua casa para ter a criança...

Crunniuc se divertia no festival, conversava, bebia, e bebia bastante... esquecendo-se do conselho de sua mulher. No auge do festival se deu a corrida de cavalos. Todos se aglomeraram eufóricos para ver os melhores cavalos e os melhores cavaleiros disputarem. O cavalo do Rei e seu cavaleiro eram os mais fortes e muitos apostavam que eles iriam vencer, mas Crunniuc que não se conteve lançou uma arriscada aposta... Falou para todos ouvirem... “Eu aposto que minha mulher corre mais do que qualquer cavalo de toda a terra de Ériu! Mais até do que o cavalo do próprio rei!”.
Todos silenciaram diante daquela aposta que era quase uma afronta ao rei... Este então disse... “Prove então! Traga sua mulher para correr com os cavalos e veremos! Cumpra o que diz, se não pagará com a vida pela afronta a mim dirigida.”

Prontamente, servos do rei partiram em disparada para a casa de Crunniuc buscar sua mulher. Quando a encontraram e lhe explicaram o que havia acontecido, ela suplicou aos homens: “Por favor, tenham piedade... Estou com muitas dores e minha criança logo irá nascer”. Mas eles insistiram dizendo que se ela não fosse seu marido iria morrer. Contrariada ela foi... Ao chegar lá a mulher foi colocada diante do rei e novamente suplicou: “Por favor, tenha piedade... Como vê estou prestes a ter minha criança... sinto muitas dores, não tenho condição de correr agora. Mas lhe dou minha palavra que depois que me recuperar do parto cumpro o que lhe foi prometido”. O rei recusou e a obrigou a correr, se quisesse salvar seu marido. Recorreu uma última vez aos homens, mulheres e crianças que assistiam o evento: “Por favor, eu peço piedade... Lembrem-se que todos vocês vieram de uma mãe que passaram pelo que estou passando agora... Deixem-me ter minha criança em paz, eu suplico!”, ela falou enquanto chorava e sentia cada vez mais forte as dores do parto. Mas ninguém atendeu seu pedido...
Sem saída, a mulher foi obrigada a correr com os cavalos. O rei deu a largada e todos saíram em disparada! A mulher, mesmo em desvantagem e cansada, correu, correu e correu o mais rápido que podia! E para o espanto de todos ela venceu!

No alto de uma colina e rodeada pelos cavalos, a mulher quase sem forças deu o grito que trouxe seus filhos gêmeos ao mundo! O grito pôde ser escutado por toda a ilha... As pessoas que ali estavam ficaram assustadas e fascinadas pela força daquela mulher. Enquanto a observavam em espanto, a mulher levantou-se com os bebês no colo e disse à todos: “Pela desonra que me fizeram sofrer, deste dia em diante durante cinco dias e cinco noites por nove gerações, eu condeno todos os homens do Ulster no momento em que mais precisarem de suas forças a sentirem as dores do meu parto!”

Em meio a multidão assustada um homem perguntou: “Quem é você mulher?”. E ela respondeu: “Eu Sou Macha! E para sempre esse lugar terá o meu nome!”
E assim aquela colina foi chamada desde então “Emain Macha” (Os gêmeos de Macha).

Após dizer aquelas palavras a Mulher desapareceu e nunca mais foi vista... Crunniuc caiu em profundo arrependimento e desgraça, e todas as pessoas ali jamais se esqueceram daquela mulher.


Sinto que Macha está muito próxima de nós... Em tempos em que a mulher ainda sofre violência de todo o tipo e onde o Feminino vem sendo desvalorizado, Ela vêm à nós (homens e mulheres) para nos lembrar de onde todos nós viemos: de um Ventre. E que devemos honrar esse sagrado ventre, respeitar o milagre da vida e a força da Terra. Às todas as mulheres, em especial aquelas que um dia foram humilhadas ou agredidas, Macha vêm para nos lembrar de nossa verdadeira natureza: que somos divinas, que somos Deusas!

Macha chama por todas nós! Nos acolhe em seu abraço de Mãe, cura nossas feridas, nos nutre e fortalece. Macha chama por todos os homens para que despertem de sua ignorância, que relembrem sua memória antiga e honrem novamente o Ventre de onde vieram!

Sláinte Macha!!!

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(Mito de Macha recontado por Mayra Darona Ní Brighid).

1 de fevereiro de 2016

Cailleach e Brighid (uma história de Imbolc)


"Cailleach, a Velha Esposa, é a senhora do Inverno. Mãe Ancestral de Deuses e homens... Ninguém sabe dizer quantos anos ela realmente tem. Ela já teve tantos maridos, mas tantos... E todos já morreram, mas ela ainda vive.
Aqueles que já a viram dizem que ela é uma gigante muito velha, com a pele toda enrugada, azul, e veste uma manta branca como a neve. Um dia ela carregava na bainha de sua roupa pedras que ia usar para construir sua casa, e durante a caminhada se descuidou e deixou cair algumas pedras. No lugar onde elas caíram, círculos de pedras foram formados.

Cailleach tem também um grande machado, outros dizem que é um cajado, e o chão que ele toca fica congelado... É com ele que Cailleach faz as tempestades invernais e os trovões acontecem quando a Velha Esposa bate com ele no chão.
As vezes Cailleach é gentil, como a  chuva que vem para fertilizar a terra. Mas as vezes ela é cruel... como a enchente que varre nossas casas, ou a geada que castiga nossa gente e os animais. Por isso precisamos sempre respeitar a senhora Cailleach, nunca sabemos como está o seu humor.

Quando o inverno vai ficando mais longo e duro, mais a Cailleach vai envelhecendo... Envelhecendo... Envelhecendo...
E quando ela já está tão velha e fraca, mas ainda com um pouco de força em seus ossos, ela viaja para o Oeste, para onde o Sol se põe e aonde existe uma ilha abençoada no Mar distante. Lá, nessa ilha, existe uma fonte de água pura que brota de uma enorme pedra. Cailleach, já tão cansada da viagem que fez e sentindo-se muito fraca e velha, bebe dessas águas, banha-se nessas águas... E como um milagre da natureza ela torna-se jovem de novo! Sua pele, antes enrugada e feia, fica jovem e bela! Seus cabelos, antes ralos e brancos, ficam volumosos e reluzindo num tom rubro-dourado como o Sol! Seus olhos, antes caídos e sem vida, agora estão azuis como o céu limpo da manhã e explodindo vida! Seu corpo jovem e com força! Sua voz, não mais rouca, mas linda e doce, como a melodia de uma harpa. A Velha Esposa agora é a Jovem Noiva, é Brighid! Rainha da Primavera! E assim, ela retorna para o Leste, para a Terra, e por onde ela caminha vai deixando um rastro de flores, despertando a vida da terra e de todos os seres. E por onde quer que ela vá, ela deixa sua luz e calor, despertando o Fogo na mente dos homens, mulheres, crianças, amantes e poetas. E aonde quer que ela esteja, ela varre para longe as resmas do inverno e do velho ano, trazendo a cura para todos aqueles que à ela pedem, com o coração cheio de esperança como o de uma criança."


 (por Mayra Darona Ní Brighid)

24 de dezembro de 2015

Paganismo e Veganismo: encontros e desencontros.


Bem, vamos lá discutir um tema pra lá de polêmico, e por isso mesmo interessante. Antes de tudo quero deixar claro que vou expor aqui a minha visão ok? Não falarei em nome de nenhum movimento do veganismo/vegetarianismo e nem do paganismo. Mas quero despertar sobretudo no Paganismo, e especialmente no Druidismo (que é a tradição a qual faço parte) essa reflexão. Reflexão, ok?! De forma nenhuma quero impor minha ideia a alguém ou comunidade.
Pois bem, vamos lá.

Sou nova nesse ramo do veganismo (embora eu não me considere vegana, e vou explicar mais adiante o porquê). Nova mesmo, comecei a mudar meus hábitos alimentares tem umas duas semanas. Mas bem antes disso já conhecia um pouco sobre a proposta do movimento e a achava interessante. Eu decidi parar de comer carne (de gado e de frango, ainda estou comendo peixe e lutando pra eliminar de vez o leite e ovos da alimentação, mas já consegui reduzir bastante. Enfim, ainda estou em fase de adaptação ^^ ). Essa decisão veio quando vi um vídeo de uma fazenda produtora de laticínios na Nova Zelândia e a forma cruel como tratam as vacas e seus filhotes... E não é difícil pensar que isso também ocorre no Brasil. As vacas são mantidas constantemente prenhas, são fertilizadas artificialmente e quando elas dão a luz, seu filhote é retirado dela poucas horas depois que nasce e levado para morrer ou outro destino semelhante...
É visível o sofrimento da vaca, e também do filhote... Isso mexeu muito comigo... E nessa hora decidi que não queria fazer mais parte disso. Além disso, o fato de que grande parte dos desmatamentos e conflitos de terra na Amazônia se dão em razão dos latifúndios e fazendas de gado. Isso tudo contribuiu para a minha decisão. E ainda tem mais um fator, há uns meses atrás eu tive plena consciência de que meu corpo tem vida e vontade própria. Ok, quando a gente estuda paganismo e espiritualidades antigas, a gente sabe que nosso corpo tem uma sabedoria... Mas entre saber e ter consciência disso, é outra coisa... Sempre que eu comia um lanche desses de rua ou fast food (de hambúrgueres a pizza) eu passava mal, de dar dor de barriga pouco tempo depois que eu ingeria a comida. Percebi que era meu corpo dizendo: “Moça, eu exijo respeito e não tolero essas porcarias que você põe pra dentro. Obrigada, de nada”. Então, abaixei a cabeça e “ouvi” a sábia voz do meu corpo...

Mas aí vem a questão, meus ancestrais comiam carne, ofereciam inclusive uma parte do alimento às divindades e usavam o couro para produzir desde roupas a tambores sagrados... Ok. Verdade. MAS, meus ancestrais viviam em outro tempo e tinham uma outra relação com os animais e tudo a sua volta. Eles cuidavam e criavam dos animais que um dia seriam sacrificados e comidos em comunidade, havia um respeito muito maior pela vida do animal do que temos hoje. Hoje o animal (e quase tudo em nossa sociedade) é objetificado, mercantilizado, desconsidera-se qualquer dignidade a sua vida e ao seu espírito (pois na visão pagã, os animais tem alma sim, e são tão ou mais sábios/evoluídos do que os humanos). E, a não ser que você viva num sítio ou fazenda e crie seus próprios animais, nós hoje não temos nenhuma relação com eles, simplesmente pegamos um pedaço de carne na prateleira de um supermercado e pronto.

Por isso resolvi aderir ao vegetarianismo/veganismo, mas não me considero vegana... Pois ainda toco meu tambor sagrado e tomo hidromel de vez em quando. Evito ao máximo comprar produtos transgênicos e de marcas que agridem ao meio ambiente ou fazem testes em animais. No entanto, não curto muito ficar compartilhando no facebook coisas com imagens fortes ou cruéis de animais sendo mortos em abatedouros ou coisa do tipo... (mas não critico quem faça isso, pois de certa forma isso dá uma visibilidade importante para a questão. Ok, só não toda hora porque já é demais rsrs).
Eu parei de comer carne e laticínios no meu dia-a-dia, nesse contexto em que vivo, num meio urbano e capitalista. Mas se um dia eu for para uma aldeia indígena ou comunidade tradicional e me oferecerem um peixe ou uma comida com carne animal, eu aceito sem problemas. Porque eu sei que a relação que os indígenas tem com o animal é bem diferente da que nós, não-indígenas, temos na cidade. Eles agradecem ao rio ou ao espírito do rio pelo peixe que foi dado, agradecem ao peixe que serviu como alimento para toda a comunidade, agradecem antes e depois de caçar ou matar o animal. E isso para mim, como pagã e druidista, é importante. Quantos abatedouros fazem isso? ...

Agora, eu penso que se toda a população do planeta parasse de comer qualquer tipo de carne, teríamos um outro desequilíbrio. Porém, é fato que se no momento pararmos ou reduzirmos consideravelmente o consumo de carne e laticínios vamos minimizar bastante os problemas de desmatamento e aquecimento global. Sem falar que uma mudança como essa não é só de hábitos alimentares, é também do modo de pensar e de se relacionar com a própria comida. Você tem que fazer o seu alimento – ou seja, acabou a vida de comer fora (a não ser que seja numa lanchonete/restaurante veg) –, e algumas pessoas até plantam vegetais em suas hortinhas, o que é muito legal. E isso vai totalmente ao encontro com o (neo)paganismo, que ensina que devemos retomar nosso contato e relação profunda com a Terra.
Mas ainda é difícil para um pagão ser vegano totalmente... (por algumas razões que citei acima... o tambor, o hidromel...), embora conheça alguns que o são. Talvez precisemos encontrar um equilíbrio, um meio termo e um termo propriamente... “Paganveg”? Mas isso não importa muito, acredito que cada um deve seguir com seus princípios e buscar uma alimentação mais consciente sim. Afinal, se acreditamos que nosso corpo também é sagrado é importante refletir sobre o que colocamos dentro dele.
Sobre virar veg (ou “paganveg”?) ou parar de comer carne... Sim, é difícil no começo... É ser contra todo um sistema que te impõe o que comer ou não comer. É nadar contra a corrente, mas quem é pagão já tem nadadeiras mais fortes ;) .



(Não escrevi tudo o que queria escrever, até porque não queria que fosse um texto longo e chato. E também foi difícil traduzir em palavras escritas todas as ideias e pensamentos que ainda estão borbulhando na minha mente sobre esse assunto. Mas espero que abra para a reflexão no meio pagão e possamos discutir “de boas” essa e outras questões).

16 de dezembro de 2015

Espiritualidade feminina, ecologia e coletor menstrual.

(texto publicado primeiramente no site aterrasagrada.blogspot.com)




Tem quase um ano que comecei a usar o “Copo da Lua”, como gosto de chamar o meu coletor menstrual, e desde então só tenho tido experiências maravilhosas com ele! Resolvi escrever um texto falando um pouco sobre isso, ainda mais porque li recentemente algumas dúvidas de meninas no Facebook. Então bora lá...

Primeira coisa, ao ler esse texto desprenda-se de qualquer preconceito e abandone pensamentos como “ah que nojo...”, “ah credo...”, “ah isso”, “ah aquilo...”, ok? Estamos falando de nossos corpos e tudo o que ele abrange, e dentro da Espiritualidade Feminina o nosso corpo é sagrado! O corpo feminino, sobretudo, já passou tempo demais sendo objetificado e desvalorizado em todos os aspectos. Tá na hora de reconhecermos o poder que ele tem e a força de nossos ciclos sagrados, ok mulherada?! (e macharada também, bora mudar esse comportamento/paradigma aê!).

Bom, antes de eu começar a usar o Copo da Lua eu já o tinha em casa, quero dizer, já tinha comprado ele fazia uns anos, mas nunca tinha conseguido usar, então ficava lá, guardado na minha gaveta... mas nunca esquecido. Até que nos últimos anos, meus estudos sobre a Espiritualidade Feminina e o Ecofeminismo começaram a se intensificar. Aí pensei, “hum... acho que tá na hora d’eu tomar vergonha na cara e aprender a usar esse coletor”. Então, comecei a participar de grupos no Facebook que tratavam sobre o assunto (coletores menstruais) e a conversar com amigas minhas que já usavam. Foi quando pude esclarecer um monte de dúvidas que ainda tinha sobre como usar o Copo da Lua.

Que ele é muito mais ecológico que os absorventes descartáveis, eu já sabia (pois o coletor é reutilizável e o absorvente não né? Sem falar que este último possui um monte de substâncias químicas, e ao ser descartado no lixo, ou seja, na natureza, vai provocar um dano terrível ao planeta... ainda mais em grandes quantidades; imaginem quantos absorventes vão parar no lixo todo dia, no mundo todo?!!). E que ele é muito mais higiênico que os ditos absorventes, eu também sabia (pára pra pensar, o absorvente fica ali, horas abafando a sua Yoni*, o sangue coagulando e proporcionando inclusive a proliferação de fungos, porque a Yoni fica abafada, e fungo adora uma umidade e um calor...).

Enfim, a minha dificuldade era colocar o coletor lá dentro...
E isso tinha a ver (hoje eu entendo) muito mais com a minha relação com meu próprio corpo do que se o coletor prestava mesmo ou não.
Bem, nesse quase um ano de uso do Copo da Lua eu vou mencionar alguns aspectos positivos (os negativos são muito poucos, e para mim, são praticamente nulos) das experiências que venho tendo com ele ok? Sempre relacionando com a Espiritualidade Feminina, afinal, é do que mais se trata esse site! ;)

Sobre as experiências boas (diga-se, maravilhosas!) de se usar o coletor...

1. Eu colocaria como primeira, a mudança na relação que a gente tem com nosso próprio corpo. Ou seja, você começa a se olhar diferente, a se conhecer. Como falei antes, o corpo feminino ao longo dos últimos séculos foi sobrecarregado de tabus e proibições que só prejudicaram as mulheres. Nós não conhecemos nossos corpos, algumas (muitas) mulheres ainda têm nojo de seu próprio corpo, de sua yoni, de seu sangue, etc. É muito difícil ainda para a grande maioria das mulheres ter uma relação saudável com sua própria menstruação ou conseguir sentir prazer numa relação sexual... Porque por muito tempo, a mulher foi subjugada e condenada ao status de pecadora, e à ela só cabe sentir dor, não prazer. E isso é um absurdo! A mulher tem um órgão em seu corpo cuja função é unicamente proporcionar prazer a ela (estudos científicos recentes estão comprovando isso), e esse órgão é o clitóris. Mas muitas de nós sequer sabe o que é o clitóris... Fomos ensinadas a ser recatadas, a ver o sexo ou o desejo como pecado, e isso demora a ser desconstruído na psique de uma mulher... Demora mesmo, é um processo.

Pois enfim, voltando ao foco, quando usamos o Copo da Lua inevitavelmente entramos em contato com nossos corpos, com nossa yoni. Temos que tocá-la, saber onde ficam os grandes e pequenos lábios, a entrada da yoni etc. Ao contrário de usar absorvente que você apenas coloca na calcinha e depois tira e joga fora, sem mal olhar para o sangue que flui do seu ventre e muito menos para o seu órgão.

2. Segunda coisa legal de usar o coletor, você vê o seu sangue! E ele não fede (como acontece quando usamos absorventes, porque eles abafam ali a região, lembra?). Quando se tem uma compreensão diferente ou, melhor dizendo, sagrada com nosso sangue menstrual você o olha com outros olhos... Na Espiritualidade Feminina o sangue menstrual representa tudo aquilo que seu útero está limpando de seu corpo e da sua vida. Toda energia acumulada, estagnada ou em desarmonia que esteja em seu Ser durante o último ciclo, é eliminada de seu corpo. Vemos o sangue então, não como algo sujo ou impuro, mas como um fluxo sagrado de transformação. Ele está te limpando para que um novo ciclo possa começar. Todos os meses as mulheres vivem um ciclo de vida-morte-vida... Saber reconhecer a força desse momento é o primeiro passo para honrar-se como mulher sagrada que você é.  E a cor vermelha?! Ah... Aquele vermelho vivo, intenso... É a cor da Vida!

3. Terceira coisa legal, você pode ficar até 12 horas com o coletor dentro de você! E então, é só lavar com sabão neutro, lavar sua Yoni e colocar de novo. Você pode tirar o coletor para limpar a cada 8 horas ou quando achar necessário, mas não recomendo que passe de 12 horas direto, porque aí sim o sangue (e o coletor) pode ficar com um cheiro ruim. Além disso, não vaza! Quem usou absorvente sabe como é uma chatice quando vaza sangue na calcinha né? Pois é, o coletor não deixa vazar nada! Só vaza se foi mal colocado (e para saber isso só você vai dizer, vai sentir... geralmente incomoda quando não está certinho no lugar). Ou seja, pode dormir de boas com o Copo da Lua!

4. Dê adeus aos gastos com absorventes descartáveis ou “ob’s”! Adoro passar pelas prateleiras de absorventes no supermercado e pensar: “Não preciso mais disso... ;)” . Mesmo que o coletor pareça caro no primeiro momento (em torno de 80 reais), compensa muito, pois a vida útil dele é de 10 anos. Sem falar que serão centenas de absorventes que você não irá jogar no lixo depois, né? Um pequeno alívio para a Mãe Terra...

5. Quando comecei a usar meu Copo da lua também comecei a fazer anotações sobre meu ciclo menstrual. Peguei um caderno simples, que chamo de “Caderno Lunar”, decorei com uma capa legal e me pus a anotar meus sonhos mais significativos, minhas sensações, intuições, emoções, pensamentos, algumas poesias, sempre registrando a fase da lua e a data em que vinha e ia embora minha “Lua Vermelha” (menstruação). Como se fosse um diário mesmo... Embora eu não escreva nele todo dia. Com o tempo você vai compreendendo melhor em qual fase da lua está mais disposta e em qual não está tanto assim... Em que momento você tem sonhos mais vívidos e o que eles significaram depois para você... O que suas emoções estavam lhe dizendo... E por aí vai. É um método muito interessante de autoconhecimento. Recomendo que façam isso, mesmo quem prefere não usar o coletor.

6. E a última coisa legal que menciono aqui (pois não dá para eu citar todas as coisas, estou relatando brevemente as que acho mais relevantes de escrever agora) é em relação ao modo de colocar o Copo da Lua. Como falei no início do texto, minha maior dificuldade era colocar o coletor, porque eu achava que o coletor era muito grande para mim, mas na verdade ele é do tamanho adequado e o problema estava em como eu estava tentando coloca-lo, ou seja, a posição. Quase todas as meninas que li comentando sobre essa questão e conversando com minhas amigas depois, diziam que a melhor posição para colocar o coletor era de cócoras. Quando fui tentar, na primeira vez não deu muito certo, pois estava tensa (e é muito importante que estejas relaxada), mas no dia seguinte na segunda tentativa deu tudo certo! Meu Copo da Lua entrou com facilidade e senti uma onda de alegria imensa! Com o tempo fui percebendo que a posição de cócoras carrega muito mais significado e simbolismo do que eu imaginava... As mulheres antigas quando se reuniam com outras mulheres na “tenda vermelha” (quando estavam todas menstruadas) costumavam ficar de cócoras em alguns momentos para deixar fluir na terra o sangue e ao mesmo tempo ofertar à Mãe-Terra esse sangue sagrado.
De cócoras é a posição que muitas mulheres dão à luz quando estão parindo uma criança.
De cócoras é a posição em que a figura/deidade mais emblemática e misteriosa, a meu ver, da mitologia celta se apresenta: Sheela-na-Gig. Ela está com as pernas bem abertas, com as mãos abrindo ou tocando a vulva, que mais parece um portal por onde algo ou alguém vai sair ou mesmo entrar. Sheela-na-Gig para mim está profundamente relacionada aos mistérios femininos, aos ciclos de vida-morte-vida e ao poder da Lua Vermelha que cada mulher carrega.



Todo mês, quando a Lua vem me visitar e eu me posiciono de cócoras para colocar meu Copo da Lua, eu penso em Sheela-na-Gig, me conecto com essa força ancestral, bem como com todas as minhas ancestrais... Me permito ser limpa, transformada e curada pelo meu sangue sagrado. E com isso abençoo meu útero, meu ventre e todas as minhas relações, seja com as mulheres que vieram antes de mim, seja com aquelas que virão depois.


Bem, era mais ou menos isso que tinha para compartilhar. Convido agora vocês, mulheres, irmãs, para refletirem e se quiserem experimentar e vivenciar não só o Copo da Lua, mas, sobretudo, o seu corpo e o seu sangue, que são sem dúvida Sagrados.




* Yoni: nome menos pejorativo e mais sagrado de chamar a vagina; proveniente da tradição hindu, especialmente do Tantra. 


(Texto por Mayra Darona Ní Brighid. Escrito em 15/12/2015, Lua Nova).

5 de dezembro de 2015

Eu sou...



Sou o Cisne que lança voo em direção ao poente...
Sou o Carvalho que cresce firme sobre a terra...
Sou o Gavião que descansa no alto da mãe Samaúma...
Sou a Corça que caminha docemente pelos bosques...
Sou o vento que sopra na alvorada...
Sou a terra molhada depois da chuva...
Sou o sol nascendo no santo Dia de Brighid...
Sou a terra abaixo de meus pés...
Sou o céu acima da minha cabeça...
E sou as águas que fluem dentro e ao redor de mim.

(por Mayra Darona Ní Brighid, em 05/12/2015,
Lua Negra, pós Lua Vermelha)

18 de agosto de 2015

Ecologia Feminina - A relação da mulher com a Terra (por Ana Paula Silva)


"A Ecologia Feminina é uma prática que a mulher tende a procurar quando deseja se harmonizar com a natureza. 
Gestos tão simples que encontramos em nossas avós e ancestrais significam muitas vezes para nós, mulheres modernas, uma revisão da própria vida, quando colocamos em cheque tabus e hábitos, para construir uma relação mais harmoniosa de cuidado com o próprio corpo e com o Planeta.
Nas  culturas indígenas e maias  a Terra é vista como a Grande Mãe que nos dá abrigo e nos alimenta, segundo essas culturas, a existência humana é essencialmente conectada ao Planeta. As qualidades femininas da natureza são expressas pela receptividade da Terra ao receber, acolher, nutrir e oferecer todos os recursos necessários para que a planta germine, cresça, floresça e produza novas sementes concebendo suas múltiplas expressões de vida. 
Podemos observar práticas femininas ancestrais e ecológicas, como a devolução do ciclo menstrual para nutrir a Terra, que foram modificadas pela cultura e de maneira efetiva desconectaram a mulher do cuidado consigo mesma e com o Planeta. 

Segundo o site Museu da Menstruação (http://www.mum.org/), no ano de 1888 os absorventes femininos começaram a ser vendidos, eram aqueles em formato de almofada, adaptações dos que as enfermeiras norte-americanas preparavam para elas próprias usarem, feitos de gaze e outros materiais hospitalares a que tinham vasto acesso. Desde então o absorvente feminino descartável passou a ser comercializado com forte apelo publicitário à sua praticidade, marcando início à era dos descartáveis. As primeiras propagandas veiculadas para o produto, em 1921, pela Kotex, destacavam que os absorventes descartáveis eram muito mais limpos e assépticos, confortáveis.  Mas atualmente na contramão de todas as campanhas, vêm crescendo o movimento que quer abolir os absorventes descartáveis volta absorventes de tecido, por serem uma  solução mais natural para a pele sensível da vulva, além de muito mais econômicos e praticamente não-agressivos ao meio ambiente.
A Ecologia Feminina é um termo muito abrangente e profundo, e pelo viés da sustentabilidade, podemos identificar pelo menos cinco temas de grande impacto e muito palpáveis a todos nós: Consumo Consciente; Lixo: Absorventes Femininos e Fraldas Descartáveis; Humanização do Parto; Aleitamento Materno e Educação Ativa.

Consumo Consciente
Quando optamos por financiar pessoas e empresas que estão fazendo a sua parte, também fortalecemos esse trabalho. Nossas decisões de consumo são como os votos em uma eleição: o maior número decide quem ganha. Por isso, quanto mais optamos por produtos e empresas realmente preocupadas em fazer do mundo um lugar melhor, mais fortalecemos esse movimento e mais rápido veremos as mudanças necessárias.
Praticar o consumo consciente significa buscar o equilíbrio entre a sua satisfação pessoal e a sustentabilidade socioambiental, maximizando as conseqüências positivas deste ato não só para si mesmo, mas também para as relações com a sociedade, economia e natureza. Este também busca disseminar o conceito e a prática do consumo responsável, fazendo com que pequenos gestos realizados por muitas pessoas promovam grandes transformações.

Sugestões de práticas visando o consumo consciente:

 - Comprar roupas, alimentos e outras mercadorias na medida certa para o consumo individual ou da família, visando evitar ao máximo o desperdício;
- Gastar água e energia somente o necessário, evitando ao máximo o desperdício;
- Reutilizar produtos e bens naturais sempre que possível;
- Promover a separação e reciclagem do lixo;
- Usar sistemas que evitem o desperdício de água e energia nas residências;
- Valorizar e adquirir produtos de empresas que demonstram preocupações sociais e ambientais;
- Utilizar sacolas retornáveis para transportar os produtos adquiridos em supermercados;
- Valorizar o consumo de produtos orgânicos que, além de serem benéficos à saúde, a produção envolve práticas de respeito ao meio ambiente.

Lixo: Absorventes Femininos
Uma mulher que utiliza absorventes descartáveis para conter seu fluxo menstrual produz, desde a sua puberdade até a menopausa, aproximadamente 10 a 15 mil absorventes descartáveis de lixo, resíduo excessivo e de grande impacto ecológico para o Planeta. 

Absorventes e tampões descartáveis são feitos de papel alvejado, plástico e contêm ingredientes químicos inconvenientes à saúde da mulher, como metais, surfactantes, desinfetantes, fragrância, bactericida, fungicida, gel absorvente, colas, traços de organocloretos  (pesticidas), entre outras coisas. A legislação brasileira não regula os componentes dos produtos menstruais e as indústrias não precisam listá-los nas embalagens.

Componentes como organocloretos e dioxina, subprodutos do processo de branqueamento, têm sido associados a problemas de saúde em humanos e animais, contribuindo para o câncer de mama, deficiências do sistema imunológico, endometriose, defeitos no feto e câncer de colo de útero (cérvix).

Alternativas ecológicas disponíveis:

Além de serem práticas, econômicas e ecológicas, visto que custam menos ao bolso e reduzem consideravelmente a produção de lixo no Planeta, o uso das alternativas abaixo incentiva a valorização e aceitação do processo natural do corpo. Em ambos os casos o sangue pode ser devolvido para a natureza como adubo e alimento para as plantas, pois contém uma gama de nutrientes e energia vital que fertilizam a Terra.
Absorventes femininos de pano são laváveis, confeccionados em tecido de algodão, permitem ao corpo respirar livre de produtos químicos e plástico e não contêm químicas.

Copo coletor de silicone: além de ter a praticidade de ser interno, é reutilizável e lavável, e pode ser fervido para esterilização ao final do ciclo, ou colocado em água oxigenada por algumas horas antes de ser guardado para o mês seguinte. Normalmente possui durabilidade média de 10 anos".

5 de abril de 2014

Seja o Cisne


"Talvez o maior desafio da vida moderna seja sermos nós mesmos em um mundo que insiste em modelar nosso jeito de ser.

Querem que deixemos de ser como somos e passemos a ser o que os outros esperam que sejamos.

Aliás, a própria palavra “pessoa” já é um convite para que você deixe de ser você.

“Pessoa” vem de “Persona”, que significa “máscara”.

É isso mesmo: coloque a máscara e vá para o trabalho.

Ou vá para a vida com a sua máscara.

Talvez o sentido do elogio: “Fulano é uma boa pessoa”, signifique na verdade: “Ele sabe usar muito bem a sua máscara social”.

Mas qual o preço de ser bem adaptado?

O número de depressivos, alcoólatras e suicidas aumenta assustadoramente.

Doenças de fundo psicológico como síndrome do pânico e síndrome do lazer não param de surgir.

Dizer-se estressado virou lugar-comum nas conversas entre amigos e familiares.

Esse é o preço.

Mas pior que isso é a terrível sensação de inadequação que parece perseguir a maioria das pessoas.

Aquele sentimento cristalino de que não estamos vivendo de acordo com a nossa vocação.
E qual o grande modelo da sociedade moderna?

Querer ser o que a maioria finge que é.

Querer viver fazendo o que a maioria faz.

É essa a cruel angústia do nosso tempo: o medo de ser ultrapassado em uma corrida que define quem é melhor, baseada em parâmetros que, no final da pista, não levam as pessoas a serem felizes.

Quanta gente nós não conhecemos, que vive correndo atrás de metas sem conseguir olhar para dentro da sua alma e se perguntar onde exatamente deseja chegar ao final da corrida?

Basta voltar os olhos para o passado para ver as represálias sofridas por quem ousou sair dos trilhos, e, mais que isso, despertou nas pessoas o desejo de serem elas mesmas.

Veja o que aconteceu a John Lennon, Abraham Lincoln, Martin Luther King, Isaac Rabin…

É muito perigoso não ser adaptado!

Essa mesma sociedade que nos engessa com suas regras de conduta, luta intensamente para fazer da educação um processo de produção em massa.

A maioria das nossas escolas trabalha para formar estudantes capazes de passar no vestibular.

São poucos os educadores que se perguntam se estão formando pessoas para assumirem a sua vocação e a sua forma de ser.

Quantos casos de genialidade que foram excluídos das escolas porque estavam além do que o sistema de educação poderia suportar.

Conta-se que um professor de Albert Einstein chamou seu pai para dizer que o filho nunca daria para nada, porque não conseguia se adaptar.

Os Beatles foram recusados pela gravadora Deca!

O livro “Fernão Capelo Gaivota” foi recusado por 13 editoras!

O projeto da Disney World foi recusado por 67 bancos!

Os gerentes diziam que a idéia de cobrar um único ingresso na entrada do parque não daria lucros.

A lista de pessoas que precisaram passar por cima da rejeição porque não se adaptavam ao esquema pré-existente é infinita.

A sociedade nos catequiza para que sejamos mais uma peça na engrenagem e quem não se moldar para ocupar o espaço que lhe cabe será impiedosamente criticado.

Os próprios departamentos de treinamento da maioria das empresas fazem isso.

Não percebem que treinamento é coisa para cachorros, macacos, elefantes.

Seres humanos não deveriam ser treinados, e sim estimulados a dar o melhor de si em tudo o que fazem.

Resultado: a maioria das pessoas se sente o patinho feio e imagina que todo o mundo se sente o cisne.

Triste ilusão: quase todo mundo se sente um patinho feio também.

Ainda há tempo!

Nunca é tarde para se descobrir único.

Nunca é tarde para descobrir que não existe nem nunca existirá ninguém igual a você.

E ao invés de se tornar mais um patinho, escolha assumir sua condição inalienável de cisne!"

(Roberto Shinyashiki)


("Swan", by Cilla Conway).

28 de março de 2014

...

"A terra é parte de meu corpo. Pertenço à terra de onde venho. A terra é minha mãe” (Tuhulkutsut).


Eu queria escrever algumas coisas sobre essa situação crítica que a Amazônia está vivendo, mas não sei se conseguirei traduzir meus pensamentos em palavras escritas.

O rio Madeira continua cheio, alagando a estrada e várias partes de Porto Velho e outros municípios. Acre e Rondônia enfrentam crises no abastecimento de alimento, combustível e produtos diversos. Hoje à tarde fui à padaria perto de casa e não tinha pão, pois acabou o trigo. Talvez chegue amanhã, talvez depois, talvez sei lá.
Mas isso é coisa leve perto do que Rondônia enfrenta... E ainda o interior do Acre, onde demora mais pra chegar os produtos.
O engraçado é que nos jornais quase não se fala ou não se fala nada sobre a responsabilidade que as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio têm sobre essa enchente do rio. Ou você acha mesmo que isso é SÓ um fenômeno da natureza?
Ah claro, a culpa não é só das hidrelétricas. É de todos nós. É dos desmatamentos absurdos, das queimadas, da poluição nos rios, do montante de lixo que produzimos todo santo dia nas cidades, enfim, do nosso total desrespeito para com a natureza. E não pense que a natureza é algo lá, longe de nós... A floresta lá e você aqui, na tua casa, no teu apto, no teu carro, no teu escritório. Não, meu irmão... A natureza É você. Você faz parte dela. Você que está no sul do país respira o mesmo ar de quem está no norte. Você aí que bebe a água limpa saída do filtro, bebe a água de um rio (supostamente tratada). Você aí que liga o computador para acessar o facebook todo dia, estás usando a força de um rio, que teve as águas represadas e o curso natural modificado numa hidrelétrica (que segundo o governo é energia limpa, mas sabemos muito bem que de limpa não tem nada).
O rio Madeira encheu e está trazendo à tona uma série de questões que não podem mais ser ignoradas. Precisamos repensar toda essa nossa forma de vida, todo esse sistema em que vivemos e precisamos, urgentemente, transforma-lo.
Chega de ganância e de um desenvolvimento que destrói a natureza, que destrói a nós mesmos. É hora de pensarmos em outras formas de geração de energia, cujos impactos ambientais sejam menores. É hora de olharmos a natureza como partes de nós mesmos, e entendermos que ao cuidarmos da Terra estaremos cuidando de nós e de nossas famílias. É hora de sermos mais solidários com os outros humanos e os outros seres desse mundo.
Estou vendo gente, que na ignorância ou no desespero, estoca quilos de alimentos e litros de combustível, sem necessidade. O que faz com que logo os produtos acabem e muitas pessoas fiquem sem. Até quando vamos só pensar no nosso umbigo?
E você já parou pra pensar o quão pequenos, e eu até diria, ridículos nós somos? Parece que para alguns sem gasolina a vida pára. Por acaso tu nascestes andando de carro? Não tens pernas? Se tem, ótimo, agradece por isso. Tem gente brigando em fila de posto de gasolina, indo aos tapas por uma chance de conseguir uns litros de combustível caro (diga-se de passagem muito caro, em Rio Branco está na faixa de R$ 3,30).
E tem tanta coisa nesse mundo que vale muito mais a pena a gente se preocupar, ou gastar nosso tempo e energia...
Se nesse exato momento, começasse um incêndio em tua casa. E você tivesse menos de 5 minutos para pegar alguma coisa e sair com vida. O que você pegaria?
Devemos parar de nos ver separados em nossos mundinhos. Não é “eu aqui no Acre e os outros lá em Rondônia”. Não é “tu aí em São Paulo, e o índio lá na aldeia no mato”. Somos NÓS vivendo em um mesmo planeta. O que acontece em Rondônia afeta o que acontece no Acre. O que acontece na Amazônia afeta o que acontece no sul do Brasil. O que acontece no sul, afeta o que acontece no nordeste. E o que acontece em qualquer lugar do mundo afeta o que acontece em todo o mundo!

Mais cedo ou mais tarde o Madeira vai baixar, e vai deixar um rastro de sujeira. Resta a nós, eu, você, representantes políticos, limparmos tudo e construir uma nova forma de viver nesse planeta. Antes que a próxima enchente do rio venha e nos leve a todos pra debaixo d’água.


5 de fevereiro de 2014

Na minha terra...

Na minha terra não tem Carvalho, mas tem Samaúma.
Na minha terra não tem Aveleira, mas tem Açaí.
Na minha terra não tem corvo, mas tem urubu e tem anu.
Na minha terra não tem cisne, mas tem garça.

Onde eu nasci não tem tinta azul.
Mas pra se pintar, usamos jenipapo e urucum.
Onde eu nasci não tem zimbro, mas tem breu e priprioca.
Onde eu nasci não faz frio,
Mas quando chove a gente deita na rede e se embala com a canção do vento e da chuva. E se der, ainda come uma tapioca.

Se isso me afasta do Druidismo ou dos Celtas antigos, eu vos digo: pelo contrário. Isso me aproxima deles e me religa ao que tem de mais sagrado: a Natureza.


Mayra (Darona) Ní Brighid.

(Raízes de uma samaúma, foto de Araquem Alcântara).



29 de dezembro de 2013

Conhecendo e honrando os Ancestrais da terra.


“Esta Terra que pisamos, é gente como nós, é nosso irmão. É por isso que o guarani respeita a Terra, que é também um guarani. O guarani não polui a água, pois é o sangue de um karai. Esta Terra tem vida, só que muita gente não sabe. É uma pessoa, tem alma. A mata, por exemplo, quando um guarani precisa cortar uma árvore pede licença, porque sabe que ela é uma pessoa. A Terra é nosso parente, mas está acima de nós. Por isso ensinamos as crianças a respeitarem a Terra, que até hoje se movimenta, só que não percebemos. Quando os parentes morrem, carne e corpo se misturam com a terra. Por isso, temos que respeitar esta terra e este mundo em que a gente vive” (palavras do velho karai, Alexandre Acosta, da Aldeia de Jataity/RS).


''Somos filhos da terra cor de urucum. Dos sons do igarapé e da força do jatobá. Das águas do Araguaia, do Tapajós, do Iguaçu. Somos filhos do sol de Kuaray, da lua de Jaci. E da chuva que semeia o guaraná, a pitanga e a macaxeira. Somos filhos dos mitos. Do uirapuru e seu canto, do vento e do pranto. Guerreiros, fortes, sábios. Somos Ianomâmis, Guaranis, 
Xavantes, Caiabis. E o que somos nunca deixaremos de ser” (Zeli Poa).


Nasci no meio da Amazônia, em Belém-PA, e hoje moro no extremo oeste da região, em Rio Branco-AC. Nunca foi difícil me sentir conectada com essa terra tão sagrada em que caminho... Ouvia desde pequena histórias de visagens, encantados e bichos do fundo. Fascinava-me com esses seres...

Na cidade grande ou no interior (hoje em dia, mais no interior) era comum depois da janta as pessoas se reunirem na frente de suas casas e ficarem conversando até de madrugada sobre assuntos diversos, e claro, não podia faltar as visagens. Histórias de fantasmas de casas antigas, Matintas, Botos, Iaras, Mãe da mata, Mapinguari, Pretinho da bacabeira, Cobra Grande e tantos outros seres que surgiam nessas conversas depois da meia-noite. Histórias de gente que sumia na mata e depois aparecia sabendo um monte de coisas; gente que via mãe d’água sobre os igarapés; gente que era levada por Iara e nunca mais voltava; moça que era encantada pelo boto e até engravidava. Histórias e mais histórias dessa minha terra, da nossa terra, tão sagrada...

Os ancestrais da terra no druidismo são todos aqueles povos que viveram ou ainda vivem na terra em que nascemos e caminhamos, ou seja, são os povos nativos ou indígenas que conhecem as plantas da região e sabem seus poderes, que têm uma larga história de existência e resistência nessa terra. Eles estão aqui há muito mais tempo do que nós e só por isso já merecem nosso respeito e reverência. Os ancestrais da terra também são os seres e espíritos que dão vida à natureza que nos rodeia, os seres e animais das matas, das águas e dos ares. Irmãos de penas, escamas e patas.

Muitas pessoas estão desconectadas com essa terra, não conhecem sua história, sua vegetação, suas águas... Muitas pessoas ainda pensam que os “índios” não existem ou que eles são uns “mortos de fome” brigando por um pedaço de terra. Quanta ignorância, quanta arrogância...

“Quando os povos indígenas reclamam o direito às suas terras imemoriais – e eles reclamam basicamente sempre isto – não é porque tenham sido ou sejam os donos delas. É porque foram, através dos tempos, os seus habitantes imemoriais. Os seus antepassados tinham e eles seguem tendo para com ‘aquela terra’ um envolvimento afetivo e simbólico que escapa à compreensão ocidental de pensamento. No interior da lógica do seu imaginário, eles não querem de volta o que possuíram. Querem resgatar o que são” (BRANDÃO, “Somos as águas puras”, p. 34, 1994).


É certo que muitos druidistas sentem profunda sintonia com as terras célticas, Irlanda, Inglaterra, Escócia, Gales, Galícia... Terras também sagradas, onde viveram nossos ancestrais de alma. Mas não podemos nos esquecer da terra em que nascemos hoje. Não podemos ignorar a força que vem desse solo em que caminhamos. Dos seres que vivem nessas árvores e nesses rios. Das histórias que são contadas pelos antigos...

Eu sinto minha ancestralidade de uma forma difícil de explicar em palavras. Algumas pessoas podem ficar confusas e pensarem que faço uma mistura, um sincretismo[1] em minha prática religiosa, mas não é isso...

Eu sinto que tenho uma ancestralidade profunda, interna, de alma, antiga com os celtas. E ao mesmo tempo tenho uma ancestralidade presente, de agora, de corpo, à flor da pele com os povos nativos amazônicos, e brasileiros em geral. E procuro equilibrar e celebrar essas ancestralidades em minha vivência espiritual. Acredito que nascemos aqui no Brasil por uma razão importante, estamos AQUI, que tal perceber a beleza que há nessa terra e nas culturas tradicionais e locais de sua região e cidade? Tenho plena certeza que há muito a aprender com elas e muito a compartilhar também.

Ao conhecermos e honrarmos essas culturas, esses saberes, além de aprendermos e crescermos espiritualmente, estaremos fortalecendo-os de alguma forma. Nossa mente, nossos pensamentos e energia dispensados de alguma maneira aos ancestrais da terra irão fortalecê-los, em um nível espiritual e consequentemente material. E eles estão precisando de nosso auxílio...


Acredito que uma prática druídica ou reconstrucionista celta seja incompleta sem o conhecimento e a honra à sabedoria e cultura locais, tradicionais. O Druidismo hoje nunca será um reflexo perfeito do passado. E nem deveria ser ou nem deveríamos nos preocupar DEMAIS em tentar torna-lo. Como uma religião baseada na natureza, sabemos que ela muda e se transforma com o passar dos tempos, e é dessa maneira que penso que o druidismo deve caminhar... Fluindo como as águas de um rio e dançando como as brisas do mar.
Eu não nasci nessa vida na Irlanda, terra que amo de paixão! Eu nasci no Brasil, na Amazônia, terra linda, que apesar de maltratada, merece meu respeito e amor. Uma terra mágica, com seus muiraquitãs, samaúmas, encantarias e os segredos das cerâmicas marajoaras. Acho que o problema do Brasil e da Amazônia reside exatamente nisso. Na falta de amor e de cuidado ao olharmos para essa terra. Se a amássemos não haveria tanta corrupção e descaso, pois esses são sinais de posse e egoísmo, o oposto do amor. Vejamos o hino do País de Gales:

“Tenho carinho pela antiga terra de meus pais,
Terra de poetas e cantores, homens famosos de renome;
Os seus bravos guerreiros, grandiosos patriotas,
Deram o seu sangue pela liberdade.

Nação, Nação, Defendo a minha nação.
Enquanto o mar guarda a pura e muito amada região,
Possa a antiga língua perdurar.
Antiga Gales montanhosa, paraíso do Bardo,
Cada vale, cada montanha é bela para mim.
Pelo sentimento patriótico, são delícias os murmúrios
Das suas torrentes e rios para mim.

Se o inimigo subjuga a minha terra sob os seus pés,
A antiga língua galesa está viva como nunca.
A musa não foi calada pela repugnante mão da traição,
Nem a melodiosa harpa do meu país”.[2]

Imagine se nós, brasileiros, tivéssemos todos, um sentimento como esse pela nossa terra? Eu tenho certeza que a realidade de nosso país seria outra...

Talvez tenha divagado um pouco... (rs)

Enfim, para honrar os ancestrais da terra comece conhecendo quais são os povos indígenas que habitaram e habitam sua região, procure informações sobre eles, sua cosmologia, mitologia etc. Descubra se de repente você não tem alguma ascendência indígena (o que não é difícil no Brasil), e aí haverá mais um motivo para você conhecer e honrar seus ancestrais.

(Arte de Alexandre Segrégio)

Ouça os antigos, os mais velhos. Escute as histórias que eles contam, sejam elas histórias de vida ou de seres encantados. Vá no interior de sua cidade (ou talvez nem precise) e conheça os curadores, benzedeiras, rezadeiras, parteiras. Abra sua mente e ouça-os sem preconceito. Veja quanta sabedoria tradicional eles têm, e o quanto você pode aprender com eles.
Valorize o artesanato local, a música local e tradicional, os mestres. Tenha em seu altar um objeto associado a algum povo nativo, ou que faça referência a um que você tenha afinidade. Ou tenha uma parte de sua casa, um canto, uma mesa, uma prateleira, dedicada aos ancestrais da terra. Aos poucos eles farão parte de sua vida e de sua espiritualidade. Com sua energia e dedicação oferecidas a eles, em troca eles lhe oferecerão a sabedoria e os dons que você precisa. E assim a reciprocidade é estabelecida, e a hospitalidade é respeitada.

(Arte de Alexandre Segrégio)






[1] Ora vamos lá?! Diga que cultura ou religião nesse mundo não é sincrética? Mas enfim, essa é uma questão para outro momento...
[2] Fonte: http://nemetonataecina.blogspot.com.br/2013/12/historia-da-lingua-galesa-e-links.html


Cantos do povo Yawanawá para nos inspirar...